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                  <text>REVUE
HISPANIQUE
Rm,til ccmacré d l'it11tle dts l,mg11es, du /i/Nralures el de fbistoir,
des pays mslillaris, catalans tl pt,rt,igais
DIRIGÉ

R.

PAR

FOULCHÉ-DELBOSC
Tome XIV. -

Numéro 45.

NEW YORK
THE HISPANIC SOCIETY OF AMERICA
AUDUBON PARK, WEST 1 56

th

STREET

PARTS
LIBRAIRIE C. KLINCKSIECK,
1906

II, RUE DE

LILLE

��\
'

SOMMAIRE

PAGES

Julio MoJŒIRA. R.

Factos de symaxe do português popular. IV-\'Ill ..

FouLCHÉ-DELBOSC. -

La traduction latine des Copias de Jorge

9

Mrmriquc................................................. ..
Guillermo

ANTOt i. ·.

- Sobre

L'I

tr,1ductor !.ttino dt: bs Ci,p!.rs de JorgL'

Manrique. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

22

TEXTES

Ferran l\'u5;EZ. -- Tr.Kt,tdo Je ami~içia, publi.:ado por A. Bonilla y
San M,1rtin... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
J&gt;oésics attribuées it GONGORA.. • . . . . • . . . . . • . . . . . . • • • • . • . . . • . . • • . .
Contos popuhtrcs portuguczt's. rl'colhidos por Z. Consiglicri P~droso. . .

34
71
1 rS

JBibliotheca hist,anica
Voir à la page 3 de la couverture.

•BIBLIOTECA CEN l"RA!__..,...__...;;u•._A..;.;.;.N...._L._ _ _ __

�TOI .J

~.H A.U

REVUE HISPANIQUE

�REVUE
HISPANIQUE
l&lt;ecuei/ co11sacri à /'it11dt dts /a,l[ties, des liltiraturts (/ dt l'histoire
dts pay.1 casti/la11s, cntalaUJ tl portugais
DIRlGÉ PA.R

R.

F o uLCHÉ- D ELBOSC

TOME XIV
MACO)-;, PROTAT F RÈRES, IMPRIMl!.lJRS.

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NEW YORK
THE HISPANIC SOCIETY OF AMERICA
AuoueoN

PARK ,

W EST r56 th

STREET

PARI
LIBRAIRIE C. KLINCK IECK, n , l{m:

1906

DE LI LLE

�FACTO

DE SYNTAXE

DO PORTUGUÊS POPULAR

IV
A linguagem do povo português construe as oraçôes relativas
de mu modo muito differeote da Iingua litteraria. Esta, como é
sabido, possue os pronomes relativosqt1e~ quem, invariaveis, o(a)
q11al e o plural os (as) quaes e c11jo e quanto corn flcxôes para o
genero e para o numero. De rodas essas forma o português
popular, em rigor, s6 conheceque, empregando tambem algumas
vezes quem, mas quasi s6 quando quem esta com o valor de
aquelle, que, como nos seguintes excmplos: cc quem fizer isso sera
castigado &gt;&gt; ; - cc da-se um premio a q11em fizer isso ,. .
era raro cncontrar no fallar do povo esta forma referida a um
antecedente, como: « o homem a quem eu entrecruei o lino &gt;i.
A forma cujo apparece uma ou outra vêz, todavia usada apenas
por pessoas &lt;le limirada leitura e prerensiosas. A sua con rrucçâo,
porém, afasta-se da que é ensinada pelos grammaticos. Perdeu
completamente o valor possessivo, passando sempre de adjectivoa
substantiva, e ficando a equivaler no pronome que, como na
phrase os homens cujos eu ·vi, em vez de os homens que eu, vi. Quasi
sempre aquella forma se reforça juntando·se-Jhe o antecedentc ou
o demonstrativo este, ou ainda outras palavras, por exemplo: os
homens ettjos homens eu vi ou cujos estes eu vi.
0 romancista Camillo Castello Branco attribue a um prctendente ao cargo de vereador do municipio portuense trechos como
Rmu

bûJltlnÏi•••

XIV.

�2

JULIO

M0REIRA

os seguintes, em que frisa este vicio de construcçâo: &lt;&lt; Trabalbe
V. • com os cartistas, que Barào eu o farei logo que estejam em
cima o meu particubr amigo José Bernardo c o mano Conde,
cujos sào meus intimas, e a rninha filha Baroneza vae tomar cha
corn a condessa de Thomar' »; cc Tens razio, mas lembra-te qut:
mna familia respeitavel como n6s estamos sendo nesta cidade do
Porto, &lt;levemos evitar cscandalos rnjos possam affectar a nossa
seriedade• »; cc Min ha fil ha, se nào quer comratos corn a Felicia,
é porque é honrada de cujo eu muito a louvo 3 )).
Tal construcçào occorre até, de certo pordescuido, ernescritos
de pessoas que devem suppor-se illustradas. Assim no PORTUGAL
ANTIGO E MoD1m.'o, de Pinho Leal, vol. V, pag. 40, o autor
escreveu: « 0 sen officia ( dos meiorinos) se exprimia pela palavra
tenms, que vem de tenemenlum, cuja palavra, na infima latinidade , sionificava
terriloriwn seu destrictus alicu7·us loci ».
iO
Corno acima dissemos, cujodesigna posse, equivalendo portanto a
do quai, dos quaes, de quem, mas em um trecho da linguagem
popular imitada por Gil Vicente, vol. II, pag. 506, apparece com
uma rdaçâo differente da possessiva, a de origem ou proveniencia, que tambem costuma exprimir-se pela preposiçâo de:
Eu sou o mor namorado
Homem, que nunca se achou;
Porem um cxcommungado
Que o diabo excommungou,
Nunca foi tào dcsamado,
A dama cujo nasci,
0 maior pr.uer que sente,
É dizcr-mc mal de mi :
Se vcnho, foge d'alli,
Se me vou, fica contente.

1.

A.CORJA,pag. 13.

z. Jam., pag. 62.
3•

ÎlllD.,

pag.

IJ4.

F.\CTOS

...

DE

Y

'T.\XE

DO

PORTUG

'ÊS POPULAR

3

Cujo, aqui, significa doqual, de quem, e a sua syntaxe neste lugar
resulta da analogiacom outra construcçào, hoje cahida em desuso,
como seria por exemplo a dama cttjo sou, como no exemplo
seguinte, do mesmo escritor, volume citado, pag. 493:
E coin esta concrusâo
Vamo-lo cmpresentar
Porque se devem dar
As cousas a rnjas sào.

Iseo é: Devem-se dar aquelle eujas sào, ou aqutlle t:k quemsào, a
quem pertencem.

*

**
Nas oraçôes relativas em que o relativo deveria ser precedido
de uma preposiçâo, omine-se frequentemente essa preposiçao,
que é depois empregada corn um pronome pessoal, para exprimir
a mesma relaçâo, no meio ou no fim da phrase. Ouvem-se a cada
passo construcçôes como as seguintes : « 0 homem que eu fui com
elle, em lugar de&lt;&lt; o homem com quem eu fui »; - « este é o vestido que eu hei de andar agora sempre com elle » em vez de « o
vestido com que eu hei de andar » ; - « o navio que ella veio
nelle &gt;&gt; em vez de c&lt; o navio em que ella veio »; - « as pessoas
que elle tem confiança nellas », por « as pessoas em quem elle tem
confiança » ; - « o rueoino que eu lhe dei um livro &gt;&gt;, em lugar de
cc o menimo a quem eu dei um hvro ».
Neste ultimo exemplo desappareceu a preposiçào, porque a
relaçào que ella exprimia esta representada pelo caso do pronorne.
Do AUTO DA AVE-MARIA, de Antonio Prestes, pag. 28 da ediçào
de I 87 I, transcrevemos o seguinte exemplo:
Sempre ncstos choupos ha
Um rato que o qucijo é ,l'elle.

�JULIO M0REIRA

4

FACT0S DE SYNTAXE DO PORTUGUÊS POPULAR

Observaremos que esta construcçào da nossa linguagem popular é a construcçào regular da lingua arabe. Se tivessemos de tradu~ir para este idioma a phrase: cc o homem de quem nos fugimos »,
sena necessario dar-lhe a ordem seguinte : o homem que nos fugimos d'elle.
Nào queremos de maneira alguma dizer que este modo de formar as oraçôes relativas no arabe, lingua que se fallou no nosso
pais durante seculos, fosse a origem da construcçào popular do
português, pois concebe-se sem difficuldade que independentemente d'essa influencia a rigorosa precisào &lt;las proposiçôes relativas se que brasse por uma tendencia para a simplificaçâo e generalizaçào, tendencia que resultaria de ser muito mais frequente o
emprego do pronome que como sujeito e como complemento
directe, isto é, nâo precedido de preposiçào. E para fixar essa construcçao concorreria ainda a circunstancia de ser mais emphatica do que :1 litteraria. De resto o exemple das linguas semiticas
mostra que ha no espirito uma disposiçào pira facilmente a acceitar. Compare-se tambem a syntaxe de oraçôes relativas em inglês
como as seguintes: the house chat I live in, a place wbich we hœue
long heard and read of; - this is a thing I cannot accozmt for
1 •

**
Pratica semelhante com o pronome quem e o possessivo seu
encontra-se em Gil Vicente, vol. I, pag. 109:
Justo é que imagine eu,
E que estê muito turbada :
Querer quem o mundo he seu,
Sem merecimento meu
Entrar em minha morada.

Veja-se o que dizemos a este respeito na
GLESA, 5a ediçao, § 288, zc.

equivale a aquelle que o mzmdo é seu ou
aquelle que o mundo é d'elle, e esta portante em vez de aquelle de
que ou de quem o mundo é.
ii

*

**

Os adverbios relatives onde, aonde e donde substituem muitas
vezes nestos casos o pronome relative, sem terem de exprimir
circunstancia de logar, e referindo-se mais ao sentido de uma
oraçào do que a uma determinada palavra. De mna carta vamos
transcrever um trecho em que occorrem exemples do que affirmamos: cc Parteçipo a V. que onte de tarde para aqui esteve
mna treboada junta com uma tempestade de berito aonde meteu
um furacâo de bento pela emxertia de bastardo e depois foi a
quinta aonde deitou a bidraça de cima da porta do armazem
grande toda inteira pela sala adeante ficou apenas tres bidros
inteiros e as outras estiverâo tambem a suseder-lhe o mesmo onde
( corn o que, em virtude do que) a M. ficou cuaijo morta. &gt;&gt;
De textos antigos citaremos o seguinte passo &lt;las CANTIGAS
DE MARIA:
et dentro no seu corpo cuydaua e creya
que tragia coobra do11de (= do que) nos espantamos.

*

1.

« Quem o mundo é seu

5

GRAMMATICA DA LINGUA IN-

e um trecho de um fragmente da DEMA!i!DA DO SANTO GRAAL
publicado pelo Dr. Otto Klob na REVISTA LosITANA, vol. VI,
pag. 340: « E rei Arturo er fez tam bern aquel dia, que todolos
seus filharom en fazanha, e nunca mais cansava de ferir despada,
unde Lucan que estava preto del e que via as maravilhas que fazia,
dise a Giflet. »

*

**
Os relativos o (a) qual, os(as) quaes e quanto (a, os, as) nào sào
empregadas na linguagem popular, que so usa aquellas formas
como pronomes interrogativos.

�6

PACTOS DE SYNTAXE DO PORTUGUÊS POPULAR

JULIO MOREIRA

7

VI
V

E' frequente o emprego da combinaçâo ambas daus (dois), e
ambas os dous (dois) (emespanhol ambosa dos), comono exemplo
seguinte, extrahido do MONGE DE ÛSTER, de Herculano, vol. I,
pag. 99 da 6• ediçào: (( 0 certo é que ambos os dous manges
caminhavam juntos )&gt;. Mas na linguagem popular ha ainda ambas
e dous, ambos a daus e amlws de dous. Esta ultima locucao vem
jade longe coma se vê pelas seguintes exemplos :
·
N6s viemos praticando

Ambos de dous.
(AUTOS de Antonio Prestes, pag. 153
da ediçao de 1871.)

D' ambos de dom a fronte coroada
Ramos nao conhecidos e hervas tinha.

(Lus1ADAS, IV, 72.)

Em Camillo, CoRJA, pag. 4 5, encomrase este passo : « Quebradas tivesse eu as pernas ambas de duas, q uando casei com este
rnoiuante. &gt;&gt;
Em cerros logares do paîs occorre ainda a expressao amas par
ambos, coma amas dous e amos de dous.

*
**
Em uma comedia intitulada IsmoRo o VAQUEIRO de Joaquim
Augusto d'Oliveira, em que se imita o fallar dos saloios, acha-se
tambem a locuçao todosdais (cfr. o francês tous lt.s deux):
É por ella que largando
Minhas vacas e rnê bois,
Ajoelho e peço a Deus
Que nos una a to.dos dois..

As expressàes que designam numeros fracciouarios sao muito
limitadas na linguagem popular. Quasi s6 se ernpregam fracçàes
que o denominador tem apenas mais uma unidade do que o
numerador, mas sem se usarem os nmùeraes ordinaes, que sao
substituidos pelo substantivo partes. Assim, diz-se duas partes,
tres partes, etc., em lugar de dois terças, tresquartos, quatr_o quintos.
Esta pratica vetn ja do latim, que dizia eguarmente : duae par'"
tes agri,
2/ 3 do campo; - t-res par/:es = 3/4, etc. A lingua
popular conservou-a sem alteraçâo algurna.
Em virtude d'este uso, para indicar as differentes partes de um
todo ou de um mixto diz-se tambem, por exemplo : tres partes
de vinho e urna parte de agua, isto é, 3/4 de vînho e r/4 de
agua.
Outras fracçàes como-tres qttintos, cinco setimos, sete 1Wnos, etc.,
nâo se encontrarâo no fallar do povo.

=

VII
Os numeraes proporcionaes duplo, tripla, quadrupla, etc., nâo
pertencem alinguagem popular, que suppre a falta do primeiro e do
segundo empregando as vezes as palavras dobro e h'esdobro, mas
p.referîndo usar as expressàes dois tantos, tres tantOJ, e para os outras
numeraes proporcionaes -qu.atro tantos, cinca tantas, etc.
Em Gil Vicente acham-se até locuç5es coma sete tanto e dez.
tanto, estando tanto no singular, de forma que sete tanto coma
que estâ abreviadamente por sete vezes tanto.
Olhae, flores, nao me espanto
Que me digaes sete tanto.
(Vol. I, 267 .)
Oh! e tu gabas-te e fazes-te santo ?
Juro-te, amigo, que hypocrita és,
Torna-te monge, descalça esses pés,
E seras fino nessa arte dez. /anto.

(IBID., pag. 513.)

�...
8

JULIO M0REIRA

.

VIII
Os numeraes distributivos do latim desappareceram no português ( como em geral nas linguas romanicas ), mas nâo sem que
ficassem vestigios d'elles. Perdendo o valor e o emprego de adjectivos numeraes, transformaram-se quasi sempre em substantivos,
como novena, dez.ena, centena, etc . .
De singulos ficou-nos senhos, que se usou muito no português
archaico e ainda posteriormente. Mencionaremos um exemplo de
Gil Vicente, II, 412:
E irâo suas criadas
N'hum !agar d'azeite todas
Sem crenchas ', descabelladas,
Como selvagens pasmadas
De tâo altissimas vodas.
E sahirâo as janellas
Com senhas tochas de palha
Debrùadas amarellas,
Se nâo olharem par ellas
Nâo lhes dara nemigalha.

0 substantive terno, resultante de um destributivo latîno,
usa-se geralmente na significaçào de grupo ou conjuncto de tres
pessoas ou coisas; mas na linguagem popular de Tras-os-Montes
tem ainda o sentido de talhàes, glebas. De uma carta reproduziremos este trecho : « Nâo întendo como possa fazer a plentaçâo
como V. quer. Aqui ninguem planta em ternos separados, é tudo
junto branco corn tinto e outras especes, porque as sementes
vem sempre calabreadas. »
Observaremos que naquella regiâo se chama sementes aos gar-

LA TRADUCTION LATINE
DES

COPLAS DE JORGE MANRIQUE

L'existence, à la bibliothèque de l'Escurial, d'une traduction latine des
célèbres Copias de Jorge Manrique, a été signalée par Amador de los Rios,
Gallardo, Menéndez y Pelayo. Malgré cette notoriété, ce texte n'a pas encore
trouvé d'éditeur. Je répare cet oubli en imprimant l'œuvre si remarquable d'un
latiniste jusqu'ici inconnu et en reproduisant en fac-similé la relinre du précieux manuscrit qui fut offert en 1540 au futur Philippe II.

R. FouLCHÉ-DELBosc.

Hyspana Georgij Manrrici
CARMINA, qme in Latinum
carmen nuperrime conuersa seremss1mo
Hyspaniarum
principi
PHILIPPO
dedicata sunt.

fos da enxertia.
Julio MoREIRA.
Cre11cbas significa tra11ças de cabello; representa um deminutivo latino crinicula, de crinis. De;cabelladas equivale aqui a desgrenhadas; tem, pois, aproxima damente o sentido de sem crenchas. Nesta accepçâo nâo occorre aindanos diccionarios.
I.

I
Euigilet stertens animus, tenebrisque relictis
Me1is resipiscat hebes, alto experrecta sopore,
Contemplata quidem vita hrec ut prreterit instans,

�ro

LA TRAbUCTION LA TINE

Vt tacite. obrepit mors, quam cita gaudia migrent,
Vtque recordanti sint urgens causa doloris,
Vt melins semper quod prreterit esse putemus.

DES COPLAS DE JORGE MANRIQUE

Vt sine dispendijs prauisque erroribus vllis
Peruerriamus eo ; nati proficiscimur illuc,
Pergimus at nitre spacijs, accedimus autem
Cum nos vita finit, cum morte quiescimus ipsa.

II
Cernimus isse breui q uoniam prresentia puncto,
Si bene censemus, iam pneterijsse futurum,
Exhaustumque sirnul prorsum reputabimus esse.
Nemo sui oblitus credat diuturna per reuum
Esse futura magis quam qure iam uiderat ante,
Omnia quandoq uidem sic ire humana necesse est.

III
In mortem properat mortale hoc viuere nostrum,
Non secus ac properant labentia flumina in altum;
Illuc regna quidem tendunt abolenda potentum,
Flumina magna, sed hue mediocria, denique parua,
Illuc ingressi latitant discrimine nullo
Qui victum manibus qu.:erunt, qui et diuite gaza.

IIII
Non ego falsorum mihi numina vana deorum,
Laurigeri ut uates, oratoresque celebres
Inuoco; pulchra sino figmenta poetica eorum,
Nanque venena fauis insu nt; sed torditus ilii
Vni me credo, tantmn illius inuoco numen
Quod non nouerunt homines, dum uenit ad ipsos.
V
Hac iter est aHam in vitam, lreti retheris vrbem ;
T ramite sed recto uigilan tius expedi t ire,

VI
Si modo abusus abest, humana hrec uita probatur,
Vtpote qure ad uitam uenturam rite parandam
Sit data, credulitas ut nos uera admonet ipsa.
Filius ille Dei qui et nos inferret olympo,
Inter nos nasci descendit ab rethere summo,
Hac uicturus humo, vitali ubi lumine cassus.

VII
Reddere si faciem pulchram possetnus, ut ipsam
Possumus egregie speciosam reddere mentem,
(Namque fauente Deo quis nos id passe negabit ?)
Ouam viuax, quam prompta eadem solertia nabis
Semper in ancilla decoranda nocte dieque
Esset, hera incornpta captiuœ more relicta !

VTil
Cernere quando licet mortales, cernite mente
Qure gressu et cursu sequimu.r, quam vilia prorsum
Sint, q uippe ante diern delusi a!1}ittimus illa :
Partim tempus edit, partirn violentia casus,
Pars etiam illorurn natura ac mole suapte
Deficit excelsam fortunam, pressa ruitque.

II

�12

LA TRADUCTION LA TINE

IX
Peruenit ut senium, q ualis (rogo) permanet ille,
Ille nitor pulcher faciei, grata cutisque,
Sanguinis ille color diffusus, candor amœnus ?
Dexteritas, vires, velocia rnembra iuuentre,
Omnia su □ t pœnre no bis, vbi lreta iuuentus
Peruenit in senij sperata suburbia nostri.

X
Gothornm sanguis, genus, augustissima quondam
Nobilitas, summi qu::e nacta est culmina regni,
Quot qui bus atque modis hoc obliterantur in orbe!
Pars quoniam vilis, sordens, abiecta putatur ;
Pars autem, nimia quia paupertate coacta est,
Indignis alitur munijs, hoc degener reuo.

XI
Qure nos diuitire subito fastusque relinquunt,
Nulla (quis dubitet?) stabilita sede fruuntur,
Inconstantis herre cum sint; ea nempe caducre
Sunt bona fortun.e celeri vertioine fessa·
b
'
Nam rota nunquam eadem, nunquam rota firma in eodem
Siue bonos prauosue beet, seu pauperet urgens.

XII
Sed fac vt hrec hominem comitentur adusque sepulchrum;
Non tamen incautos ideo nos fallere debent ·
Euanescit enim vita hrec, ut somnia uana '
Ac ueluti siren qua nos, humana voluptas,

DES COPLAS DE JORGE MANRIQUE

Decipit illecebris, iamiam peritura fatiscit;
At uolupi uit::e tormenta ::eterna parantur .

XIII
Sunt uitre anxiferre solatia dulcia nostrre
Improuisi equites campum procurrere missi;
Mors uero insidi::e latebris inopina locatre
In quas incidimus ; nos nostra haud damna uidentes
Currimus incauti propere, neque sistimus usque,
Postquam redire dolis frustra conamur apertis.

XIIII
Namque Monarcharum legimus quos ante fuisse
Hystorijs priscis, aduersis casi:bus actre
Fortunre pessumque dat::e de alta arce fuerunt;
Nil etenim Papre, prrelati ipsique monarch::e
Arcis habent tristi non expugnabile morti,
In quos creca ruens pecudum pastoribus requat.

XV
Nunc Troes misses faciamus, prospera quorum
luxta ignota iacent oculis ac tristia nostris,
Lectaque in historijs mittamus facta Quiritum;
Sit curare nephas quod s.ecula prisca tulerunt.
Nunc modo ad hesternum venio, vestigia cuius
Vt priscam deleuit edax obliuio vitam,

XVI
Quo tandem noster magnus Rex ille Ioannes?
Et Regum geniti post prirnum Tarraco vestri ?

13

�LA TRADUCTION LA TINE

Quotque tulere proci dari ? spectacula ? equestrns
Concursus? sa!uis simula'4,que pnelia gyris?
Plumatre uestes? et ephîppia? &amp; alta chimera?
Instar delyrij fuerunt, pratique virentis.

XVII
Quo illustres nymphre queis regia claruit aula?
Quo nitidre uestes ? velamina? arornata? gemmre?
Flammaque amantis edax, flagrantibus ignibus ardens?
Metrificandi ardor? Musœ concordia discors
Instrumentalis ? saltatio nobilis illa?
Impositoque aura vestes gemmisque coruscre?

XVIII
Jam uero Enrricus heres Rex ille Ioannis
Quid (rogo) non poterat? quam, quam indulgentibus ipsi
Muneribus Fortuna bifrons se prrebuit olim!
Post eadem (infandum dictu) quam diriter eidem
Exhibuit se hostem ! cui cum prius esset arnica,
Quam iguere breui, dederat qure munera Regi !

XIX
Munifici Regis quonam illa ingentia clona?
Aedificata ab eoque aurata palatia luxu ?
Adfabre argentum crelatum ? gaza superba ?
Tot phalerre? tot egui? fastusque ac pompa suorum ?
Quonam abiere, rogo ? quonam nuncibimus illa
Quresitum ? Veluti ros prati absorpta fuerunt.

DES COPLAS DE JORGE MANRIQUE

XX
Pr~terea infantem qui, fratre superstite, dictus
Successor fuerat, quam curia clara sequuta est,
Quamque frequens Princeps. Sed quum mortalis hic esset,
Fornaci improuisa sure mors intulit ipsum.
Sed tu, o judicium diuini numinis, vndas
Insuper induxti, quum plus flagrauerat ignis :

XXI
Iam uero stabilem comitem pariterque magistrqm
Acceptum prre alijs Regi, quem nouimus ipsi,
Vidimus et truncum, quid multa? cruore fluentem.
Quid fuit huic tandem congestum aurum, oppida, pagi,
Imperium in multos? quid nam nisi luctus acerbus
Ilia relinquenti fuit atque molestia magna ?

XXII
Iainque duo fratres alij sublimia nacti,
Sorte rnagisterij regali &amp; more beati,
Subiecere sibi primates atque minores:
Prosperitas tam euecta tamen sublimiter illa,
Quid? nisi clara fuit lux qure, dum lietior ardens
Splendicat atque quatit radios, extincta repente est.

XXIII
Torque Duces, tot Marchiones, Comitesgue virosque
Eximios, oculis quos his tarn uidimus auctos,
Die ubi detrudis? quo mors traducis amara.?

•

�16

LA TRADUCTION LATINE

DES COPLAS DE JORGE MANRIQUE

Die ubi prreterea qure fortia facta patrarunt
Militire atque togre, sane cum dira superbis
Exigis ac deles hree talia mole menti?

XXIIII

.

Quid numerosa manus tandem ? quid bellica signa
Contulerint ? aquilre., vexilla minora? quid arces
Quas uix expugnare queas? quid mœnia? vallum?
Prresidiumque antemuralis? lata quid altae
Irremeabilitas fossre ? quid talia ? quot sunt ?
Cum tu irata uenis, transfigis cuspide cuncta h:ec.

XXV
Est tuus ingressus luctu, sed semper amarus
Exitus, ingratus, mediumque labore repletum,
Et quibus indulges, pœna est, diuturnius reuum.
Prospera uix nacti morimur, sudore parantur,
Dasque ea mortali, sed cursu aduersa latenti
Adproperant durantque magis quam prospera uitre.

XXVI
Quandoquidem nos, munde, necas falsissime, certe
Quam tribuis vitam reuera vita fuisset,
At sic nos uexas vt nil optatius ipsis
Sitque minus mœstum quam creca profectio uitre,
Vtpote qure tam plena malis, tam septa dolore,
Tarn deserta bonis &amp; tam dulcedine cassa est.

XXVII
Quid, Roderice; canam tua, nunc Manrrice magister,
Bellica gesta, tuos qui charus vbique fuisti
Omnibus ob mores sanctos, qui dulce honorum
Prresidium, virtute simul qui &amp; nomine clarus ?
Quid coner tua facta parens efferre canendo,
Quum pateat cunctis tua qualia facta fuerunt?

XXVIII
Qualis erat dominus famulis et amicus amicis
Et consanguineis laus et decus, hostibus hostis,
Fortibus atque viris doctor fortissimus idem,
Consiliumque sophis, sal erat lepido ore facetis !
Quamque benignus erat subiectis ! quamque superbis !
Denique terribilis laniator more leonis ! ·

XXIX
Augustus Cesar fortuna, Julius alter
Cesar in euentu bellandique arte sagaci,
Nam conferre licet mediocria grandibus actis ;
Scipio sed virtute animi, ferus Annibal astu,
Traianus probitate, Titus donando, sed Hector
Robore, ut Attilius promissis stare paratus.

XXX
Pectore clementi pius hic Antonius alter
Et uultu Fabius constanti, Adrianus amici
Viribus eloquij, Theodosius alter ad omnes
Rrottt. h,'spa.111·91tt..

XJV.

17

�18

LA TRADUCTION LA TINE

Dum condescend1t, Macedo Aureliusque rigore
Et disciplina Martis, pietate fideque
Constantinus erat patrireque Camillus amore.

DES COPLAS DE JORGE MANRIQUE

Militis atque ducis (pro tempore) munerefonctus.
Huius gesta sua si gratificata fuerunt
Legitimo Regi, sit, Portugalia, testis
Rex mus atque eius qui in nostris signa secuti.

XXXI
Haud reliquos fecit thesauros optimus hic dux,
Diuit_ias ne habuit, non illi copia ridens
Crelati argenti fuit, at Mahumetibus impijs
Oppida cum castris cœpit, bellum intulit redeno,
Et strages hominum multorum &amp; victor equorum :
Sic sibi iure datos census populosque parauit.

XXXII
1am decora alta mens qualem se gesserat olim,
Quum fere desererent omnes heroa celebrem,
Fratribus ac fid.is stetit inconcussus alumnis ?
Post uero a::gregie tot facta celebria, hello
Hoc quod iam gessit, quas pacis conditiones
Accepit, populis a Rege pluribus auctus.

XXXIII
Historias ueteres juuenis quas pinxerat hasce
Cuspide non calamo, renouare recentibus idem
Longœuus potuit prreclaris atque trophreis.
Vt meritis plenus, beneque actis pluribus annis
Tanta animi ei virtus fuit &amp; solertia mentis,
Ense suo clarurn ru bri ensis adeptus honore est.

XXXIID
Oppida chara inuenit qure capta tyrannis,
Fortibus hic prrelijs atque obsidione recepit;

XXXV
Postquam in discrimen toties 'caput obtulit idem
Veridica pro lege Dei, diademaque Regis
Extulit obsequijs claris bellique togreque,
Post tot gesta ducis qure uix numerare queamus,
Ocannam tandem, Roderici mœnia, uenit
Pulsatum mors iussa fores, sic comit r urgens.

XXXVI
Sic adfata quidem Mors est: &lt;&lt; Eques inclyte, mu11dum
Falso adridéntem uultu iam linquere tempus;
Nunc duras animi chalybes tua Mania virtus
Hoc in agone nitens animose prrestet oportet,
Et fam.e studio suetum non parcere vice
Te recreet uirtus qua hrec nunc discrimina vincas.

XXXVII
« Nec tibi terribilis sit nunc conflictus hic instans

Formidolosus; siquidem vel Nestoris annis
Est diuturna magis multo tibi fama superstes;
Nam si reterna quidem 00·11 est qu.e constat honore
Sed nec uera, tamen rnulto prrestantior extat
Quaro peritura cito qua corpora uestra· fruuntur.

19

�20

LA. TRADUCTION LA TINE

DES COPLAS DE JORGE MANRIQUE

XXXVIII

Et qui tam rigidos cruciatus ipse tulisti
Haudque reluctanter, non ut mea facta merentur,
Verum ignosce mihi, tua qure est cle1;11entia summa.

« Non fastu ac luxu vita illa reterna paratur,
Sed neque delicijs vitre properantis in orcum;
Iugibus at precibus, lachrymisque perennibus illa
Relligione parat clerus, monachatus, beremus,
Sed celebres equites· illam per mille la bores,
Aduersusque parant per mille pericula mauros.

XLII
Mente igitur tali tamq ue alta praeditus, inter
Vxorem, gratos, fratres interque ministros,
- Omnibus illaesis morienti sensibus, altum
Obtulit illi inimum dederat qui cœlitus, is nunc
Addat cum cœlo gaudijsque repleat al mis;
Nempe sui memores reficit nos mortuus heros.

XXXIX
« At quoniam hostilis ac tantum sanguinis impij
Tum gladio tum consilio, vir clare, fudisti,
Expectanda tuo qure hic prremia Marte parasti
Sunt tibi; qua fretus nunc credulitate fidéque
Quœ tibi magna quidem, migra hinc spe plenus adeptum
Iri te egregiam vitam qure te manet altis.

XL
Amplius haud opus est uerbîs consumere tempus
Hac miseni in vita; supplex mea nunc ut oportet
Assentitur enim diuinœ ac prona voluntas,
Amplectorque meam mortem candore lubenti;
Est et enim stultum, cum vult Deus ut moriamur,
Veterius uitœ cupidos nos viuere velle.
&lt;&lt;

XLI
« 0 Tu, qui formam vulgarem ob crimina nostra
Et puniti hominis subijsti inamabile nomen,
Humano includi dignatus corpore numen,

•
•

Finis
latinre
translationis

21

&gt;:

�EL TRADUCTOR LATINO DE LAS COPLJ.S

SOBRE EL TRADUCTOR LATINO
DE LAS

COPLAS DE JORGE MANRIQUE

23

eruditos é investigadores, publidndola para beneficio de todos.
La diligencia y laboriosidad de M. Foulché-Delbosc regala ahora
los hispanistas con la publicaci6n esmerada de ella, y gracias
su amabilidad voy yo contribuir aqui con algunas notas recogidas sobre el probable traductor latino de las celebérrimas Coplas

a

a

a

de Jorge Manrique.

*

**
Amador de los Rios en su Historia critica de la Litera tura espanola,
toma VII, pa.g. r2r, en la nota 1, da cuenta por primera vez de
la traducci6n latina de las Copias de Jorge Manrique que posee la
Real Biblioteca del Escorial. No se ba de entender que hasta entonces se ignorase la existencia de clicha traducci6n, puesto que
aparece registrada en los catalogos anteriores de la Biblioteca que
aun se conservan, sino en el senti do de que no se habia publicado
la noticia en las historias literarias, ni en las monografias referentes las Copias de Manrique : ésta ha sido la causa de que
hayan sida muy pocos los que conocieron la traducci6n. Pero
desde entonces se puede asegurar que cuantos se han dedicado al
estudio é investigaci6n de la literatura espaîiola han conoddo,
6 han podido conocer su exisrencia, y algunos, muy pocos, la
han examinado par si mismos. Gallardo, en el tomo tercera,
col. 619, del Ensayo de una Bibliote.:a espa11,0la de Libros raros y
curiosos &lt;lice : « La traducci6n es franca, valiente y · nerviosa. »
Menéndez y Pelayo en el toma de su preciosfsima Antologia, en
que de un modo magistral y con provechosa amplitud habla de
Jorge Manrique y de su tiempo, pondera también la bondad de
esta traduccion latina.
Dado, pues, el tiempo transcurrido desde que la noticia de la
traducci6n figura en la historia de la Literatura espanola, y conociendo el parecer de los criticos mas eminentes sobre su verdadero
valor, es inexplicable que no se hayan fijado antes en ella los

a

y

Hace ya b.1stante tiempo, al hacer la papeleta bibliografica del
manuscrito de esta traducci6n latina, que me pareci6 muy
extraii.o que, siendo tan notable por una parte y por otra de
época relativamente moderna, fuese el nombre del traductor desconocido de todos. A fin de completar en lo posible la papeleta
realicé algunas investigaciones, cuyo resulta _o voy a exponer
la consideracién y juicio de los lectores de la Revue Hispanique.
En Die Handschnjtenschenkung Philipp II an den Escorial vom
]ahre r576, publicado en 1903 por Rudolf Beer, esperaba yo
que se encontrase registrada, puesto que con toda seguridad
habia pertenecido
la famosa libreria de Felipe IL Y en la
pag. LXVII de esta obra sè lee : c&lt; In octavo. N° I J 5, r. Carmina
Georgi Manrrici translata de hispano latine »; y, después de copiar
las palabras de Amador de los Rios, aîiade Beer el siguiente
titulo: c&lt; Johannis Hu,riado de Mendoz.a libellm carmine latino com -

a

a

positus, ea continens carmina, quae vulgari sennone las copias de
don Jorge Manrique dicuntur. tnembr. VI. k. 3. » Este ultimo
titulo esta copiado del indice mas antiguo de la Biblioteca del
Escorial que se conserva, y que hoy lleva Ja signatura H. I. 5 •
Dos veces aparece registrado en él el manuscrito de la tra.ducci6n
latin a : fol. XL, v 0 : Joann . Hurtado de Mendoça. Libellus carmine

latino compositus ea continens Carmina quae 7Jttlgari sermone, Las
Copias de Don George Manrique dicuntur. numbr. VI. k. J., y en
el fol. 57 v. : Jorge Manrrique. - las mismas (las Coplas) en
romance y latin VI. k. J. N6tese que la ùlt;ma signatura de los

�GUILLERMO ANTOLÎN

EL TRADUCTOR LATINO DE LAS COPLAS

dos titulos es la misma, y por tanto que ambos se refieren al
mismo manuscrito. Si las aotiguas signatur.is se conservasen en
él, entonces no podia caber duda de que el traductor era Juan
Hurtado de Mendoza, pero hoy no las tiene, y es posible que
desaparecieran con la hoja que le han cortado. Gallardo supone
que en &lt;licha hoja se encontraria el nombre del traductor; no
niego la posibilidad, pero, a mi juicio, debia con mas raz6n
encontrarse al pie de la dedicatoria que va en el reverso de las
tapas. El titulo que ll~va el manuscrito es : Hyspana Georgii

(Alcali, Juan Brocar, r50) se encuentraen latin larespuesta de
Juan Hurtado de Mendoza a dos poesias latinas de Dona Catalina de Paz. En la Publica Laetitia, qua Dominus Joannes Marlinus

Manrrici Carmina, quée in Latinum carmen nuperrime conuersa
serenissimo Hyspaniarum principi Philippa dedicata sunt.
Acerca del valor y autoridad de las anteriores citas, tomadas
del Catalogo primitivo, he de advenir, que si bien una de ellas
- tiene membr. puede no obstante admitirse, a pesar de estar en
pape! el manuscrito, porque sus dos primeras hojas fueron de
vitela, y en este caso es explicable la equivocaci6n; que no transcribe los titu!os literalmente, sino tan solo de concepto ; y, por
ültimo, que varias ·veces constan en él los nombres de los glosistas y autores, aunque no se encuentran en los manuscritos. Son
averiguacioues 6 conocimiento del autor del Catalogo.
No ha existido otra traducci6n latina de las Coplas de Jorge
Manrique en esta Biblioteca del Escorial, ni tampoco se consigna
en la historia de la Literatura espafiola, y por tanto, a mi juicio,
se puede concluir, no en absoluto, pero con suficiente y fundada
probabilidad que el traductor fué Juan Hurtado de Mendoza.

Silicaeus Archiepiscopus Tolelanw ab Schola Cornplutensi susceptus
est ... ( 1 546) figuran también varias poesias latinas suyas. En la
Biblioteca Nacional de Madrid existe un epitafio latino que hizo
S. Isidro y escudo de armas que le apropi6. Ademas en el
manuscrito e. II. I 5 de esta Biblioteca Escurialense he encontrado una larga poesia latina, escrita de mano de Ambrosio de
Morales, y dirigida por Juan Hurtado de Mendoza a su maestro
Juan Petreyo, prnfesor de ret6rica en Alcali. Mas adelante pueden
verla los lectores juntamente con otras dos poesias inéditas castellanas. Tenemos, pues, que en la historia literariade Juan Hurtado de
Mendoza apareceo varias poesias latinas, lo que, a mi entender,
confirma la suposici6n de que él sea el traductor latino de las
Copias de Jorge Manrique.
Las dos poesias castellanas que se publican se encuentran en un
cuaderno de letra de ültimos del siglo xvm, que boy forma
parte del manuscrito H-I-9, reunido y eocuadernado en tiempo
del bibliotecario D. Félix Rozanski. He de advertir que en el
mismo cuaderno y de la misma letra existe una copia de la trad ucci6n latina de las Coplas. Es un detalle cuyo valor pueden
apreciar los lectores.
La copia esta hecha del manuscrito d. IV. 5. Voy a transcribir unos versos que no tiene este, y tal vez se encontrarian en la
hoja que ha desaparecido.

a

*

**
He hecho también investigaciones acerca de las obras que
escribi6 Juan Hurtado de Mendoza, y prescindiendo de las castellanas, que no pueden servir para formular una raz6n, apuntaré
las que he encontrado en latin, y creo que todavia permanecen
inéditas y ocultas bastantes de sus poesias. En los preliminares
del Buen plazer lrobado en trece discantes de quarta rima Castellana ...

Inclytus Hesperit contingat sidera Princeps
Hesperif sidus nostre prospectet agrestes
Contingat nostr~ radians penetralia Musf
Sydera prospecter penetralia nostra lucratus
Princeps agrestes Mus~ lucratus amores.

Contiene ademas dicho cuaderno otras traducciones latinas
que pudieran ser también del mismo Juan Hurtado de_Mendoza.

�GUILLERMO ANTOLlli

*

**
Merecia la pena de hacer una extensa biografia del poeta Juan
Hurtado de Mendoza, mas ni dispongo de tiempo, ni tengo a.
mano los materiales. En el Archivo municipal de Madrid, de
donde fué Regidor, y principalmente en el de la Casa de Mendoza se han de conservar papeles interesantîsirnos de su vida.
Tal vez en alguno_de ellos conste ciertamente que es el traductor
latino de las Coplas de Jorge Manrique. Y o voy â excractar aqui
las pocas noticias que de él trae Alvarez y Baena en el tomo
tercero, pag. ro8, de los H-ijos de Madrid : cc D. Juan Hurtado de
Mendoza, tercer Seiior del Fresno de Torote, fué hijo de D. Juan
Hurtado de Mendoza y de D• Maria de Condelrnnrio. En Madrid
posey6 la antigua casa de Mendoza, perteneciente a la parroquia
de San Ginés y situada en la calle de Bordadores. Dicha casa
desapareci6 cuando los Padres de San Felipe Neri construyeron
a!H su convento. Pué Regidor de la Villa de Màdrid, que le
nombr6 por su Procurador de Cortes, para las que el Emperador
Carlos V celebr6 en Valladolid, en el afio r554; ·y concluidas,
mand6le el Cesar pidiese merced y solo pidiô concediera S. M. al
escudo de armas de su patria la Corona Imperia!, que usaba en
las Reales, como lo hizo. Cas6 con D• Nufla de Bozmediano,
hija de D. Juan Bozmediano, secretario del Ernperndor, y de
D• Juana de Barras; y tuvo en ella â D. Juan que sucedi6 en la
Casa, a D. Fernando, escritor, y a D• _Maria, muger de D. G~spar Ramirez de Vargas. Su aplicaci6n a todo género de letras y
esmdios fué tanta, que era llamado el- Fil6sojo. Esta preciosa cualidad hizo que le tratasen los hombres sabios, y le remitiesen sus
obras, coma Eugenio de Salazar hizo con la graciosa carta que
escribi6 pintando la vida de los Catarriberas, y que Marineo
Siculo hiciese de él honrosa menci6n con estas palabras : « Cuyas
obras elegàntemente escritas leimos, aunque hasta ahora no son
publicadas. »

EL TRADUCTOR LATINO DE LXS COPLAS

27

Su bibliografîa ademas de lo indicado anteriormente es
1. Vida de San Isidro.
2. Un sooeto al lector en los prelirninares de los Morales de
Plutarco traduz.idos de lengua Griega en Castellana ... Alcali, Juan
Brocar, 1548.
3. Un soneto en los preliminares de El Monw. La moral emuy
graciosa historia del Momo : Compuesta en latin por el docto
varan Le6n Baptista Florentin. Trasladada en Castellano por
Agustin de Almazan. Alcala, Juan de Mey Flandro, 1553.
Guillermo ANTOLiN) O. S. A.
De la Biblioteca del Escorial.

APtNDICE

POESÎAS INÉDIT AS DE
D. JUAN HURTADO DE MENDOZA
Magistro loanni Petreio Complutensis Licii Rhetorices professori, Poetae
singulari, suu.s discipulus Ioannes Mendocius salutem plurimam dicit.
Stultus.ego, Petreie, tuo qui carmine jamjarn
Persuadebar homo, diuas me bac ualle morari
Raniferi nostri gusarapi ferique Torotis
Ridiculum, quum emersa caput, qu9 obtundere ripas
Rana solet nostras, mihi sese objecit eunti
Quaesitum properata Tui vestigia vates.
Laudibus immo dicis utqui me impune beasti :
Ilia repente oculos acreis jaculata, caputque
Muri bus et simi1is picae, incukauit in aures
TaJia uerba mihi : Quamuis jam seduJus, inquît.
Te nisi ducit amor, nosque improbus agricolanmi
Piscandi ranas, ta men bue concede parumper,
Obstreperae vocis patiens hic siste viatoi:,
Namque etenim rip(' dominum fus noscere Ranae,
Si potens est nimio pluuias praedicere cantu
Et quamuis possit praenoscere Rana poetas,
Non ego sum Phoebus non sum Cumea Sibilla.

�GUILLERMO ANTOLrN

EL TRADUCTOR LA TINO DE LAS COPLAS

Corpore monstrifico uerum simulata syren sum.
Nostra quidem praeclara sacris cum rnuribus olim
Bella Poetarum cecinit fios, Dius Homerus.
Et consul Cicero nostro quoque jure poeta est,
Nostra etenim exametris cecinit prognostica rhetor.
Et non dignetur noster Parrochius ille
Doctor loaunes Ramirez, arduus alter
Rhetoricae artis apex, nos tandem uisere, quando
Gutture de tremulo bene declamare peritas.
Sed me obiter docuit Petreius carmina nolens.
Quid ni ? Qui faceret dumos, lapidesque syrenes ?
Ille Petreius, ajt, cujus vestigia lust ras,
Ille Petreius erit, cursu cui lampada tradat
Inter Apollineos celeberrimus Aluar Gomez,
Qui Gellameleis Musis &lt;ledit esse disertis.
Me miseram, at postquam rapuit mors frigida vatem.
Obrriguere gelu
uiduaeque Camaen\!
Ut queis disertis pariter dedit esse Repressus.
At Petreius erit magico qui carmine fretus
Ut pullos gallina suos excluserit ouïs,
Sic gellameleis Musas educat ab hortis,
Sic gellameleis Phoebum excaotet in antris.
Et quocumque feratur, eo sua musa feratur,
Seu petat egregiam patriam, Magni Herculis urbem.
Qua nimio studio musarum accepimus usum.
Siue velit vacuum musis Helycona beare.
Siue Cygni doceat, fiectatque juuetque licium
Praesulis eximii. Seu fontes, pascua, riuos,
Genistas, ulmos, salices, salicumque sodales
Fraxineos visat juncos, frntices, loporesque
Siue Toroticolas spectavit .deoique ranas .
Nae ille imprudens, quem cum pater almus Apollo
Aonidumque cho rus penitus comitetur, et usque
Excubet ingenio vatis peregreque domique,
Dicat ab occeano nostro hoc se hausisse furorem
A.ethere delapsum, quo mens adflata repente
Sublimis rapitur. Quo non contendere prorsus
Quo non aspirare queo, salieusue natansue,
Rana loquax. Licet innatum mi ex tempore carmeo.
Prograe.:iiarque licet Satyrorum more coaxans,
Quorum antiqua nimis pater Ennius carmina vidit.

Verum tale mihi carmen contingere nosti,
Quale solet Nymphis ausis certare camaenis.
Quale etiam Anipedes qui garrulitate sequuntur
Effutire soient. Non autem quale Petreius
Complutum hac rediens docuit me nuper amusim.
Namque quod is cecinit misso ad te carmine dudum
Nouimus, an ranas Phoebi praeseruolet aura?
Huc migrasse sacras musas Helycone relicto
Perpetuam sacrasse sibi haec ad flumina sedem,
Hincque sibi venisse novas in carmina vires.
Numine correptus, pulchre et nugatur amice
Quod si illi ex animo sic delirarc volupe, et
Quesitum musas Compluto contulit hue se,
Ille quidem nobis similem se prçbet ad unguem
Ruricoli juuenis, qui nymphae captus amore
Undique querit eum scicitabundum asellum,
Anxius atque vagus, cui presens insidens ipse
Preterea, indicibus precium magno ore futurum
Pollicitus. Tandem monitus quumque inuenit ilium
Indicibus grates agit, et refferre paratur.
Haec misit chi cum caneret moranti garrula nympha
Atque viden:tur plura bis garrire parata,
Se nisi uisceribus riui insinuasset amici, ·
Frux caepisset eam nigrae experientia parcae.
Indignabar enim, me praeter hic esse Poetas,
Qui mihi dissuadere queant meme esse poetam .
Et mihi praerripiant, tibi quod respondere possem.
Fors, celeber vates, celebrem nam reddere p·ergit
Carminibus, Petreye, tuis celebrantla per orbem
Patre Deo geniti Dilectrix inclyta Christi.
Inficias vix ire potes. Nam te fore vatem
Arguit agricolis docta abs te rana poesim.
Yale.
(Bibliote-ca del Escorial e-ll-15 fols. 92 v.-94 .)

0

29

Al muy reverendo Sefior Alvar Gomez catedratico de Griego en la Universidad de Alcala respuesta en metro yambico de D. Juan Hurtado.
Dichosa tecla del Latina vando
y de la musa argolica dechado
y de 1a Castellana nuevo chantre
y lo que habia primero de decir

�30

GUILLERMO ANTOLIN

en el christiano cora digno preste.
A ti salud de alla' do nunca mengua
alla donde la larga affiuencia
de gustos mana i gustos impression
de vida desmolida, y reganada
no llamo yo ni es regafiamiento
al pesar justo que a las esperanzas
de gustos que no cumplen desencona
mal debito tormento, y gran tormenta
del purgatorio do las Aimas hierben
friendose en las penas de las Hamas
por do de grado en grado van trepando
cocidas en la absencia de la glôria
briosas, encogidas, lastimosas
pero con un hidalgo sufrimiento
con que van promoviendo en las limpiezas
Dios sabe en quantos lustras, quantos passos
mas mejor es salir tarde que nunca
al gusto, y gozo que con tu elegante
y viva carta recibi no el
de los emmascarados que da el vulgo
entiendo vulgo no por los menudos
sino por los que en viles menudendas
de vicios yacen como yo enfrascados
por mucho que lo estoy mas lo estuviera
sino porque escuche medio aturdido
el mucho mormorio que las aguas
de gracias davan en sus arcaduces
por do la gracia viene, y va encaû~da
que son las almas de varones santos
a este esteril y seco desierto
donde las fuentes de los Sacramentos
por la misericordia inagotable
de la salud que espera siempre manan.
Aq ui la falsa sed se desengafia
si la fe desalterada le da via
y nos bace dexar la cantarilla
de nuestro ardid, consejo y entimemas
como acaescio en el pozo de Jacob
do la Samaritana argumentaba
el grande amor que en tus cartas me muestras

EL TRADUCTOR LATINO DE LAS COPLAS

me da salvo conduto a disparar
quanto a la boca se me viene
aunque despues y antes que lo diga
con mi flaco juicio lo registra
y del ageno espero enmienda, y lima
para mis desembueltos disparates
porque ni yo soy digno de imitar
los sacrosantos saltos de David
ni las bondas celadas de Thebaoo
ni el muy sublime y gracioso pretexto
del sabio valentin Osias March
ni de la muy illustre y bonda musa
del granadin la mascara dichosa
ni de tu Musa la tranquilidad
maûosa que al lector atarantado
con alterada sobrehaz le llama
bien con el avisado y buen cabrero
con la cabra que va de cerro en cerra
de breûa en brefia el que vaya quejada
que el la reduce al competente pasto
•con alentado y manso corazon
pero con voz briosa, y pies de gamo
creida tengo la invisible fuerza
del amor que en los bmtos, y. en las plantas
y en los duros mineras hace mella
y mucho mas en quien tiene caudal
como es el alma racional del justo
la causa oculta de la dissonancia
so consonancia va en constellaciones
so complexiones no sin el gobierno
de luz divina que le da sus rayos
y los hermana a un fin, y deshermana,
segun la paz 6 guerra les conviene
que no seria de su grande franqueza
do cumple sobresalto dar reposo
y no gastar la paz que nos combate
·tambien se traba buena paz, o guerra
por el guiamiento que el Angel que en gracia
de aquél esta que nos le dio por guarda
pero otras veces nacen sentimientos
de hombres como yo que siempre yacen

JI

�32

GUILLERMO ANTOLIN

en iras, y apetitos mal mandados
que alla se van donde les lleva el soplo
como los milanillos de alcarciles
quandolas noches, y tareas crecen
de Jas cuidosas mozas hilandcras
y la cuerda hormiga se bastece
sin amar~arse de ello el buen villano
asi me vea yo bien entrastado
corno me duelo de rui entrastamiento
y como creo que quanto agui digo
lo sobrepujas con vuestro y seso
pero mientras mexor cosa no hago
oso parlando desfrutar la musa
de tus viexas lecciones y experiencias
en cspecial siguicndo tus pisadas
a quien asi siguiesse en la destreza
y letras, y bondad y gran mesura
como es signo en el amor debido
dubdoso estuve si responderia
sin consonantes 6 en metro espa:âol
coma me acometiste con tu carta.
Mas vi que el canto comenzabas
y porque aora se usa entre poetas
y en el primer troba es usa en Espafia
y porque entre otras trobas se sufrian
y porque es descansada esta poesia
y porque no se sabe entonar bien
quien no se desentona donde cumplc
y porque los que vienen al trobar
entrar no dubden por menguado vado
y par dar mejor tono a Jo entonado
quise escrevir assi siquiera aquesta
aquesta letra ; é Ley rigurosa
del trobar nuestro metro desatada
coma tu hondo Pindaro hacia
no sin rnysterio segun yo sospecho,
bien assi coma madre cariciera
que al tiemo niiio entr~a las galas
le pane mano de texon è higa
porque se le (en blanco) en ella el mal ojo
es porque las rnuy utiles senteucias

EL TRADUCTOR LATINO DE LAS COPLAS

•

se miren con desocupada vista
mal ojo digo al que se esta en las galas
y por las flores dexa el dulce frnto
como lo creo y bien sanctos doctores
confuso destas verdades aunque malo
oy dia de la dulce y limpia sangre
de aquellos que muriendo y no bablando
hicieron confession a Dias accepta
en vuestro de la sangre rcdcmptora
de quien primera que se Je agotasse
la sangre nueva cobra hidalguia
primeras en la escuela del martyrio
que no solo par Christo padecicrou
mas e~1 lugar de Christo degollados
quien fuera aora tanto faborecido
de la christiana musa que pudiera
decir no como tordo y papagaio
la hidalguia desta nueva gente
y &lt;lf-1 cruel la brutedad villana
y la paciencia del que nos espera
y la obediente y sagrada partida
de la sierupre doncclla y santa Madre
del hijo de Dios Padre para Egypto
doude la gran llaneza de la tierra
descubre el hondo fin de astronomia
por la serenidad del ayre y cie\o
y la delicadez de los ingeuios
Quien te dixera Egypto la ,·entura
en receptar en ti al sol de justicia
embuelto corno en nubes en paiiales
nifio pero Seiior de tus planetas
ni pienso que faltara ingenio ni arte
no espiritu no nombre de poeta
que auuque sufria temporal pobreza
no fuera menester otro Mecenas
no febos para fecuudar la mente
y concebir crecidas intenciones
dentro de fe y mesura governadas
y levantar con gran roaguificencia
los pies del Griego y del Latina verso

33

�34

GUILLERMO ANTOLfN

y de las nuevas rimas Castellanas
a quien tambien ayudas y vandeas
entres tus sacras oras, é Iecciones
estudios y domesticos cuidados
que solo bastarias para salvarlas
si el mundo nuevamente se anegasse
aunque condenas a tu octava rima
sin ser oyda y sin justa causa
como arte desdefiosa que aborrece
los dulces paxaricos que criaba
porque Ios cazadores los miraron
pero mayores cosas esperamos
de tu christiana musa en el latin
y sino conjetura mal mi musa
veran los que vivieren de la tuya
generacion que sea bien recivida
de la musa dav1dica por lo alto
a mano (en blanco) Geronymo y Ambrosio.
(Bibl. delEscorial, H. I. 9 fol. 27.)
En alabanza de las cuatro Canticas del sublime y gracioso Osias March antiguo Poeta Valenciano Soneto de su observantissimo ritnador D 0 Juan Hurtado
de Mendoza.
De sano amor secretos encantados
de hondo aviso moral disciplina
ricas ganancias de la libitina
divinos gustos al alma inspirados
Veras agui Lector atesorados
con musa dulce casta fuerte fina
en Iengua obscura, viexa, valenciana
tarde entendidos, y tarde escuchados
El loco precia el retinente alambre
Por el retinte, y resplaudor agudo
mas que oro fino, sino es relucido
El oro en su retinte es algo mudo
quien va por oro a las minas con hambre
del precio y sefias va bien advertido.
(Bibl. del Escorial, H. I. 9 fol. 26 v.)

TRACTADO DE AMIÇIÇIA
Entre los c6dices de la Biblioteca Osuna ·que fueron adquiridos por el Estado
espafiol para la Nacional de Madrid I figuran dos de no despreciable interés
para la historia filos6fica del Renacimiento. Nos referimos al Tractado de Amiçiçia y al Tractado de la bie11aue11htrança, escritos por el Doctor Ferran Nûfiez a
ûltimos del siglo xv.
El Tractado de Amiçiçia !leva hoy la signatura Hh. 78, y es un c6dice de
190 X 136 mm., escrito en pape! (excepta la primera y tlltirua hojas, que
estan en virela), de hermosa letra de fines del siglo xv. Consta de doce folios,
en los cuales el numero de renglones oscila entre 3&gt; y 38 por pagina. Tiene
algunos reclamos. En el folio 1° r. hay una inicial hermosamente iluminada en
oro, azul, rojo, rosa y verde, y la pagina (exceptuando el margen derecho)
ostenta una preciosa orla de flores y animales. En la parte inferior esta dibujado el escudo del Marqués de Santillana, con la leyenda : Ave Maria, gratia
plena. El titulo de la obra (en rojo) es como sigue :

•

Prohemio i: declaraçio11 del verdadero 11onbré de a111or, i111itulado al tracta JI do
de amiçiçia, conpuesto f;lt vulgar lengua por el doctor Ferra11 Nuii~z. para, el Il illustre i serenissimo sefior su se1ior el duque del I11Jantadgo, coude del Real.
E. : « Muy illustre i serenissimo duque sefior ». A. : suplan qualquier defecto
que buen juyzio dictare que deuen enmendar )&gt;.
El Tractadc de la bienauentitrança !leva actualmente la .signatura : Reserv. 6•.13, y es un codice de r32X87 mm., escrito en pape!, con algunas hojas en
vitela, de grande y buena letra de fines del siglo xv. Consta de setenta y nueve
hojas, en las que cada pagina suele tener 18 renglones. Hay algunas notas marginales, de la época. En el folio ro r. va una orla en colores, con el escudo del
Marqués de Santillana dibujado en la parte inferior, y la palabra lii.s en la superior. La inicial de la rnisma pagina esta lluminada en oro, azul, rojo, rosa, verde
y lila. Al folio 60 v. hay otra inicial iluminada. El t/tulo de la obra ( en rojo)
&lt;lice as!:
·

Principio i ilitroductio1t a 1m exceleute tracta do Il de la bienauenltlrança, copillado
por el doctor Je Il rrant mtiiez., del consejo del rrej t rreJna 11ros Il se1îores, para el

r. Catdlogo abreuiado de los numuscritos de la biblioteca del Exmo Setîor Duque
de Osuna é Injantado, hecbo por el conservador de ella Don José Maria Rocamora
(Madrid, Fortanet, 1882). Ntimeros 163 y 164.

�FEltRAN NUNEZ

illustre z ser6'1iissi1110 seiwr 1u se Il 1ior don ynigo lopez. de mendoça, duq" del injà Il
tadgo, marques de santillana, Conde del Real.
E. : « Por muy clam conosçirn1eato tengo conosçido, illustrissimo sefior
duque ». - A. : cc E gloria e honrras z graçias infinitas den aquel hazedor que
lo administro sin meritos mios, a! quai con quantas fuerças yo puedo las do,
z a la gloriosa madre suya, que syn nenguna macula meresçio ser madre suya.
Deo graçias. ,,
De la personalidad del autor, totalmente ignorada hasta ahora •, sabemos
tan solo que se cai-ificalx1 de Doctor, que pertenetio al Consejo Real y que sirvio al Duque del lnfantado. Escribia sin duda d ûltimos del siglo xv, pues los
dos opûsculos descritos (ûnicas producciones suyas que conocernos), van dcdicados a Don Ifügo Lopez de Mendoza, segundo Duque del Infantado, Marqués
de Santillana y Conde dèl Re3l, qu.ien vivia por aquel tiempo. Don Yfügo fué
hijo de Don Diego Hurtado de Mendoza, primer Duque del Infantado, el cual
testo en 14 de Junio de 1475, y 1,ieto del famoso autor de la Co111edieta de Ponça.
Los opüsculos rt'feridos, sin ser de primer orden, constituyen una buena
muestra de lo que eran la erudicion y el estilo, no precisamente en los renacientes, si:no en los aspirantes d renacientes del sig-lo xv. El doctor Ferran
Nui'iez, como Pedro Diaz de Toled,o, corn0 Gracia Dei, como Juan de Lucena,
como Fernin Pérez de Guzman, como Mosén Diego de Valera y tantos otros,
(&lt; c-aresçiendo de las formas, era contenta de las matetias &gt;), y asi se ve aquél
su anhelo de resucitar el saber antiguo, citando a diestro y siniestro a los clasisicos que pudo conocêr, y emreverando su diccion con horridos latinisruos. Su
confesion, al final de la dedicatoria del Tri!ctado de la bienauenturança, es harto
ingenua: c, -z ante que comiençe - le dlce al Duque -crea uuestra senoria que,
con tan grand pena se escriue en roh1ançe, que non Jnœde ser cosa mas pe11osa z:
de mayor 1rabajo. &gt;) Y esto se afirmaba por los mismos aôos en que salia à luz
la Comedia de Calisto i Mûibeal
Reprodudmos acontinuacion el Traclado de Alll-içiçia, sin otrns cambios que
deshacer las abreviaturas del original, escribir los nombres propios con rnayusculas, sustituir las ss [argas por cortas, y pouer la puntua:ciôn. El autor (coma
indica él mismo al principio de su trabajo) toma por base las opiniones de distintos juôsconsultos, romanistas y canonistas, lo cual no deja de contribuir a
la ingrata sequedad de su estilo. No seria dificü tampoco tacharle de alab:ir en
demasia los méritas de su protector, si no supiési::mos cuan general era esto en
su tiempo y siguio siéndolo en los posteriores.
A. BONILLA y SAN MARTfN.
i . Hablamos por vez primera del Doctor Ferran Nuiiez en nuestro estudio :

El Re11aèimiento y

Stt

inftuencia literaria en Espaiia (La Espaiia Modema; Febrero

de 1902), pags. 98-99.

TRACTADO DE A.MIÇIÇIA

37

.
PROHEMIO Z DECLARAÇJON DEL VERDAD.ERO NONB'RE DE AMOR,
INTITULA.DO AL TRACTA

Il Dô

DE AMIÇIÇIA, CONPUESTO EN VULGAR

LENGUA POR EL DOCTO.R FERRAN NUNEZ PARA EL

il ILLUSTRE z SERE-

NISSlMO SENOR SU SENOR EL DUQUE DEL YNFANTADGO, CONDE DEL
REAL x.

Muy il1ustre z sere111ss1mo duque sen.or : en el comienço de
cada obra, segund la opinion de los antiquissimos z christianissimos doctores z de los modemos, el aux.ilio diuino se deue
pedir, porque la obra o intinçion buena con que se haze se protraygua a buen fin, ca syn este adjutorio del sumo bien; ninguna
rrazon se entiende, ni menas. natura se puede substentar, ni
acçion alguna se puede expedir. Asy lo dize aquel diuino orador
Plato 2 , z aquesto pretermisso, non se puede començar buen prinçipio, nin menos Haher a buen fyn. E, segun dize el prinçipe de los peripatheticos, el Aristotelis, del sabra es ordenar z
con grande studio en orden paner. E eJ Seneca, en el quatto de
sus Declamaçiones : toda honesta obra la voluntad la prinçipia z
la ocasion o causa de la coh1ençar le da fin. E acatando esto,
ylustre sen.or, mi habla tomara z riene prinçipio de aquel non
generado paclre que da ser a todas las casas, z a los balbuçientés
da eloquençia z pane audaçia par su bondad marauillosa, z a los
debiles flacos les da osadia z foerça, z del vnigenito fijo suyo
que, sin varonil simiente., dela virgen purissima, virgen quedando,
naçio, del qual es todo saber z de quien proçede tacla sapiençia
z sçiençia, sera la prosecuçion &lt;leste comienço, pues que èl solo
r. Estas lineas van en rojo en el codice.
Cuyos diilogos Axioco, Pedro y Fedon puso en castellano, traduciéndolos
del latin, el Doctor Pedro Diaz de Toledo, del Consejo del Rey Don Juan II.
La version Jel Fedon va dedicaja al Marqués de Santillana, y parece anterior al
aüo 1445. Hemos dado noticia detallada de estas traducciones en nuestro: leJN,
didlogo plat611ico, traducido del griego por Afanlo Uca.lego : Madrid, M. C. M. I.
2.

(paginaSJx-xxv).

�FERRAN NUNEZ

es hermosura z decor de todas las gentes z uerbo de Dios.
Debaxo de la qual doctrina prosiguo, z con su lumen, quod est
lux vera z- eterna, este camino agredior, z el efecto &lt;lesta rrazon
o ornçion z prinçipio trabe el Paraclito, proçediente de amos, z
aquella conluzida infusion &lt;leste sacra don puesto en la via o
camino. Comienço, e a la perfecçion &lt;lesta s&lt;1ntissima trinidad,
que indiuidua tiene essençia, loor z gracias z laudes ynfinitas con
todas mis fuerças ofresçiendo, de su inhefable misericordia
teniendo firme esperança, mi balbuçiente lengua en este vulgar,
que pierde eldulçor de la eloquençia zen que ningun buen stillo
se puede tomar como en la sacra lengua latina, quiero començar,
dezir z loar, z mejor dedarar las ynnumerables virtudes z exçelençias de vuestra perssona i nobilissima progenie, z prosapia
donde proçede. E porque a otro asy conuinientemente como a
vuestra y lustre persona se pudo adoptar sermon de noblen, ni a
otra persona alguna pudo conuenir de se 11:imar noble como (fol.
1° v.) vuestra seôoria, porque en verdad ninguno tiene abraçado z vnido a si mesmo por quatro costados la generaçidn de
nobleza sinon solo vuestra ylustre perssona, e en todo modo o
genero della. E porque el philosofo, en el quinto de la Ethica 1 ,
persuade z dize que a Ios nobles es dado hazer merçedes, z para
las bazer dize que deuen ser atraydos z persuadidos, z esto dize
ser honor e gloria, a vuestra sefioria, que desde la juuentud z
niiiez todos los tiempos syn cansar de continuo trabaja en tan
magnificas cosas, asi de grandeza destado como de gentes continuas z marauillosos hedefiçios e de virtuosa gouernaçion, zen
virtud colocar en persona. La qua!, segun el gran Basillio, varon
exçelente z de admirabile nominaçion, non piensa que en esta via se
puede arbitrar, nin men os estimar ni llamar de vtilidad o prouecho,
sinon la via de la virtud, porque, segun el dize, nin la dignidad, nin

I.

Don Carlos, Principe de Viana, tradujo al castellano los &lt;liez libros de la

Etica d Nicomaco en el siglo xv (v. el ms. S, 15 3 de ]a Biblioteca Nacional de
Madrid, y los P, 191; S, 72; S, 20; S, 9 ; y T, 127).

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

.,

39

la grandeza de los mayores, nin las fuerças del cuerpo, nin la forma
del, nin la honrra dada de todos los honbres, ni el ynperio, ni otra
cosaque se pueda dezir en esta vida, exçelente z: longeuasperança
nos da para alcançar la eterna synon la virtud. E pues desta tan
dottado esta vuestra nobilissima perssona, que con &lt;ligna rremuneraçion seria honor z gloria, porque honor, segun lo dize el
philosopha In prirrw Ethicor., mas esta çerca del dador de la
honrra que non del que la rresçibe, mas yo, ylustre sen.or, con
ynmensa alegria z gozo me alegro, conosçiendo, par çierto z
auiendo aprehendido z visto lo que a muchôs antes oya, z
que por esperiençia ellos auian conosçido, z con vn spiritu
de verdad que penetro mis entraiias z coraçon en vna forma
marauillosa, me mostro quel honor de vuestra serenidad es el
bien propio z virtud rradicada en su ilustre persona, que es muy
difiçille z avn quasi ynposible que della se aparte. E la gloria,
quanta mas la mundana, como sea jnane z: vana z syn fructo,
dizelo aquel c01isolado Boeçio 1 , en el terçero, adonde dize que
el tragico la llama injuria. i Que cosa es gloria en los millares de
los bonbres synon vna inflaçion grande de los oyentes? La merçed z honor z gloria de vuestra sefioria, non es nin puede ser
synon aquella que de si mesma es estable z por si mesma es
sufiçiente bien. z esta es digna de contar z numerar de vuestra
ylustre persona. Porque sy vn poco mas alto vuestra senoria z
los que lo acataren los ojos alçaren z eleuaren, en aquel lugar
la hallaran asentada z colocada, en el qua! todas las cosas son, z
1. Del Tratado de consolacwn de Anicio Manlio Torcuato Severino Boecio,
muy conocido y mencionado en la Edad Media, hay varias versiones castellanas del siglo xv (véase, por ejemplo, el ms. li. 35 de la Biblioteca Nacional
de Madrid).
También tradujeron esa obra, en el siglo xvn, el gran poeta D. Esteban
Manuel de Villegas y D. Agustin Lapez de Reta. La versiôn de este ultimo,
que a nuestro juicio es la mejor de todas, fué publicada por D. Vicente Rodriguez de Arellano en 1805 (Madrid; por Gomez Fuentenebro y C•; xxrv+
231 pags en 80).

�FERRAN NUNEZ

donde se colocan los preclarissimos varones. Ca esta gloria mundana, avnque paresçe bien para alguna parte del anima, muy
peque11a z de poco durar es. Por eso, sen.or, aquella que es muy
mas exçelente z que dura donde esta la perpetuidad, esta aparejada a vuestra exçelençia, en la qual fruyen los bienauenturados,
que es la, eternal silla z morada, la qual non se da a los que
esperança en los honbres tienen, nin a los que atienden z siguen
la boz del pueblo, nin a los que su premio en lo mundano ponen,
saluo a los que la virtud corho vuestra sen.aria tiene, z este
premio z gloriosa corona en grandissima copia vos esta en
los çielos rrepuesto; a lo qual sala la yleçebre virtud de vuestra
(Fol. 2° r.) persona exçelente vos traxo a esta verdadera fama z
honrra, porque de vuestra senoria siempre se dixo, z par obra
paresçe z se vehe, z fuy buen testigo, porque! honor deuido a
los que gouiernan z rrigen la rrepublica, corho vuestra exçelençia lo haze z quiere, este honor se deue, ~ quanto mas se dara a
los que la virtud tienen ? Ca, co:fuo el Çiçero dize, en el Sopno
del Sçipion, sola la virtud haze al honbre bien auenturado, z por
otra nfoguna via este nonbre de bien auenturado se alcança. E
yo, queriendome rreduzir al proposit0, sy el alegado prinçipe de
los filosofos dize z persuade que a los ·nobles deuemos de atraher
a hazer merçedes, quanta mas determina z se ha de creer que se
deue de persuadir a los ylustrissimos, como es vuestra seûoria, z
toda su progenie &lt;lande proçede z de donde se diriua z desçiende, que desde los godos aca non se lee generaçion tan nobilis-sima nin donde tanto numero de virtudes z marauillosos actos z
tan insignes varones ayan proçedido. ~ Quien podra contar nin
en escriptura alguna paner las exçelençias, virtudes z nobles
actos z de gran marauilla de aquel de memoria digno del stipite
donde proçede vuestra senoria, el sefior don Pero Gonçalez de
Mendoça? Que avnque es puesto por grandi~simo loor z exçelençia z muy gran osadia la quel rrey Saul hizo, que sabiendo
queauja demorir, el z sus fi.jas podiendo fuyr, vino a labatalla
donde murio, segun se lee Reg1m-t. primo. vlti1110. c., mayor exçe-

TRACTADO DE AMlÇIÇIA

•

.

lençia fue la que fizo z de mayor osadia, en lugar de tanto peligro, que con marauilloso esfuerço saco z libro al rrey su sen.or,
z puesto en lugar &lt;londe se pudiera librar su persona z ganar
grandes tierras z gran sefiorio por tan gran seruiçio como auia fecho,
sabiendo que non podia escapar, todo pospuesto, corho vn leon
brauo, pensando el solo vençer z rrecobrar lo perdido, boluio a
pelear donde murio. ~-Que podre dezir nin narrar, nin menas
podria avnque mucho trabajase, en escriptura poner los belicosos
actos del glorioso avuelo vuestro don Yfügo Lopez de Mendoça,
cuyo nonbre en vuestra sefi.oria esta rrecobrado ? Ca son tan ynumerables batallas z cosas en que non themio c0sa que se pudiese
dezir temer, z a que su persona non pusiese, z tan &lt;lignas de
loor, que es mas loor suyo z de vuestra sefioria, segun son notorias, dexallas, que dezilbs; pero vna cosa sola non podria callar,
mas mucho z mucho se deue escreuir, que fue ser en singular
modo sapiente, z escreuir tan marauillosas doctrinas, todo por lo
natural, que par graçia le fue dada mas que por arte, que nunca
aprendio ; ~ de quien se podra dezir nin menos escreuir, que
fuese tan sabio z tan exçelente z esforçado varan en todas las
estorias que discurrir se pueden ? solo vno se hallara a quien le
sernejar pueda, que fue _el grandissimo varon z de gran exçelençia Jullio Çesar, de quien todos se nominaron por su exçelençia,
que de audaçia z fortaleza mucho acabado se falla., zc touo z la
sapiençia en exçelente manera, que por su sapiençia fallo el visiesto
del afi.o, z antes nin despues del otro ouo que tanto alcançase.
Pues (Fol. 2° v.) ~ que dire del y lustre senor duq ue, padre de
vuestra senoria, don Diego Hurtado de Mendoça, que fue doctado de ynumerables graçias, tales que en las quatro çiuili4ades o
maneras de sefiorear que escriue el filosofo en el primero de los
Retoricos, todas quatro touo z muy cognosçidas en el?; pues jn
espeçie viniendo la prudençia, avnque por exçelençia se adapta
a Noe, çerca de su sefioria en mayor exçelençia se podria poner,
z por mas singular, segun la fama z obras que par ella hizo,
mayormente en la lealtad z ~uarda de las cosas que prometia z.

�42

FERRAN NUNEZ

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

daua. Pues la confidençia, la begninidad z amor a los que le siruieron, syn cuento se muestra; la stabilidad z firmeza muy
mayor que en Josue, segun por sus actos paresçe; la perfecçion
mas perfecto fue que orro alguno en todas sus obras. El seso z;
prudençia de Salamon non fue tan acabado ; ya la paçiençia esta,
avoque se adapta a Job, muy mayor la touo en grandes cosas su
exçelençia ; la fecundidad z; perseuerançia, la deuoçion, todas
segun l0s tiernposen que su setioria las exerçito paradesatargrandes lazos z ligaduras z sostener la rrazon, ningun goueroador la
alcanço tan acabado como su sefioria. Pues ~ que se podra dezir
de otros muy y lustres z; serenissimos 5efiores que &lt;lesta prosapia z;
projenie han proçedido, de donde agora en ivuestra exçelençia se
memora todo ? Pues bien con rrazon, por la breuedad que es
plazer de los modern os, dire, tomando la doctrina del philosopho,
que a tan y lustre sen.or como es vuestra seiioria deuo persuadir z
atraber que faga merçedes z las fechas conserue como continuo
lo haze, queriendo tomar exemplo de aquel inmenso dador Dios
nuestro, que sienpre da z; nunca rresçibe. Ca si acatare a lapersona de vuestra sefioria, tantas z; tan ynumerables virtudes z
exçelençias vy z; estan el rradicadas, que non puedo otra cosa
dezir, segun el amor que a tan pequeîio z indigno sieruo mostro, synon lo que dize él Posio' del Tito emperador, que paresçe
vuestra serenidad amor z deleyte, z en algo mas quiero estender. Que sy mirare a la prestançia z nobilissima projcnie ~ quien,
entre todos los cabdillos z; duques del mundo semejable se halle,
que, por venustad de los mayores z; por gloria de los padres z
parientes, a vuestra linpidissima sangre z tan clara se pueda llegar? E sy de la epulençia de rriquezas bastare, anplissimos son
los sefiorios que tiene de potençia singular, los çibdadinos i subditos z de firme amor z beniuolençia. Sy de la vinud z grandeza
de coraçon opinare z acatare, tanto grande z de tal manera, que

es marauilloso, mayormente en la singularidad de los hedefiçios,
que non se, mirandolo, a que lo pudiera adaptar, nin menos
similar, synon aquel hedefiçio que de la talla z Hellion que
hedifico aquel notable rrey z muy memorado Priamo, que mirando su forma z sotileza, creheran (Fol. 3° r.) ser verdad lo que
desto se escriue. ( Que dire de la virtud de la justiçia, que tanto
ama z quiere, de la rreligion z liberalidad, de la clemençia z piedad, de la fe, z constançia, z moderaçion z prudençia que vy en
vuestra sefioria, z de que esta doctado z continuo exerçita z vsa,
synon requerir al philosofo que nueuamence paresca, z me de
audaçia para persuadir a tan nobilissimo varon z de tanta exçelençia que me faga merçed, pues indigno de la resçebir me fallo?
z pues este jnfiel, avnque muy memorado z que non tiene esperança, boluerme he aquel solo dador que a prinçipio inuoque,
pues aquel solo es el que da a los flacos z debiles fuerça, z a los
ygnorantes sçiençia, z este guiador me demuestra que tenga fiuzia
en tantas z tan ynumerables virtudes como en la ylustre persona
de vuestra seiioria estan, que aquellas vos atraheran .a lo conçeder, pues la virtud esta en el dar, z non en el que rresçibe; z
queriendo non ser prolixo z dar fyn en este prinçipio, serenissimo sen.or, muy conuiniente cosa fue que a tan graçioso sefior,
z de taotas virtudes doctado, que tanto amor me mostro, siruiendo escriuiese, z en perpetuydad pusiese por comienço z cognosçimiento de todos este tractado de amor, porque por esta
amiçiçia vuestro exçelente z magnifico estado mucho mas se
ahumentara cada dia, solo por querer z amar lo honesto z bueno,
que es el propio amor, segun adelante en este tractado paresçe,
z por quedar la amiçiçia con quien vuestra seiioria la puso. E
por esto, con gran rrazon mouido, por que a todos fuese noto
este nonbre de amigo de que me yntitulo, que tan rradicado
vuestra sefioria tiene, foe conuiniente cosa, por començar a
seruir, que en esta lengua vulgar escriuiese, para saber que cosa
es amiçiçia z amor z beniuolençia. E por esto, mouido con aquel
modo z acatamiento que deuo, suplico a Yuestra exçelente magoi-

1. l Poggio Bracciolini, el autor de la Historia de Flormcia y eximio humanista ?

43

�44

FERRAN NUNEZ

fiçençia que non acatando a la flaqueza z poco saber de mi rrudo ·
juyzio z non buen estilo desta mi obra, pues lo causo la nesçessidad de la lengua, z al desseo z fyn que me mu eue a lo copillar,
vuestra sciioria con esto lo quiera rresçebir gratamente, a exeoplo
del rredenptor nuestro Iesu, que le pluguo mas el exiguo don z
pequefro de buena yntinçion que lo muy mucho mas ; z lo
defectuoso vuestra exçelençia lo supla z lo superfluo quite, z en
todo a enmienda z correcçion lo mande traer, z non mirando a
los emulos, como ninguno dellos caresca; ·Z como quiera que es
noto a todos, pero asento mi animo aqui enxerir algunos doctores z santôs de santissima vida, z otros que los touieron, z
començare de los poetas, por ser antiquissimos que los storicos z
oradores z que otro genero de scriptores. Homero, que fue
duque z cabdillo de la filosofia, z fuente z ynuentor z origo de
las cosas dioinas, este en la posteridad de su studio touo tantos
emullos, que dormitante, z yncredulo, z otras jnjurias en su
nonbre z escriptura pusieron, en espeçial Zoylo, que fue maestro
de toda Maçedonia z Alexandria, le llamo Homeromastis en lo
que escriue a Tholomeo rrey contra yliaden, z era ya pasado desta
vida Homero en aquel tienpo mil! aiios auia. Maro mantuano,
cognosçedor de toda disçiplina, que, segun dize el Flaco, non se
hallo en tierra alguna (Fot. 3° v.) otro mas rresplandesçiente,
rnuchos emulos touo, que le cQnonbran ladron publico, z le
dizen feos denuestos. Esto mesmo padesçio Pedro ' Terençio,
de los comicos e! mas exçelente. i Quien puede pensarnin dezir lo
del Tullio z Sçiçero, que son luz de la eloquençia z doctrina 2
de los quales grandes loores se dizen, gran emulation touieron,
que ouo quien de tantos z tan sumos oradores oso dezir que
locamente z como escurras auian hablado ?i Que dire de Demostenes, en taota grauedad tenido, z eminente en el arte oratoria z
Asi, por Publio.
Corno se ve, cor,sidera
lidadés.
1.

2.

a Tulio y a Cicer6u como

dos distintas pcrsona-

.

...

.

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

45

en el vso z majestad de dezir, que Epicuro z los que lo siguen,
en espeçial Metodoro z Ermachus, z otros filosofos, mucho lo
laçeraron, z el mesmo Epicuro a Platon continuo muerde z maltracta el philosofo Aristotiles? z el Eusebio, en vn libro que hizo
de preparatione euangelica, en vn capitulo que comiença Elearcus,
dize quel Aristotelis fue judio z de su generation ' . ~ Quien podra
escreuir la emulaçion del Fauio contra Seneca, z Seneca contra
Phauio z contra Quintiliano, z el Quintiliano contra el, que
avnque son exçelentes en doctrina, z varones de gran jngenio,
nunca su propio nonbre se llaman? Pues dexados estos de tanta
sapiençia, viniendo a los santos, lea la contençion del glorioso Ieronimo con Rufino Aquiliensi, con J ouiniano, con Vigilancio. ( Quien
vido las epistolas del Jeronimo con Agustina, z Agustino con el
Jeronimo, que coma quiera que santissimos varones z de marauîllosa sapiençia z de tanta santidad z doctrina ensefiados, que
a todos exçeden en sus escripturas z vidas, mas de emulaçion no
poca, antts grande, es visto tener? i Que dire del Çipriano, en
toda arte 2 oratoria admirable, fue de muchas acusado z escarnesçen del, llamandole Capriano por la jnuidia z emulaçion, z
oy los Tomatistos z Escotistos en las opiniones tanto diuerssos?
E assy, serenissimo sefior, vuestra sei'ioria non se marauille que
contra mi, pusilo z flaco honbre, z yndocto, algo se diga, mas
suplico a vuestra sefioria con la exçelente virtud de nobleza lo
supla, z a los lectores suplico que lo lean con yntinçion de lo
emendar cada que lo leyeren, z si leyendo hallaren lo que yo
ygnore, lo su plan z enmienden z syn detracçion a correcçion lo
trayan, tomando la doctrina z sentençia del papa Melchiades, que
primero todo diligentemente lo ynquiran, z con justiçia z caridad
difinan, a ninguno co11depnen hasta hallar justo z verdadero
juyzio, z a ninguno judguen par suspiçion de arbitrio, mas pri- .
1. Desde. : i el Eusebio hasta geuerntion, esta subrayado, y con una cruz en
forma de aspa al margen.
2. Borrado: &lt;&lt; de ».

�FERRAN NUNEZ

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

mero prueuen z despues caritatiuamente condepnen, z lo que
quieren para sy quieran para otro. È ynuocando el auxilio del
que a prinçipio por auxiliador tome como dador de las graçias,
comiença el Tractado z dize asy '

que sera cosa nueua, z lo que los doctores en estos casos ponen
z determinan, yntrexiriendo algo de los dichos de algunos singulares filosofos z poetas, z algo de la sacra escriptura en el lugar
do conuiene. E porque en estos casos ay algunos vocablos que
non bien se rromançan, perd.one vuestra sefioria si alguna obscuridad touiereo, que yo entiendo de trabajar de los poner en el
mejor vulgar que pudiere. E primeramente se ha de saber que
los juristas hazen diferençia, z dizen que ay beniuolençia, z benifiçençia, z amor, z amiçiçia, z esto trahe entre sy diferençias, porque la beniuolençia es acto de la voluntad, por el quai a alguno
bien queremos, de la qual habla la ley inperialis en el prinçipio ;
z la benifiçençia es vna acçion o acto beniuolo que da gozo al
que lo rresçibe, z asi se difine en los feudos, en el .c. primera, z
asy consta que la beniuolençia esta en la voluntad, z non es operatiua de cosa buena, porque non obra. E tienen diferençia estos
vocablos de amor, porque amor rrequiere deliberaçion del
coraçon z voluntad de obra, z por eso el amor proçede ex animo,
segun se nota en la ley terçera de donationibus, z la beniuolençia
muchas vezes sin deli beraçion z rrepentina z arrebatadamente z de
supito viene, segun muchas vezes por experiençia vehemos en dos
perssonas que peleen z jueguen o hagan otros actos, que subito
viene al honbre querer que vno vença o gane, avnque non le ama,
tiene beniuolençia supita z presta, z algunas vezes ama a quien
no es su amigo, z por esto non se puede dezir todo bien querer
o amor ser amiçiçia. Ca este amor de amiçiçia ha de ser deliberada bien querençia entre dos, z ha de ser mutua, z a cada
vno manifiesta, conuiene a saber quel amor de amiçiçia ha de
estar çerca del amante z del amado como vna cosa clara z manifiesta, sin mezcla alguna, z por esto dize la ley : a los amigos
auemos de llamar amigos, non por leue z ligero cognosçimiento,
mas antiguo z grande, z honesta familiaridad, por rrazon adquirida, z que sea auida con los padres o parientes, non de voluntad presta, synon deliberada; (Fol. 4° v.) assi lo quiere la ley
latt., do la glosa, alegando al Tulio, dize: el amigo el mesmo

I
Para uerdadera not1ç1a &lt;lesta palabra am1ç1ç1a, primeramente
deuemos saher -por cognosçimiento que cosa es. Lo segundo de
donde se diriua z quantas maneras ay de amistad. Lo terçero
a quien es deuido, z (Fol. 4° r.) quanto el amigo deue amar
a su amigo. Lo quarto que fruto trahe amar. Lo quinto por que
causas se pierde o deue perder la amistad. Lo resto z vltimo,
que prouecho trahe tener amigos, z &lt;lestas mateûas tracta asaz
plene el filosofo, en el octauo z 110110 Ethicor., z el Tulio in libro
de amiçiçia 2, z en el primero z terçero de ofiçiis, mue ho por ynstenso el santo doctor en la segunda del segundo, en la quistion
veynte z seys z veynte z siete z veynte z ocho, tractando de la
caridad por todas las questiones. Esta bien por ynstenso por todo
el titulo veynte z siete de la quarta partida; pone algo çerca
dello el Sabio, prouerbiorum, çiento z veynte z siete ; mas porque en estos lugares esta muy vulgar, dexando las rrazones z
opiniones z diferençias destos actores, por euitar la prolixidad,
solamente por lo rreduzir z traher al proposito por mi ya yniçi:ado,
entiendo proseguir en este tractado sola la opinion de los juristas,
1.
2.

Hay un espacio en blanco de dos Hneas en el c6dice.
Hay versi6n castellana de este opusculo, hecha en el siglo xv, en el ms.

IL 21 de la Biblioteca Nacional de Madrid (es el n° 54 del Catdlogo abreviado
de los 111anuscrilos de la Biblioteca del Excmo. Seno,· Duque de Osuna é Infantado,
becho por el co11-servador de ella Don José Mada Rocamora; Madrid, ·Fortanet,
1882).
D. Fernando Casas public6 en Cidiz, en 1841, una nueva traduccion, con el
texto latino y notas, de: Lelio, 6 didlogo de Marco Tulio Cicer6n sobre la Amistad
(xxrv+214 pigs en 8°).

47

�FERRAN NUNEZ

querer z non querer en las cosas liçitas z honestas ha de tener de
su amigo o amado, que quiere dezir que avnque dos sean en
espeçie, ban de ser vna voluntad, vn querer, vn amor en las cosas
1içitas, z por esto propriamente se dize amigo, que guiere dezir custos
o guardador del coraçon del amigo ; de la qual ley z glosa se
concluyen dos cosas : que la perfecta z verdadera amiçiçia es
por lo honesto z bueno solanieote, z non por lo delectable, z
que tiene aparençias de ser bueno z non lo es, nin por el querer,
synon por la rrazon z honestad ; z por esto dize la ley vna muy
marauillosa habla, que los nuestros mayores antiguos z doctos
siguieron rrazon, z los padres donde proçedemos extimaron z
dixieron aquel amor o amiçiçia ser buena que proçede de solo
coracon z voluntad buena z sinple, z non la que proçede por
lucr~ o i,oanancia
o y-nterese z prouecho, como oy por nuestras
,
'
culpas vehemos que no ay amor ni bien querer, ni la beniuolençia ni amiçiçia, synon por el lucro o prouecho que della procuran o esperan o han, non que proçeda de la voluntad nin del
coraçon, que es presçipua causa par donde las cosas estan como
vehemos, porque en todos fallesçe la substançia de la virtud que
ha de ser en el amiçiçia o amor, que ha de proçeder ex aninw z de
voluntad, z non por rrazon del ynterese ; asy lo dispone la ley
allegada, que es terçera, z por esto dizen los doctores que inpropio
trahen oy z par muchos tiempos se ha tenido este vocablo de dezir
amiga a las que aman, porque non las aman par lo honesto z
bueno, synon par lo deleitable, z la verdadera amiçiçia es por lo
honesto z bueno, z con pocos z non con muchas, porque para
ser el querer z non querer vno, non puede diuertirse z estar çerca
de muchos, porque es natural cosa el disentir z non perrnanesçer ni estar en vn querer los muchos, segun lo dize la ley
Iten si vnus, z aqui se auia de traher çerca de la vnidad nrnch~s
cosas que par la breuedad omito, z desto se sigue que vera am~çiçia non puede estar çerca de muchos, z teniendo esta quel am1çiçia ha de estar en lo honesto z bueno, z se han de querer z
amar los amigos antiguos, z que se ouieron con deliberaçion.

TRACTADO DE AMIÇIÇlA

49

Dizelo el sabio : a tu amigo z al amigo de tu padre non lo dexes;
z porque este es mi motiuo z la causa que me mouio a este tractado
escreuir, para lo -corroborar esto, sera nesçessario traher z fundarlo con dichos extrahordinarios avnque singulares z exparzidos
en muchos lugares, con este desseo de traher a esta vera amiçiçia
a vuestra seii.oria. z para ello dize el Seneca en la terçera epistola, z el Inoçençio, famosissirno papa quarto, fablando &lt;lesta
amiçiçia que es perfecta: Con el amigo toda casa se ha de fablar z
deliberar z primera ver, z asse de fablar tan osado como consioo
::, '
porque muchos muestran engaii.ar con themor de ser enoaii.ados
b
&gt;
que es dulçe dezir bien acatado; z el Socrates en sus exonaciones
en el capitula primero, dize: non solamente' (Fol. 5° r.) al. ami-'
go se deue el honbre todo z claro comunicar, mas ha de tener en
la mesma amistad z comunicaçion a los que nasçen de su amigo,
coma herederos en la substaoçia del padre. De que se sigue que
p~r la abseuçia o reparaçion del anima z del cuerpo, o decaym1ento destado, nunca la amistad ha de çessar de obrar z tenerse
pues es virtud. E el filosofo, en el libro seauudo de los rretorico/
b
'
d.
1ze : apartarse de los amigos antiguos z acostunbrados es miserable confusion z .flaqueza, z miseria de coraçon; i o coma esto es
inbusitado, que a terçero dia muy fastidiosa paresçe en todos la
amistad, siguiendo en esta el prouerbio malo vulgar, que las
nueuas casas aplazen ! z contra estos fue lo que dize el Sabio en
el Eclesiastico : a tu amigo antiguo non lo dexes, quel nueuo non
puec.le ser semejable a el, de que resulta que cada dia non se deue
tornar nueua amistad, z el verdadero amigo non solamente asi
ha de comunicar, z esta comunmente es auido por façile,
avnque nuestro saluador lo ouo par dificile, que non balla
mayor amor. qu_e poner su anima por la de su amigo, que
es la comumcaç1011 de sy mesmo, z darse en sus nescessidades, mas anle de comunicarle sus bienes z cosas, lo · qual
segun el tiempo es dificultoso, z desto es orieao prouerbio que
. d
i,
i,
'
d1ze
e los amigos es ser comunes rodas sus casas z el Tulio 1o
dize en el primero de los ofiçios. En los amigos ha de ser vn estuRtvue hùpatu'que.

Xl v.

4

�FERRAN NUNEZ

dio, vna voluntad, vn tener, en manera que cada vno sea el otro,
z cada vno aya la mesma delectaçion z plazer honesto del otro,
'I: sea el vno z el otro su amigo mesmo, en que paresçe dezir lo
que Pitagoras dize : Quel arnigo ha de ser fecho de rnuchos vno,
z con esto concuerda el Valerio en el libro quarto, en el titulo
de nwderaçione phor., que como oyese que Xenocrates su disçipulo
muchos males dixiesse del, con inpetu menospreçiando z criminando, z con cara z vulto cruel z saii.oso, acato al que lo dizia,
el quai començo a jurar z dezirle que por que non le daua fe
como el le amase, z cosas creybles le dizia, .z con grandes juramentos dixo ser verdad que Xenocrates su disçipulo auia dicho
del lo que le dizia. Luego le respondio que nunca los dioses quisiesen nin podria ser que Xenocrates su amigo tal dixiesse, sy
non fuesse nesçessario z conuiniente, de que paresçio amarle de
coraçon, pues le escuso z non creyo loque de su amigo se dezia 1 ;
z tal ha de ser el amigo que quando algo oyere dezir de su amigo,
non lo deue creher, antes escusarlo ; z a esto el Socrates en sus
exortaçiones, en el segundo capitulo, dize : Sy elegante z bueno
quieres ser con tu amigo, quando algo del oyeres, presto lo redarguye, z quando nesçessidad ouiere, le socorre z le ayuda; z el
Aristote!, en el libro segundo de los rretoricos : El fecho del amigo
uerdadero z non fingido es, syn que lo pda 2 nin requiem, prouer. &lt;&lt; Por lo qual menos me maravillo porque tue (Platon) moderado tan
constantemente en Xenocrates su dicipulo. Avia oido que el avia hablado muy
mal muchas cosas de el, luego tuvo en poco la acusacion. El que se lo avia
dicho porfiava sin mudar el senblante, buscando la causa por que no le dava
credito, afiadio que no creya que no le amase en igual grado aquel a quien el
amava en tanta manera. A la postre, como aquel mal onbre que senbrava las
enemistades, uviese dicho que juraria que era ansi lo que dezia, porque no se
disputase sobre su juramento falso, afirmb que Xenocrates nunca avia de dezir
aquellas cosas, si no juzgara le convenia que las dixese. » Valerio Maximo,
traduccion de Diego Lopez; Sevilla, Francisco de Lyra, 1632; al fol. 79· Otra version, delsiglo xv, puede verse en el ms. Kk. 17 de la Bibl. Nacional
de Madrid.
2. Escrito: lo que puede.

TRACTADO DE AMIÇlÇIA

51

erle; z el mesmo filosofo (Fol. 5° v.) en el octauo libro Ethicor .
dize : segun la perfecta amiçiçia por muchas razones se ha de
ganar mucho el amigo z non amar a muchos de vna amistad, synon plazer aquel muchas vezes. E el Seneca, en la epistola que
comiença longum rnichi, segun lo reza el Baldo, doctor muy sotil,
en vn tractado que hizo de la amistad, quel amigo se ha de poseber en el coraçon, c: nunca se ha de apartar del, z ha de ser desseado continuo uerle. E assy dizia el Sçipio Africano nengun peste '
ser tan firme nin mayor quel amigo z su honor. Ca muchas vezes
entre los muchos amigos vebemos grandes enemistades, c: non
quiere otra cosa dezir, sinon quel amigo, con quantas fuerças pueda, procure el bien c: honrra de su anùgo por que non le pierda,
c: esto faziendo le sera firme peste 2 z que non le esperimente por
nesçessidad z miseria. Segun quiere la sentençia de aquel varon
que dizia: Sy quieres prouar al amigo, ponte en neçesidad c: miseria. Ca esto es herror manifiesto dexar el amigo de tener amistad
por ninguna causa. Assy lo muestra c: dize el Socrates, donde
dize : con los amigos luenga amistad c: breues oraçiones, z obras
z no palabras; z el Tulio, en el primero de los ofiçios, dize que
ninguna conpafiia o soçiedad es ta! como con los buenos z virtuosos amigos en obras z costunbres tener luenga amistad z familiaridad mucho conjunta. E el Boeçio, in tercio de consolacione, en la
fabula de Orfeo, dize : no ay mayor ley de amor que amar luengamente a su amigo. z el que ama ha de tener themor, porque! amor
con el themor, han de tener conjunçion z conpafiia, z han destar
conjuntos en vno, ca non es amor donde no ay themor, nin se
puede llamar perfecto.
Asi lo muestra Salamon en el Eclesiastico, ecle. xxv. : en tres
cosas foe plazible mi spiritu, las qua.les delante de dios son
aprouadas z por los honbres queridas z tenidas: La concordia de
~os parientes; El amor c: themor de los amigos, z el varon z la
I.
2.

Tal vez : poste.
Tal vez : poste.

�53

FERRAN NUN EZ

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

muger que se dan a consentirniento. E todo esto es querer mostrar la perfecçion del amiçiçia z yerda&lt;lera vnion z arnor, de b
que este tracta&lt;lo prosigue. Ca, como dize el Tulio in lib1'0 de
amiçiçia, i!_ que cosa tan stable, que çibdad tan firme es que con
odio z discordia non se hunda z destruya z diuierta? z el Salustio,
in ]ugurtino: con la amistad z concordia todas las cosas juntamente z yguales creçen. z con la discordia o odio maxime se deshazen z pierden. E segun dize el Jeronimo en el primero libro
contra Jouiniano, que los griegos entre sy discordes, loauan a
Malamoro su enemigo, porque concorda a tres en vna casa: concorda al marido, z a la muger, z la sierua, z dize que si este par
tan poco es de loar, quanta mas seria z meresçe ser en exçelençia
loado el que al prinçipe con sus su bditos, z a vn pueblo con otro,
z muchas vnos con (F. 6° r.) otros en amor z vnion concordase,
z con esta concuerda el Iulio Çesar, i se trabe in Policrato11e ',
libro. x. capÏo. iij., que non se pnede ilamar cauallero el que non
trabaja que los caualleros esten en amor, z en paz z concordia, z
desto le loan que siempre allego a si gentes, z dixo: venid, z
nunca despidio nin dixo yd, queriendolos allegar a si con aquella
amistad honesta z buena de que propiamente se dize amiçiçia,
que avnque enperador z de grandissimo estado, siempre
quiso seguir la virtud del amiçiçia, z ponerse con sus
caualleros i gentes en ella, non vsurpando la vana gloria,
que es inproprio a los grandes sen.ores z de grao estado. i 0
quan digno de Joar se puede dezir el cauallero, que apartada
toda cobdiçia z interese en lo honesto z bueno, procura z

obra ta! ofiçio como este, que es amar z vnir z concordar los
muchas! z para mayor fuodameoto desto, el santo doctor, en el
lugar alegado, en la question veynte z seys, en el articula
segundo, dize, rrefiriendo al filosofo en el nono: Que çinco cosas
se rrequieren para verdadera amiçiçia: La primera, quel amigo
quiera para el amigo bien. Lo segundo, que quiera que sea z
tenga ser z biua. Lo terçero, que se tracten z biuan juntos delectablemente. Lo quarto, que con deliberaçion elegido el amigo,
non se pierda z se conduela con el i con el se gaze, que quando
su amigo rouiere mal, que lo sieota z tenga, z guando bien z
plazer, assi mesmo. Lo quinto, que dure la amistad z par casa
aigu no se pierda, pues es virtud ; z asi concluye el santo doctor
con el filosofo en el alegado lugar quel amar es propio acto i
muestra de la dilecçion, que es acto de la voluntad tendiente en
bien, con vna vnion al amado que non esta en la beniuolençia ;
z lo que pertenesçe al amiçiçia prouiene del amor que tiene el
honbre consigo, z ta! lo ha de tener al amigo, porque ha de ser
talque lo quel mesmo guiere para sy, eso mesmo quiera para el
amigo, z esta es la vnion del afecto; z en el primera qsito 1 dize
que no ay mayor virtud del amor i verdadera amiçiçia, que
preuenir al amado que ame el honbre primern, i obre por que
sea amado z con el obren. Asi lo dixo el glorioso padre de vuestro
progenitor en sus prouerbios: ama e serar amado 2 • Catad aqui la

r. Alud:e al Opus preclarum de nutis mrialium et vesl(!fiis philcsophorum, q11od
Policralicon dicitur, compuesto por Juan de Salisbury (1r10-1180 ?), obispo de
Chartres. La primera edici6n de esta obra se imprimi6 en Bruselas, hacia 148o,
segun La Serna Santander (Dictionnaire bibliographique choisi du qui11ziè111e sircle,
III, 340).
El PiJlicratiëoii fué libro conocidisimo en los sigles xm, xrv y xv: Pedro
Diai: de Toledo y Clemente Sânchez de Vercia!, entre otros rnuchos, lo mencionan.

1.

Quaesito (?).

" Fijo mio mucho amado,
para mientes,
e non contrastes Jas gentes
mal su grado;
an1a e seras amado,
e podras
fazer lo que non faras
desamado. )&gt;
(Obras de Don bïigo Lopez. de M.endoz.a, Marquis de Santillana; ed. Amador de
los Rios, Madrid, 1852; pag. 29).
2.

�TRACTADO DE AMIÇJÇIA

probaçion quel santo doctor &lt;lize t esto mesmo dize sant Agostin
en el libro que hizo de catbez.izandis 1 rudibus, z; en esto concuerda
el filosofo en el octauo, que tiene que ma ·or z; mas verdadcra
esta la amiçiçiaenamar, que nser amado. Eavnquecnalgodcsto
salga del proposiro començado z me detenga, porque paresçe
por ello la vcrdadera amiçiçia, non passarc sub silençio lo que
arriba dixe de tan noble enpcrador z; de sus marauillosos :mos z; de
su gloriosa memoria que ta! amiçiçia con LOdos renia faziendo las
causa (F 1. 6° v.) agenas . uyas, pro ·ur;1ndo vnion z; amor z concor&lt;lia, que ofiçio tan mar,milloso quien lo podra dezir, pues que
este mesmo fuedesde ab e/erno de nucstro Dios infiniro obrado z;
querido; por sto nuestro rredemptor rresçibio carne humana z
sufrio crudeli ima passion querîendo hazer Ynion z; paz entre
Dios z honbrc, i entre hoobr z; honbre, z entre ange! z; honbre
t de dos pucblos diuisos vno, z; quitar las di ensiones z; di.cor&lt;lias de todos, z ponerles en verdadera amiçicia, .: de~to innumerables autoridades se podrian rraher de b sacra scriptura, ë:
paresçen en sus marauillosas obr~ des&lt;lel prinçipio de la creaçion
ë: rreparaçion fasta oy, que dexo de contar por la prolixidad t
por non distraher a los lectores del comienço t medio por mi
prinçipiado. Pero solo vn poco dire, en que se mostr:1.ra mucha
esta \'era Yera amiçiçia, que es \'n decreto del glorioso Jcronimo,
que mucha rrcprueua a· Ios que ponen odios z- sien bran zizania
en la mies de Christo t entre los proximos coma Luçiferos, queriendo vsar por su ofiçio por gue cayo, t es decreto marauilloso
,dize que los que sienbran odio z ziz;miaen la mies de Christo,
por contençones la queman, z- faze en ella jnçendio, tomando el
ofiçio dd cncmigo del honbre, querien&lt;lo diui&lt;lir la inconsutille
vcstidura suya, z- corho fue yndiuisa la despedaçan t rronpen, t
disierpan la vina coma rraposos en los lagos escondidos syn ~"Ua;
donde concluye que es qua i inposible que estos cales alcançen
nin vean aquel dulçor de la gloria empircrna, , ynuocando con
el sal mista en cl almo setenta i rres, dize : Ieuantese dios todo
pod roso, t jud!,'1.le su caus:t, pue estas tales quieren disipar z;

S5

destruyr la vnion christiana quel vino, queri.eodo fazer vera
amiçiçia por su sagrada pasion. Asi lo dize el Apostai : el es ese
mesmo pars nos/ra que hizo de dos cosa vna, desatando la pared
que en medio staua, z; sacando la materia dcsaco las enernistades,
z Je tanta diuj ion paz z vn nueuo honbre, rr conçiliando a dos
en vn cuerpo. E en los ctos de los postales dize : Dio non
es ac ptor de personas, mas en toda gente obra. E sant Juan, en su
canonica, marauillosas cosas de paz z; dcsta rnion z amor escriue.
z; scgun el Prosper escriue, por eso fizo Dias todas las cosas rredon·
&lt;las z- a figura çircular, por que se demostrase su vnidad ë: amor.

Il
E dexando esto, tornando a mi proposito, pues es ya declarado
lo primera, que fue que cosa es amiçi ia, vengamos .a ~esçidir lo
segundo. z; a esto trahere la opinion de los docrores 1unstas, pues
fue este mi fundamento, z auemos primera de saber de donde se
diriua la beniuolençia, z la benifiçençia, z la amiçiçia, t esta
dizen que se diriua o tiene prinçipio deste aduerbio bene, z non
del prononbre bueno, del quai desçiende z: se di~iua la beniuolencia. Ela amiçiçia es diriuada o (Fol. 7° r.) se &lt;liriua deste verbo:
; 1110, o auwr, que es nonbre, t esta conprehende en sy todo lo
otro, z es perfecto en el, z ase de rregular que se ame o se de
serrun la rrazon z- la medida de los meresçimientos que presçeda~, z- non vitra nin mas de lo que mer ·çen, ta quien se deue
dar este amor o amiçiçia z; ha de hazerse bien aquel que bien
quiere z dessea bien hazer, segun el merito. E dizen los docto.res
que si des ea o da bien a quien non lo meresçe, non_ es bien
qm:rer ni segun el rrecto juyzio si rrazon se puede dezir amor,
porque bien querer o bien fazer a los que lo meresçen, es_loable;
asi lo detenninan. z lo otro, que es amar o querer a qu1en non
lo meresçe, es perder t non amar. Asi se trabe en la ley jilius
familias. De que se sigue que la beniuolençia z la benifiçençia
non e ta en b rrazon o en la mentè, saluo el amiçiçia z amor,

�FERRAN NUNEZ

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

porcJUe es virtud, lo qual es habito z acto firme de que se viste
la voluntad, acatando en el juyzio de la rrazon. Ca la virtuJ
siempre esta en el anima del virtuoso varon, z las virtudes del anima hacen virtuoso cuerpo, z las operaçiones
del, segun el autentico de monachis, en el parrafo si vero; z asi
determinan el cognosçimiento de donde se deuen diriuar la beniuolencia z benefiçençia z amiçiçia, en que non es nesçessario de
mas alargar, porque es sin vtilidad.

nin con ellos tenemos fruyçion (Fol. 7° v.) ni bien comun,
saluo solamente el prouecho que dellos conseguimos para nuestra
sustentaçion, z por esto non puede caher en ellos este amor que
es amiçiçia, mas solamente la beniuolençia. Ca nosotros, con
sola ia criatura razonable, que es seîiora de todo, somas thenidos e deuemos comunicar z fruyr z partiçipar en bien, que es
amor de amiçiçia. Assi lo dize el enperador christianissimo en la
ley alegada: porque la humana natura entre todos los honbres z
criaturas rrazonables constituyo vna cognaçion, por la qual nos
deuemos bien querer z comunicar z fruyr en bien. Assy lo determina la ley viij, z entre los bonbres z criaturas rrazonables conuiene por benefiçios ser ligados z tener comunion de bien z virtud, que es la amiçiçia, segun la ley serutts z la ley incomendato.
z por esta rrazon, que es singular en la humana natura, constituyo cognaçion entre las c, iaturas rrazonables. Asi lo determina
el Bal. z el Bartulo en sus tractados que desta materia hizieron,
z mueuen la quistion si a los infieles moros z judios auemos
de amar, z determinase que a todas las criaturas rrazonables,
avnque sean infieles z alarabes, z a los enemigos es deuida
humana beniuolençia z amor, por la rrazon de la cognaçion que
la naturaleza constituyo entre las criaturas rrazonables. E el santo
dotor santo Thomas dize que les es deuida vna dilecçion que proçede de la viçeral caridad, que es amor de anùçiçia. E dize que
somos thenidos a les subuenir en sus nesçessidades, porque son
partiçipes z comunican en nuestra naturaleza. E esto ha fundamento de vn decreto q ne comiença caritas, de que los doct&lt;;&gt;res
notan z concluyen que por esta rrazon el hijo christiano z fiel es
thenido de alimentar z subuenir en las cosas nesçessarias a su
padre, avnque sea ynfiel z de qualquier seta, e dize que avnquel
ynfiel sea malo z contenptor de la verissima ley nuestra z fe de
Christo nuestro dios infinito, non por eso dexa de ser padre,
segun el testa de la ley Si uero contingerit. E avnque en esto algunos doctores tengan diuerssas opiniones, la verdadera es quel hijo
christiano o fiel es tenido de alitnentar z subuenir antes a su

III
Porque veamos lo terçero, que fue a guien es deuido el bien guerer c amar, zen estoconuiene hazer algun rrepos0, paraauer verdadera notiçia della, porque esta es 1o mas nesçessario a mi proposito
z al bien comun de todos, z en esto asy mesmo, dexadas las opiniones de los otros doctores z que en esto algo hallaron, seguire
solamente la de los juristas z lo que en esto determinau, avnque
algo dire de otros. E lo que los doctores juristas dizen çerca desto,
es quel bien querer z el humano amor o beniuolençia, es deuido
a aquellos a que la rrazon humana nos dicta o enderesça a bien
quererz amar, porque, segun derecho, deuemos querer z seguir
loque la bu mana rrazon nos dize o dicta z enderesça a bien q uerer,
segun se nota en la ley non tantum, z en la ley si cui, z en la ley
humanitatis z quedam. E interrogan los doctores sy por esta rrazon deuemos bien querer z terrer beniuolençia a las animalias
brutas, z dizen que por que son para sustentaçion de la nuestra
humanidad, a la quai es prouechoso, z fueron criadas por Dios
para vtilidad de la nuestra humanidad las brutas animales_, z aues,
z peçes, z las otras plantas, segun la ley pecudum, por eso que
largo modo se puede dezir que les es deuida humana beniuolençia, avnque con ellos non pueda estar amiçiçia, porque non tenemos ni participamos con ellos en comunicaçion alguna, nin les
deuemos querer bien por ellos mesmos nin por ellos ser buenos,

57

�FERRAN NUNEZ

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

padre infiel z non creyente verdadera fe, que non a otro que sea
de su fe o christiano. E la rrazon desto es lo que dize el cardenal Hostiense, que dize que dederecho natural es que los hijos a
los padres z parientes, quando son pobres o menguados, son thenidos de les alimentar z subuenir, z en esto nioguna ley haze
diferençia de fiel e jnfiel. De que se sigue que la ynfidelidad non
libra al hijo de ser thenido de subuenir al padre z parientes en
las nesçessidades, z de les alimentar. E por esto dize Inoçençio,
papa quarto, singularissirno doctor, en el capitulo (Fol. go r.) quod
super, que como todos los ynfieles îudios z moros z otras gentes,
por la creaçion son ouejas '.de nuestro rredemptor Iesu, el qual,
con este amor, sinplemente z sin distinçion alguna, dixo a sant
Pedro, prinçipe de los Apostoles: apasçienta las mis ouejas, en que
· se entienden, segun la c_rebaçion, por los ynfieles assy como por
lus fieles, z sin causa non les deuen nin podemos priuar nin tomar
sus bienes z cosas que poseen, z en esto ay larga contention
entre los doctores, z por el tiempo ser tal que para la guerra de
los mores conuiene, detenerme vn poco a lo determinar, avnque
algo salga del proposito. Esta quistion se mueue por los doctores
en diuerssos lugares, z disçidela el Oldraldo, doctor famoso 1 , en
vn consejo suyo, z arguyela por la parte negatiua, que non les
pueda ser fecha guerra sin pecado, nin tomarles lo suyo, por
estas autoridades z rrazones: Dize que estando los rnoros, enemigos de nuestra fe, en paz z en quietud, coma estan los que
entre nosotros moran, non les deue ser ynduzida guerra ni tomado
lo suyo, segun el teste de la ley. z lo que nota el Ynoçençio
papa en el alegado capitulo super hiis, porque non deuen ser conpellidos nin menos forçados a que rresçiban 1a fe nuestra nin se
bautizen, z allega lo que dize el Apostai a los rromanos, que ya

59

nunca guerra nin batallas carnales se han de hazer. E lo que dize
Malachias profeta: desdel nasçimiento del sol fasta donde se pone,
grande es el mi nonbre en las gentes, z en todo lugar es santificado z me es ofresçido sacrifiçio linpio. E lo que dize Tholomeo
en el prologo, i lo que se dixo por los santos Apostoles : constituye los prinçipes sobre toda la tierra, z su poder non fue
artado o limitado, mas dilatado z aopliado del mar fasta la mar
z del rrio fasta en fin del mundo . z dize que, segun la opinio~
de algunos, los prinçipes z rreyes christianos pecan en rresçebir
dellos tributo; mas por la parte afirmatiua, que sea liçita la
guerra z santa, z que se deue bazer avnque ellos quieran paz,
trahere muchas auctoridades, z breuemente, por me reduzir al
proposito. E la primera es de Ordo' en vn sermon, z es vn
decreto. Don de dize que todas estas tierras que los moros z jnfieles tienen, asi la parte de oçidente como en el oriente, todas
fueron de cbsistianos z siruieron a Christo hasta el tiempo de
aquel seudo z de mu y suzia simien te Mahomad. z asi por lo rrecuperar , aver es liçita z muy permisa la guerra. La otra rrazon
es que, avnque esten en paz, hazenlo por non poder mas. Ca
segun enemiga tienen de prinçipio contra nuesta fe, quando
pudieren non la çessaran de hazer crudamente, z porque es premissa la defenssion, liçitamente los jnpugnan. Porque, segun dize
el maestro de las estorias scolasticas 2, sobre la fuga de Agar que
se escriue en el Genesi, a los &lt;liez z seys, de su padre o prinçipio,
que fue Ysmael, lo traben profetizado, que le fue dicho: la su
mano (Fol. go v.) contra todos z todos contra el, z en la region
o prouinçia de sus hermanos finco o puso tiendas, lo qua! todo
se dize por los mores, z asi paresçe que ellos guerrean comra todos
z todos contra ellos. E por esto es liçita z permissa la guerra
contra elles, porque se espera que, quando elles puedan, turbaran
la paz z non la guardaran. La otra rrazon es' z muy- suficiente
. ,

1. Oldradou Olrado, celebre jurisconsuJto de la escuela de Bolonia (siglo
xrn). Muriô en Avignon, en 1335.
Consultese sobre las cuestiones en cuyo examen entra ahora el Doctor, el
excelente libro de E. Nys: Les origines du droit international (Harlem, 1894).

t. ?
2.

•

Pedro Comestor, el autor de la Historia scholastica .

�60

FERRA.

NUNEZ

porque es muy çierto que toda la prouinçia que ellos posehen en
Espaôa tiranameote la tienen, porque primero fue de cbristianos,
z par batallas z guerra la ocuparon z tienen, z alli ouo yglesias
&lt;lande Dias nuestro sei'ior se siruia, z las destroçaron z perdieron z despojaron por nuestros pecados, por permission diuina. E
coma los fieles christianos bagan la guerra para recobrar lo perdido z de qne por violençia somas despojados, liçita guerra z
santa (es] z todos los testas z santos doctores la aprueuan, pues
que justamente se haze qualquiera cosaque par defeusion se haze.
z esta tiene el Ynoçençio en el lugar alegado. Otra rrazon es z
muy sati! porque estas moros non se pueden dezir ouejas de
Christo, sinon bueyes z bestias canpesinas. z por ellos se dixo,
pues que coma bestias que caresçen de rrazon, dexado el verdadero Dias, adoran z honrran propiamente ydolos. Asi la dize el
maestro jn storia, z propiamente los moros se han de llamar bestias, pues quel padre suyo Ysmael fue Uamado por dios onager,
que significa bestia, y fue muy rrazonable, segun lo dize Merodio, porque despues del auia de ser que los que del proçediessen
toda rrabie o yra, z sana, o furor de todas las bestias auian ùe
tener, z toda mansedunbre de otras naçiones auian de ser conquistados dellos, z dize. E assi ha seydo ; en los lugares sanctos
han mueno z truçidado a muchas, z fecho grandes crueldades
como bestias fieras. E por esta se dize que lo que dixo Abraham
a Ssarra quando se le quexo de su sierua Agar, que dixo : tu
sierua en tu mana es, vsa della. Assy lo dixo Moysen
en el Genesi, xvij., z figuratiuamente por Sarra se entiende la
santa yglesia militante, que sirue a Christo z es libre, z por la
Agar sierua la maldita seta de Mahomad, pues que della traxo
origen o nasçimiento. E asi la yglesia puede vsar z ma.ndar esta
como a sierua maldita, dexandola z menospreçiandola coma
Sarra hizo a agar, z asi se tiene por conclusion ser muy liçita z
santa z premissa la guerra, z par.1 ella qon solamente las cosas
profanas se deuen z pueden tomar z œnder, mas las dedicadas
al culto diuino, z asi &lt;lesta quistion me expido, avnque ocra

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

61

razon se dize que non pueden tener dominio o sefi.orio nin menos
juridiçion en lo que posehen z tienen, z quien quiera ge la
puede ocupar, que es contra la opinion del allegado papa, que
dixo que posehen z que non (Fol. 9° r.) ge los pueden priuar,
porque el Hostiense cardenal, z la comun opinion de los doctores
siguen aquesto. Contra el Ynoçençio, dondeel dize que si alguna
tierra de algun seiiorio todos fuessen moros, z se tornasen a la fe,
deuian obediençia al seôor moro z subjecçion, en esto le contradizen, z tienen que non, porque non tienen Jominio ni juridiçion, ni son capaçes della, z dexando esto, tornando al proposito,
avnque les sea deuida a los ynfieles esta beniuolençia, que se
toma en larga manera, espeçial beniuolençia es deuida z se deue,
z somos tenidos de bien querer a los que son fieles z participan
en nuestra fe, a los quales primeramente z mayor z mejor es
deuido el amor t beniuolençia, z mas a los de vna patria o lugar
que non a los estranos ë: de otra tierra, avnquel Baldo dize que
por ser todos obedientes a la madre santa yglesia, non deue auer
diferençia de vna tierra o de otra, salua ser fieles z christianos, z
escos todos se pueden llamar de vna patria çibdadanos, z ha fundamento &lt;leste dezi r de la ley primera en el prinçipio de la suma
Trinidad, z asi mesmo entre los fieles z de vna fe, ay perssonas
a quien es deuida mas espeçial beniuolençia z amor, z estas son
los parientes o conjuncos por conjunçion de sangre, o que son
de vn linaje z debdo, z mas a los mas propincos que a otros, por
la mayor partiçipaçion z conjunçion. z a estos somos mas tbeniùos &lt;le amar z tener beniuolençia, por mayor vnion z porque
todos los de vn linaje hazen z representan vn cuerpo segun la
ley. Ela honrra z la ynjuria fecha a vno de vn linaje z de los
pariences, es fech I a todos z a cada vno dellos, z por esto esta
de ùerecho çiuil que los parientes auian de consentir en el casamiento o matrimonio de su pariente, z auian de ser llamados
a ellas, ë: el fijo non podia casar sin consentimiento de su padre,
segun la ley j11 bellv. E assy, ocurriendo nesçessidad, antes somas
thenidos de subuenir z socorrer z amar a los parientes que a los

�FERRAN NUNEZ

l

j

estrafios, z mas presçipio ' amor de beniuolençia les es deuido.
z esto se ha de entender z limitar a los buenos i virtuosos, z
non a los viçiosos z malos, porque mas deuemos amar z
tener beniuolençia al amigo que tenemos en verdadera amiçiçia
'l amor, z es bueno z virtuoso, que non al pariente z muy propinco. z es la rrazon desto, porque la amiçiçia ha de ser por
razon de la virtud i de lo honesto i bueno, segun que arriba es
dedarado, z esta es la vera amiçiçia, la que es por rrazon de la
virtud. Porque aquella es la mas perfectissima z- mas obtima z
mejor que ninguna cognaçion nin debdo, z el que ama a tal
amigo, es amor de mayor perfecçion que non la cognaçion o
debdo, z assi de mayor querer z- amor, porque el que ama a
su amigo ama a sy mesmo bien z buena cosa, segun la ley alegada late z ay la glosa, z a esta dilecçion z amor que proçede
(Fol. 9° v.) z desçiende z se deue de la cogn:1çion, es deuido solamente a los desçendientes por lignea recta, z a los naturales, z
non a los bastardos z por ylliçito coyto auidos, porque es natural nonbre, segun lo dize el cnperador z lo nota el Bartulo en la
ley pronunçiaçio, de donde quieren dezir i ynferir quel bastardo
non se puede dezir de la casa nin generaçion del legitimo, porque en esta cognaçion que se deue o proçede a los bastardos,
muchas vezes interuiene fraude 'l mistura d; otra sangre; assy lo
presume la ley, avnque desto es larga contençion en derecho, z lo
dexo por seguir lo començado. z viene la quistion -a quien es
deuido esta beniuolençia o amor de amiçiçia, i como auemos
dicho que espeçial beniuolençia es deuida a los de vna generaçion, z entrellos ay personas mas conjuntas, a las quales se deue
rnuy mayor beniuolençia z arnor, como es entre el padre z el
bijo, z entre los herrnanos, entre los quales es mayor conjonçion
'l vnion·de sangre. Ca el padre 'l el hijo son vna perssona; assi
lo quiere la ley; z- los hermanos, segun la opinion de los logicos,

I.

Asl, por preâpuo.

TRACTADO DE AMIÇIÇXA

cada vno dellos es el otro, i entre si mesmos son vna cosa. i
esto ha fundamento de derecho en la ley frater a fratre. z es de
saber quel padre mas ama al hijo z en mayor dilecçion z amor,
que non el fijo al padre, porque el padre lo ama con10 cosa suya,
z es mas çierto i sabe la causa mas cierta del amor, que sabe auer
engendrado al fijo, que non por contrario. t el padre, assi corho
de quien proçede, ama al fijo, z el fijo al padre cori10 de quien
salio, que es menor dilecçion; assi lo quiere la ley. z por estas
dos postrimeras rrazones tienen algunos que la madre ama mas
al fijo quenon al padre, porque es mas çiertaser madre, ide la
madre salle el fijo en entera forma, i antes que salga es parte
de sus entranas, z esta ha fundamento de la ley primera, i amos a
dos, el padre z- la madre, aman al fijo luego en el stante que
nasçe, i el fijo non ama a los padres fasta que es capaz i ha los
an.os de pubertad, en que puede amar, porque antes es ignorante
de todas las cosas que crehe. i assi los parientes son mas thenidos de amar que non ser amados, z avn porque! amor desçiende
'l non sube. E en esfa dilecçion z amor esta quel honbre se deue
amar a ssi mesmo z de mas perfecto amor que non a otro. z por
esto, z porquel ser natural del honbre se conserua en los hijos,
deuen ser masamados que otra cosa.
E en esto mueuen los doctores vna quistion siDgular, i es si
el padre viese a su fijo en estrema nesçesidad de morir, z a su
padre mesmo en aquella nesçessidad extrema, a qual auia de
subuenir z acorrer z librar. E rresponden i dizen assi : que antes
deue librar z subuenir al fijo propio que al padre, avnque este
en extrema nesçessidad, z esto por la virtud del amor de amiçiçia, z dizen que acatados los benefiçios que del padre se rresçiben, que es el ser, que es (Fol. IO r.) la mas perfecta z mas
noble cosa delhonbre, deuria antes subuenir al padre z- lo librar,
'l antes le ayudar que al hijo, z antes al padre que non a la rnadre
deue amar, porque en el natural origen o nasçimiento, muy mas
poderoso es el prinçipio del padre que non otra cosa, porque es
agente o hazedor, z la madre padesçe, z por simiente del padre

�FERRAN NUNEZ
TRACTADO DE AMIÇlÇIA

que da forma a la cosa z da el ser. E por esto dizen los actores
que suele semejar el fijo antes al padre que a la madre, segun se
nota en la ley quot si nolit, z por esta sufre el padre por el hijo muy
mayores cargos que la madre, z avn de derecho non es tanta
vnion o conjunçion entrel marido z la muger como es entre el
padre z el hijo, excepta copulla. z por esta rrazon la ley consiente
juyzio entre marido z muger, z non entre! padre z el hijo sinon
en caso singular, z es marauillosa doctrina para acatar z mirar el
debdô que es deuido del 6jo al padre z por contrario. E aqui se
nota vna breue question que ynterrogan los doctores : Si el fijo es
tenido mas de obedesçer al prinçipe z a su mandado que al padre
z a su mandado, z determinan que en las cosas que pertenesçen
a la gouernaçion de la casa, deue obedesçer antes al padre, z en
las cosas que pertènesçen a la cosa publica z gouernaçion della,
antes al prinçipe z a su mandado, segun se nota en la ley penultima de postulando, z notando por singular exenplo de vn senador
que se llamo, que ' estando en el senado su padre, se asento
ençima del z foe redarguido del padre, z escusose, z Jixo que
alli como senador mayor que su padre era en la gouernaçion ùe
la cosa publica, z en la casa mayor su padre, z asi fue escusado
de la jncrepaçion.

çipio, quel fruto es que bien queriendo seamos bien queridos, z
rresçibamos bien de aquellos a quien lo fazemos . E asi se nota en
la ley set z silex, zesta tal rremuneraçion se haze sin coherçion nin
premia sinon de voluntad libre, z por eso se haze al querer o arbitrio del rremunerador, z non del da&lt;lor, porque aq uel que rresçibe el
don o es bien querido, mejor cognosçe el fruto o prouecho z vtilidad de loque rresçibio o bien quiso, que non el dador. E por
esto en la ley de la benifiçençia sienpre se ha de mirar que se
conpense el bien z don rresçebido o amor z buena voluntad por
ygualdad . Desto es testo de ley en la ley sinero non remunerandi,
de lo qual se collige z concluye la disçision de la quistion que
abaxo se ' proporna, que antes deue socorrer o ayudar al ome
que libra al (Fol. IO v .) ome de morir, que no al padre, avnque
esten amos a dos en vn peligro, porque en le auer librado de la
muerte primero, meresçio que le rremunerase z librase de otro
tal peligro, z asi se deue conpensar z pagar. Ca como meresçio
en le librar primero a el del tal peligro, assise con pensa z paga, z
asi como meresçio deue ser pagado, como seria pugnido en loque
delinquiere, segun se nota en la ley ne quis. z asi se desçide lo
quarto, quel fruto del amor es ser bien querido, bien queriendo
z amando.

IV
E asi, tornando al proposito, auemos de tener quel amor antes
es deuido a los conjuntos que a los estraii.os, z antes a los amigos virtuosos que non a los conjuntos en sangre, porque por
razon de la virtud esta entrellos mayor conjunçion de amor,
z por lo honesto z bueno, z non por lo delectable segun
es alegado. z asi fasta dezir z declarar çerca de lo quarto, z es
que efecto trabe el amar o la beniuolençia, z que prouecho della
se consigue, z a esto rresponden los actores de quien tome prinI.

Hay un espacio en blanco en el codice.

V
Lo quinto, que fue sy, mudada la condiçîon o estado del
amigo, se puede dexar su amistad, en que se conprehende si la
mutaçion viene por aduersidad o por otra manera, si sera causa
de dexar al que ama z perder la amistad o amor. En esto di~en
los doctores, alegandome a la conclusion por la prolixidad, que
si el amigo mudo la condiçion enuilesçiendo su perssona, z corron_pio las buenas costunbrés que renia, z se mudo de . bien en
non tan buenas obras, z non se quiere corregir ni tornar a bien
r. Despues de se, testado : (( prueua ».
Rt11ue hispa11ïqw.

XJ\1 •

�66

FERRAN NUNEZ

obrar, que en este caso se puede apartar z quitar la amistad z
amor, i dexarlo, z non en otra manera nin causa nin modo
buscado. Ca sy lo puede corregir el amigo, z ouiarlo z apartarlo
del mal o viçio,, es tenido de le ayudàr z sostener, como seria si
menguado fuese de bienes. Ca por la ynopia o pobreza o miseria
en que cayese, en n.inguna manera lo puede dexar nin se apartar
de su amistad; es caso de ley en la ley terçera. E asi mesmo
separada el anima del cuerpo, z fallesçido quanta a este mundo,
z passado &lt;lesta vida el amigo, preguntan si es justa causa por
que se deue dexar su amistad, z si son tenidos los amigos de tener
aquella mesma con sus herederos del amigo. E a esto responden,
en espeçial el Bartulo en la ley vnius, donde non mucha bien lo
disçide, mas de lo ya dicho se nota que passa la amistad a los
herederos del amigo, en aquel grado que estauâ con el defunto,
en quanta se llama vïrtud de amiçiçia z amor que ha de durar,
z es deuida la rremuneraçion del padre de ley natural, segun se
nota en las leyes alegadas. z assi se desçide la quinta interrogaçion. z porque antes de la conclusion los doctores mueuen vna
singular guistion, de que ya hize mençion, conuiene aqui jnxerirla, z la quistion es si. acaesçiese que vn ome estouiese en tan
gran peligro que non se pudiese escusar de morir, z alguno le
diese rremedio z librase, z por casa este que asi le libro, puesto
en estrema nesçessidad, z su padre de aquel que fue librado o
eximido de la muene en aquella mesma neçessidad, segun ley
de amor z beniuolençia, aquel seria mas thenido de subuenir z
librar al padre que lo engendro o a este que le libro ,de la muerte.,
z porque es hermosa question para saber quanto somos thenidos a aquellos de quien bien rresçebimos, oue causa de la disçidir agui, z avnque en algo los lectores se detengan, les suplico
sin yncrepaçion nin fastidio lo acaten, pues que non falle vn
punto de la materia i uiçiada; z lo que los doctores en esta question en lugares bien ignotos dizen para la disçidir, presuponen
primeramente que ninguno pueda ser conpellido (Fol. I I r.) ni
apremiado judiçialmente a defender a otro, z par la defenssa liçi-

TRACTADO DE AMIÇIÇIA

tamente se puede exigir z lleuar dinero; est testo de ley. Mas
segun vna humana beniuolençia, de la qual asaz vezes auemos
dicho, si non lo defiende peca. Glosa es hordinaria que lo determina, z segun ella se entiende z limita la ley, avnque dizen los
doctores que par· ayudar o defender a otro ninguno es tenido de
se poner a peligro de muerte, z a esto solamente es thenido el
sieruo al sen.or, z non a otro alguno. Ca al sieruo se
jnputa culpa de derecho, z grande, si non defiende a su seiiot
poniendose por ello a peligro de muerte, segun s_e trahe en
la ley primera ad Sellenianimi, porque, segun es ya dicho z
declarado, cada vno es thenido de se amar a si antes que a otro,
en tanto que a ninguno conuiene ponerse a peligro de morir sin
grandissimo cargo z pecado, avnque sea permitido que en su
defension, con aquel moderamen permiso, puede, se defendiendo,
matar. Esta tracta el santo doctor en la segunda parte del segundo, en la quistion sesenta z nu eue, en el articulo final ; z
dexando esto z tornando a la quistion rnouida, en la disçision
della dize que paresçe que non es thenido de subuenir al padre,
antes deue ayudar z librar al que le escapo de tan gran peligro;
z han fun&lt;lamento &lt;lestas rrazones: ninguno puede dar nin fazer
con otro mayor heniuolençia nin amor que darse a si z ponerse
a peligro de muerte par el. zeste es el mayor amor z beniuolençia.
Bien se signe que le es deuida mayor rremuneraçion que non al
padre, de que se collige que si sin peligro de muerte le libro,
antes deue subuenir al padre que non al que le saco de aquel
peligro. E ponen otra razon o exenplo el patrono o el seîior que
libra al esclauo de la seruidunbre, z le da libertad; este asi libertado, en caso de nesçessidad, deue socorrer z ayudar al que asi
le dio libertad que non al padre proprio. E quanta diferençia sea
librar de la muerte o de la seruidunbre, muy notorio es que
mucho mas se deue al que libra de la muerte. E la diferençia del
tal liberador coma es el que le libro de la muerte, muy mayor
z mas de loar es que la benificençia del padre o quel benefiçio
resçebido del padre, ca los animales brutos la tienen, que quieren

�68

FERRAN N(JNEZ

bien ~us hijos z los libran de qualquier peligro que pueden, z este
non t1enen a 1os estrafios. Iten dizen que mas liberal beniuolençia es z de volunta~ esta librar de la muerte que la del padre, porque el padre por s1 mesmo i por fazer a si gracia engendra z le
haze, z da ser al fijo, z el que le libra del peligro de su libera
voluntad, le saca de tanto peligro como era morir. z por eso es
mas vo!~nta:ia, porque muchas vezes engendra el padre por la
concup1ç1enç1a mas que par voluntad de generar. z asi mesmo
han fundamento, porque librar de tanto peligro coma es la muerte,
que es el vltimo -c mas terrible mal. Asi es mas o-raciosa benjuolençia z mas gozosa que non la del padre, porq0ue ~n la muerte
todo s~. consume (Fol. I I v.) z assi mesmo porque entre el padre
'l el h110 es vna gemma piadad que non es en el estrafio z asi
se determina 'l tiene par conclusion que antes es tenido de
subuenir al que le libro de la muerte que non al padre, z avn
dan por fundamemo que lo que se haze açidentalmente es
mas fuerte que lo que haze natura. par su curso z com.o
si . non fuera librado de la muerte ex jnpetu, todo quant~
a~1a obrado. natur~ 'l fecho yor distançia de tienpo se per. dia en aquel Jnstantt, mas es temdo de ayudar al que asi le libro,
que non al padre. z asi se despiden de la q uistion z di1ïçision della.
i _O quan marauillosa dotrina 7i exenplo se puede tomar de la
d1sçission &lt;lesta quistion, para conclusion &lt;leste breue tractado z
para exenplo de los que oy biuen, si sanamente lo miraren ! Ca en
los benefiçios
z dones z rnerçedes que de otros rresciben
.
. , rremuneraç10n que con pensa que seruiçios son thenidos de hazer, z
i quan~o z coma son obligados !, z j quanta ingratitudo z quan
mal cnmen es ser n?n cognosçidos a los bien fechotes z amigos,
z a aquellos de qmen han rresçebido benefiçios, mercedes z
dones !
·

VI

z tornando al proposito, detetminare Io vltimo z postrimero

TRACTADO DE AMIÇIÇlA

del tracta.do, que prouecho es thener amigos . E este prouecho los doctores dizen que es lo ya declarado, que bien queriendo seamos bien queridos, z dando 'l bien faziendo lo rresçibamos, z en esto nos rredugamos a ssimilar al prinçipio z buen
fin que esperamos, que es ofiçio del ynmenso Dios, que sienpre
da 'l nunca rresçibe. Ca este es el fin a que todos nos deuemos
dirigir. j O que fructo tan marauilloso ! i o que dulçor tanto
suaue como es amar, 'C aman do sienpre dar ! ; z con esta es loado
z tenido en veneraçion aquel marauilloso enperador Tito, que
dixo con grand amor a sus caualleros, vn dia que non auia hecho
merçed nin dada casa, dixo : este dia he perdido, en que non di
a ning1,.mo algo. j O dicho tan noble, z tan digno de memoria
coma este para los prinçipes, z duques, -c sefiores &lt;leste nuestro
tienpo ! E cognosçiendo yo, serenissimo z ylustre sen.or, z par
muchas esperiençias ya prouado, segun el prinçipio ya propuse,
quanto vuestra sefioria tiene &lt;lesta virtud de la amiçiçia z amor,
z: quanta 1a comunica cada dia con los que ama z como se da
todo a ellos, z com.o susçedio en el amor de los gloriosos padres
z progenie de donde viene, z como tiene en aquel amor a los
hijos de aquellos que sus padres quisieron z amaro~1, z commo
rtemunera los seruiçios passades z dura este amor par luengos
tienpos, z ha ofresçido z ofresçe su grandissimo estado a la deliberaçion de aquellos que ama, z para que cognosçiessen quanto
se deue por esto a vuestra exçelençia z son then.idos, z quanta
deuen seruir par rremunerar aqueste amor que vuestra sefioria
por sola la virtud cada dia obra, fue muy conuiniente casa z nesçessario a mi, que, continu.ando el seruiçio de vuestra jlustre
sefioria, si digno de me llamar sieruo puedo, de paner esta virtud en perpetuydad de memoria, par seguir esta doctrina de siruiendo rremunerar tanta merçed como en el amor que me mostro me hizo, 'l porque en otro modo tan exçelente non lo podia
memorar coma en escreuir, como sea (Fol. 12 r.) casa muy
çierta que entre todas las cosas de obras z actos mundanos non
se puede paner en perpetuidad de memoria, si se puede dezir

�70

FERRAN NUNEZ

como es en las letras. E por esto se diriuan las letras z se dizen
camino para los leyentes. z para esto fu ron buscadas, para perpctuar la memoria z parn los absentes hazer presentcs. z por esto
los primeras jnuentores de Jas letras se dizen juez s de las casas
passadas i signa o seiial de las futuras. A las qualcs fue dada
tanta fuerça, que por los abs ntes syn boz hablan, z el vso de Jas
1 tras foc haJlado para memoria de toda la variedad de las casas
queen oluidança se trahen. z por sta causa las letras se dizcn
elementos, z corho quicra que en los ynuentores ay diferençia,
porque son rres o quatro, entre los quales fue Yno Feniçes, por
mcmoria del quai los griegos, de quien fuc primera ynuentor,
comiençan las letras z I turas , carras, egun la opinion del glorioso Jeronimo, por non oluîdar su memoria, n color fenîçeo.
Aqui solamente dire, porque haz al proposiro: j o quan notable
gradesçimiento de memoria digno ! j como duran n esta gente
los seruiçios z buenas obras, z nunca lo quicren traher 1.:11 oluidança ! ; z dexo los otros ynuentores porque es muy noto en
muchos lugares. E por sto busque est modo en que tan exçelente vinud como esta que vuestra sefioria tiene publi ase, , en
escrîpto z Yulgar lengua pusicse para mas se diuulgar z memorar,
porque a todos fuese muy noto esta debda que a vuestra ser nidad por esta virtud se deue. E suplîco a la cxçelente virtud de
vuestra scfioria que comigo baga como dador de la b niuolençia.
E lo rresçiba gratanter, mandando suplir con su magnifiçcnçia
qualquier defecto que en este brcue tractado ouiere, , en mi, que,
como humano, en el seruiçio de vuestra exçelençia aya omitido.
i: el dador de las graçias i bicnes, a quien en esto vuestra gran
scnoria ·mita en lo assi fazer, por su grandissima bondad lo qu iera
a vuestra cxçclcnçîa rremuncrar. E assi mcsmo a los lectores
suplico que, sin yncrepaçion, porque a su corrccçion se omete,
suplan qualquier defccto que buen juyzio dictare que deuen
enmendar.

POÉSIES
ATTRIBUÉES A GO GORA

Les poésies qui constituent le présent recueil sont a~~ribuées
à G6ngora dans les manuscrits' où nous les avons copu:es. Ces
attributions seront discutées dans une tu&lt;le ultérieure.

R. FouLcHÉ-DELBosc.
SOlETOS

i
A LOPE DE VEGA
EN OCASION DE ESCRIVIR
LOS AUCTOS SACRAMENTALES

Embutistc, Lopillo, a Sabaot
en un mismo soneto con Ylec,
y hechandosèle acuestas a Lamec,
le diste un muy mal rato al justo Lot.
Sacrificastc al ydolo Vehemor,
que matan mal coplon Melquisedec,
y trayga para el fuego a Abimelec
s:irmil:ntos de la \;na de abot.
Guardate de Jas !anzas de Joab,
de tablazos del arca de Jafet,
y leiios de la escala de Jacob.

1. A moins d'indication contraire, tous ces manuscrits se trouvent à la
Bibliotcca Nacional de Madrid.

�72

POÉSIES

ATTRIBUÉES À GONGORA

No temas con el rey Acab,
ni en lugar de Bethlen me digas Bet,
que con tus versos cansas aun a Job.
Y este soneto a buenas manas va :
hay del alfa, y omega, y Jeoba.
Pap. cur. 35 KK, f. rnr. es i oterverti.

el alguazil solicito a question,
el amador a donde quiere mas,
a balsa descuidada el cicatero,
el avariento a vozes de « Jadron ! »,
al treyntà y nuebe del fullero· un as,
assi acuden las putas al dinera.

M.$, f. 94; dans ce dernier ms., l'ordre des deux tercets

2

4

CONTRA LOPE
SONETO BURLESCO A LOS DIOSES

Despues que Apolo tus coplones vido
salidos por la voca de un pipote,
insolente poeta tagarote,
en su delphico trono la a sentido.
La satirica Clio se a corrida
en ver que la frequente vn neçio çote,
y de que tantas leguas en un trote
la ayas echo carrer ( crueldad a sido).
Deja Jas damas, deja a Apolo, y tente;
pide perdon al pueblo que enojaste,
que aunque corrida el cortesano vanda,
no carras tanto, corredor valiente,
que si un sonbrero por carrer ganaste,
mira no ganes
jubon trotando.

Aquel que en Delfos tubo gloria tanta,el ciego dios temido en toda parte,
el velicoso e yracundo Marte,
que a los demas en fuerças se adelanta;
Neptuno, que el mar rige y leuanta;
el rubio Titon que su luz nos reparte;
Yris que en su presencia nos departe
la tenpestad que tanto al mundo espanta;
Vulcano y sus çiclopes, que a porfia
trauajaron por dar a la red cauo,
celosa indu stria que forjado auia;
Mercurio cuia sciencia inmensa alauo,
y el lector de esta eroyca poesia,
todos juntos me besen en el rabo.

vu

Ms. 3796. f.

201

r.

Ms. 3796, f. 185 v.

3
A LAS PUTAS

Corno acude el ambriento gato al mis,
y el ayuno mastin al toma o tao,
el pobre mendicante al bacalao,
los muchachos golosos a el anis,
el buen olor, o malo, a la nariz,
el Indio :i su maiz o a su cacao,
el taro en coso de la plebe al hao,
y al reclamo la simple codorniz,

5
IŒSPUESTA

De haçer de vuestro cula jubileo
algunos del lugar an sospechado,
que no vioo a la patria jubilado
del reyno de Neptuno a Prometeo.
Considerad, sefior, que es casa feo
llegar ante Bulcano arremaogado,
de mero lujurioso y arriscado
que podra ejecutar vn mal deseo;

73

�74

POESIES

ATTRIBUÉES A GONGORA

demas que con esotros del conuhe
podran juntarse los demas planetas,
o el sumo y poderoso Joba solo,
y os la a : : : al primer enuite.
Prevenios de atacar las abujetas,
que es Marte griego, y sicilia.no Apolo.

deja el alma, traidor, que en vna casa,
oratorio y amiga juntarnente
pareçen a toda alma cosa inpropria.

8

Ms. 379'i, f. 185 y.

Quatrocientas mil putas) y cornudos
menos los no casados otros tantos,
muchos ypocritones, pocos santos,
infinidad de caluos melenudos;
botos de injenio en opinion de agudos,
ninas que piden, tias con encanto,
virgos postiços, y prestados rnantos,
que ellos celosos y maridos mudos,
esperanças en flor, virtudes pocas,
promesas justas, obras infernales,
sobornos a el del dij o y el del fallo,
volsas vacias, vacilantes vocas,
coches, frayles, vasura, y ospitales,
esto es Madrid, y lo demas que callo.

6
A LA VIDA DE ESTUDIANTES

Volsa sin alma, pereçoso arriero,
sol y moneda a peso de oraciones,
ama que circuncida las rraciones,
sanguijuela del gusto y del dinero;
anbre perpetua, pediguefio artero,
de~das perpetuas, tristes camaleones,
portes de cartas y quemar ringlones,
pobre inportuno llanto de echiçero;
el murmurar y sarna de por uida,
sabafiones y nieue y maestre escuela,
casa de esgrimidor, falsos criados;
muerte ciuil, miseria no creida,
de la comida y can ... centinela,
sin ser al rey traidores desarmados.

Ms. 3796, f.

200.

9
Seôor Guadalquiuir, estese quedo;
vasta lo que me deja ya arruinado,
no se Ieuante a mas, vaste un estado,
que yo confieso que le tube rniedo.
Pero, de quando aca tanto denuedo?
Sin duda que de hueco y de inchado
con el oro y la plata que me a dado,
se me viene a las varbas cada credo.
Vuelua, y vera que no conoce padre,
sino un humilde y pobre nacimiento,
y que su inchaçon toda es locura.
No tarde en el correr hacia su madre,
que en pena de su loco atreuimiento
le cargaran de palos de Segura.

Ms. 37~, f. 197 v.

7
Clerigo calabres, o calba trueno,
discipulo del falso caluinista,
vasilisco cruel de mala vista
que p0r ojos y voca das veneno ;
vaso no de eleccion, de maldad lleno,
del sexto mandamiento coronista,
sacerdote de Venus que conquista
a el cuerpo gusto para el alma çieno;
cara mas natural de caluarrasa
que el hermano de Antonio de la Fuente,
oficio de Jinebra en lengua propria,

Ms. 3796, f.

201.

75

�POESIES
ATTRIBUEES A GONGORA

iO

El duque mi seiior se fue a Francia,
y tu musa a la tuia o a su estancia,
ynpertinente alaja fuera en Francia,
pues tiene por prouincia a Picardia.
Demas que en el Penon de Andaluçia
an echo sus dictamenes ganancia,
que musa que asi agarra una distancia
menos tiene de musa que de arpia.
Sea lo uno o lo atro, el tieopo lo a acauado,
pues muestras por las ingles que ya orina,
que era vena que seca, a Dios sea dado.
Deje su gracia la piedad diuina,
pues la humana en tus versos a espirado,
reç,. o escriue en copias la dotrina.
Ms. 3796, f.

101

entre lo negro y blaoca pareçia
alba tu rostro, aubes tu cauello.
En su ecliptica el sol paro por uella,
y en los laços que el alba le ofrecia
en uno se enrredo que no podia,
si el color estraiiar negar lo vello.
Viendose pues en la prision suaue
el padre de Phaeton de Cloris vella
« Daphne, dijo, depanga el tosca ~ello,
pues por restituirme a desden graue,
segunda Daphne en sus cauellos sella,
si grillas a la luz, carcel al cido. »
Ms. 3796, f.

201

v.

i3

v,
A ESGUEUILLA

H
Predico el prouincial ma ... ardia,
Apolo de oradores y poetas,
aqud que entre quadrillas de discretas
vucaros quiebra y vierte melodia.
Fue todo su sermon de argenteria,
fiel minado de rayos y cometas,
desgajando del cielo los planetas
con diuerso follaje, con uoz fria.
Entre nuue de çelos y temores,
amagos de su amor y pecha tierno,
descubrio toda el juego entre las manas.
Rindaole parras los predicadares,
pues nos muestra el camina del infierna,
que lo demas es casa de cristianos.
Ms. 3796, f.

Cayo enfermo Esgueuilla de opilado,
y es lastima de ver la que padece :
el da muestras segun el daiio crece,
que lo a vn manjar particu!ar causado.
Otros dicen que esta bien empleado,
y que el tiepe la culpa y lo merece,
que gusta de las damas y se ofrece
por seruidor, y entre ellas le an aojado.
Vio vn medico de camara la orina,
y juzgo que purgarse le .:onuiene,
y antes siruio de reuolber humores.
Causo aquesto en el pueblo gran moina,
y como en el sus of os puestos tiene,
fueronle a visitar sus seruidores.
Ms. 3759, f. 77.

202.

i2
A UNOS CAl:ELLOS NEGROS

Libres canpeanda en el neuado cuello,
crespas de amar prisiones, Cloris mia,

i4
Rodeada de platos y escudil!as,
en la mugrienta mano vn estropajo,
sudaodo grasa con el gran trabajo
de no poder estar sino en cuclillas ;

77

�POESIES

baii.adas de agua, puercas las faldillas,
metido entre las piernas vn dornajo,
apegado con las nalgas el çancajo,
meneando a compas culo y rodillas ;
anoche vide estar a nù morena
quando al fin de sus platos yo llegaua,
no poco alegre de toparla sola;
y al decirme: &lt;&lt; Vengs1is en hora buena ,,,
como aquelia postura la aiudara,
soltosele voa pluma de la cola.
Ms. 3795, f. 77 v.

:t.5

ATTRIBUEES A GONGO

10

La fuente enterneçida
murmurando repite quejas tantas,
I5
y de sierpes vestida,
lamiendo arenas y·vistiendo plantas,
de perlas y coràles
lenguas hace los mas de sus cris tales.

A VNOS BORRACHOS

Para poner en paz ~a pesadumbre
que tuuieron Contreras y Pad:ierna,
se haçe vn asamblea en la taberna
do miden seis quartillos p0r açumbre.
Bebiose con mojama, que es legumbre
que auiua, atiza, ençiende la !interna;
trabo la lengua Marafion, y a Sema
le bino por la boca su costumbre.
Olmos rindio la taÇil, -y Auto.fia ya
cayo sobre la sangre de Camacho,
y la taberna conuirtio en zahutda.
Queda en pie Caii.izar y no desmaya,
y no dio otra sefial de estar borracho
que brindar Ios tapizes con la zurda.
Ms. 3ï9S, f. 87.

CANCIONES

El trajico lamento,
suspension dulce de la sefua amena,
aun no fiado al uiento,
desataua sonoro Filomena
Ilamando armoniosa
maculado pudor frustrada rosa.

20

Prestole atento oido
nimpha del valle al paxaril!o tierno,
oyendo repetido
en pico de marfil su mal ihterno,
y a sus acentos grata,
diuidiendo vn rnbi la voz desata.

25

De la atenie.ose ponpa
a tu regio explendor cuia d ulçura
aclama eterna tronpa,
hiperbole maior de la hermosura
que afecto fugitiuo
30 aud,1z viol6 si p,rof:in6 lasçibo.
Si de la fe jurada
Jibidinosa acdon ronpio el asumo
a un jobea destinada,
infausto amer me construira trasunto
35
de tu pasada pena,
si la propria se absuelue conJa agena .

i6
En vo aliso verde,
mura del vasque a lagrimas del cielo
cuios humores pierde
por lo condensa del frondoso belo,
5
eccos distimos suma
daria alado, çitara de pluma,

Finjiome 1a esperança
epitalàmio al prospero himeneo,
quando la con.fiança
40 riendas imponga a barbaro deseo,
siendo a su arcjiente filo
el mas subtil c.iuello el menor hilo.

79

�80

POESIES

No tanto fue el exceso
de virginal no meritoria ruina,
45
que me quita~e el scso
a cl instrumcnto que mi mal termina,
pues para maior mengua
en cada agrauio me dej6 vna lengua.
Tu duke compafüa
50 dcsmentira las mas de mis qucreUas,
si al rosicler del dia
muro da luz al circulo de estrcllas,
alibias con tu canto
tanta desdicha, desconsuelo tanto.

i7
Lustraua el cuemo de oro
el fulminante de la luz !uçero,
antes de ver de Jeminis los Jaços
que a Iuces lisongeros
borda la pie! del triunfante toro,
cuios celestes laços
a estas mura llas donde est an pendientes
cristalinas serpientl!S
rompieron atreuidos,
10
y al punto conducidos
por canpos que de plata son, i perlas,
do salen a cojerlas
los espumantes de aquel mar tritones,
que aljofarados dones
1 5 ofrecen ricos si no son cristale ,
que canbiaron la luz por ser corales.
Quando de la riuera
frondosos olmos atalaias mudas
alegres son y de racimo copia,
20
y a las plantas desnudas
autoriça la hermosa primauera,
y el fertil cornucopia
arroja Ceres q_ue junt6 Amaltea,
y el celiro recrea

ATTRIBUÉES A GO GORA

81

25

con soplos mas suabes
vocifcrantes aucs
que en el intense dulces cant:111 prado,
y alumbra con dorado
candor el sol los oriçontes,
30 luminando las cumbres de los montes.
Del cristalino Tormes
ponposo marjen maciçado hacia
flores de espuma liquidas corrientes,
que a ucr la luz del dia
35 jiraua por los sauces mas disformes
donde dos claras fuentes
'
formauan dos confuses Iauerintos
couardes tereuintos,
rnurtas que anima cl malo,
40
emulas son al rayo
de Bamijero Febo con sus sombras
'
que menudas alfoubras
argenta y dora si tapetes Yellos
como espejos radiantes se ue en ellos.
45

Quando esmaJtando flores
ninpba salio dentre la elada plata,
la mal vella que al sol presto caueUos
venerando escarlata,
lauros_purpureos, ojos rouadorcs,
50
copos de nieue vellos
esparce al uiento si las manos toca
dulce y conpuesta voca
'
que perlas aposenta,
donde el marfil se afrenta,
55 emulacion del rubicundo oriente,
. oroscopo es su frente,
su haliento flores, rosas, y alelies,
en dos opuestos puntos cam1esies.
Entre las esmeraldas
6o de rosiclen..&gt;s el candor teiiido
postr6 el diuino cucrpo, donde apenas
fauonio conpelido
6

�82

POESIES

al sueiio dulçe aconpaiiô guirnaldas
con blancas açuçenas,
y
en
quanta al ocio treguas le dio blando,
65
vn ruiseiior cantando
desde vn olmo responde,
el niii.o Amer se absconde,
ydolatrando su maior belleça,
quando de la aspereça
70
joben salie tan hello, que bastara
a ser rayo del sol su rubia cara.
Del idole dormido
apenas uio los raies que brillando
75 a el alma libre cautiuaron luego,
olores lanbicando
el can po verde del abri! florido,
quando abrasado en fuego
tocar intenta la neuada mano
del angel soberano ;
80
mas inuidioso el uiento
rompio su suefio lento,
al fatal tienpo que la hirio Cupide,
y viendo tan lucido
al nueuo amante abraça
85
yedra que a mure de cristal se enlaça.
Murmuran iouidiosas
las aguas claras y el vndoso rio
de sus raudales y sus vrnas bellas
lleno de aljofar fric
90
y coronado de amarante y rosas
con mas purpura en eUas
que ostenta Tiro, que Chorioto haçe,
el verde margen naçe
en carres espumosos,
95
por ver lm, amorosos
laços de amor que a su deidad le quitan,
las aues los inmitan
con dulce acento, con arrullos ronces,
IOO en mirtos tieroos, en robustes troncos.
Ms. 3796, f. 187.

ATTRIBUEES A GONGORA

i8
Quitaua el belo a sus cabellos rojos
Phebo, que del Aurora el liante bebe
y ocupa a Morfeo ansi...
mis desbelados ojos,
5 quando vestido de color de rossa
y lises duro de subtil recamo,
ver pareciome la enemiga hermosa
que tan de ueras amo :
como el abri! la llubia
IO suelta lleuaba la madeja rubia
con quien el biento, porque alegre lidia,
si no me daua celos daua ynbidia.
En vn prado florido que mostraua
que siempre su berdura defendida
15 olgando abia sido entr~tenida,
flores cogiendo estaua,
y el prado ameno del fabor vfano
pareçe que las flores adelanta
a los marfiles de la blanca mano,
20
y de la airosa planta
que el prado restituie
quantas flores la nunc le destruye
para tejer despues de rico el seno
vna guimalda en sitio mas ameno.

25 Eran seis laures, cada quai frondoso,
cuios troncos bistiendo mas en selba
la rosa carmesi, la madreselba,
y el jazmio oloroso,
que gustoso al espejo fugitibo
30 de vn arroyuelo enriça su meleoa,
y el lisi claro bulliçioso y viuo,
mas su corriente enfrena
mientras mas le dilata
pasto que en pies de brilla dora plata
35 le escapa a las prisiones de aquel prado
armada espioo y en binculo cercado.

83

�POESIES

ATTRIBUEES A GONGORA

Aqui de las cojidas varias flores
vna guirnarda teje en laços bellos,
con que dobl6 la gracia a sus cabellos
40
la causa a mis,,amores
y en oçio blando y en descuido enbuelta,
ya en el agua se mira, ya se laba,
ya ( como monstruo) de cantàr resuelta,
su viguela tocaua
45
y el aire suspendia
de la voz instrumento la armonia,
quando vn si]bestre satiro la asalta
que los espinos de la çarça salta.

75 sigue la ninpha que socorro pide
· a los dioses supremos ;
mas biendolos tan sordos a sus voçes,
como alentado su enemigo fiero
ya de las plantas de marfil veloçes
80
falta el vigor primero,
y ya a las ebras de oro
de Arabia, inbidia del amor thesoro,
el amante grosero mueue y toca
con el haliento espeso de su voca.

Nunca la garça del nebli baliente
50 hui6 turbada en mas presto buelo
que la ninpha gentilclamando al çielo
del satiro insolente,
que del primer asalto èntre sus braços
y entre la selba de su inculto pecho
55 la que me tiene en diamantinos laços
cogiera a mi despecho,
si no le detubiera
al monstruo la guirnalda en la carrera,
caiendo a tienpo del dorado asiento
60 que a su duefio gen,ùl le falta aliento.

85 Quando a mi triste que bolar quisie,ra
a defender mi ingrata, pareçia
que en circulos ceruleos me tenia
vna serpiente fiera,
cuio anhelar el torpe yelo inrnita ;
90 entre los globos que mi pecho enlaça,
no solo el mobimiento me enuaraça,
mas el alien_to quita,
y tanto me fatiga
viendo casi triunfante a-mi enemigo,
95 que despertaron y de un mar bafiados
de lagrimas mis ojos del belados.
Ms. 3796, f. I 78.

ROMANCES
Alço del prado la guirnalda bella
el satiro veloz, y el corso buelbe,
y a 1a que huiendo en llanto se resuelue
dice por detenella :
65 « Ninpha gentil, jamas por enojarte
tus soledades açeché lasçibo ;
muero mil siglosa por agradarte,
para seruir,t e viuo,
y soy si no lo saues
70 aunqu.e vencido de tus ojos graues.
La suprerna &lt;licha de aqueste monte
sosiega el pecho, y a mi amor disponte. »
Ansi lo diçe, y rapido qua! vemos
plomo que el_ bronçe con horror despide,

i9
Amenaçaua los canpos
del cielo el mayor rubi,
prolijos terminos dora
suspenso en nuestro çenid.
5 Rugi ente animal de Julio
muestra la crespada crin,
que aun transformado eu estrella
resiste al Tebano ardid.
Del canicular ladrido
IO despejo a sido infeliz,
si lo B.orido del Mayo
lo ponposo del abri!.
Palidas premisas dan

los valles a Çeres si

1.5 mano foculta tosca abarca
granos conuoca sutil.
Frondoso honor de los olmos
paloros suele vestir,
reuocando abraços tiernos
20 de la sienpre festa vid.
En dcsnudo :rronco ocupan
ruyna iodiçiando la vil,
mirmi9onios esquadrones
que aposenta su raiz.
2 5 El nocturno orror ·rrecoje·
de sus sonbras nudos mil,
corriendo cortinas negras

�86
a çirculos de çaphir.
Quando pastora Diana
30 deidad en Ios montes ui,
no se si madre segunda
de un dios jigante y ruin.
No a ... un exercicio atenta
desmiente lo- femenil,
35 porque a Ios ojos reserua
flechas que a flojado en mi
sin arcos no, porque asisten
en su frente de marfil
dos lisonjas de Io negro,
40 ponpa de este seraphin.
Vn argos en la pestafia
desu hermoso cuerpo fui,
con talares de un deseo
y las alas de un delphin.
45 Seguila y vi que a una fuente
que coronaua vn jazmin,
para liquidar su aljofar
humillaua la ceruiz .
Audacias me inspira el ualle
5o y la soledad, que al fin
ardientes infunde anhelos
vna hermosura jentil.
Politicas regulando
quai cortesano ciuil
55 de espaiiol echo frances,
en rromance y no en latin.
A el coturno a el pie argentado,
entre uno y otro aleli,
contacto dieron mis lauios
60 quantas vesos al chapin.
Respondiome agradecida
purpureando el matiz
que fio a jiros de nueue
dos terminas de carmin.
65 Las armas de la eloquençia
retorico al viento di,
asta que con mis terneças
hice las aguas reir.

POÉSIES

ATTRIBUEES A GONGORA

Prometi a su blanca mano
70 la plata del Potosi,
y de adornar sus cauellos
con todo el oro de Ofir.
Çedro remontada garça
sino couarde perdiz,
75 rayo de pluma en Noruega
del sienpre anbriento nebli.
Dejose vencer de ruegos,
y el pudor perdiendo alli,
laços la ofrecio Himeneo,
80 y io ni un marauedi.
Estinguio Amor sus poderes,
que lo suele hacer ansi,
y gustos que son biolemos
sienpre prorneten mal fin.
85 Tributela cortesias
para inuentiba en Madrid,
enojose quai si fuera
yo Jadron, ella alguaçil.
Dijome vna arniga suya
90 que estaua rnala, y fue asi,
pues estaua la seiiora
en uisperas de parir.
Pregunte su casa entonçe5
para darla algun loatrin,
95 y dijeronme que ocupa
la del noble Anton Martin.
Admireme del suceso,
y buelto a Francia en Abril,
aile a Roldan en mis braços,
rooy erro mi caueça a Turpin.
Ms. 3796, f, r98-199 .

20
ADONIX Y VENUS

Rosas desojadas· vierte
a un valle que las recoje
el mas venruroso amante,

el mas desdicbado joben.

5 Con su sangre las infunde
nueuo spiritu a las flores,
tanto que de ella animadas
cada .flor es vn Adonix.
Robusta fiera ejecuta
JO la voluntad de los dioses,
inbidia de su bentura
y escanniento de los hombres.
Rayos de marfil fulmina
sobre el vèllissimo joben,
15 cibil castigo de un dios
por un delito tan noble.
Ay fieraenerniga, dices
qu·e laço tan dulçe rronpes,
si yerros de arnor castigas,
20 a Jupiter no perdones.
Mide al fin las yeruas dando
vltimas respiracioncs,
cuerpo jentil que ]o muda
era el alma de los vasques.
25 Quando por 9culta senda,
fina esmeralda de un monte,
rnuerta de amores venia
la diosa de los amores.
Los rayos de los cauellos
30 cinta encarnada rrecoje,
que quiere prender los rraios
por no abrasar coraçones .
De transparente cristal
linpio pie en la yerna pone,
35 desnudo porque no a allado
coturno que asi le adorne.
Y entre cristalinas sierpes
que a darla la nueua corren,
al idolo de su gusto
40 profanado reconoce.
Y aunque no duda que es el,
de la duda se socorre,
que para engaiiar el alma
le ynporta dudar entonccs.

45 Mira aquel lustroso oriente
que illuminauan dos soles,
y alla que en el a tomado
ya su posesion la noche.
Mira aquella hermosa uoca
50 jardin que aspiraua flores,
y a donde cojio clabeles
destroncados lilios coje .
Estatua de oro y marfil
vaga vusca y tit'nta torpe,
55 y alla enbuelta en poluo y sangre
estatua de jaspe y bronce.
Dulces lamentos repite,
fieras rnueue, piedras ronpe ;
mas mientras mas se lamenta,
60 solo el eco la responde.
« Ay, dioses crueles, diçe,
que quereis que se malogre
con la maior hermosura
la voluntad mas conforme.
65 A, Jupiter enemigo,
quando amante te transf~rmes,
cisne o lubia o toro, quente
tus robos el mundo progne.
Y tu, Apolo, quando sigas
70 veldad con plantas veloçes,
corteçudo tronco abraces,
arbol ingrato cnamores. »
Dijo, y al cadaver frio
amante yedra enlaçose,
75 y prestandole la uida,
silencio a sus quejas pone.
Ms. 3n6, f. r99. En tête, les mots • de
D. Luis de Gongora • ont été biffés et
remplacés p:µ l'indication « Zar:tte »,
d'une écriture distincte.

2{
Malo estaua don Tasajo
de tercianas de Paris,

�88
que vnos hurnores monssures
le juraron por delphin.
5 Titulo del Rey de larça
le dio el obispo Turpin,
en virtud de su agua fuerte
y a fuerça de su raiz,
a puro sudar el triste
10 las maiianitas de abril :
tan gato de Algalia esta
que sufre un çape y un rniz.
Despues de sus magistrales
aguardaua el paladin
I 5 de su salud el despacho,
por la camara salir,
y por no gastarlo todo
en suspirar y gernir,
a la causa de sus males
20 asi la en peço a decir :
cc O tu, de mis aspereços
delinquente y alguacil,
y con manto de soplillo
ospital de Anton Martin,
25 sirena en quanta pescado
del pielago de Madrid,
de media arriua muger,
de media auajo esmeril,
si de mi te as oluidado
30 nunca te acuerdes de mi,
que es vastante tu memoria
a inficionar un pais.
Desdichada de la casa
donde pones el chapin,
35 si acaso no la defienden
los pocos marauedis.
Si tanto engaiian quince aiios,
tanto encubre un faldelJin;
mal vbiese el cauallero
40 que caualgasin candi!.
Y pues la salud no es cosa
que se a de echar por ay,
quien mira para veber

POESIES

ATTRIBUEES A GONGORA

que mire para viuir.
45 Colegio an de ser mis calças,
si Dios me saca de aqui,
donde an de prouar linpieça
asta las hijas del Cid.
Prouea Dias de un letrado,
50 donde puedan acudir
a informar de dofia Sota
como suelen de un rrocin.
Pues quantas con ella topan
salen despues de subir,
5 5 peones de Colomera,
caballeros de Moclin.
Justicia, sefiora sala,
que no se puede sufrir,
estando en el mundo vos,
60 que viua Arnaute Mami.
Agradezca, dofia puta,
que un magistral biene alli
que me sirue de mordaça,
que mas tenia que deçir.
Ms. 5796, f.

200

v.

2i bis.
Doliente està don Tasajo
de tercianas de Paris,
que unos dolores monsiures
le han jurado por deltln.
5 A puro sudar el triste
las mafianitas de abri!,
tan gato de algalia està
que supe un zape y un miz.
Por divertirse .. .

IO

Toda es sudar y gemir;
a la causa de sus males
comienza a culpar asi :
« 0 tu, de mis desventuras
delinquente y alguacil,

y con manto sevillaoo
5 Hospital de Anton Martin ;
sirena en cuanto pescado
del pielago de Madrid,
por medio arriba muger,
de media abajo esmeril ;
20 pildora de seda y oro,
veneno con ambar gris,
cometa que se anda en pie,
demonio que anda a pedir ;
si de mi te has olvidado,
25 nunca te acuerdes de mi,
porque bastan tus memorias
a inficionar un pais .
Desdicbada de la casa
do tu panes tu chapin,
30 si no es ya que la defieode
falta de maravedis.
Si tanto engafian quince afios,
tanto cubre un faldellio,
mal hubiere el caballero
35 que cabalga sin candi!.
Pues la salud no es alhaja
que se ha de echar por ahi,
quien mira para beber,
que mire para vivir.
40 Çolegio han de ser mis calzas,
si Dios me saca de agui,
donde han de probar limpieza
hasta las hijas del Cid .
Provea Dios de un albeitar
45 donde se pueda acudir
a inforrnarse de dofia Alda
coma suelen de un rocin;
que yo sé que la sefiora
(perdone el terso marfil)
50 podrà prestar alifafes
al cerro de Potosi.
Aqui de Dias y del rey,
que cautivan en Madrid,
que la salud me capean,
I

_ 55 que me la toman de orin.
Justicia, sefiora sala,
que no se puede sufrir,
viviendo vuesa merced,
que viva Arnaute Mami.
6o Tres meses ha que ando hacienda,
sin poderlo resistir,
carambanas de esqueleto,
mud::mzas de matacliin.
Agradeced, dofia' Urganda,
65 que un magistral viene alli,
que me slrve de mordaza;
que mas tenia que decir.
Bibliothèque privée.

22
Montes, valles, canpos, selbas,
amenaça el pardo otubre,
fulminando rayas de agua
enbueltos en nectas nubes.
5 Despefiabanse las fuentes,
los arroyuelos conduçen,
dando espejos a Jas aguas
que 1a blanca arena cubren .
Adornauanse los prados
10 de ofidosa muchedumbre
de flores, a quien dio Flora
en nectar alternas lustres.
Entonçes de Çelia bella
Jas dos mas hermosas lunbres
I 5 terminauan fuego a I ielo
de las aimas que reduçen.
Criminal amor arrojan
de sus dos ojos açules
flechaços, que si no matan
20 suauemente consumen.
A un balcon naçiendo Aurora
el blanco marmol descubre,
emulando a la açuçena
a quien mas candor induçe.

�POESTF.S

5 Las doradas ebras fia
al biento, por que dibuje
alguna prision lasçiua
para las aimas que urten.
La mano, entre laços de oro,
30 anbiçiosa, los confunde,
neutro el sol en las colores
que ansi caobiado reluçen.
Argos traducido estaua
al pie de un olmo que sube
35 a coronar con sus ojas
vn berdinegro açebuche.
Phiniso, cuio balor
no es justo la enuidia oculte,
adorando en su hermosura
40 los esplendores que anunçie.
Viole Çelia, y con desden
amorosamente dulçe,
corrio el belo a la ventana
y a los ojos rojas nubes.
45 No tanto aspiran olor
aromaticos perfumes
quanto le dejo a Fabonio
y a las flores que el produçe.
2

Ms. 3796, f. 1ï6 v .

23
A la Luna el Tajo ofreçe
espejos de cristal puros,
a donde sus cuernos vea
y el Sol sus cabellos rubios.
5 Lo_s pies argenta de vn monte,
que como Olimpo segundo,
porque a los cidos se atrebe,
las aguas son grillas suyos.
Su bientre prodigo enuia
1o por en 1re troacos ad ustos,
sino candidos corales,
corales rojos y rubios.
Deidad venera en el rio

la noche y su maoto oscuro,
15 pues deja en su margea verde
nectar y aljofar difuso.
Por boobas de piedra salen
espaciosos aqueductos,
para cnriquecer con ellos
20 de flores copioso vulgo,
donde, si no ninpha casta,
Venus de aquel monte inculte
salio a coronar el prado
con laços de su coturno.
2 5 El contacto de su planta
purpurear hlço muchos
clabeles, que vistio el alba
de rosicleres purpureos.
La açuceua no desmieute
30 de sus candidos dibujos
quando binculo candores
a los lirios ama tuntos.
A la vid lasciua y fertil
indibiduamente junto
3 5 se bio el olmo que a Jerarda
dio admiracion, sino gusto ;
que su condicion esquiua
aquellos frondosos nudos
aborrece porque son
40 de conforme amor trasumpto;
y no puede ver la yedra
abraçada a el tosco muro,
ni entre reciprocos braços
las verbenas y los juncos,
45 que qua□ to desden e □cierra
de su pecho el marmol duro
que de las cabaûas huye
inquiriendo el balle oculto.
Joven le adora que a Pbebo
50 lauros no le cede algunos
sonorosos versos haga
o cante sin sus inpulsos.
De arpones y saetas
con que Amor le da tributo

ATIRlBUEES A GONGORA

55 tiene el coraçon pasado
y de libertad desnudo.
Pero viendo que el rigor
del diuino objeto suyo
injustamente le acaua
60 a manos de un dios injuste,
afectuoso se queja
de su desden inportuno,
dando aljofar a Jas aguas
y al biento exalando huma.
Ms. 3796, f. 177.

24
A las orillas del Betis,
inquieto cristal sino
espcjo de maior vrna,
de sierpes digo maior,
5 al son de su lefio corbo
estaua Fabio pastor
del Tajo dandole al biento
loque el biento le nego.
Tan dulce y tan numeroso
10 el valle claro volbio
en repetidos acentos,
que le confundio la voz.
« Tu, dijo Fabio, que auscnte
luctuoso pabellott
I 5 ereges a mis e.-xequias
dignas de tu estimaçiou,
tres anos a que pendiente
de las luces de Phaeton
fue mi vida inquieto pi □ o
20 entre la aljaoa veloz.
Si mi pecho lo fue entonces
,onpe los echiços oy,
maraifa que desatada
veatura encubre menor.
25 Y si son rus ojos causa
de brillante confusion,
muera la enuidia, y con ellos

viua siempre emulaçion.
Suelta si eres cielo, suelta
30 al que tienes eu prision,
cautibo no, sino preso
entre respectes de amor.
Al Marte conparo iasano,
al Marte conparo yo,
35 que si inconstante te muestras,
inconstante es tu rigor.
Oprima el tiempo a mis da.fios
desenpei'ios del temor,
maquinas que a costa mia
40 desaçen caudillos oy .
No des olas con que muera
quien aduertimie:ntos dio
a tus veldades que apenas
penas en penas fundo.
4 5 y ausente de ti no puedo
en amagos de dolor
mostrar seutimientos, quando
no balen clichas que son .
Duenna el silencio, y mi pcna
50 despierte mi coraçon
en pies de niebe, que el yelo
grilles graues le calço.
Limalos tu, si merezco
o tu gracia o tu fabor,
55 que de agradecidas aras
qualquier deidad se pago. »
Ms. 3796, f. rn v.

25
Despefiauase atreuida
de lo excelso de rn escollo
vna fueoteçilla humilde
por Jlegar a ser arroyo.
Tan soberuios sus cristales
se precipitan furiosos,
que en menudo aljofar bueltos,
riegan mucho, inund.:m poco.

�92
Murmurar intenta y tanto
ro la desea el valle vnbroso,
que entre ·çespedes y juncias
le inplica murmureos troncos.
Con_ducida, pues) al prado
Je su cierço pereçoso,
15 en sierpes de plata obstenta
lirios y claueles rojos.
Vn s_itial que oculta verde
la eminencia de dos troncos,
las çagalas requïrian
20 dulce suspension de Apolo.
Feniçio y Jacinto entonces
saeteados de plomo
que en vn arpon suio copia
el nieto_ del mar vndoso,
25 a las veldades que miran
si aras no erigen deuotos,
laços dan de amor suaues
çdados aun de si proprios.
Cama les presenta Flora,
30 induçidora del ocio,
ocultandose por verlos
&lt;let.ras de vn neuado chopo.
Doraua el luciente pelo
entonces el sol del taro,
3 5 verde juuentud del afio
a quien alienta Fauonio,
que con seiias apacibles,
sino con susurras solos,
lisonjeaua las vides
40 en Ios braços de los olmos.
No larga estaçion de tienpo
les concede Amor reposo,
a pesar del prado ameno
y a pesar del valle sordo;
45 celosa el vno le obliga
a que, desmentido a el otro,
las veneraciones deje
deuidas a un pecho hermoso.
Propicio responde el eco

ATTRIBUEES A GONGORA

POESIES

50 con acentos no sonoros
a las quejas del amante,
frustrado el color del rostro.
El rubi del lauio suelta,
depuestos fulgores de oro,
S5 que canuio en biolas blancas
del recurso de vn enojo.
La vrujula soliçita
quando numero coploso,
del vasque y de la riuera
60 teatro hiço no corto.
Ms. }796, f. 1.89.

26
AL REY D, PHELIPE

3.

Si de antecesores tantos
vuscas eternas memorias,
reliquias son de cristales
pues en· su pecho estan todas.
5 Si de los reyes de Espaiia
rebuelues tantas historias
cuyos despojos al tenplo
en mil! vanderas tremolan,
mira el valor de Philipe,
10 pues que con su vista sola
es tri den te a todo el mar
y es raya en la tierra toda.
Si al pie de esta virgen vella
que estas montaiias corona,
1 S tan altas que se leuanta
entre sus plantas la aurora,
tan en los cielos sus cunbres,
la ymagen tan en su gloria,
que es el mas viuo traslado
20 del original que adoran,
pub li cas afoctos pur os,
afectas Iucientes ponpas,
en marmoles entallados,
en desatadas aromas.

25 Nuestra Rey viniendo a uella
con presencia generosa,
el mayor culto a su fe
erigio en sus aras proprias.
El solo a uer sus altares,
30 el a su naue gloriosa,
desde su grandeça vino
con la grandeça espai'iola,
en cuias memorias pias
deuotamente lustrosas,
35 en dos pirarnides altas
que los yndios montes moran,
arden encendi4os fuegos,
luçen eternas antorchas
que la luz del cielo esconden,
40 que los rayos del sol rouan.
Espira en humos fragrantes,
suue en Hamas olorosas,
quanto la Feuiçia suda
y quanto la Arauia llora.
45 Gran Rey, cuya monarchia
el Sol que naçe en las ondas
y en las m.ismas ondas muere
ni la abr&lt;!uia ni la toca,
oy que a este sagrado alcaçar
50 volbeys las plantas deuotas,
trayendo a el sol de Maria
vuestras estrellas famosas,
las dos perlas digo a quien
an de cei'iir mas coronas
•
55 que los pocos mayos suyos
que abriles muchas desfloran.
La veldad de nuestra infanta
que nacio con la que goça
a la tierra por deidad,
60 a los .cielos por lisonja,
Carlos y Fernando, en quien
porque a sus nombres respondan,
terror crees glorioso
de las naciones remotas.
65 Oy en fin que aveis dejado

93

sin alma a toda Lisb0a,
famosa en vuestras entradas,
en vuestra vista ostentosa,
esta admitid que esas plantas,
70 relijion afectuosa,
en reciniros festiua,
aplausos hurnildes postra.
Ms. 3796; f.

190.

27Llegose tanbieo mi bora,
como hace a todos los-necîos,
y enamoreme a lo rubio
de quien me paga a Io negro..
A hacer la primer visita
fue mi alma en unos- versos,
porque menos se cansase
caminando en pies agenos.
Papeles la ynbie tan blandos,
10 que su escritorio con ellos
fue camarin de conservas,
tan dulçes eran y tiernos.
Al proprio Sol cara a cara
llegue a perderle el respecta,
15 y le dije que era sonbra
delante de sus cauellos.
De perlas llame a sus dientes,
y quisiera, a lo que entiendo,
mas las pt':tlas en sus mafios
20 que en sus dicutes el concepto.
Ay de mi, que me muera
mas por vna muger que por dinera;
y ella que no me quiere,
mas que por mi por el dinero muere;
25y asi la fama con raçon pregona
que soy yo neçio y ella socarrona.
Vna moçuela picante
de aleuissimos ojuelos,
cayman es de coraçones
30 pues los engullen enterns.

�94

POESIES

De reues me dio en el alma,
porque al tienpo de voluerlos
supo hacer muy bien su herida
que ella rie y que yo siento.
-35 Ya ella vbiera consolado
mis fatigas y tormentos,
si no tubiera en su :asa
dos biejos de su consejo.
Quando la doy memoriales,
40 a ellos los remite Juego,
y hacen tan mal la consulta
que mal despachado buelbo.
0 quanta falta me haçe
aquel ruerai maçilento,
45 pues con estos pies y manos
diera alcançe a mi remedio.
Por hablar curiosidades,
sudaua sienpre, el ingenio
hasta que vi la agradauan
50 mucho mas las de un platero.
Ay de mi, que me muera
mas por vna muger que por dinero;
y ella que no me quiere,
mas que por mi por el dinera muere;
55Y asi la fama con raçon pregona
que soy yo neçio y ella socarrona.
Ms. 3796, f.

191.

28
AL RIO DE HENARES

Henares el de Siguença,
liquida no, puro si,
si acasso puro y sin agua
lo ruismo quiere decir,
5 que no nacistes en Piscis
de vn astrologo entendi,
y yo se que esta ta! signo
lexos de vuestro pais.
Y aunqlle aquario ~staba en duda,

viendo que en seco viuis,
... os vi ser Ganimedes
si es Jupiter vn rocin.
Yo soy el primer poeta,
entre quatrocientos mil,
15 que os dio nombre de cristal
y Dios sabe si menti.
Yo la !lame plata al agua
con que soberuio viuis,
111as ya me e desengafiado,
20 y me atengo al Potosi.
Escuchad treinta coplones,
si enojo no receuis,
ansi os toquen mas rabeles
que a Esgueba en Valladolid.
25 Conmigo os enojareis,
pero que se me da a mi,
aunque os precieis de la oja
por que espadaiia os reiiis.
Si platicais para rio,
30 bien como Guadalquibir,
no murmureis que es de arroyos
como de gente ruin.
No se yo si os acordais
de vna mafiana de abri!,
35 quando la aurora salia
sin llorar y sin reir;
q uando llegaba el faro!,
lanterna, antorcha o candi!,
a la ventana de Oriente,
• 40 balcon o zaquizami;
que Iloraba en vuestra margen
vn zierto amante infeliz
con camaras en los ojos,
injurias del dios machin.
45 Desenterro las memorias
de vn gusto pasado en fin,
ridiculo espectaculo
sin spectar ni reddil.
Atacosse, y fuesse a vn prado
50 de esmeraldas y rubis,
10

ATTRIBUEES A GONGORA

que &lt;lestas piedras ay muchas
en el thesoro poetil.
Suspiros baxos hechando,
que al viento hicieron gemir,
55 si no dixo de otra suerte
es çierto que dixo anss\:
cc Anssi tengas, noble rio,
mas riuera que Genil,
mas agua que el de Toledo,
60 mas puente que el de Madrid.
Si haçiendo la tarde :rnrora,
Jabare mi ninpha en ti
o a ti te labare en ellas
sus dos plantas de marfil,
65 hazte espexo de su rostro,
y enamorada de si,
conocera que son fuertes
sus mexillas de carmin.
Dile que por sus crudeças
70 agora me an dado a mi
camaras en los tres ojos,
y al fin me abre de morir.
En dos de sufrir desdenes
de su labio carmessi,
75 en vno de serenatme
a las boras del dormir. &gt;&gt;
Pasmose en esto pensando
en su bello seraphin,
y est ubose assi q uatro ho ras
80 y estubiera quatro mill,
si vn asno tambien paciera
no muchas passas de alli,
no se acordara a este tiempo
de su ninpha vorriquil,
85 hecho vn suspiro su lengua,
aunque, segun entendi,
fue rebuzno en buen romançe
y suspiro en mal latin.
Al son del clamor tan ronco
90 boluio nuestro amante en si,

95

quando le encanto el olfato
Merlin no, pero merdin.
« La de Caco, aquel ladron,
anda, dixo, por aqui,
95 que es de tales enemjgos
atalaya la nariz.
Perros muertos son violetas,
humo de azufre es jazmin,
si an bar gris es am bar frio,
100 suçiedad es esta gris.
Yo me quiero lebantar,
que si acaso bien oli,
no esta la yerba sin zera
si al simple llaman ansi. »
105 Para lebantarse pusso
la mano sobre vn patin,
camara en que hecho su pan
traspalado otro Amadis.
Guardaba oculto la yerba
1 10 el riguroso matiz,
bien ansi como las flores
suelen al aspid cubrir.
Sintio ligada la diestra
que libre solia sentir,
I 1 5 y alçose prouido no,
pero proueido si. ·
Llegose a labar a Henares,
dando a su planta jentil
la liga como en Segouia
120 quando la quieren batir.
Iba a otro sitio, y vio en el
otra prouision mas vil,
que en vn prado de esmeraldas
era muy poco vn rubi.
125 Dos falsas si deoiguales
no distantes entre si,
que en aquel prado naçiera
del culantro perejil.
Espantado del successo,
130 huiendo se fue de alli,

�97

ATTR!l3UEES A GONGORA

que para tales contrarios
no ay oler sino es huyr.
Ms. 3796, f. 175-176 v. En tête, le mot
• Gongora • a été biffé et remplacé par
" Francisco Lopez de fa Torre • • d'une
écriture différente.

29
AL TRAJICO SUCESO DE LUCRECIA

Era vicario Tarquino?
Soy sala de competencias
que me mandan que declare
si hizo fuerza, o no hizo fuerza?
S Y contrastar la opinion
que a la matrona conserva
en la posesion de casta,
no sera facil empresa.
Pero la accion apurada,
10 si hazen conjeturas prueba,
el suceso mas yoduce
voluntad, que no violencia .
Que ospedar vn rey ausente,
Colatino, no hay albeytar
1 S que por sano lo declare,
que por seguro lo tenga.
Demas que hizo mucho al caso
bauer quedado la puerta,
sin tranca, llabe, o zerrojo,
20 ni vo picaporte siquiera.
Solo admito por disculpa,
si a cargo de alguna dueiia
estubo, que sobornada,
fue origen de la tragedia.
25 Vamos refiriendo el caso:
del campo el monarcha Uega;
engafiada o maliziosa,
le da posada Lucrecia.
Si zenaron de consuno,
30 no haî viviente que lo sepa,
las estancias del reposo

fueron sin duda diversas.
En la sala el rey a escuras,
vigilante zentinela,
3 5 el sosiego en la familia
esperando estaba alerta.
Impacieote en los antojos,
de saber con quantas entra
la fiel romana donde
40 hazer vn peso desea.
Ya todo en sosiego mudo,
la bordada cama deja,
su gaban toma·y espada,
los zapatos por chinelas .
4 5 Parte pues pisando errores,
llega tentaodo tinieblas,
y entra por la misma causa
que los perros en la iglesia.
Ella en su:i.be tributo,
50 pagando forzosa deuda
a Morfeo estaba, quando
las plantas puso en la pieza.
Entre esperanza y temor,
confuso al lecho se azerca,
55 y a luz de lampara escasa
dormida Venus contempla.
Al desenfrenado ympulso
que al precipicio le lleba,
rriendas al respecto pone,
6o la ocasion aprieta espuelas.
Mas vencieodo cl apetito,
la sed amorosa intenta,
templar con alientos puros
entre oacares y perlas.
65 Temerario se avalanza,
y de amor lasciva aveja,
al fino coral del lavio
le bevio el sabroso nectar.
Ella despeno asustada,
70 y apartando la caveza,
de la olanda desembaina
dos christalinas defensas.

En el lecho mal sentada,
alterada y descompuesta,
7 5 faccion yndolente acusa
con lagrimas y con quejas.
Intentando reducirla,
a requiebros, a teroezas,
dulzes amores·y alagos
80 aiiade a ricas ofertas.
Mas viendo que persuadirla
no ha podido en ora y media
el rucgo blando y humilde
en fuerza villana trueca.
85 Por cubrirla la descubre,
y ya sin terliz la yegua
que a menester a la brida
vio que estaba a la jineta.
Tan embuelta en la camisa,
90 que fue forzoso romperla,
obstcotando el tanto monta
gran machina de belleza.
A esto sigue el amenaza
de ponerle al lado muestra
95 de vn esclavo, que sin alma
declare su ynfame afrenta.
Disculpa para vna tonta,
mas no para quien se precia
de varonil y entendida,
100 como en matarse lo mucstra.
Ni esta ronca, ni son sordas
sus criadas : a que espera,
si lanze tan apretado
dando vozes se remedia ?
105 Ma~ c-0n cl ansia de darlas
trabada tiene la lengua,
y a potente afecto humano
rendidas las dos potencias.
Ya los brazos no embarazan,
110 dando tacita lizencia
los ojos como dormida,
los gustos como despierta.
Viendo en la ocasion el joben
R,i,,,. lmpaniqut.

XIV.

que no ha meoester la fuerza,
dos med1as rramas di vide,
que vida y reyno le cuesta.
Ya Su Magestad se va
con cl abuja desecha,
a ser dulce Magallanes
120 del que estrecho considera.
Quiza que no lo sera
disculpa de que el no buelva
a oabegar l:ictitudes
que el mayor :iliento anegan.
125 Ancho u estrecho, el lleg6
con dulze y frcsca marca
al norte que yman con alma
tantos dias a que aoela.
Mar en leche, la matrona
r 30 con el corrieote se deja
surcar, y seria milagro
si agitado no se altera.
Poco a poco con buen ayre
va el rey hasta que refresca
135 el viento, y en obras vivas
crujieron las obras muertas.
Los concabos resonaron,
retumbaron las cavemas,
y en golfo de espumas cano
140 amayno la incbada vela.
Que el cumplio con su negocio
no hai duda ; sobre si ella
vino en ello voluntaria,
es roda la cootroversia.
145 Mas visto el caso, fallamos
ser constante, que pues ella
no huyo quando el escurria,
ayud6 a la concurrencia.

115

Ms. 4044 1 f. 266-269.

30
Siempre lo he oido decir
asta las piedras se encuentran,

�POÉSIES

porque al fin no ay San Martin
que a cada puerco no llega.
Por mi lo digo, que estando
cierto dia en cierta feria
que se hace en Escalona,
vn lugar sin escalera,
llegando a mercar vn pollo,
10 repare, mas que en la venta,
que me pidieron por el
ciento y dos, y tres potencias.
Dijele : c&lt; Moça, esta gordo ? »
y respoodiome risueüa :
r 5 « Alcele la rabadilla,
vera que torreçno enseûa. &gt;&gt;
Era voa moçuela, de oro
el vello de la cabeça,
la frente messa de plata,
20 la boca coral y perlas .
Quando la vi tao hermosa
vender vn polio de chresta,
que apenas le habran salido
plumas por entre las piernas,
25 $aquele dos plumas solas,
dijele dos mil endechas,
porque le hice saltar
la sangre de la primera.
« 0 mi malogrado polio,
30 o Jesus, quien tal supiera,
criandolo vos, mi padre,
para gallo del aldea ! »
Despedime, y al partirme
hiçome vna reuerencia,
3 5 con vn suspiro del alma
y los ojos en la tierra.
Hasta que el martes pasado,
no aciago (ni Dios lo quiera
q Lie yo a tal martes le !lame)
40 sino de carnestolendas,
llegando a Çocodober
a echar mi dinero en medias,
vi vna moça que vendia

vna pardilla coneja .
45 Dijele: " ~oça, a parido
la coneja? » y rostrituerta,
me respondio a lo mohino
e&lt; Ya a parido la coneja .
Vaia, que no es para eJ
50 que la querra moça y recia,
que cori el duerma en la cama;
y con el coma en la messa.
Haora vn aiio era ansi,
como sabe alguna de ellas,
5 5 pero como ya a parido,
desecharaJa por vie ja . »
Diome vn salto el coraçon,
y en el alma vna sospecha
en que era lo que decia
60 methapbora de si mesma.
Preguntela su lugar,
y apenas me dijo que era
natural de Fuensalida,
quando luego cai en ella.
65 Lleuemela a mi posada,
hicele poner la messa,
asen teme yo a los pies,
pusela a la cabeçera,
y pusela por principio
70 dos çiruelas amaçenas,
y luego vn pastel ecbiço,
con vna caiia y dos yemas,
y por po:;tre vna patata,
con dos limas en conserua .
7 5 Comio tanto de lo dulce
que la dio dolor de muelas,
y una alteracion de madre
que entendi que se muriera,
porque angustiada en la cama
80 estu bo toda vna siesta,
los ojos bueltos en blanco,
y en la mana vna candela.
Y quando bolbiera en si,
de esta manera dijera :

ATTRIBUÉES A GONGORA

85

e&lt; Ea, seiior, que ya es hora;
si ha de tomar là coneja,
saque vn pu~o de reales. "
Y dixe : « Paguese ella »;
y ella, como -sabe el precio,
90 tomo tres y fue contenta.

Ms. H95, f. 174.

3i
AL PALAÇ[O DE LISIS

5

10

15

20

25

Desesperado de uer
las maleças en que nace,
se precipità vn arroyo
i!esde vnos riscos a un valle.
El le reciue, y ofreçe
en corteses ospedajes
sitio hermoso en que se albergue,
blando lecho en que descanse.
Sierpe de cristal se arrastra
por la sombra que le haçe,
flores que el cristal fomenta,
yeruas que la sierpe lame.
De uh edificio souerbio
pisa humilde los vmbrales,
pagandole en obediençia
los honores de su màrgen.
De un edificio ·que el sol
ponpa del çïelo arogante
dexara el sér sol por ser
cinborrio a sus omenajes.
Si lo escuchas, no te admires
que dejaras de adm"irarte,
si saues. que.rie.ne a .Lisis, .
y si quien es Llsis.saµ,es,
La deydad de aquestos montes
es, en cuias prendas graues
no hallo escrupulos la inuidia,
ni aiiadio gracias el arte,
De su beldad se detienen

99

30 a los inperios suabes
los inpetus de las ondas,
las èoleras de los ayres .
Libre no uio su hermosura
que captiuo no quedase,
3 5 amante despues de verla,
fuese asta verla diamante.
Ay de quien lo esperimenta,
y entre respectes cobardes
no se quexa aunque se muere,
40 no suspira aunque se arde,
que en sus ojos· y ên su frente
er.quentra efectos notables,
fuego en calor que le yela,
nieue el calor que le abrase.
45 Si el carcax al hombro fia,
si en la maria el arco trae,
Amor, deponiendo el suio,
ya no es Amor sino amante.
Auu las fieras solicitao,
50 desmintiéndo naturales,
el que su mana las yera,
por que su pie los alcance.
Es ~l fin comun echiço·
entre suspensiones graues,
5 5 o mate las fieras hombre,
o fiera los hombres mate.
Alegre el canpo la sirua
.quando a uer el canpo sale,
en mesa de alaxas verdes,
60 dulçes lisonjas fragaot s,
que mucha quando son medras
que deµen sus prados antes
que del arroyo al cristal
de su planta a los cristales.
65 En virtud de prendas suyas
goçan prt!bilegios tales
q1Je verdor petpetuo visten,
cruxa el Euro, el Autro brame.
De este duefi.o el edificio
70 es el templo de su imagen,

�IOI

A 1 TRIBUEES A GONGORA
POESIES

100

vello oriente de dos soles,
hermoso cielo de un ange!.
0 tu, arroyo, a ti los ojos
de Lisis nunca te falten,
75 que la risa de tus bienes
diga el llanto de mis males.
Seran en sonantes musas,
si tus musicas sonantes
mi mortal ardor le acuerdan,
80 tus acuerdos inmortales.
Ms. 3796, f. 179.

32
- Decidme vos, pensamiento,
donde mis malt!s estan,
que alegrias eran estas
que tan grandes voces dan :
si libran algun cautivo
o le sacan de su afan,
o si biene algun remediodonde mis suspiros van.
- No libran ningun cautivo,
10 ni lo sacan de su afan,
ni viene niogun remedio
donde tus suspiros van ;
mas venido es un ta! dia
que llamao seiior San Juan.
15 Cuantos los que estan contentos
con placer comen su pan,
cuando a los desconsolados
mayores dolores dan.
No digo por ti, cuitado,
20 que por muerto te tendran
los que supieren tu vid·a
y agora te veran ;
los mas te habran envidia,
los otros te Uoraran ;
25 los que la causa supieren
tu firmeza lcaran,

viendo menor tu pecado
que d castigo que te dan.
Bibliothèque privée.

33
Regalanme con favores
Jas damas de mi lugar,
porque ya de monacillo
he venido a sacristan;
5 y pues que taiio campanas,
bien me pueden codiciar,
pues para moneda de obra
tengo bastante metal.
No reparan en si tengo
10 canongia o dignidad,
esperanza de capelo
o de mitra arzobispal.
Pues para que sea querido
al uso de Portugal,
1 5 basta que tenga la boisa
franca como gavilan.
Porque pienso hacer ogaiio,
si hay tantica mortandad,
mas milagros con mi oficio
20 qœ con su espada Roldan;
porque para mi regalo
entiendo que me daran
las vinageras el vino,
las sepulturas el pan,
2 5 las velaciones los polios,
los responsos el agraz,
las campanas las gallinas,
los ciriales el caudal.

Si con este prometido
30 y con esta voluntad
hay alguna damichuela
que se quiera aventurar,
desde ahora le aseguro

y la digo en puridad
35 que en las .... me remato
y en la que me diese mas.
Las condiciones que saco
a la que por bien de paz
aceptase mi partido
40 son las que pueden contar.
La primera que, pues yo
soy provisor general,
y no quiero que en su cueva
érttrè ageno medio real,
45 no· ha de ser antojadiza
como paloma torcaz
que por poner sobre espuerta
deja el mismo palomar;
no ha de ser muy andariega,
50 pues nos avisa el refran
que gallinas y mugeres
se pierden por mucho andar;
tampoco ha de ser golosa,
porque no haga otro Satan
55 que la tiente por la gula
como a la muger de Adan.
Mientras le doy con mi pico
el sustento na tural,
no ha de admitir en su casa
6o otra cafia de pescar.
Iten saco por partido
Bibliothèque privée.

34
A la posada de ausencia
Bego el Amor una noche,
despues de haber caminado
catorce leguas atroces.
5 Son los celos una espuela
que a los pechos mas harones
les hace salir de paso,
porque el deseo los pone.

Con esto llego temprano,
aunque tarde le responden,
que en el meson de la ausencia
a las cinco son las doce.
Pensà que Agradecimiento
en oyendole su nombre
15 bajara descalzo a abrirle,
mas ya nadie le conoce.
Todos estaban dormidos,
y a los gritos y a las voces
levantàse el Desengafio
20 y a la ventana asomàse.
« Por quien preguntais, Amor?
Que dais en vano esos golpes?
Que Ausencia esta con Olvido ;
ella no ve, y el no oye.
25 Agradecimiento es muerto;
y aun pienso, Dios le perdone,
que por casar con Ausencia
le matà Olvido una noche.
Los que fueron a su entierro
30 vienen a que se despose,
que el pesame y parabien
iguales parejas corren.
Ocho dias ha que os fuistes,
tantos ha que tierra corne,
35 que el uno mu rio a las diez
y el otro partio a las once.
Aqui hay colgadas muletas
y aun algunos cartelones,
que a los males mas de asiento
40 cura Ausencia si los coge.
Y vos, Amor, id con Dios,
que a un mozo tan genrilhombre
no le faltarà posada,
aunque sea en esos montes. »

10

Bibliothéque privée.

35
Despertad, hermosa Celia,
si por ventura dormis,

�ATTRIBUÉES A GO. 'GORA

POESIES

ro2

que vida que ha muerto a un
hombre
no es justo que c.luem,a asi.
5 Si no temeis la justicia,
por mi,;ericordia oid
a un alma del mismo cuerpo
que vienc a pcnar aqui.
Ahrid esas celosias,
1 o ya q Je las pucrtas no abris,
si no quereis qus entredentro,
como sombra del que foi.
Acuerdome que Ull3 noche,
sin descansar ni dormir,
t s o hallaba el sol en cllas
y vos en la calte a mi.
Para el malo y para el bueao,
sale el sol y a un mismo fin,
y aunque mas me aborrezcais
zo salio tambien para mi.
Agora que e tais durmiendo,
contenta en verme morir,
holgareis que el cielo llue,·a
y que yde sobre mi.
z 5 Si os detiene algun dichoso,
decidle que yo lo fui

············ ···············
que en vuesrros brazos estuve ;
mas no hay que fiar al fin
del sol claro por febrcro,
30 ni flot de almendro en abril.
Triste del, cuando os conozca
como yo cuando os perdi,
que teneis de piedra cl alma
y el rostro de un serafin .
3 S Celia, pues no despertais,
fo rzoso serà el sufrir ;
dormid y velen mis ojos
cntretnnto que dormis.
Bibliothèque privée.

36
En los carrillos 1as palmas,
y los codas en los muslos,
y del alma por los ojos
derramando todo cl zumo,
su duro pecbo otros caiios
hecho puchero de engrudo
desleido con mil heces
por zelos de un mozo zurdo

.. ....................
...... ............. " .. .
esrnba el pastor Gaspacho
apacentando unos mulos,
ganado que a puras coles
se desfajaba cl meoudo.
Blasftmaba del amor
que titne trcrns de puto,
1 5 que nos be ·a y no eogaiia
como Ganasa a Trastulo

10

............ .......
Al lin cl pastor Gaspacho
con su pastora saiiudo,
que porque llorar Je hace
zo la llama niiia del humo,
empuiiando un morteruelo
en que machaca sus gustos,
asi cant;1)&gt;a hacicodo
de su gargant.i un embudo :
:25 « Aunque yo foera mas feo
que las nalgas de un tarugo,
y mas ligero de cascos
que es de vuclo un aguilucho,
aunque vistiera de fiesta
30 camisa de angeo crudo,
y por echarte requ iebros
te hubiera echado un rebuzno,
uo me hubieras arrojado
a mancra de trabuco,
35 o como bodo~ue al aire

de buen brazo y arco duro.
Plegue a Dios, pastora falsa,
pues que por ti me chamusco,
te azote Amor con mas sagas
40 que tienen rabo die1. pulpes ;
que, cuaodo casarte quieras,
a.unque mientan, digan muchos
que al talamo te acompaiiau
mas de cuatro mil estupros,
45 y que en la villa probaron
muchos hombres tus besugos,
y que de nochc en la calle
bulle caza y andan bultos;
que tu solaz sca la rueca,
50 tus castaftctas el buso,
y que por coralcs rraigas
majuclos y escaramujos;
que las berzas de tu huerto
oo las riegue mi aguaducho,
55 y que para tu tinaja
faite derecho tarugo. »
Con esto se fuc Gaspacho,
porque de rabia se puso
mas sucio que doùa Esgueva,
6o la madre de los mas sucios.
Bibliotbêque privée.

37
Mudanzas del tiemp.o
y glorias caducas
en mis dias claros
me han dejado a obscuras.
5 ublosos cuidados
que gustos enturbian
tcndieron el velo
de tri tezas muchas.
Quedo obscuro todo,
10 y hecho yo lechuza,
de la luz me guardo
que no me deslumbra.

A lo hipocriton
desde esta mi funda
I 5 saco la cabcza
como la tortuga.
1iro si me v&lt;!ll,
oyo si me escuchan,
atientome mucho
20 por andar en dudas.
Ya no me conozco
d1:spues que cntrè en moda,
que muchos estados
a qualquiera mudao .
2 5 La pcs.'lda pied ra
del cuidado empuiia
mi alma entre suciios
en pie como grulla .
Ï:t no cual solia
30 sucna mi bandurria,
que la ensordecicron
del gr:m Tajo azudas.
De lo$ ojos mios
viendo las alcuzas
35 por memorias tristes
que el alma me estrujan,
muerto ando debajo
dd paiio de tumba,
que limpia las calles
40 que aqui me embadurnan.
El cuello metido
por corta r las u iias
sombrero de borlas
muy a lo de cura ;
4 5 rapado por fucrza
sujeto a la tunda,
como si yo fucra
de los de la chusma.
fü lienzos tendidos
50 cual otra v1Uda,
sobre mi sotaoa
puesta su blandura;
hecho s:icristan

ro3

�1

IOS

ATTRlBUEES A GONGORA

1

104

1'

1

cantando alduyas,
55 los bultos rocianùo
de las scpuhuras;
rcducido al fin
a c ta t.tl fortuna,
despucs de haber daJo
60 mas vucltas que gruJ;
vivo deseando
como infernal furia
abstinente en toJo
y a cl ojo la fruta.
65 Amo y reverencio
la que m: s me injuria,
maldigo las veras,
bl!ndigo las burlas.
füome al espejo,
70 no me veo arrugas,
y hacelas el tiempo
en mis aventuras.
Libertad amad:i,
tu consuelo acuda
75 al que al son de grillos
entona su musa.
Pcrdite, o cuitado,
por mi desventura,
siendo tu la joya
80 que mas todos buscan.
obrc el oro puro
y perfas te encumbras,
mal haya quien quiere
gloria sin la tuya.
85 Coma quicn quisicre
la gustosa trucha,
pues que no se pcsca
a brag:ts cnjutas.
Guste ser mirado
90 aquel hidcputa
del que a su pesar
se nota y murmura.
Que todo es, al fin,
canto Je la cuna,

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1

POESIES

95 que para en el llanto
de la sepultura.
Si algun coJicioso
sacarc de puja
la vida que compro
100 yo la doy por suya.
Mas de que me quejo,
si es mia la culpa,
pues cavè la fosa
dondc me sepultan 1

2

s

y bodigos al vicario.
El capon del al acil
ha gastado sus alhajas,
la chacona a las sooajas
y el villano al tamboril.

38
0 que bien que baila Gil
con las mozas de Barajas,
la chacona a las sonajas
y el vi!lano al tamboril l

JO

Fue a Madrid por San Miguel
y el demonio se soltb
que chaconero volvio
si iba villano el.
Salgan cuatrocientos mil
que con t0das se harà. rajas,
la chacona a las sonajas
y cl villauo al tamboril.

Un olmô que el son agudo
en mcdio el egido oyo,
J s con Ias ojas le bailô
ya que con cl pie no pudo.
Con airecillo sutil
las altas movio y las bajas,
la chacona a las sooajas
20 y el villano al taml&gt;oril.
Baile tan extraordinario
nadie le ha visto de balde;
varas le costo al alcalde

Quien tiene el tejado de bidrio
no tire picdras al del vecino.

Ms. 3795, f. 1 77·

40

fübliothèque privée.

B:iilad en el corro, moçuelas,
pues os haçe la gayta cl son,
que yo os mando vnascastaiiuelas
guarnecidas con su cordon.

39
Quicn tiene el 1cjado de bidrio
no tire picdras al del vccino.

Bibliothëquc privée.

LETRILLAS

30 de retratos vn poquito.

Vecin.a, pues ueis que somos
de la carda y del officio,
5 procurad que uamos horras
yo con vos, y vos conmigo.
Sabed que si sois nabaja,
que me precio yo de rico,
y se de puota jugar,
JO si jugar sabeis de filo.
Quien tiene cl tejado de bidrio
no tire piedras al del vecino.
Si teDgo marido yo,
tambico vos teneis marido,
1 s y se que no es sordo el vuestro,
si tiene oidos el mio.
Lo que os ymporta es callar,
que si vistis uos, yo he visto;
si abri mi puerta a las seis,
20 vos la abristis a las cinco.
Qµicn tiene el tejado de bidrio
no tire piedras al del vecino.
Si dcjais las faldas sanas,
no abra eo las mias peligro,
25 que si de saia e medrado,
uos de saia y de corpiiio.
No mireis tan cuidadosa
a quil'n pareçen mis hijos,
que a las dos se nos enticnde

No es bien que el conçejoogaiio
pague al gaytero de balde,
yo fui Ji! Castaiio Alcalde
y como alcalde y castaiio.
Si en mi fruta haceis d:iiio
10 yo os pcrdono quatro pares,
rornpeldas con los pulgares
y vosotras con las muelas.
Baylad en el corro, moçuelas,
pues os haçe la gayta cl son,
15 que yoosmandounas castaîiuelas
guaroecidas con su cordon.
Yo se quando era la sala
de los saraos el egido,
el palenque de Cupido,
20 y el tbeatro de la gala,
el dio marido a Paschuala
y a Toribio muger taoto,
y el zapatero el disaocto
haçe su pascliua de suela.
25 Baylad en el corro, moçuelas,
pues os baçe la gayta el son,
que yo os mando unas castaiiuelas
guarnecidas con su cordon.

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ATTRIBUÉES A GO.'GORA

106

POESIE

4i
Este mundo es vna cscala:
vnos la su ben y otros la bajan.

La cayada de m baquero
sirua a esta escala de paso,
5 por donde al imperio acaso
• sucçeda vn Tartaro fiera.
Y vn Rey en berjas de açero
le trae la persona pressa,
y a los pcrros de su messa
10 en las migajas le iguala.
Este mundo es vna escala:
vnos la suben y otros la bajan.
De vn corde! esta cscalera
la subio alguno tirado,
15 que va la bajo Ucbado
del collar de vna bencra,
y a.brirle hiço carrera
este lisongero falso,
al luto de vn cadahalso
20 desde el dosel de su sala.
Este mundo es vna escala:
vnos 13 suben y otros la bajan.
El caduco pareccr
de las damas paja sca,
25 pues oy, mal sana v bien fea
pluma no puedc mouer,
quien loca pisando ayer
las nubes de sus chapines
desafio serafines
30 a bolar ala por ala.
E te mundo es vna escala :
,;,os la -suben y otros la bajan.
Yo vi lebantado çiento
que la embidia derribo
3 5 y a cada cual I s toco

como pelota de viento,
la vna le da con tieoto
la orra con fu rça aprièta,
la lisonja con ,·aqueta
40 pero. la embidia con pala.
Este mundo es vna escala :
vnos la suben y otros la bajan.

Jj. 1o8, f. :1.2;.
42
Salud y vida scpades,
que vengo a dccir verdadcs.

10

Del Tajo vengo a cantar
a orillas de Mançanarcs,
aunque para mis pessares
remedio quiero tomar.
Mas ya me quiero alegrar
porque se que os doy contenta
quandoal son de mi ynstrumento
salgo a cantar noucdades.
Salud y vida scpades,
que vengo a decir verdades.

Ay doctores afamados
que son doctores famosos,
1 5 ay do-:tores ymbidiosos
que presumen de ymbidiados;
a y otros menos letrados
que presumen de criollos,
y que alegan por cr polios
20 pollinas authoridades.
Salud y vida sepad ,
que vengo a decir verdades.
Ay casada vergonçosas
porque son taças penadas,
25 ay donçellas encaladas
y caladas melindrosas,
ay corte anas briosa~

y entre lienços de paredes,
ay viejas con que lloredes
30 y ninas con que riades.
Salud y vida sepades,
que vengo a decir verdades.
El marido al u o rine
con su muger doful Gueca,
3 s porque en lugar de la rueca
cintura de perlas ciîie ;
cl gusta de que se aliîie,
y quando mas disimula,
compafiero es de la mula
40 que pintan las nauidades.
Salud y vida sepades
que vengo a decir verdades.
Ay corrieotes mormurantes,
ay corridos mormurados,
45 ay peoitentes casados
que trahen cruces de diamantes,
y discretos maleantes,
en cuias conbersaciones
ay onças de discreciones
5o y arrobas de necedades.
Salud y vida sepades,
que vengo a decir vcrdades.
Busconas vercis tapar
de quien todos haçen cruçes,
SS que pa an entre dos laces
como quartos por scllar ;
van de noch.: a campear,
porque se gastaa a escaras
sus pimeas estaturas
6o y sus gigaotas edades.
Salud y vida sepades,
que vcngo a decir verdades.

La viudita vergonço sa,
toca y monjil de picaça,

•

65 con lagrimas de mostaça
sale picante y Jlorossa,
mas en su messa vicioss.1.
ay gigote de seiiores,
pepitoria de priores
70 y picadillo deauades.
Salud y vida sepades
que "engo a decir verdades.

Ms, 3795, f. Ii3 v.

VARIOS
43
SATIRA

A que grande desuentura
vino al mundo por su mal
que no se hnlcança vn re:il
sin leuantarse figura.1
5 Este mal no tieae cura
ni se puede remediar ;
todos quieren estafar
en faltando plus de argen.
Remedielo Dios. Amen.
Van las seiioras casadas
que tienco nccesidad
a cierta paternidad
que remedio las pasadas,
con el marido enojadas
15 porque le sienten paçiente
y el linge ser ynoçente
y aun hace que no lo uen.
Remedielo Dios. Amen.

10

20

Esta la casi doncella
labrando en su bastidor,
y â bueltas de su labor
anda cl moçuelo con ella ,
Va cl seiior dotor auell.t,

�I08
porno decir la comadrè,
25 y sin saberlo su padre,
s □ elen datle el parabien.
Remedielo Dios. Amen.
La mozuela de seruicio,
luego que deja el esparto
30 se sale· con s'u lagarto
a darse vn poco de vicie,
y echa luego dé juizio·
como lo i::emediara,
y que mentira dara
35 porque no la den vaiben .
Remedîelo Dias. Amen.
La viuda jàlbegada
con su toca reuereoda
que hace de su cuello tienda
40 y gusta de ser tocada,
mas quando la muy taimada
con esta resolucion
no admite conuersacion
ni quiere ·que se la den,
45 Remedielo Dias. Amen .

Con fingida debocion
esta là monja reçando,·
de pensamiento pecando
con el que tiêne aficion ; ·
50 maldice su religion
porque no puedê salir
y su deseo cumplir,
aunque mil traças se den.
Remedielo Dios. Amen.

SS Ya_este mundo va perdido
y las cosas en peor,
ya priua el mormurador
con el que· nunca lo ha sido;
a ta! miseria ha beni.do,
60 que si no se ua a la mano

POESIES
ATTRIBUE"ES A GONGORA

no se ha de hallar vn cristiano
que llamen hombre de bien .
Remedielo Dios. Amen .
Ms. 3795, ~- 1 77 v.

44
Que entre los gustos de amores
la ooche se estime tante,
no me espanto,
que es capa de peccadores ·
5 y de peccadoras mante.

10

Que este el padre confiado
en que su hija es doncella,
porq ~e siempre ha bisto en ella
vn termine muy honrrado,
pero que viua engafiado
porque ubo quien a pie enjuto
cojio flor y dejo fruto,
trocando tanto por tanto,
no me espanto.

Qµe en la yglesia le amanezca
a la beata jergona,"
35 y que apeoas ay persona
a quien santa no parezca,
y que apenas auochezca,
quando 1 dejando el jergon,
· sepa gozar la ocasion
40 y olbldar tristeza y llanto,
no me espanto.
Que olbidada de su voto
de dia en el librador
tenga firmezas de amor
45 la monja con su deuoto,
y que ande todo tan _roto,
que picada en este çeuo
gaste mas belas de seuo
que peces tiene Amaranto,
50
no me espanto.
Ms. 3795, f. 177.

45
15

20

Que eu la noche mas elada,
estando el ntarido ausente,
que busque quien là caliente
la bellisima casada
y remanezca prefiada,
y el marido este seguro
de que su mujèr es mura
formado de cal y canto,
no me espanto.

Que la viuda ensàbanada,
. 25 los ojos en el sagrario,
tenga en la mano el rosario
y se nos muestre eleuada,
y que la noche llegada
la visite el clerigon
30 por hija de confesion,
sin ser el el Padre santo,
no me esparuo.

Antes que el suei'io me venza
y se me apague la luz,
escrib1r q_uiero mis males :
memoria, ayudame tu .
Mejor a cantar m.e aplico,
quiero tomar mi laud ;
mencster serà templarlo ;
tiutin, tararan, tantus .
Vencido llegà el amor,
herido con arcabuz,
desde cuando me azotaban
los hermanos de Jesus.
Amaba a una zagalilla
mas !ioda que un cielo azul,
I 5 cuya dulce boca excede
lamedores de orozuz.
Con versos la conquistaba :
ved que barras del Piru !

IO

109

Conocio de mi flaqueza
estar falto de salud .
Valiose. del iateres,
y au nq ue me enseii6 ttl 11.011 pltis,
lleguè a vista de su estrecho,
tanto puede mi virtud !
25 Y con ser padre de casta
como caballo andaluz, ·
la yegu-a no me consiepte
tintin, tararan, tantus.
20

Soy en el juego de amores
30 tan desgraciado tahur,
que cuando ha bia primera
mis desdicbas bacen flux.
En naciendo hizo milagros
por ·obra de Belzebu,
35 y para tante embeleco
no se qulen le ha dado a luz.
Aprendio las. falsas letras
con tanta solicitud,
qu.e de be supo hacerme
40 infinitas veces m.
En. habieodome ofendido
èn llegando a hacerme el buz,
de rendido pago y trago
sus hierros ·coma avestruz.
4 5 Haceme andar con rodela
y espada de Sahagun,
coma si acaso yo fuer_a.
Sacripante o Ferragut.
Martirizame con cdos
50 coll no ser mas que un run run,
casamiento me demanda,
tintin, tararan, tantus.
Bibliothcq ue privee.

46
El desdichado que logra
sus dos cueroos peligrosos,

�ATrRIBUÉES A vO.'GORA
POÉSIES

IIO

co11 el tiem po de la ropa
y la \'Ïda con t:l odio.
5 Hurtasele cl cuerpo al zelo
taro, a quien engaûan pocos,
comctio su bote al viento
y a su sombra sus enojos.
Cuelga tu imagcn de cera
10 a e1 cscarmieoto, de,·oto,
y antes que vcnga el olvido,
ponte, miserable, en cobro.
Prcgono, pregono ...
Escarb:mdo cstà en la areoa,
vedrandoscla en el lomo,
porque a 1:1s e paldas becha
memorias vueltas en polvo.
lmpt:rios y monarquias
le ticnen los cuernos rotos;
20 la fama sol:1 le ha hecho
las hurlas que tieocn ojos.
Dejale agradecimi~tos
que cual lcbrel generoso
se Je cuelguen de fa oreja
25 si tiene orejas un sordo.
l\ias ya le encomienda al aire
su rigor no sufre modo;
quiera Dies no des cuitado
largo ejcmplo en anas conos.
30
Pregono, pregono ...

15

Biblio1h~que privce.

47
Despues que la riuera
pisas de nue tro rio,
haçc con el estio
paçes la prima vera,
5 y nuestros lahradores
tantas espigas siegan como flores.
El otofio a jurado

de consentir que acoja
qualquier; seca oja
1o en verde yerba cl prado
de l.1s que çiento a çicnto
deriba de los arbolcs el viento.
No esta el iovicrno caoo
menos agradecido,
15 y rejubencscido
nos da la fe y la maao
de que seran al suelo
plara las oieves y christal cl yclo.
Al fin, dulce seûora,
el tiempc te obedeçe
y al Betis faborece,
micotras cl Tajo liera
y que yo le acompaûo,
cl intiendo tu ausencia y yo mi daào.
20

Jj. xo8 eu 4• f. 180.

48
DECIMAS DE

on LUIS DE GONGORA
A VNA

DAMA St;îA QUE SE \'BA A ROMA

Mariana, si a Roma vas,
en jornada semejante
ni te absuelbo por delante
ni aseguro par detras;
tu hermosura agraviaras
a quien con fineza rara
adore, desdicha clara !
pues te vas, quando te alavo,
donde han de mirar ta rabo,
10

c1 1 n • · • n 1

Ya que no te vas a estrecha
religion, donde S3lvartc,
al menos te vas a part

donde hasta cl culo aprovecha :
1 5 si aigu 11 espa.ûol te llecha
y compite algun romano,
tener zelos serà en vano,
pues podran besar tu sol
en la voca el espanol
20 y en el culo cl italia no.
Ya te miro, niiia, andar
sin alerte el culo a algalia,
mas tornada por ltalia
que vna espada por la mar.
2 5 • li fe te quise eatregar,
rnmo, ni11a, mi amor fue ;
mas desde oy retire
fo tan vana, pues regulo
que quien no guarda su culo
30 menas guardara mi fe.
Si llego a neccsitar,
grande falta me bas de ha er,
porque al 60 cres muger
q uc hasta el culo sabcs dar ;
35 va consejo has de Uevar,
pues par.t aquesta jornada
de mi no bas lle\'ado nada,
y es que mires por tu vida
que no vuelvas descosida
-10 ya que vuclbas dcsculada.
. ls. 40#, f. 257.

49
Si atrcuimiento tubicra
como os c teoido amor,
fuera menos mi dolor
y mayor el premio fuera.
5 Esta el coraçon dudando,
hablar y callar querria,
y entre el miedo y la osadia
hablan mis ojos llorando.

Que cotre firmes coraçones
que s:iuen de amor constante,
ya es leaguaje del amante
lagrimas y no raçooes.
Y t:n \'li honbre que es prudente
y ia perfccto en la ed:id,
15 es m:iyor dificultad
llorar que hablar cuerdamente.
Como hace el ciego dios
este loco disconçierto
que sea yo, sefiora, el muerto,
20 y que yo llore por vos ;
y m s que,silo mirays
hace que Jlore mi suerte
por vos que me dais la mucrte,
y no porque me!Ja days.
25 Que Amor, dios rapaz y ciego,
para que abrasado muera,
echa toda el agua fuera
y va acreçcntaudo el fuego.
Huelgome suceda ansi,
30 aunque ofenda mi paçiençia,
porque os jure la experiençia
que ya os quiero mas que a mi;
que -entre quantos an amado
con naturaJ aficioD,
35 puedo hacer obstentacion
del mas firmeeDamorado .
Fuera d l alma no encuentro·
mi amor en otro lugar,
porque el alma os quiere amar
40 desde sus puertas adentro.
Tan honesto le a criado
la raçon que le coD ierta,
que de la voca a la puerta
hasta agora DO a Uegado ;
45 viuio bien de esta manera
mienrras fue ni110 meoor,
pero ya como es maior,
se muere por salir fuera.
Por soscgar sus amojos,
JO

�ATTRIBUEES A GONGORA

POESIES

lI2

50 le ofrezco, sefiora mia,
que le e de sacar vn dia
al campo de vuestros ojos.
Pero no se pierda en el
y me echen la culpa a mi,
55 que a donde yo me perdi,
no es mucho se pierda el.
Si no es que vuestra velleça
despierte a tener pieda4,
hacieodoos con su humildad
60 perder la naturaleça.
Pero de qualquiera suene
el alma esta a vos rendida ;
para vos quiero la vida
y por vos quiero la muerte.
Ms. 3976, f.

I9I

A UNA DAMA
EN OPINION DE DONCELLA
Y NO LO ERA

Viendo tu grande inchaçon,
apostaron ma vez
tus deudos que era prenez,
tus padres que opilacion.
Ventilaron tu maldad
quando salie, Madalena,
vn Jonas de tu vailena,
que "predico la uerdad.
Ms. 3796, L 196.

v. _

53

50

A VNA DAMA QUE RONPIA

QUlN'l'JLLAS A VNA TABERNERA
QUE VENDIA MAL Vl'l\O

Esta vende de contino
tabemera vn infepial
vino que nunca combine,
porque con vino y con cal
nos vuelbe el vino Cal-vino.

Ms. 7Ô44,

f. 258.

5t
REDONDILLA

Dejad madurar las hubas,
no las cojais en su flor ;
si quando nifia soys puta,
que sereys quando mayor?
Ms. 4044, f. 269 r.

a quedarse quando tiene
tu vejiga candilillas.

52

LOS JUBONES l'OR DETRAS

Por detras das en ronper,
Juana, ese jubon que traes ;
deue de ser que si caes,
de espaldas deue de ser.
Ya roto tu honor, cscuchas,
no vengas a deleytarte
en ronperte en una parte,
si as de quedar rota en muchas.
Ms. 3796, f. r96.

54
A UN l'OEïA CON MA1- DE ORINA

Mal poeta y no orinar,
Castro, querras que te diga
que a tu vena y tu vejiga
ya no les queda que dar.
Vien las dos dos marauillas,
que tu vena a escuras viene

Ms. 3796, f. 196.

55
A ONA DAMA PRENADA

IIJ

eso es armarte dcspues
que la pendencia a pasado.
Con amorosas rencillas
ya con dos armas te ballas :
broquel para repara!las
y peto para cubrillas.
.Ms. J796, f. 196.

Por encubrir tu preiiado,
gran peto te as puesto, Yn~s;

INDEX ALPHABÉTIQUE
A la luna el Tajo ofrece. 23 .
A la posada de ausencia. 34.
A las orillas del Betis. 24.
A que grande dcsventura. 43 .
Amerntçaua los campos . r9.
Antes que el sueiïo me venza. 45.
Aquel que en Delfos tubo gloria tanta. 4.
Bailad en el corro, moçuelas. 40.
Boisa sin alma, pereçoso arriero. 6.
Cayo enfermo Esguevilla de opilado. 13.
Clerigo calabres o calba trueno. 7.
Corno acude el hambriento gato al i{1is: 3.
De hacer de vuestro çulo jubileo. 5.
Decidrne vos, pensarnicnto. 32.
Dejad madurar las ubas. 51.
Desesperado de ver. 3I.
Despeiiauase atrevida. 25.
Despertad, hermosa Celia. 35.
Despues que Apolo tus coplones vido. 2 .
Despues que la rivera. 47.
Doliente esta don Tasajo . 21 bis.
El desdichado que logra. 46.
El duque mi seiior se fue a Francially tu musa a.la tuia o a su estancia .
Embutiste, Lopillo, a Sabaot. I.
En los carrillos las palmas. 36.
En un aliso verde. 16.
Era vicario T arquino? 29 .
R-tuut bispaniq1u . xiv,

10.

�114

POÉSIES

Esta vende de contino. 50.
Este mundo es una escala. 41.
Henares el de Sigt1ença. 28.
Libres canpeando en el ueuado cuello. 12 .
Lustrava el cuerno de oro. 17.
Llegose tan bien mi hora. 27 .
Mal poeta y no orinar. 54.
Malo estava don Tasajo. 2r.
Mariana, si a Roma vas. 48.
Montes, valles, campos, selvas. 22.
Mudanzas del tiempo. 37.
0 que bien que baila Gil. 38.
Para paner en paz la pesadumbre. I 5.
Por detras das en ronper. 5 3.
Por cncubrir tu preiiado. 55.
Predico el provincial ma ... ardia . r 1.
Qµatrocientas mil putas, y cornudos. 8.
Que entre los gustos de amores . 44.
Quien tiene el tejado de vidrio . 39.
Quitava el vela a sus cabellos rojos. 18.
Regalanme con fa vores. 33 .
Rodeada de platos y escudillas. 14.
Ros.'lS deshojadas vierte. 20.
Salud y vida sepades. 42.
Sen.or Guadalquivir, estese quedo. 9.
Si atrevimiento tuviera. 49.
Si de antecesores tantos. 26.
Siempre lo he oido decir. 30.
Viendo tu grande hinchaçon. 52.

CONTOS POPULARES
PORTUGUEZES

f. 0 GRILLO E O LEA.0

Uma vez o leâo encontrou-se corn o grillo gue estava na sua
toca a cantar: rei, rei (som imitativo). 0 leâo disse-lhe: "Oh!
compadre, entâo tu és rei? &gt;&gt; 0 grillo disse: « Sou, sim, sou o
rei dos bichos com azas. &gt;&gt; 0 leâo que tambem é rei dos ani•
maes, disse: &lt;( Pois eu tambem sou. rei, e se tu és rei e eu sou
rei, como é que ha de haver dois reis num paiz? &gt;&gt; Responde o
grilla: &lt;( Pois tu, prepara as tuas tropas, que eu te mostrarei o
motiva porque sou rei. &gt;&gt; 0 leâo preparou logo um exercito_ de
gatos para ir ter corn o grilla ao monte. 0 grillo preparou um
exercito de mosquitos, e deu uma coça nos gatos do leâo. 0 leao,
visto que perdeu os gatos, preparou um exercito de câes. 0
grillo botou-lhe um éxercito de moscas que derrotaram os câes.
Depois o leâo preparou um exercito de raposas para a batalha do
grillo. 0 grilla entâo soltou um exen:ito de vespras amarellas, e
assim estragaram o exercito das raposas, que s6 escapou uma,
que se botou a nado a um regato de agua. 0 leâo entao preparou
um exercito de labos e mandou-os para o monte ba.talhar corn
o grilla. 0~ lobas corn as unhas desenterravam os grillas, masos que
escapavam, foi um s6, mandou uro exercito de abelhôes sobre os
lobas, e o grilla que tinha escapade sempre a clamar: rei, rei, rei.
Nisto escapou um dos lobos, e foi fugindo pela serra abaixo, procuraodo um logar sombrio. Os vespros saltaram-se nelle, e
foram-no perseguindo. A raposa que estava do outra lado do

�C0NT0S P0PULARES P0RT0GUEZES

116

C0NT0S P0PULARES P0RTUGOEZES

regato e cornençou a gritar para o lobo : cc A' agua, compadre, a
agua ! » Nisto o lobo deitou-se a agua e affogou-se. 0 leàoque se
viu perdido em todas as batalhas que deu ao grillo, foi ter corn
elle para que lhe dissesse o motivo porque era rei. 0 grillo respondeu-lhe: « Tu, leâo, nào sabes que eu sou rei dos bichos, e
tu rei dos animaes, e Cupido rei dos amantes ? Sào tres cabeças
reaes. » E assim entâo é que o leâo caiu na razào sabendo que
erarei dos anirnaes, que até entâo nào sabia.
(OPORTO)
2. A RAP0SA

Era mua vez um pescador que ia apanhar lenha pela c6sta do
mar e ·encontrou um tubarâo mettido numa rede. 0 tubarâo
mal 'o viu, disse-lhe: cc Oh! bicho homem, tiras-me d'esta rede? »
0 homem teve pena do tubarâo e tirou-o da rede. Mas o tubarâo,
que havia uns poucos de dias que esta va preso na rede, tin ha
f6me, e botou-se ao homem para o corner. 0 hornern disse-lbe
muito afl:licto: « Oh ! tubarâo, ent:io eu tirei-te da rede e tu
agora queres-me corner? » 0 tubarâo respondeu-lhe: « Corno,
porque tenho f6me. &gt;i O homem disse-lhe : « Pois nâo me
comas sem primeiramente tornarmos tres conselhas, dos tres
prirneiros folgos vivos que encontrarmos. Se todos fallarem por
uma bocca, esta o juramento (sic) approvado. Ese fallar um por
uma bocca e dois por outra, a maioria é que vence. &gt;) Mas o
tubarâo nào queria largar o homem, e nâo largou, mas estava
sempre corn elle agarrado. Chegâram .i areia de terra e avistaram
um burro velho, e perguntaram-lhe: « Oh ! burro, por bem fazer,
mal haver?» Responde o burro: cc Sernpre foi e ha de ser. ))
Preauntou
o homem: « Porque dizes tu isso ? &gt;&gt; - c&lt; Porque eu
v
quando era cavallo (sic) novo, meu amo até numa rede me trazia por via &lt;las moscas, quando elle ia a cavallo, eu ia todo contente a saltar. Hoje que me acho cavallo velho botou-me :i margem. Pagou-me o hem com o mal. JJ Diz o tubarào: cc Vês,

homem, o primeiro ja esta a meu favor. » D'ahi a bocado passa
um 0aalao
tambem velho ,· diz o homem: cc Oh ! galgo., por bem
0
fazer, mal haver ? » 0 galgo respondeu : « Sempre foi e hà de
ser. &gt;J Diz o homem: « Porque dizes ru isso? » - « Porque
quando era galgo novo, rneu amo ia para o monte a caça, e eu
corria aquella serra toda sobre a caça. Tinha-me o meu amo
tanto amor, que me nào dava por dinheiro nenhum. Hoje estou
cançado e velho, e meu amo para me nao matar, botou-me
para o monte a margern, cheio de pancadas, e aqui esta como
elle me pagou o hem com o mal. ,, 0 tubarâo abriu entao a
bocca para comer o homem. 0 homem disse: &lt;&lt; Alto M, que
ainda falta um. i&gt; Nisto apparece uma raposa. Diz o homem :
cc Ah 1 comadre raposa, por bem fazer, mal haver? J&gt; Diz a
raposa assim: cc Nâo, que eu nâo posso lavrar sentença sem ver
o crime. ii Responde o ho1.11em : cc Entao como é que se ha de
agora formar crime? » Responde a raposa: cc Torne o tu.barâo
para a rede. &gt;l O tubarao isso é que nao gueria, mas nâo teve
remedio e sempre foi. 0 homem mal o viu lâ, ainda o segurou mais do que elle estava. A raposa entâo disse : cc Agora
salte o homem câ para terra. » A raposi entào voltou-se para
o tubarâo e disse-lhe:
Por bem fazer, mal haver,
Sempre foi e ha de ser ;
Quem quizer fugir que fuja,
Que eu assim vou fazer.

Depois o homem fugiu para um lado, a raposa para outro, e o
tubarâo ficou preso dentro da rede. Depois a raposa foi-se pôr
adiante nurn caminho a fingir-se mona. 0 pobre homem que
andava apanhando a leuha, encoutrou a raposa c disse: &lt;&lt; Ah!
coitadinha, pobre raposa, ainda agora me valestes, quem te
mataria? » Nisto pegou nella e tirou-a do caminho, nâo viesse
algum carro que a traçasse. A raposa levantou-se sem o homem
ver, e foi pôr-se outra vez mais adiante fingindo-se morta outra

�II8

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

vez. 0 homem ainda teve pena d'ella e tornou-a a arredar do
caminho . Mas ella tornou a ir deitar-se outra vez no caminho
mais adiante. 0 homem a terceira vez disse: « Que diabo, tanta
raposa ! &gt;&gt; e pegou num cip6 e começou a dar na raposa. Diz a
raposa: « Vês, homem, em gue instante pagas o bem corn o mal?
Por bem fazer, mal haver . » 0 homem tornoua bater-lhe mais,
e a raposa foi a correr e metteu-se em casa do hornem. 0 homem tinha uma capoeira de gallinhas, mas a capoeira tinha uma
ratoeira na porta. A raposa entrou para dentro e ficou presa dentro da capoeira e comeu as gallinhas rodas, que eram sete. 0
homem guando chegou a casa viu a raposa dentro da capoeira e
as gallinhas todas comidas. Pegou num cip6 e foi a capoeira, e
começou a barer na raposa. A raposa começou a pedir misericord ia : « Perdoe-me, seu lavrador honrado, gue eu sete le corni, e
quat0rze le darei, nem que eu a fome morra, nâo quero andar
debaixo da sua cachaporra. »
(ÜPORTO)

3.

0 FILHO DO PESCADOR

Era uma vez um pescador que vivia muito pobre. Um dia gue
nâo tinha nada que dar de corner aos filhos, disse a mulber gue
ia para o mar a vêr se pescava alguma cousa. Chegou la e lançou a rede tres vezes, e de tres vezes nao tirou nada, e depois avistou
um navio muito rico e todo embandeirado. E ouviu uma voz de
dentro do navio : c&lt; Pescador, das-me esse menino que ahi
trazes ? 1&gt; 0 pescador respondeu : cc Corno te hei de eu dar este
menino se é da mâi ? » A voz disse: &lt;&lt; Pois vae a terra e diz a
ella se t'o dâ, que eu te encho este barco de dinheiro. » 0
pescador veiu para terra e disse para a mulher : « Mulher,
nào trouxe peixe nenhum, mas encontrei la um navio
muito rico, e ouvi la uma voz de dentro do navio, se eu lhe
&lt;lava este menino que me enchia o barco de dinbeiro. E tu,
en tao, que dizes, mulber? » A mu lher respondeu-lhe: « Pois

1

II9

entâo, da. » Pegou o pescador e foi para o mar com o menino
outra vez. La encontrou o navio no mesmo sitio. Tornou a
deitar a rede no mesmo costume e nao tirou nada. Depois
ouviu outra vez a voz de dentro do navio a dizer-lhe: « Pescador, &lt;las-me esse menino? que eu te encho ecse barco de dinheiro. )) Opescador disse:« Dou. »- c&lt; Poisentào, trazdobarco
ao navio. » 0 pescador assim fez. Diz a voz depois: « Assobe,
menino. &gt;&gt; Apenas o menino saltou a bordo, começou logo a
cair dinheiro no barco do pescador. Mas o pescador disse que
nâo queria mais dinheiro, que tinha medo que o barco fo~se ao
fundo. Nisto o navio alvorou por outro lado com o memno, e
o barco foi para terra . Chegando o navio a uma cidade, o menino
ouviu a voz dizer: c1 Menino, salta nesse escaler. &gt;) 0 escaler e
a cidade estava armada· com toda a riqueza . 0 menino depois
foi para terra . Quando chegou, viu uma carruagem muito rica,
puchada por seis cavallos. E ouviu a ~oz diz~r-lhe: c&lt; Men~no,
entra naquella carruagem. &gt;&gt; 0 menmo ass1m fez. Depo1s a
carruagem partiu pela cidade f6ra. Chegou f6ra da cidade e foi
até um bosque, doode estava um cavallo to&lt;lo apparelhado. Depois
ouviu a mesma voz dizer: « Menino, salta dessa carruagem e
monta-te no cavallo. &gt;&gt; 0 menino montou-se no cavallo e
entrou pelo bosque dentro. Estava no meio do bosque um
palacio todo muito rico e embandeirado. Ali dentro do palacio,
encontrou tudo q uanto era preciso para comer. Para entrar
encontrou portas, mas para sair o menino nâo encontrou nenhuma. S6 via o dia, e a noite nâo via nada, porque naquelle palacio nâo havia luz. Assim esteve um anno. Ao fim do anno lhe
appareceu a voz, e disse-lhe: « Menino, como te achas neste
palacio? » Respondeu o menine : cc Acho-me bem, que nâo me
falta nem corner nem beber. S6 a maior paixâo que me accompanha é de nâo ver niogurm, nem ter luz, nem saber quem
falla para mim . &gt;&gt; A voz entâo disse-lhe: cc Ahi tens dentro d'este
palacio seis q uartos, tres de cada um lado. Tres têm fatos e ou_tros
tres têm muito dinheiro . Entre esses faros escolhe o que mais te

�I20

121

CONTOS POPULARES PORTUGUEZtS

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

agradar. » 0 menino escolheu logo um fato de rei. 0 fato èra de
encanto e mal elle o vestiu, ficou-lhe logo muito certo no corpo.
0 menino escolheu tambem uma espada das melhores. Depois
disse o menine que q ueria ir ver o seu pai e a sua mâi. Responde -lhe aquella voz: cc 01ha tu, se te obrigas a estar aqui neste
palacio outro anno, seras muito feliz, e se nào entâo seras desgraçado. Vai ver a tua mâi e o teu pai. &gt;&gt; Metteu-lhe dentro do
bolso isca e fuzil sern o filho saber. 0 menine assim que acabou
o nurnero de &lt;lias que tinha tratado, rnarchou para o palacio.
Foi o pai leva-lo no barco aomar. Assim que chegou li, avistou
o navio, mas ja muito velho. Diz o pai : cc Oh ! rnenino, aquelle .
navio n:io é o mesmo ! » Diz o filho: cc Pois nao
nào, que
quando eu aqui o deixei, estava elle muito rico. » 0 barco foise approximando ao navio e ouviu a voz dizer : cc Menine, salta
para bordo, nâo receies nada . ,&gt; 0 menino subiu para o navio.
Depois o pai veiu para terra corn o barco. Corno o pai ji estava
muito rico com o dinheiro que lhe deu o navio, esqueceu-se do
filho. 0 navio approxirnou-se da cidade, mas estava tarnbem
ji muito velha. Desembarcou e foi para a carruagern: os cavallos que puchavam a carruagem ji estavam muito lazarentos e
meios mortos e velhos. Chegou i beira do tal bosque, e estava
la o cavallo i espera delle, mas muito velho. Entrou pelo
bosque dentro, chegou a beira do palacio e ficou muito triste,
por ver que o palacio estava a quasi a cair, e disse: cc Ora eu
quando d'aqui sahi,. estava este palacio tao rico, e agora esta
tudo velho, a cair ! » No mesmo instante ouviu a voz dizer-lhe :
&lt;c Nâo te disse que nâo trouxesses lume contigo nem cousa que
fizesse lume? &gt;&gt; 0 menino, muito adrnirado, disse : cc Nâo
trago ! &gt;&gt; Responde-lhe a voz: cc Pois o que te vale é tu nâo o
saberes ! Trata de te pôr d'aqui ja para fôra, e agradece â tua
mai o tu perderes a tua fortuna. » 0 menino pegou em si e
alvorou logo pelo palacio f6ra. Foi andando e dirigiu-se para
umas montanhas, sem dinheiro nem uada paracomer nem vestir,
todo roto e esfraugalhado. Chegando la por essas monta-

nhas dentro, encontrou um burro mono; a beira do burroestava
um leào, um galgo, uma aguia, uma pomba e uma formiga.
0 menino passou e nâo fez cas9. D'ali por um bocado
olbou para traz e viu o galgo na corrida. 0 men~no teve
medo pensando que o galgo o iria matar. 0 galgo mal chegou
ao pé d'elle, disse-lhe: &lt;c Bicho homem, toma atraz. &gt;&gt; Diz o
menino: et Que é que quereis v6s? i&gt; Diz o galgo: &lt;c Anda atraz,
la t'o diremos. &gt;&gt; Omenino cheio de medo tornouatraz. Chegouse ao pé do burro morto e diz-lhe o leào: &lt;c Mandamos-te chamar para ver se te _atreves a fazer uma partilha, que nos encontramos aqui ha uns poucos de &lt;lias â. beira &lt;leste animal e nào
sabemos o que havemos de camer. » 0 menino partiu o burro
e deu a cabeça à formiga: &lt;c Ahi tens tu, formiga, para comeres
e casa para viveres. » Deu o peito ao galgo e diz- lhe : &lt;c Ahi tens,
galgo, para comeres, e como és o animal que pucha mais
pelo peito, precisas de peito. » E deu o fato (o bandulho) a
pomba e a aguia e disse p:ira ellas: cc Ahi teem para corner e
para se divertirem vocês corn as unhas. » Depois &lt;leu as côxas ao
leâo. E nisto foi-se embora, e os biches ficararn cornendo o
burro. Chegou ao principio de uma serra ja cansado, e olhou
para traz e viu outra vez o galgo a corru. Diz o galgo : &lt;&lt; Bicho
homern, toma atraz. » 0 menino atemorisou-se porque julgou
que nâo tinha partido bem, e que o queriam rnatar. E disse
para consigo : &lt;c Ai, Jesus !· que eu nào parti bern, e agora morro ! »
Tornou outra vez ao pé do burro mono, e elles tinham ja
comido e estavam muito satisfeitos. Diz o leâo: cc Bicho homem,
estarnos tâo satisfeitos com a tua partilha, que vamos-te tambem agora dar cada um uma prenda. » - &lt;c Pobres bichos, disse
elle, que prenda me haveis de dar? » Fallou a formiga : cc Sou
eu a prirneira a dar-te a ininba prenda . Quando quizeres entrar
em algurna parte que te nao vejam, diz assirn : ai de mim ! formiga ! que entraras aonde queres sern ninguem te ver. » Diz o
galgo: &lt;c Pois tambem, quando quizeres subir urna serra sem te
cançares, diz assim : ai de mim ! galgo ! » Diz a aguia: cc Pois

e,

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

tambem, quando tu quizeres passar alguma lagôa e nào passas,
diz assim : ai de mim ! aguia ! 1J Diz a pombinha : ,, Pois tambem,
q □ ando tu quizeres entrar nalgum jardim, diz assim: ai de mim !
pombinha ! &gt;! Diz o leao: cc Pois tambem, quando tu te quizeres
defender d'alguem ou fazer alguma valentia, diz assim: ai de
mim ! leiio ! que foras tudo o que pretendes. &gt;J O menino foi-se
embora e nisto chegou a beira de uma serra, e viu o sol a fugir
e nao via senâo montanhas, e entendeu que fazia noite e elle
fi.cava nas montanhas. Lembron-se entâo dos bichas, e disse: ai de
mim ! galgo ! Formou-se logo num galgo e passou a serra num
momento. Assim que passou a· serra chegou a uma lagôa e disse:
ai de mim ! aguia ! Formou-se numa aguia e passou a lagôa.
Ass-im que passou a Iagôa, avistou logo um alvoredo e um jardim, e dentro do jarclim um palacio, don de andavam tres damas
a passearem pelo jardim, a brincarem corn umas pombinhas. 0
menino disse : ai de mirn ! pombinba ! Fez-se loge numa pom binha
e foi para o jardim brincar corn as outras. As damas começaram a
brincar corn a pombinha, a ver se a podiam apanhar. Nâo poderam agarra-la e deixaram-na fi.car. Assim que anoiteceu,
foram-se as damas deitar. A pombinha formou-se numa formiga
e entrou para o palacio e foi-se metter corn uma dama na cama.
Depois disse : ai de mim / homem ! A dama que deu fé do homem
sua beira acordou e poz-se a gritar pelas irmâs. As irmâs levanraram-se e foram ver o que a mana tinha. Neste comenos o
homern fez-se outra vez na formiga. Ellas perguntaram-lhe que
era. Ella disse que era um homem, mas ellas nào viram nada.
Tornou depois outra vez ella a gritar e as irmâs coma nào
viram nada tornaram-se a deitar outra vez, e a dama ja nâo gritou. Quando viu o homem na cama, pregunrou-lhe: « Que qualidade de homem és tu ? ,i Elle disse-Hie que era o filho de um
pescador, que andava pelo rnundo a desencantar damas, e que ja
tinha desencantado algumas. Ella disse-lhe : « Pois ja que tu és
desencantador, se te atreveres a desencantar meu pai, que é rei,
e esta encantado num leâo. » 0 menino perguntou : « Que é

preciso fazer para o desencantar ? » A menin a mostrou-lhe no meio
de uma sala um leâo de ouro, e disse-lhe que se houvesse quem
se aventurasse a levar aquelle leao e entre as onze e a meia noite
a deita-lo a lagôa, que o rei ou morria ou ficaria desencantado,
mas que a pessoa que fôr deve deita-lo s6, porque se fôr agarrada a elle, ficam ambos 'perdidos. 0 menino deixou-a adormecer e foi ao sitio a onde esta va o leâo de ouro. Depois, como tinham passado ja as boras, fi.cou no palacio até a noire seguinte.
Chegou-se a noite, as haras das onze horas formou-se num leâo
e foi empurrando o leâo de ouro para a borda da lagôa. Assim
que deram as onze horas e meia, preparou-se para o atirar
agua; empurrou-o e s6 o leâo d'ouro molhou os pés. Mal mol hou os pés, fez-se logo num homem e o rei fi.cou desencantado.
0 menino que estava feito num leao formou-se num homem ao
mesmo tempo. Disse-lhe o rei: cc Que qualidade de homem és
tu? &gt;i O menino respondeu : &lt;&lt; Sou o filho de um pescador, que
aprendo e tenho anima para andar a desencantar pelo mar e
pela terra. &gt;J Disse-lhe entào o rei; « Pois tu has de ser feliz e
has de casar corn uma de minhas filhas, ja que me desencantastes. &gt;J Foram para o palacio escolher &lt;las tres a que mais lhe
agradava. 0 rei queria que elle escolhesse a mais velha. Mas o
menino escolheu a mais nova que era aquella com quem elle
tinha ficado de noite.

122

a

123

a

(ÜPORTO)

4.

MARIA DO PA.O

(Variantes)
A madrinha que da :1 menina o conselho de pedir os vestidos
ao pai, é a Fada dos Lirios.
Os vesti&lt;los é um côr do sol, outra côr da lua, o terceiro côr
do dia, o quarto côr da noite, e o quinto côr &lt;las estrellas.
- Ha d'este canto em portuguez uma versiio intitulada Pelle

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

124

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

de burra, ern que as coincidencias corn o conto de Perrault sâo
muito grandes. Mas nâo sera uma infiltraçâo literaria?

5• OS

DOIS IRMA.OS QUE FORAM AO INFERNO.

Eram dois irmâos, urn pobre e outro rico. 0 pobre f9i pedir uma
esmola ao rico. Elle deu-lha, mas prohibiu-lhe que lhe chamasse
irmâo. Um di.a o rico &lt;leu uma festa. 0 pobre ainda la tornou a
pedir-lhe uma esmola. 0 rico mandou-lhe dar urn carneiro
muito morrinbento, que disse estava para dar ao diabo, mas
entâo que o &lt;lava a elle. 0 pobre como ouviu isto, foi leva-lo
ao inferno. 0 diabo quando o la viu, disse-lbe que ja o esperava,
e em paga deu-lhe muito dinheiro, mais ainda do que o que
tinha o irmâo. 0 pobre vdu para f6ra, mandou fazer um palacio
ainda mais rico do que o do irmâo . 0 innâo rico quando soube
de quem era o palacio, foi ter corn elle e perguntou-lhe corna
tinha feito aquillo. Elle contou-lhe que tinha sido por causa do
carneiro morrinbento. Diz o mais rico : « Quando elle te deu
tanto por urn carneiro podre, o que me nâo dara por um gordo ! &gt;&gt;
E levou ao diabo um gordo. 0 diabo quando o apanhou no
inferoo, cortou-lhe as mâos e os pés e metteu-o numa caldeira
de pez.
(ÜPORTO)

6.

0 PORCO ESPINHO.

Um homem pobre que ia carrer mundo chegou a uma praia
de areia e cuidava que ella nào tinha fim. Atravessou e metteu-se
ao monte. Encontrou um burro morto. Junto d'elle leào, galgo,
aguia, formiga. Galgo chamou-o. 0 homem partiu. Cabeça â
formig1, peito ao galgo, tripas â aguia, e ancas ao leâo. Deramlhe uma prenda. Disseram-Ihe o mesmo de um conto anterior
(n. 3). Viu um palacio muito longe. Formou-se em galgo e
foi la. 0 palacio appareceu no rneio do mar. Fez-se numa aguia .
Viu lâ uma princeza a janella. Formou-se numa formiga, e foi
0

r25

ter com ella. A noite o mesmo na cama. As mesmas peripecias
do conto anterior. A terceira vez jâ nâo gritou. Ella disse-lhe
que o pai estava encantado num porco espinho. Denrro do porco,
Iebre; dentro da lebre, pomba; dentro da pomba, um ovo, e dentro do ovo, o encanto do meu pai ( o rei). &lt;&lt; Se Uie quebrares o
encanto, casas comigo. Quem trouxer o ovo entre as onze e a
meia noite e lhe bater com o ovo na testa, ou elle morre ou fica
vivo, mas -casa cornigo. i&gt; Foi ter a casa de um lavrador para
guardar gado. Junto havia o porco espinho. Foi para la corn o
gado. Repete-se a scena de elle pedir o beijo da douzella e a copa
de vinho para o vencer. 0 resto é identico ao dos contos sernelhantes.
(ÜPORTO)

7.

A MENINA FINA.

(Variantes)
Rei corn très filhas. A fada dos jasmins foi ser madrinba dellas
todas, e o conde de Bello-haver padrinho. A mais nova chamouse fina, a segunda Jalladeira, a primeira preguiçosa. A preguiçosa
principiava-se a deitar; e era rneia noite, ainda esta va por deitar;
quando era para se levantar, ainda era meio dia e nào estava
levantada. A falladeira a janella sempre a fallar para todas. Ajina
conservou a sua finura, sempre, sempre, até casar. Tiuha quinze
atl!los. A fada foi di zer ao rei que fizesse uma torre para as metter, que arreceava algum naufragio (sic). 0 rei assim fez e metteu-as la. A comida ia pela janella. 0 conde Bello-haver, feito
caçador, foi ·a torre. Ajalladeira arranjou para elle entrar. Convidou-as ( defl.orou-as) a am bas, a preguiçosa e a jalladeira. Tambem queria convidar a fina. Mas ella pegou num cutello e defendeu-se. 0 conde disse o que queria d'ella, para ella se nâo rir &lt;las
outras. Ella disse que outro dia, para ter o quarto muito bem preparado. Arraujou a cama do conde por cima da retreta. No tal
dia o conde foi , e caiu no buraco . Depois o conde foi ter a beira

�r27

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

do mar. Os pescadores salvaram-no. 0 conde foi muito zangado
para palacio, donde tinha um irmao chamado Anatâo '. 0 conde
foi procurar um feiticeiro. Contou e pediu uma coisa para la
entrar dentro para se vingar. 0 feiticeiro disse-lhe que comprasse
uma arvore corn fruto (fruiteira, sic) e que a prantasse defronte
da torre, que ellas sairiam a vir buscar a fruita. 0 conde assim
fez. Depois foi-se pôr a espreitar e adormeceu. Falladeira veiu a
janella, e disse as irmàs. A fina desceu e apanhou-a. Quando o
coude acordou, nâo estava ja a fruita. Tornou zangado para casa
do feiticeiro . Disse-lhe que comprasse outra arvore de outra
fruita . Elle assim fez . Veiu a fina e o coude agarrou-a . Levou-a
para a cidade para a justiça. A justiça deliberou que ella fosse corrida a uma roda de navalhas. Ella disse que elle é que a haviade
ir metter, e elle se havia de metter primeiro porque ella uâo
sabia como era. 0 conde metteu-se, e ficou todo cortado. A justiça licou satisfeita, que elle nao fosse tolo. A fina foi outra vez
para a torre. A fada um dia foi ter corn o rèi, e disse-lhe que
mandasse tres rocas de vidro para a torre para experimentar as
filhas. As rocas dariam o signal se ellas algum dia perdessem a
sua honra. 0 rei assim fez. Como as duas ji estavam desfruitadas (sic), quebraram as rocas . 0 rei foi passar uma revista a torre,
e a fada dos jasmins disse-lhe que as pedisseas filhas. Assim fez.
A fina foi emprestando a sua a todas. 0 rei ficou muito contente
julgando que estavam puras. As duas completavam o tempo de
parir. 0 Bello-haver estava muito doente por causa da roda das
navalhas. Pariram as duas. Ellas souberam que Bello-haver
estava a marrer. A fina mandou fazer dois caixoeszinhos. Metteu dentro os meninos, e mandou-os pôr em cima d'uma cavalgadura, e ella vestiu-se d'homem, e montou-se noutra, e foi ao
palacio do conde, feita cirurgiâo, e perguntou por elle, queestava
ali um medico. Subiu, tomou o pulso ao conde, e perguutou-lhe
o que era que tinha. Elle contou-lhe. Ella mandou buscar os

caixoes que estavarn na cavalgadura. Levaram-os para o quarto
do conde. Disse que era onde ella trazia as suas boticas (remedios). Disse-lhe que the tinham esquecido as chaves. Foi buscalas e fugiu na cavalgadura e levou a outra, e foi para a torre. As
creanças começaram a chorar. Diz o criado que eram ratos. O
conde mandou-os arrombar, e viu os dois menines e um bilhete
que dizia: &lt;&lt; Am ra-os que sâo teus · filhos. &gt;&gt; 0 con de logo viu
que era a fina. Disse ao irmâo que ia morrer e que elle casasse
corn a jina para a rnatar. 0 conde morreu, e o irmâo foi
pedir ao rei para casar corn a jina. 0 rei disse que sim. Casaram-se. No dia do casamento, a fina foi ter corn a aia, pedindo
uma bexiga de sangue. Fez a fina uma figura corn a bexiga, e
deitou-a na cama onde havia de dormir. Quando o marido se foi
de'tar, ella metteu-se atraz de uma porta. 0 marido veiu e foi
co 1 uma espada e atirou a boneca. Ao tempo que bateu na
boneca, arrebentou a bexiga, e fi.cou todo sujo de sangue. Depois
ia para se matar corn a espada, julgando que tinha morto a mulher. A mulher entâo saiu e agarrou-lhe no braço. Elle ficou
muito contente por ella ser tâo fina e perdoou-lhe.

1.

Reparar neste nome, oâo provara a origem litteraria do conto ?

(ÜPORTO)

8.

A RAPOSA E O GALLO.

la uma raposa por um campo e depois encontrou um rebanho
de gallinhas e gallos. Uma occasiâo que as oaallinhas
avistaram
.
a raposa, esvoaçaram e foram para cima de um carvalho. A
raposa tratou logo de botar terra ao ar, para as gallinhas pensarem que era milho. 0 gallo começou a affagar as gallinhas, para
ellas uao saltarem abaixo. Nisto a raposa disse para o gallo: &lt;c Oh!
compadre, bota-me d um filho dos teus abaixo, ou senâo anda
tu, que 116s agora temos feito uma composiçâo de nâo fazer mal
uns animaes aos outres. » Diz o gallo de cima do carvallo : « Abre
a boca, que eu li te boto um filho. » Nisto o gallo fragueou
(sujou) e a raposa de baixo aparou corn a boca, cuidando que era

�I28

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

um frango. Como nâo gostou, botou f6ra e diz : c&lt; Ah! compadre,
que m'enganastes ! &gt;i O gallo de cima respondeu-lhe: «Ah! cuidavas que era bago, e saiu-te frago ( escremenro). » Diz a ra posa:
&lt;&lt; Ah! compadr~, anda ca baixo que n6s agora estamos todos bem,
oem n6s fazemos mal as aves, nem os câes fazem mal a n6s. n
Diz o gallo de riba : « Ah l ah ! ah! poe-te ahi muito tempo, que
vem ahi um caçador com uma guadrilha de càes, que
te estraga (mata). » A raposa perguntou: c&lt; Ah! compadre, de
que lado é que elles vêem? •&gt; 0 gallo, se lhe havia de dizer a
verdade, enganou, a raposa e disse-lhe: cc Olha, é d'ali. n A ra posa,
julgando que era verdade, fugiu para o outro lado e foi metterse na boca dos dies. 0 gallo, como a raposa lhe tinha dito que
tinha uma ordem para os animaes lhe nâo tocarem, gritou para
ella : &lt;c Eh I comadre, moslra-!he a ordem, nwstra-lhe a orde-m ,&gt;
( e ainda hoje o galJo canta assim). Respondeu a ra posa: cc Nâo !
que nâo tenho tempo. &gt;&gt; A raposa, conforme poude, foi muito
estafada e escondeu-se numas silvas onde os câes lhe nâo poderam chegar. Audava por ali um melro morto por enganar a
raposa e enganar o lavrador. Andava o lavrador e mal a mulher
a lavrar o campo com os bois, e o melro ia aos saltinhos adiante
d'elle. Uma filha que tinha o lavra&lt;lor chorava que queria aquelle
mel,inho, donde a mai da pequena foi correndo sobre o melro
para o agarrar. 0 melro fugia sempre, como o lavrador via que
nâo o podia apanhar e se esta va a atrazar o serviço, disse para a
filha que deixasse o melro. A pequena poz-se a cborar mai .
Foram outra vez sobre o rnelro, mas elle fogiu outra vez e foi
pousar-se em cima da cabeça da mulher do lavrador. 0 lavrador foi com a vara e para o agarrar deu mua pancada na cabeça
da mulber que licou toda maltratada, e o melro fugiu para o si1vado aonde stava a raposa. A raposa, como est:wa com muita
fome) ia para comer o melro e elle disse-lhe: (&lt; Alto lâ, cornadre,
que eu arranjo-te Jogo agui muito de corner; nao me mates . »
A ra posa diz-lhe: &lt;&lt; Onde é que tu me has de arranjaro comer?))
- cc ao tarda que venha ahi o jantar para o lavrndor, e tu podes

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

129

come-lo mais o teu compadre lobo. » D'ahi a pedaço vinha a
filha do lavrador corn o jantar, e o melro começou a saltar &lt;liante
d'ella no caminho. A pequena poz o jantar no châo e tratou de
i~ atraz do melro. este comenos veiu a raposa e estava principiando de corner o jantar. Passa o lobo na occasiào e queria
corner a raposa. Mas a raposa disse-lbe: cc Ob! compadre, temos
agui muito de corner. » Vae d'ahi o lobo como mais ofotào
t,
'
comeu o jantar todo, e bebeu o vinho tambem que ia para 0
lavrador, e nâo deixou nada para a raposa. O labo, como bebeu
muito vinho, embriagou-se, e caiu no mesmo sitio onde comeu
o jantar, e fi cou dormido. A raposa tratou logo de fogir corn medo
qu_e v!ess~ o lavrador. 0 ~elro assim que viu a raposa fugida,
vem a beira do açafate do pntar camer as migalhinhas que estavam por fora. Depois assim que encheu o papo, fugiu para 0
alvoredo, cantando de contente, por enganar o lavrador e a
raposa e o lobo. Nisto a filha voltou ao açafate para ir levar o
jantar ao pai, e viu tudo esperdiçado e o lobo deitado a. dormir
ao pé. 1:ratou de ir para o pé dopai a chorar, e contou-lhe que
estava ah um lobo estendido a dormir. 0 pai pegounogadanho
e_ marchou para onde estava o lobo. A raposa que esta.va metuda no vallo (silvado) grirou para o lobo: « Fage, compadre !
foge, compadre 1 » Maso lobo, como estava a dormir niio fugiu.
0 lavrador foi e tanta pancada deu no lobo até que o matou. O
melro, assim que viu isto, principiou a cantar. 0 lavrador disse
para o melro : cc Anda ca abaixo, que nâo te faço mal. » O melro
entào respondeu-lhe: &lt;&lt; Raposo velho nâo cae em laço - mata~tes.
lo, cruel-tira-lhe agora a pelle. n
(ÜPORTO)

9.

0 MOCHO E O LOBO.

0 lobo andava no matto e o mocho estava em cima de um
pinheiro no ninho. 0 lobo enroscou o rabo no pinheiro como
quem o queria serrar . 0 mocho de cima disse-the: « Oh! com9

�130

CO TOS POPULARES PORTUGUEZES

padre, nào me serres o pinheiro, senâo ~s me~s filhos caem
abaixo e morrem. ,, Responde o lobo: « P01s se nao qu~res que
eu 5 rre O pinheiro, anda m 'd baixo. » 0 mocho oâ~ qu_ena, mas a
final sempre \·eiu vindo de galho em galho, e dep01s disse para o
lobo: &lt;&lt; Lobo, que queres de mim? &gt;&gt; 0 lobo respondeu: « Anda
ci mais abaixo, que quero dizer-te um recado. » 0 mocho_ respondeu: « Diz d'ahi, que eu ouço bem. » 0 lobo t~raou a dizer:
« Anda c:i, que eu nâo te faço mal.&gt;&gt; 0 mocho desc1Udou-se e desceu, e O Iobo passou-Jhe os den tes e metteu-o na hoc:. 0 mocho de
demro da boca do lobo disse: « Eh I compadre, nao me comas,
que eu quero fazer testamento. &gt;&gt; 0 lobo disse-lh:: « . ao I q~e
agora no galheiro estâs tu. » Diz o mocho : « En tao de1xa-1:1e 1~
despedir-me lâ acima da arvore dos meus filhos. » 0 lobo d1s_se •
« âo te deixo ir, comp:.tdre, que tu foges-me. » 0 mocho disse
entâo: « Olha, ao menos has de dizer tres vezes, que é para eH~s
saberem: mocho cvmi. &gt;&gt; O lobo disse muito baixinho, para nao
abrir a boca: cc 11wcho comi. )&gt; 0 mocho disse-lhe: « Oh compad'.e,
falla mais alto, senào nào ouvcm. » 0 lobo tornou a ~epcm:
« macho ccmi »,jamais alto. Responde o mocho: « Mais ait~,
senâo elles nâo ouvem . » Nisto o lobo escachou a boca para gntar mais alto e ia a dizer « nwcho comi &gt;&gt;. 0 mocho mal _apaohou
a boca aber~a, abalou para cima do pioheiro e d1sse-lhe :
« Outro, que nâo a mim. »
(ÜPORTO)

IO. 0 MENlNO SEM OLIIOS.

Uma mâi te,e dois filhos. Elles foram pedir esmola, que
nâo tin ham nada. Ella deu-lhe um farnel. Ella preguntou-lhe se
queriam ambos corner da mesma vasilha ou levar cada um o seu
faroel. O mais velho disse que era melhor cada um levar o seu
farncl. Assim foi. No camioho o irmâo mais oovo preguotou ao
irmào se era melhor comerem cada um do seu farn~l, ou merem primeiro um e depois o outro. 0 mais v lho disse que era

CO TO

POPULARES PORTUGUEZES

I

3I

melhor assim. Assim foi. No primeiro dia comeram ambos a
comida do mais novo. o segundo dia eram j:i boras de almoç,tr, &lt;lisse o mais novo: cc Oh! irmâo, vamos agora comer? i, 0
mais velho respondeu-lhc: cc âo, que ainda é cedo. i&gt; Depois ia
comendo e o mais novo nào comia nada. Ao jantar o mesmo,
em fim o irmào mais novo ja levava tanta fome que lhe
tornou a p dir ao meoos um bocadinho de pào. 0 mais velho
disse-lhe: cc Se me deixas tirar um olho, dou-ce ! » 0 mais novo
como cstava desesperado com f6me, obrigou-se a deixar tirar um
olho. Mas o innào mais velho tirou-Ihe o olho, mas nào lhe deu
o bocadinho de pào. 0 mais novo tornou a pedir-lhe ao menos
metade. 0 irmâo disse-the: cc Pois s6 te dou metade se me deixares tirar o outro olho ! » 0 mais novo tin ha tanta f6me, deixou
tirar o outro olho. Depois o mais velho foi-se embora e deixou
o irmâo ali s6 e desamparado. 0 menine vendo-se cego, deixousc por la andar a ver se encontrava alguem que o guiasse no
caminho. Chegou baixa de um mon te e ouviu cantar a agua de
um rio, e ali parou dizendo coosigo: « ada, d'aqui nao passa
eu, qu como nào vejo nada, posso metter-me ao rio e morrer
afogado. » Conheceu que era noute e foi indo as apalpadellas e
encontrou uma arve (arvore) e abanou com ella, e ouviu cantar
as folhas e depois atrepou para cima e ali ficou n'aquefü an'e.
Proxima a arve estava uma ponte, adonde costumava air o demonio corn as bruxas fazer audiencia. D'ahi a pouco vieram rodas,
conforme é costume, e estavam preguntando umas as outras o
que tinham feito naquelle dia. Uma d'ellas respondeu ao demonio que tinha cortado as aguas a capital da França, adonde que
ao fim de tres &lt;lias que morria tudo a sede. 0 demonio preguntou-lhe o que tinha ella feito para cortar essas aguas. Diz ella:
« Eu, no espaça de quatro a cinco legoas, por onde passa a agua,
encantei uma cobra, e metti-a no canal da agua, donde a cobra
esta presa de cabeça e rabo dentro de um aoel, e a agua esta presa
no mcio do rolo da cobra. » 0 &lt;lemonio preountou : « Entào nâo
haverâ outra vez remedio para soltar essa agua para a cidade? »

a

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES
CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

A bruxa disse: « Ha, mas eu nao o digo a ninguem. » 0 demooio disse: &lt;( Entào, nem a nim? » A bruxa respondeu: &lt;( A tisim,
coma mestre. 0 remedio é havendo quem se aventure a la ir
com uma lança de ouro e tirar o anel d'antre (sic) a cobra sem a
ferir; tanto carre a cobra para o monte, como_a agua para a fonte. »
0- menino que estava em cima da arve aprendeu isto tudo. Uma
outra bruxa disse: &lt;&lt; Eu tambem enfeiticei o rei da ltalia, que
esta encrangado ( entrevado, perro dos nervos do corpo) de todos
os membros do corpo, que se nao pode mover para lado algum.
E toda a familia real morre d'esta affiicçào &gt;&gt;. 0 demonio preguntou: &lt;( En tao, que lhe fizestes tu para elle estar assim encarangado ? » Respondeu a bruxa: ( t Cosi os olhos a um sapa, corn
a mesma linha apertei o sapa de pés e maos e tudo, e metti-o
debaixo da cama de Sua Magestade. » 0 demonio preguntou :
« Enrao nao havera remedio para dar outra vez saude a .este
rei ? &gt;&gt; A bruxa disse: (&lt; Ha, bavendo quem va d'aqui a ltalia ao
jardim do rei, tem um marmeleiro em cima de um chafariz, e
havendo quem lhe colha o primeiro ranco ( arranco, rama) que
faz uma S em cima do chafariz, e lhe aguçar a ponta do feitio de
uma lança, e pescar corn ella um peixe azul que anda dentro do
tanque, e derrete-lo numa bilha que nao tenha levado nada, e
levantando o pé esquerdo do leito do rei, e tirando o sapo que
esta mettido debaixo, e descosendo-lhe os olhos e desamarrando-o
de modo que nao se fira o sapa, e deitando depois o sapo ao
jardim. Estando o peixe derretido, dar depois uma untura ao
rei, e d'ahi a pouco logo o rei esta corn a sua saude,
mas de certo o rei marre porque eu nao o canto a ninguem. &gt;&gt; 0 menino que estava em cima da arve a escuta, aprendeu tudo. IDepois uma outra bruxa disse ao demonio: « E tu, o
que é que fizeste? &gt;&gt; 0 demonio respondeu: (&lt; Eu ja fiz obra
maravilhosa, ja fiz corn que tirasse os olhos um irmao ao outro;
tambem ji ha tres dias que tenho feito corn que uns bem casados
se deem mal. &gt;&gt; A bruxa preguntou-\he: ( &lt; Entâo, que fizeste tu,
para um irmâo tirar os olhos ao outra? » 0 demonio respondeu :

1 33

« ~ttentei-o para o 1:1ais velho nâo dar um bocadinho de pâo ao
rr:_a1s novo,sem lh~ t1rar os olhos. » A bruxa preguntou: « Emao
nao havera remed10 para esse menino fi.car outra vez com vista ;&gt; &gt;&gt;
0 demon!o disse : « Ha, mas coma o ha de elle saber se eu nia
canto a nmguem? &gt;, A bruxa disse: « Mas deves conta-la a n6s
co~o n6s te contamos tudo a ti. » 0 demonio emao disse: « Esti
aqm perto uma arve; cortaodo-lhe tres folhas e escupindo-lhe
tres vezes, antes de amanhecer, e pisando estas folhas na mao,
corn o sumo da folha e c~m escupo da boca, untando as capellas
dos olhos ( palpe bras), ah1 se fica coma vista natural. &gt;&gt; - « E para
s: darem outra vez os bem casados, coma se davam? ,&gt; O demo1110 respondeu : « Indo a uma egreja matriz, colhendo urna bilha
de agua benta da pia do baptismo, e colhendo umas ervinhas que
lhe chamam os christâos alecrim ». A bruxa preguntou: (&lt; En tao,
que fi.zestes tu para esses casados se darem mal? » O demonio
respondeu: « Aqui ao cimo d'este montt morava~ uns bem
casados, e eu fui-me metter debaixo da cama. O homem quando
entra:7a de f6ra para dentro, olhava para debaixo da cama, e via~ne la e ~gurou-se que era um horuem, e começou logo a antraiar (ultraiar, maltratar)amulherde mas palavras. Assimsecomeçou de d:r m~l, julgando que a mulher andava amigada. A
mulher nao faz1a senâo chorar e dizer que tal causa nào fazia. &gt;&gt;
A bruxa preguntou: « Entào nao havera outra vez remedio para
el~es ~carem bem '. &gt;&gt; 0 demonio respondeu: « Sim, entao ja te
nao ~isse que em ir buscar a bilha de agua benta e o raminho de
alecn_m, e bo:ar dentro da casa em cruz, quando me li vir, que
eu fui~, e ass1m se tornam elles a dar bem coma eram. » Nisto
o menmo que estava em cima da arve aprendeu tudo; depois
pegou nas ~olhas da arve, que era a mesma aonde elle estava, e
o_ que disse a bruxa. Depois fi.cou logo com vista. Assim que
fo1 dia, desceu pela arve abaixo e tratou logo de procurar a casa
dos mal, c~sados. Fez tudo q uanto o demonio disse e elles ficaram
b.em. D ali p.assou a França e deseocantou a cobra e deu agoa
cidade. 0 re1 de França lhe deu logo uma porçào de dinheiro.

fe:

a

�1 34

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

Depois elle foi para a Italia e fez tambem o mesmo que a bruxa
tioha dito ao demonio. Quando o peixe estava derretido, o me·
nioo fallou para o rei e disse: « Real senhor, tenha a bondade de
mandar todos os medicos embora, que Vossa Real Mastade hoje
aioda os ha de ir visitar a casa. » 0 rei assim fez. Depois o
meoino esfregou-o corn o oleo do peixe e ficou o rei logo curado.
Depois que o rei se achou bom, levou o menioo para palacio e
depois elle casou corn a filha do rei. 0 rei morreu e elle ficou
senhor do reinado. Nisto o irmâo mais velho andava pedindo
pelo mundo; foi andando de terra em terra, até que foi dar ao
reino do irrnâo, mas sem saber. Um dia esta va o rei a janella mal
a rainha, e viu aquellP. homem e conheceu que .era o irmâo, e
disse para a sentinella que estava a porta do palacio: « Oh ! sentinella, prenda-me aquelle homem, e traga m' o ca a min ha presenca. &gt;&gt; Neste comenos foi-se o rei fardar com as suas insignias
co~o rei, e assentou-se no tbrono. 0 sentinella levou o preso a
presença do rei. Depois o rei começou a preguntar ao homem de
que terra elle era ? 0 preso esta va sem saber o que ha via de dizer.
A final la contou a sua vida. Depois o rei preguntou-lhe: &lt;&lt; Que é
feito da tua mâi ? » Elle disse : &lt;&lt; Eu nâo sei, porque desde que sahi
de casa, nâo tornei la a voltar. » - &lt;c E que é feito de teu irmâo? »
-« E11tâo Vossa Mastade co11hecia meu irmâo? » 0 rei disse que
sim, e preguntou-lhe porque é que elle lhe tinha tirado os olhos.
O irmao começou a negar. 0 rei entào disse-lhe que bem sabia
que tinha sido por tentaçao do diabo, e que elle era o seu irmao.
Depois ficou 110 palacio corn o rei, que lhe perdoou.
(ÜPORTO)

I I r TORRE DE BABYLONIA

CONTOS P0PULARES PORTUGUEZES

Os dois irmaos saem ao mesmo tempo e chegando a um cam1n)10 que se dividia em dois, cada qual segue pelo seu.
Um dos innâos encontra uma. princeza que esta para ser comida
por uma bicha de sete cabeças (repete-se o episodio).
Os irmâos disseram uro para o outro: ,, Se alguma vez vires o
astre (o tempo) demudado, precura por mim que estou em
perigo. »
Na torre estava uma velha e uma meoina. Depois de o irmào ir
ver a torre, a nova (menina) disse-lhe que havia de ir ter mna
lucta e venceu-o. 0 irmao chegou ao castanheiro e viu o astre
demudado, e depois foi ao palacio do irmâo. Corno elle era muito
parecido, a mulher nâo o conheceu, e elle ao outro dia foi a torre
onde venceu a filha da velha.
Depois o irmâo qua11do sou be que elle tinha dormido corn a
mulher, queria-o matar. Nâo matou, e foram a um conselho. A
justiça disse que fossem ambos a correr num cavallo a roda da
praça, e o que cançasse primeiro era o criminoso. Foi o casado
que cançou. Depois ficaram amigos.
(OPORTO)
I2. OUTRA VERSÀO DAS TRES CIDRAS.

Era uma vez um rei que encontrou uma menina num
monte, muito linda, que andava a guardar gado, mas muito mal
trajada. 0 rei agradou-se muito d'ella e disse-lhe para a levar
consigo. Ella deixou ficar o gado e accompan hou o rei. Chegaram a uni chafariz, e o rei disse-lhe que ficasse ali, em quanto
elle ia ao palacio buscar fato para ella, e uma carruagem. Neste
comeoos veiu uma preta e começou a olhar para a agua (Segue
a versâo conhecida).
(OPORTO)

(Varia 11 tes)
Os filhos quando vâo corn o leào e a lança etc., deixam um copo
de agua ao pai, e dizem: « Se este copo d'agua algum dia deixar
de ser agua, va-nos procurar que estamos em afflicçào. »

1 35

!3.

A GATA BORRALHEIRA

Era uma vez um viuvo que tinha uma filha muito linda, e

�136

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

casou-se corn uma viuva que tambem tinha uma filha muito feia.
0 homem tinha uma vaquinha, e cada um dia mandava uma
vez a filha, outra vez a enteada a guardar a vaquinha para o
monte. Mas a madrasta nào queria que a filha d'ella fosse para o
monte, e mandava s6 a enteada. Um dia appareceu um caçador no
monte e lhe preguntou
filha : :c Donde és, n1enina ? n Ella
disse de quem era fil ha. Depois o caçador perguntou-lhe: &lt;c _Entâo
tu, porque é que choras? &gt;&gt; - &lt;&lt; E' porque o meu pai quer que
eu venha um dia corn a vaquinha, e o outra dia a fil ha da.minha
madrasta, mas a minh.a madrasta tem-me raiva por eu ser mais
bonita do que a fil ha, e por isso manda-me s6 a mim para agui.)&gt;
0 caçador disse-lhc: cc Deixa estar, minha menina, que eu hei de
ira rua casa um dia e levar-te comigo. » Um dia o pai mandou
rnatar uma porca, donde mandou lavar as tripas a enteada. A
madrasta mandou a enteada, porque nào q.ieria que a fi.lha d' ella
fosse, e disse-lhe que fosse depressa e que se perdesse alguma
tripa, que ella lhe daria a conta (pancada). A menina, coitadioha, n:io teve outro remedio e foi lavar as tripas. Corno a agua
do rio corria muito, fugiu-lhe uma tripa. Corn medo da madrasta
foi a carrer pelo rio abaixo para a agarrar, mas nâo poude. Ficou
muito triste e saltou para o outro lado do rio, chorando pelo
abrigo da sua mai. Nisto encontrou um palacio corn as portas
abertas, mas sem gente de qualidade nenhuma. Tinha as camas
desmanchadas, e estava todo cheio de lixo por barrer. A menina,
como era muito presumida (arranjada), foi compôr as camas e
barrer o palacio, e depois saiu e foi -se esconder. Nisto chegaram
tres passaros e entraram pelo palacio dentro, e viram tndo bem
arraujado, e subiram outra vez para o telhado e começaram a
dizer: « Oh! quem arranjaria tâo boa obra no nosso palacio ? Se
soubessemos quem era, haviamos de lhe dar cada um a nossa
prenda. » A menina que isto ouviu, appareceu e disse : « Foi eu
(sic)». Os passaros perguntaram: « Entào tu quem és, menina? »
Ella contou a sua vida. Um dos passaros disse entào : « Eu te
sortejo, que quando tu fallares corn alguem te saiam flores de

a

CONTOS POPULARE

1 37

PORTUGUEZES

ouro pela boca f6ra. » 0 outro disse: et E eu te sortejo que tudo
quanta vestires se tome no que haja .:ie mais rico. » 0 terceiro
disse : (&lt; E eu te sortejo que os sapatos que tu cakes se tornem em
chapins de ouro. » A menina foi-se embora, e os passaros largaram a voar. A tripa que tinha fugido pela agua abaixo, q uando a
menina la cbegou ja estava junta corn as outras . Quando chegou
a casa, a madrasra ralbou corn ella por se ter demorado tanto,
e perguntou-lbe: « Don de é que vens tu agora? » A menina nâo
queria fallar, corn medo; a madras ta ia para lhe bater, e ella ia
para fallar, para dizer que a tripa lhe tin ha fugido. Mas ao tempo
que ia para fallar, saiu-lhe um ramo de ouro pela boca . A madrasta nào a deixou fallar mais. 0 pai tinha-lhe feico um faro e
outra igual para a enteada, que era para quando fossem guardar
a vaquinba ou urna ou outra irem mais limpinhas. No outra dia
quando ella ia para o monte, a madrasta mandou-lhe tirar ofato
que ella levava e vestir uns farrapos todos esfrangalhados. A
menina mal que os vestiu, tornaram-se em fina nobreza (sic),
e a cousa mais rica que havia no mundo. Os sapatos tornaram.:se
tambem logo em chapins de ouro. A ma&lt;lrasta logo que viu isto,
mandou a menina para a cozinha para ficar coma gata borralheira
i chaminé. Depois a enteada perguntou-lhe quem lhe tinhadado
todas aquellas prendas. A menina contou-lhe tudo pelo contrario. Disse que tinha ido a um palacio, e que o que tinha visto
limpo sujou-o, e desarrumou as camas que estavam compostas, e
deitou o lixo para o meio da casa. No dia seguinte, a madrasta
mandou outra vez a menioa ao rio la var umas tri pas. A filha, que
tarnbem queria ter as mesmas prendas da meoioa, pediu mâi
para ir ella. Depois foie aconteceu-lhe o mesmo, corn a differença
que foi esbandalhar o que estava feito. Os mesmos passaros vierame viram o palacio estragado, e disseram: cc Oh! quem seria
que fez esta obra tâo ma ? » Appareceu-lhe entào a filba da
madrasta e disse: « Foi eu (sic) ». Disse entâo um : cc Eu te sortejo
que quando fallares, sejam caganitas de cabra que te saiam pela
bocc.1.. )) 0 outro disse: t&lt; Eeu sortejo-te que todo o fato que vis-

a

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

tas se faça em pelle de gata borralheira. )&gt; 0 terceiro disse :
« E eu sortejo-te que todos os sapatos que tu vistas se façam em
ferraduras . )&gt; Ella foi-se embora, e quando chegou a casa, a mâi
perguntou-lhe aonde ella se tinba demorado tanto . Ella ia a contar-lhe e principiou logo de deitar caganitas de cabra pela bocca.
A mai que viu aquillo nao a deixou fallar mais. A menina disse
a filba da madrasta que tinha encontrado um caçador no monte
que lhe disse que um dia a havi.a de ir buscar . A madrasta tratou
logo de nào deixar mais a filba fallar, aceiou-a (sic) de fatos
muito ricos e mandou a rncnina para a cozinha chamando-lbe
gata borralheira. Depois foi dizer ma] da enteada ao marido. 0
marido fiava-se em tudo e acreditava no que a mulher lhe dizia.
Um dia levou a filha da madrasta ao theatro muito aceiada, e a
:filha ficou em casa por a madrasta lhe chamar gata borralheira .
Quando se viu s6, a menina começou de chorar muito, e ouviu
uma voz pergumar: &lt;&lt; Tu, que tens, menina? &gt;&gt; Ella respondeu :
« Corno na.o hei de chorar? Meu pai foi para o theatro coma
filha da minha madrasta e a mim deixou-me em casa s6zinha. &gt;&gt;
Logo lhe appareceu um carro feito de uma abobora puchado a
ratos. D'onde ouviu aquella voz que lhe disse: . « Tu entra no
theatro e toma este relogio e a meia noite em ponto recolhe- te
ao carro. &gt;) Ella assim fez. Ora quem havia_ella de la encontrar?
0 mesmo caçador que a tinha encontrado no monte. 0 caçador
assim que a viu entrar tao rica, deu-lbe logo o braço e foi dansar com ella, porque era a melhor dama que estava no theatro
para dansa. A menina de vez em quando olbava para o relogio .
Quaudo faltava ja. pouco para a meia noite, fogiu do braço do
caçador e foi para o carro que estava a espera della . Nem o pai,
nem a madrasta, nem ninguem a conheceu. 0 carro, mal ella
poz pé nelle, logo alvorou e foi-se embora . Quando o pai e a
madrasta chegaram a casa, ja ella estava no borralho. Na segunda
noite, o mesmo. Na terceira noite, tornaram para o theatro e o
caçador que era um principe, estava ja preparado para a agarrar
bem e nào a deixar fugir. Mas a menina assim que viu no relo-

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

139

gio que eram horas de se ir embora, deu um grande lacào
(puchâo) no braço do caçador e fugiu . 0 caçador foi sobre ella
a correr para ver se a podia conhecer. A menina com a pressa
corn que ia a fugir, quando ia a saltar para o carro deixou cair
um chapim de ouro . 0 caçador agarrou-o . Nisto o carro alvorou e foi-s~ embora. D'ahi passado muito tempo o principe mandou um decreto por toda a sua naçào, que rodas as damas fossem
·a palacio e levassem um chapim de ouro, que elle la tinha outro,
e que aquella que o trouxesse igual e lhe servisse no pé, que lh'o
dava e que casaria corn ella. A primeira que foi, quem havia de
ser? Foi a filha da maJrasta, corn a mâi, e o pai tambem foi . A
menina que via que tinha perdido um chapim de ouro, poz-se
chorando tambem em casa para ir. Ali lhe appareceu logo um
carro puchado a dragoes e se apresentou em palacio, ainda mais
bre\'e que o outro em que ia a madrasta e a filha. Chegou ao
palacio e foi a presença do principe. 0 principe pediu-lhe o pé
para lhe metter o chapim, mas mal o principe lb'o metteu no pé,
logo se transformou numa ferradura. 0 principe ficou muito
admirado e perguntou-lhe o que era. Ella ia para fallar, e começou de botar caganitas de cabra pela bocca, e o vestido que ella
trazia fez-se logo nurna pelle de gata cheia de borralho, corn um
letreiro dizendo : Tu és gata borralheira. Nisto a madrasta ficou
muito triste. A menina que est~va tambem no palacio, quando
viu aquillo, ·deu-se a conhecer ao pai as escondidas da madrasta.
0 pai ficou muito admirado por a ver vestida toda de ·ouro, e por
a ver botar flores de. ouro pela bocca f6ra, e vê-la calçada corn um
chapim de ouro, e o outro pé descalso. Perguntou-lhe quem lhe
tinha dado aquillo tudo. Ella contou-lhe o que se tinha passado .
Depois foi ter com o principe, e mal principiou de fallar corn
elle, en trou a botar ramos de ouro ~ela bocca. 0 principe dea-lhe
o chapim e viu que lhe servia, e depois disse-lhe que ella havia
de casar corn elle. A menina disse que nao, que era com o caçador que ella tinha promettido casar. 0 principe entao declarou-se
que era elle mesmo que era o caçador. A menina entâo calçou o

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

chapim de ouro e foi para o carro, dizendo que se elle a queria,
que havia de air buscar a casa, que era o promettimento que elle
tinha feito. O principe metteu-se logo numa carruagem para vêr
se a podia alcançar, mas nâo alcançou e voltou para o palacio.
Um dia o principe vestiu-se de caçador e foi la para o mesmo
sitio para a ir buscar. A madrasta como sou be, sonegou a menina,
e apresentou a filha. 0 principe começou a fallar corn ella, e ella
a deitàrcaganitas de cabra pela bocca.'O principe, muito zangad~,
foi-se embora e nâo a quiz. A menina continuou outra vez a 1r
para o monte. 0 principe ia sempre a caça, e um dia enc~ntrou-a
toda esfarrapada. Ficou muito contente e levou-a cons1go, e a
madrasta nunca mais a tornou a vêr.

outro relogio e mandou-o metter no altar-m6r. Na terceira noite
o mesmo. Encontrou a velha que lhe deu o relogio e mandou-o
metter as onze e meia no baptisterio. Elle foi, veio a tal cousa, e
foi ter corn elle, mas elle, como a velha lhe tinha dito, começou a puchar por ella, e ella a puchar por elle, até que passando a
meia noite elle metteu-se na pia, e no mesmo instante a ta!
cousa ficou transformada na princeza viva, e toda a tropa que ali
tin ha morrido ficou viva outra vez. Depois a princeza casou com
elle, e foram todos para o palacio.

141

(ÜPORTO)

15.

0 SACRISTAO QUE CASOU COM UMA VELHA.

(ÜPORTO)

J

4.

0 SOLDADO PULHA.

Era um rei casado ha quinze annos sem ter filhos. Tinha uma
mulher que era fada. Houve uma filha do rei, e a fada foi ser
madrinha e disse que aos quinze annos havia de morrer a prînceza. Aos quinze annos morreu, mas antes tinha pedido ao pai
para ter sempre uma sentinella a sua sepultura. Todas as sentinellas que iam, por mais de um anno morria tudo, até que cheaou avez de um soldado muito pulha. Elle nâo queria ir, mas
b
d
.
nâo teve outro remedio. Quando chegou a igreja on e a prmceza
estava enterrada, poz-se a pensar e fugiu. Ia por uma serra acima
e encontrou uma velha, que lhe perguntou onde ia. Elle contoulhe, e ella deu-lhe um relogio e diss~-lhe que voltasse e que as
onze e meia se mettesse no confessionari9, e que visse o que nâo
visse, nao fizesse caso. Elle voltou, metteu-se no confessionario e
as onze e meia, sentiu sair uma coisa da sepultura, e correr toda
a igreja a chamar: &lt;&lt; Oh! sentinella ! oh ! sentinella ! » Elle nâo
semecheu. E a ta! cousa, passada a meia noite, en trou na sepultura outra vez. Ao outro dia o rei ficou muito admirado de o
vêr vivo. Mandou-o na outra noite. 0 mesmo. A velha deu-lhe

Era um sacristâo ha uns poucos de annos. Uma velha que ia
fazer oraçao igreja. 0 ~acristâo, um dia, chegou-se a ella e
offereceu-lhe rapé e perguntou-lhe: « Mulher, que devoçâo tens
tu aqui corn esta igreja? » - « Tenho muita. » Começaram
depois em conversas particulares; mais adora va o sancristâo (sic)
a velha do que a velha ao senhor. Um dia o sacristào disse-lhe:
« Nào era melhor que n6s tomassemos amores um corn outro? &gt;&gt;
A velha respondeu : « Ah ! que diria o mundo, se n6s agora
tomassemos amores um corn outro ? &gt;&gt; 0 sacristâo disse-lhe que
deixasse fallar quem falla. Depois os dois velhos casaram-se. Elle
deixou a igreja, e ella deixou a oraçao. Foram viver ambos para
uma casa, pedindo uma esmola. 0 povo todo aperreavam-nos,
por elles serem velhos e tomarem estado de novos. 0 sacristào
descorçoou e veiu para casa e disse para a velha: « Mulher,
fugimos d'aqui pra f6ra, ja nào posso aguantar as apupadellas do
povo. ,i Responde a mulher que para onde elle fosse, ella tambem ia. Pegaram num cesto, numa corda, num alviào e numa
fouce, e fato nâo o levaram, porque o nâo tinham, e foram para
uma montanha que se chamava Monte Maninho. Corn a fouce
cortaram paos e fizeram estacas, e espetaram-nas em volta
d'aquella montaha, e amarraram uma corda de estaca corn estaca

a

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

ate donde a corda poude chegar. Depois fizeram uma barraca
de terra e ali viviam. De noite iam pedir esmola. Por rnilagre
de Deus a mulher alcançou (ficou gravida). No espaça de nove
mezes botou uma menina a este mundo. 0 sancristao ficou
muito admirado. Nào queria ir convidar ninguem para padrinho
da menina. Foi para o monte a vêr se via alguem. Assim que
o sol arraiou, avistou um caçador no alto da serra. 0 sacristâo
quando o viu botou-se de joelhos &lt;liante d'elle, por vêr que o
caçador era um frade. 0 frade ficou muito admirado, e o sacristào disse-lhe que elle era mandado por Deus para ser padrinho
de uma me~ina que lhe tinha nascido. 0 frade disse-lhe que sim,
e que se apresentasse no convento de tal parte. 0 velho pediulhe para elle tambem lhe arranjar madrinha, e o frade disse-lbe
que sim, que la houve de encontrar tudo. 0 velho foi muito
contente para casa, mas muito trü.te por nào ter fato. 0 frade
costumava ir fallar com uma menina que morava defronte do
convento. 0 pai corcou-lhe o cabello e fechou-o dentro de uma
gavera. Naquelle dia o frade foi para lhe fallar para air convidar
para ella ser madrinha, e viu-a fechada a chorar. Elle disse-lhe :
« Tu, que tens, que tanto cboras ? &gt;&gt; Ella contou-lbe que por via
d'elle o pai tinha-lhe cortado o cabello e fechado-a. 0 frade abriu
a porta e foi ter corn ella. Ella disse-lhe que estava a chorar por
causa do cabello. 0 frade foi a gaveta, abriu-a, e poz-lhe o
cabello outra vez na cabeça. A menina ficou muito contente. 0
frade disse-lhe que queria que ella fosse madrinha de uma
menina. « Corno hei de eu ir, que meu pai nao me deixa? »
Elle disse : « Deixa, e até te ha de dar para tu levares a offerta
aos compadres. » Nisto o frade foi-se embora. Chegou-se ao dia,
o sancristao e mais a sua mulher embrulbar:1111-se nos farrapinhos e marcharam para o convento, cobertos de vergonha. Eutraram e pozeram-se num canto. 0 povo escarnicava (sic) dos velhos. D'ahi a pedaço veiu o frade chama-los. Elles foram, e vestiram-se corn um fato muito born que tinha o padrinho para
elles. Bapt-izou-se a creança e puzeram-lhe o nome de Joanna. 0

143

fradc den ao velho mu pinta e disse-lhe que lhe havia de durar
sete an nos, para pagar a mestra, para a vis tir etc., etc. 0 sacristao ficou muito admirado corn aquillo, mas nâo disse nad.a. 0
frade disse-lhe: cc Ha de cbegar-lhe para os sete an nos e ainda
lhe ha de sobrar, e eu ao fim dos sete an nos hei de la ir buscar a
menina. &gt;1 A menina, o que houve de crescer num anno, crescia
nu111 dia, e o que havia de aprender num mez aprendia-o numa
semana. Ao fim dos sete annos estava uma mulher creada. 0
homem quando queria alguma cousa ia a caixa para trocar o
pinto, e sempre achava o dinheii:o que precisava fora o pinto.
Chegou ao fim dos sete annos, tinha ainda o pinto inteiro. Vivia
muito contente por a menina crescer tanto e aprender tanto. No
dia em que completou os sete annos, a menina estava na mestra e mâi andava na lavoura, e o pai estava em casa. Chegou o
padrinho da menina. Assaudou-se (saudou-se). 0 sacristâo ficou
muito triste. A menina quando veiu conheceu loge;&gt; o padrinho
e pediu-lbe a bença (sic). 0 padrinho levou-a e &lt;leu ao pai sete
crusados novos e disse-lbe que lhe haviam de durar to&lt;la a vida,
que lhe ha viam de durar tantos a1mos como os que jà tinha. Foi
para o convento dos fra&lt;les o e padrinho disse-lhe que se chamasse
d'ahi em diante Joào. Os outras frades perguntaram quem era e o
padrinho disse que era um seu afilhado. Um dia passou pela palacio
do rci, e elle perguntou-lhe quem era aquelle rapaz. 0 padrinho
respondeu o mesmo. 0 rei pediu ao padrinho para elle ficar
como criado. Elle disse que sim, mas coma condiçâo que havia d.e
ter uma alcova s6 para elle, e que o nào havia de mandar fazer
nada que elle nâo podesse. b rei disse que sim. 0 padrinho
disse-lhe: cc Quando te mandarem fazer alguma cousa que tu
nào passas, fecha-te no teu quarto e chama por mim no coraçâo,
que eu logo te appareço. A rainha agradou-se d'elle. Elle nao
quiz. Quando o rei veiu, a rainha disse-lhe que o Joào tinha
dito que era capaz de ira uma quinta onde ha via muitos bichas,
e trazer a caça toda que la estivesse. 0 rei chamou-o e disse-lhe
que sob pena de morte que bav.ia de la ir. Joâo foi para o seu

a

�144

CONTOS l'OPULARES PORTUGUEZES

quarto e chamou pela padrinho. Elle appareceu-lhe . Elle ~ontou-lhe. Elle disse: « Diz ao rei que te mande apparelhar qumze
cavalo-aduras, das mais ferozes que houver em palacio, e quinze
b
.
criados, e que se preparem para amanhâ virem ter ~o monte, e_tu
vai tam bem, que eu la te appareço, e toma esta vannha. » Ass1m
o Joâo fez. Foram no outra dia os criados para o monte e d'ahi a
bocado cheo-ou o Joâo . As~entou-se numa pedra e cada rebanho
de passaros° que passava pela ar, elle ia com a varinha e fazia
uma cruz no astre, e logo os passaros que caiam as canastras,
cada canastra corn sua qualidade de passaro. D'ali a dias o rei
foi a uma festa. A rainha nem o criado nâo foram. 0 mesmo.
A rainha disse- lhe que o Joâo lhe tinha dito que era capaz de
ir buscar ornas laranjas ao reino da China, que marinheiro nenbum nem nino-uem era capaz de la ir buscar. 0 rei foi ter com
elle. O' mesmo . b O padrinho disse-lhe que fosse ao re1,. que li1e
mandasse preparar um navio, que elle depois lbe apparecia. Elle
assim fez. No dia seguinte metteu-se na embarcaçâo e mandou
saltar a maruja roda em terra. 0 Joâo assim que se apanhou _s6
no navio, conou os cabas e foi s6zinho. Ao fim de tres d1as
entrou pela barra dentro carregado de laranja. Todos ficaram
muito admirados. Tornou a haver outra caçada. 0 Joâo e a
rainha ficaram no palacio. A rainha outra vez. Elle o mesmo.
Quando o rei veiu, disse que Joâo era capaz de ir aos mares vermelhos, buscar uma embarcaçâo de peixe, que pescador nenhum
era capaz de trazer. Foi ao quarto chamar pela padrinho. 0
padrioho disse-lhe que fosse dizer ao rei que preparasse as mesmas cavalgaduras e que fo~sem ter a beira-mar. E tu leva esta
variuha. Elles foram, e o Joâo apenas cbegou asseotou-se numa
pedra, e corn a varinha batia na agua, e d: cada pancada ~ue
dava cada canastra de peixe que trazia. Assan encheu as tnnta
cana~tras de peixe. D'ali a &lt;lias houve outra festa. A rainha
ficou outra vez mais o Joâo em casa. A rainha disse ao rei que
0 Joào era capaz de ir desencantar tres filhas que elles tinham
encantadas e que ninguem era capaz de ir buscar. 0 rei man-

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

145

dou-o chamar. Elle foi ao padrinbo. Elle disse-lhe que dissesse
ao rei que mandasse fazer um navio todo novo para lhe dar. O
rei assim fez. Assim que esta va feito o rei chamou o Joâo. Depois
elle foi ao padrinho. 0 padrinho disse-lhe que mandasse saltar
toda a guarniçâo em terra. Assim foi. Elle fugiu corn o navio
s6zinho. E foi aos mares vermelhos. Chegou as !agas bravas (sic)
dos mares vermelhos, e o padrinho deu-lhe um punhal de ouro,
e disse-lhe que nunca o tirasse da mâo, e que nunca tirasse do
pensamento e do coraçâo o nome do teu padrinho, e segue para
onde te levar a tua inclinaçâo. Joâo foi seguindo por uma montanha f6ra. Chegou a noite a uns alvoredos, e seguiu sempre
sem descansar. Nisto â meia noite deu-lhe o somno e descansou um bocadinho . Ouviu cantar um passaro, e o passaro dizia
que perto d'ali estava uma princeza encautada, e se houvesse
um menino que a desencantasse, que seria feliz. Joâo encheu-se
de anima e foi ao ta! sitio onde o passaro disse que estava 0
encanto, e encontrou um chafariz. la para beber agua, e seccou a
bica e se abiram umas portas. Joâo entrou par aquellas portas
dentro. Eram umas minas la por dentro, de ouro e brilhantes.
Elle
chegou dcntro e viu uma princeza adornada de bITTandes
.
nquezas. Perguntou-Ihe: cc Que fazeis aqui? » Ella ~espondeu:
cc E v6s que vindes aqui fazer? &gt;&gt; Elle disse que a vinha buscar. A
princeza disse-lhe: cc Pois entâo accompanha-me, pois senâo vem
ahi o meu encanto; a ti encanta-te e"amim dobra-me o encanto . »
Elle perguntou-Ihe quem era o seu en canto. A princeza disse que
era um carneiro que tinha sete pares de gaitas (cornos), e a
princeza deu-lhe um relogio e disse-lhe : « Quando forem onze
boras até onze e meia esta proximo o meu encanto. » Joâo agarrou na menina a toda a força e trouxe-a pelas minas fora. Ao
sair das portas do chafariz, fecharam-se as portas corn tanta valentia que ainda trincaram um bocadinho do vestido da princeza.
Depois veiu o carneiro dos sete pares de gaitas. Joâo com o
punhal de ouro matou-a. E pegou na princeza e levou-a para
bordo da embarcaçâo. A pri"nceza virou-se para terra e deu urn
Rtt'flt hispa.niqut. xrv.

JO

�146

CONT05 POPULARES PORTUGUEZES

ai. E d'ali ficou muda logo. 0 navio logo · &lt;leu bordo para
outra terra . Avistaram uma cidade. 0 padrinho disse:
cc Joào, salta em terra, corn o mes_mo punhal, e nunca te
esqueças do teu padrinho. )&gt; Joâo foi, ~ntrou dentro de u~a
citerna, dentro da citerna estava um palac10, e dentro do palac10
um jardim. Tinha um chafariz no meio, e um grande tanque e
um gradeamento de bronze em volta, rodeado de serpentes, e a
princeza encantada a lavar no tanque. Joao foi chamado ~or :lla
a beira do gradeamento, por nâo poder saltar dentro ao 1ard1m.
Ella foi conversando corn elle, e disse-lhe : « Ide-vos embo:a,
que senào vem por ahi o meu encanto, e faz-me grandes sacnficios (sic). » Joâo disse-lhe que nâo se assustasse, que onde ella
morresse, morria elle. A princeza disse-lhe que o seu encanto ~ra
uma bicha de sete cabeças. Quando forem onze horas e me1~,
esta proxima. A princeza depois sahiu p~ra fora do tanque e vern
para dentro do palacio que estava na c1terna, e ~echou-se num
quarto, e disse para o Joâo: « Aqui é que ha _de sa1r a s~rpente. »
Joao esperou a bicha e cbamou pela padnnho. Ass1m ~ue a
bicha appareceu, cravou-lhe o punhal num~ cabe~a; a ~1cha,
quando se viu cravada, deu c~m o rabo_ para ~1ma. ~1sto abnr~mse as porta~ do quarto e a pnnceza fugm. Joao, ~ss1m que vrn a
princeza sol ta, accompanho~-a pel: citerna, e d:1x~u o pun~al de
ouro cravado na cabeça da bicha. A bora do me10 dia, appareceulhe O punhal. O Joâo levou esta princeza para bordo._ A outra
irmâ que esta va muda abraçou-a, mas nao fa~ou. 0 na_v10 botouse outra vez ao larao. E avistaram a Turquia. No me10 de umas
0
- o Joa~
~
montanhas esrava um
palacio . 0 navio nâo 1evava senao
e
as duas princezas. O padrinho disse-~he :_« Vês_ aque~le palac10,
dirige-te a elle. » Joâo foi. No p~lac10 nao h:1:1a senao passaros
e sardôes e sarJ.magaotas, centope1as e outras bichos. ~lie _entrou
pela palacio dentro. O palacio fecho~-se n~ mesmo ms~aote de
maneira que nào tinha portas para sai_r. Ab_nu-se uma mma d:ntro do palacio. Ouviu â bora da me1a no1te uma voz: ~&lt; Vai-te
embora, que nào logras o que desejas. &gt;&gt; Respondeu o Joao: « 0

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

motiva?» A voz respondeu : « Porque nâo trazes armas para
pelejar comigo? » Joâo disse: « Appareçam as tuas, que as minhas eu t'as amostro », que era o punhal. No mesmo instante,
apparece um gigante. Joâo, cheio de animo, puchou pelo punhal
e amostrou-o ao gigante . 0 gigante assim que avistou o punhal,
afastou-se e disse: « Oh! que arma tao pequena com tanta
força! i&gt; 0 gigante corn medo do punhal foi buscar a princeza,
depois disse para o Joào: « Mas tu nào a levas sem armar lucta
comigo. •&gt; A lucta principiou â meia noite e acabou ao meio dia .
Joâo abraçou o nome de Deus e do padrinho e atirou corn o
punhal ao gigante, e o gigaote cahiu atordoado . Joâo pegou na
princeza e fugiu pelo palacio fora, e levou-a para o navio . Logo
que ella saltou na embarcaçào, ficaram todos muito contentes.
Chegaram depois ao sitio aonde tinham desencantado a primeira,
virou-se a primeira para a terra e deu outro ai. Depois foram até
ao reino do pai. Quando desembarcou em terra, &lt;leu a princeza
outro ai. Foram depois para palacio. 0 rei muito contente por
as filhas estarem desencantadas, muito triste por a mais nova
estar surda e sem fallar. Nisto houve outra festa . A rainha
e Joâo ficaram no palacio . A rainha outra vez. Joâo nâo
quiz. A rainha ficou muitou zangada. A rainha disse ao rei
quando elle veiu, que mandasse matar o criado, porque
elle tinha dito que a filha mais nova que era muda, s6 fallava a
ordem d'elle. 0 rei mandou-o chamar e disse-lhe que a havia
de fazer fallar ùebaixo de pena de morte . Joào foi ao quarto, e
chamou o padrinho. 0 paùrinho disse que fosse ao rei e que mandasse fazer um banquete para todos, e que no dia em que estiYesse toda a gente reunida, que chamasse por elle. 0 rei assim
fez. No dia do banquete, Joao chamou pela padrinho . Elle disselhe que fosse ao rei, e que lhe pedisse para ficar ao pé do rei a
mesa. Um rei que estava a mesa perguntou se aquella princeza
nào fallava . Joâo disse: « 0 cantador, quando entra para a praça,
antes de cantar, considera na cantiga. » Quando muito lhe pareceu, virou-se o Joâo para a menina que estava ao pé de si, e

�CONTOS POPULARES PORTüGUEZES

perguntou-lhe: cc Princeza, que quer dizer aquelle ai, que deu a
entrada da embarcaçâo ?» A princeza respondeu: « Aquelle ai
quer diur, que se ponha aqui um cutello bem agudo, para dar
a quem o merecer. &gt;&gt; 0 rei mandou buscar o cutello e pô-lo em
cima da mesa. Depois a princeza callou-se e nào fallou mais.
Depois
continuaram a corner. Outro rei tornou a preountar
se a
.
b
pnnceza nào fallaYa mais. 0 Joâo respondeu: cc O cantador que
canton, ha de acabar· a cantiga. &gt;&gt; D'ali a bocado tornou Joâo a
preguntar-lbe: cc Princeza, que quer dizer aquelle ai que &lt;lestes
no meio do mar? &gt;&gt; Ella respondeu : cc Aquelle ai que dei no
mar, quer dizer que se encontraram quatro donzellas no mar a
navegar. » Depois callou-se outra vez. Um outro rei tomou a preguntar: c&lt; Entào a princeza nào falla mais? » 0 Joâo disse: cc 0
cantador que começou a cantiga, dari tambem o remate, e
depois cantara sempre. » Joâo entâo voltou-se para ella e disselhe: cc Princeza, o que quer dizer aquelle ai que &lt;leu quando saiu
para terra ? » A princeza disse : cc O ai queria dizer que se
Joanna fosse Joao, ha muito tempo que meu pai era cabrâo. &gt;&gt;
Mataram entào a rainha, e a Joanna casou corn o rei.
(ÜPORTO)

16.

0 RIO DE SANGUE.

Tres irmâos. Foi o primeiro correr mundo. Encontrou uma
velha que era Nossa Senhora. Elle pediu-lhe que lhe inculcasse
uma casa para servir. Ella disse que sim, mas que s6 havia de
fazer o que elle lhe dissesse, e mais nâo. Elle foi. 0 amo tomou-o.
Fez-lhe a recommendaçâo, e escreveu uma cana e disse ao rapaz
que nâo parasse por mais que visse no caminho. Deu-lhe um saco
para tirar de corner quando tivesse f6me. Deu-lhe um cavallo e
disse-lhe que entregasse a carta onde o cavallo ajoelhasse. Elle
foi, viu um pomar, apeou-se para ir buscar a fruta, e o cavallo
sumiu-se, e elle ficou s6. Foi o segundo irmâo, tudo o mesmo.
Passon o pomar, mas a -mais adiante viu uma fonte de leite.

•

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

Parou para o beber e nisto o cavallo foi-se embora. Foi o terceiro irmào. Encontrou a velha, que era Nossa Senhora, recommendou-lhe tudo, e disse-lhe que aquelle amo estava muito zangado pelo que tinham feito os irmâos. Elle foie passou o pomar.
Quando o passou, encontrou Nossa Senhora, que lhe deu uma
oraçâo para quando elle se visse affiicto. Foi adiante e viu a
fonte de leite. Depois encontrou um rio de agua. 0 cavallo 11ào
o queria passar. Elle lembrou-se da oraçâo, rezou-a e passou.
Depois um rio de lei te. Rezou, passou. Depois um rio de sangue:
o cavallo nao queria passar. Rezou, passou. Encontrou depois
dois penedos a baterem um no outro. Rezou. Os penedos pararam e elle passou. Depois encontrou dois leôes a bater um com
o outro. Elle rezou a oraçâo e elles separaram-se e elle passou.
Depois encontrou uns· pretos a cortarem lenha com uns machados, e outros a botarem para uma fornalha. Rezou e elles suspenderam os macbados e elle passou . Depois encontrou umas
pombas muito gordas com pouca comida, outras muito· magras
corn muita comida. Umas gardas a descerem do ar para baixo,
e outras magras a voarem do chào para o ar. Depois uma rua
muito estreita e suja, ao fim d'esta rua estava uma grande claridade, e muitos passarinhos a cantarem. No meio da claridade
uro palacio, e dentro do palacio um homem assentado em cima
de um throno. Donde o menino se dirigiu a elle a entregar-lhe a
carta. Nisto saiu para fora, e ja nao viu o cavallo. Ficou muito
admirado a olhar para o canto dos passarinhos. Chegou um
menino ao pé d'elle e preguntou-lhe o que estava elle ali a fazer.
Elle disse-lhe que estava a ouvir cantar os passarinhos. 0
menino disse-lbe: cc Vai-te embora, que ja aqui estas ha um
anno e um dia. &gt;&gt; 0 rapaz ficou muito admirado. 0 menino
disse-lhe: « Vai-te embora, que quem vive corn gosto um dia
parece uma hora. &gt;&gt; Foi-se o menino embora, e depois veiu um
homem e preguntou-lhe : « Que fazes ahi ? » - cc Estou a
ouvir cantar os passarinhos », disse elle. 0 homem disse: cc Vaete embora, que ja aqui estas ha dois annos e dois &lt;lias. &gt;&gt; 0 rapaz

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CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

fi.cou rnuito admirado. 0 homem disse-lhe que lhe havia de
dizer o que tinhaencontrado pelo caminho. « Pomar de frncta. &gt;&gt;
Elle respondeu : « Sim, eram as maças do paraiso, mas quem as
comer morre, como aconteceu corn teus irmàos. » - « Fonte de
leite. » - « Pois nào era leite, eram os dernonios que estavam
derretendo chumbo, para beber quem ali passasse para morrer. »
&lt;c Rio de leite &gt;&gt; « E' o leite que Nossa Senhora derramou
pelos peitos f6ra, quando lhe arrastaram o filho para o Calvario. » - c&lt; Rio de agua. &gt;&gt; - cc As lagrimas que Nossa Senhora chorou pelos seus olhos f6ra, quan&lt;lo lhe arrastaram seu
filho pelas ruas da amargura. » - « Rio de sangue. &gt;&gt; - « Foi
o sangue que derramou Nosso Senhor Jesus Christo pelo seu
corpo f6ra. » - « Penedos. » - « Erào as lingoas &lt;las murmuradeiras, que estavam a dizer mal da sorte da tua mâi. •&gt; « Os leôes. » - cc Erao os teus dois irmàos, que como se viram
perdidos, queriam-te perder tambem a ti. » - cc Quatro pretcs
a cortar lenha, e outros quatro a botar para uma fornalha. 1&gt; « Erào os diabos do inferno que estavam a cortar as aimas e a
botar para os fornos. 1&gt; - &lt;c Pombas. » - « Nào eram pombas, eram as al mas que tinham morrido ha pouco tempo, e que
ainda nào tinham pago os peccados. » - c&lt; As magras que iam
para cima ? » - &lt;&lt; As almas que vem do purgatorio ja livres para
o ceo. 1&gt; - « A rua muito escura? &gt;J - (c Era a rua d'amargura, onde Christo bebeu o fel. &gt;&gt; - &lt;&lt; A claridade, etc ... ? &gt;&gt; « Claridade, paraiso; os passarinhos a cantarem, os anjos do
paraiso; o palacio, o ceo; e o homem, era DeL1s. » 0 homem
( que era Deus) depois disse-lhe: &lt;&lt; Agora vae-te embora, e dizeme o que queres. » 0 rapaz disse: &lt;&lt; Queria ter de comer e beber
neste mundo, e a salvaçào para a min ha alma no resto da vida. 1&gt;
&lt;&lt; Pois vae-te embora, e vae ter corn tua mai, e a salrnçào
faz por ella, e corner e beber ahi tens para ti e tua mai. »
(ÜPORTO)

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17.

LAME BAIS.

Era um rapaz que vivia corn a mai pobremente. Fugiu de casa.
Encon trou um lugar e pediu donnida. La disseram-lhe que nâo
tinham camadas, mas de-ram-lhe as chaves de um palacio para
elle la ir dormir se quizesse, mas que costumava la ir dormir
gente, e que desapparecia. 0 rapaz disse que nào se importava. Foi la, e apparecia-lhe corner e beber e tudo _q uanto era
preciso, mas nào podia sahir porque o palacio nao tin~a p~rtas.
Esteve là um anno, e rodas as noites vinba uma cmsa fna ter
com elle a cama. 0 rapaz dizia: « Quem està ahi que se retire
de ao pé de mim, que eu estou quente e nào quero arrefecer. »
Ao fim do anno aquella cousa fallou, e disse : &lt;&lt; Se te obrigares
a estar aqui outro anno da mesma maneira que estiveste este,
seràs feliz; ficarâs senhor d'este palacio, casaràs com uma de
minhas filhas, escolheras quai quizeres. » 0 rapaz, como tinha
qae comer e beber, alise deixou fi.car mais um anno. 0 rapaz
assim que acabou o anno, foi para f6ra. Chegou a um monte e
encontrou um gigante a corner um boi inteiro assado, que era
a sua sobremesa. 0 gigante preguntou-lbe: cc Onde vaes, oh
homem ? » O rapaz respondeu: cc Vou para aquelle reino casar
corn a filha do rei. )&gt; 0 gigante disse-lhe: cc Espera ahi, que eu
tambem vou, deixa-me corner a sobremesa. n O rapaz disse que
aquillo levava muito tempo, maso gigante abriu a b_occa ~ enguli_u
o boi logo de uma vez. E foram ambos de dois (sic). Mais
adiante encontraram outro a tapar um ribeiro d'agua e a beber.
-Preguntou ao gigante onde elle ia. 0 gigante respondeu : &lt;&lt; Este
rapaz vai casar corn a filha do rei e eu vou accom?anha-lo. » _O
bebe-agua disse-lhe: cc Queres ~ue eu tambem va?_ n Elle~ drsseram : &lt;c Pois anda. &gt;&gt; - « De1xa-me beber uma pmga d agua
que eu ja vou. 1&gt; E bebeu uma presa d'agua de um s6 tra?o.
Foram todos tres. Mais adiante encontraram uro corn o ouv1do
pousado no chào. Perguntaram-lhe o que elle estava a fazer, e
elle disse que esta va a ouvir arrebentar as arvores em sete leguas

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CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

de redondeza. E foi com elles. Depois mais adiante encontraram
outro que estava ,l botar um oculo e corn uma lança na mao.
Preguntaram-lhe ; « 0 que estas a fazer? » - &lt;&lt; Estou agui a
vêr se ouço um mosquito que esta d'aqui sete leguas na janella
de um pal::tcio. &gt;&gt; E atirou corn a lança e veiu com um mosquito
esperado na ponta. Foi corn elles. Depois mais adiante encontrararn outra homem corn umas peias de ferro. Perguntaram-lhe
para que era aquillo, e elle disse que andava assim melhor peado
que os outras sem peias. Assim foram para o tal reino. 0 rapaz
quando chegou li, disse para elles: cc Vocês, agora, sigam o seu
destino, que eu venho para o palacio casar coma filha do rei. »
Elles disseram: « Nada, nos accompanhamos-te até vir o casamento, e ficarnos â porta. » Elle en trou, e foi a presença do rei.
0 rei mand,m chamar as tres filhas para elle escolher urna. Elle
escolheu a mais bonita. 0 rei disse-lhe : c&lt; Ai ! que escolhestes
mal! » 0 rapaz preguntou porque? 0 rei disse : cc Porque
esta tem um vesüdo de azas e foge-te. » A princeza disse entao
para o rei: « Nào, que eu nào o quero. » 0 que ouvia arrebentar as arvores, e que estava corn o ouvido a escuta, disse para
os companheiros: « Ai! o que ella esta a dizer? » Diz o
gigante: « Ella que diz? » - « Diz que nao casa com elle. &gt;&gt;
Nisto o rei disse : c&lt; Oh filha, tu has de casar corn elle, que
palavra de rei nao volta atraz. » Diz elb: « Pois eu s6 caso
com elle, se elle corner os bois que nos ternos para corner nurn
mez. » 0 que ouvia arrebentar as arvores disse para os companheiros: cc Ai! o que ella esta a dizer ! &gt;&gt; E contou. Diz o
gigante: « Eu ja ha muito que nao comi, tenho uma fome damnada. &gt;&gt; 0 rapaz veiu chama-los, os bois ja estavam promptos, e o
corne-bois no fim dos outros comerem, comeu os bois todos. O
rei disse : cc Fil ha, agora tens de casar, ja la vao os bois. &gt;&gt; Ella
disse : « Nào caso corn elle, s6 se elle beber o vinho todo que
ternos na adega. &gt;&gt; 0 bebe-ribeiros bebeu-o. 0 rei disse outra
vez o mesmo. A princeza disse que s6 casava corn elle se o
rapaz dentro de uma bora lhe fosse levar uma ::arta a cern legoas

de distancia a um principe e trouxesse a resposta. 0 que ouvia
rebentar as arvores contou aos companheiros. Depois o andarilho deram-lhe a carta e foi. Ficou o que via ao longe corn o
relogio na mao. Faltavam cinco ruinutos para acabar a hora, e o
que estava corn o oculo deitou o oculo, e viu-o estar deitado
num monte, cançado de carrer tanto. Agarrou em tres limôes e
deu-lhe com elles no peito. 0 andarilho levantou-se de repente,
veiu a carrer, c quando cbegou ainda faltava urn minuto para acabar a hora. Entregaram a respostaa princeza. Ella nao teve mais
remedio senâo casar. 0 rei disse ao rapaz: cc Agora ella é que te
ha-de levar ao teu palacio, corn o vestido de azas a voar. Mas
toma cuidado, tira-lhe o vestido, e faz urna torre de bronze e
fecha dentro o vestido, senao ella foge. &gt;&gt; Assim foi. 0 principe
anda.va s6 a caça. Nisto veiu a mai do rapaz. Ella começou a
chorar e a dizer a mai, que naquella torre estava fechado um vestido muito rico que ella tinha. A mâi comprou um diamante, e
foi cortando a torre por detraz. Até que chegou a tirar o vestido.
A princeza mal o apanhou, vestiu-o para mostrar a mâi como
lhe estava bem. E assim que o poz fugiu. 0 rapaz quando
veiu, a mâi contou-lhe, e elle fugiu tambem, e nunca mais se
soube d'elle.
(ÜPORTO)

r8.

O LADRAO DA MAO CORTADA.

Um homem foi viajar, e deixou na terra a mulher e tres filhas.
Morreu a mulher, e elle veiu tomar conta d'ellas. Poz loja de
contrabandista. Quando as filhas ja estavam casadas, abalou e
deixou fi.car as filhas com o negocio. Elias eram muito esmoleres,
e naquella terra andava mna grande manada de ladrôes. 0 capitâ.o dos ladrôes fez um conselho a manada para ir roubar as
meninas. 0 capitào tratou de se vestir de mulher velha, e um
dia quasi a noite, foi pedir dormida as meninas, ficando a manada
escondida ali perto. As meninas responderam que nào lhe podiam

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CONTOS POPULARES PORTùGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

dar dormida. Elle ateimou, e pediu que lhe dessem nem que
fosse na cozinha ao lado do lume. A mais velha, e a do meio
nâo lhe quizeram dar agasalho, mas a mais nova teve pena, e
deu-Jh'a. 0 ladrào entrou para dentro e deu tres maçàs, uma a
cada uma. As duas mais velhas trataram de camer as maçàs, mas
a mais nova guardou a sua no seio. Fizeram a ceia, e deram de
cear ao ladrao. Depois as duas mais velhas foram-se deitar. Diz a
mais nova : &lt;&lt; Voçês deitem-se, que eu fico acordada para vêr o
que a velha faz ao pé do lume. » As duas mais velhas, coma tinham comido as maçàs, que eram de encanto, adormeceram logo.
A mais nova, coma nào comeu a sua, estava deitada mas acordada . 0 ladrào quando deu tempo de ellas estarem a dormir, levantou-se, e foi ter com ellas à cama para vêr se estavam dormindo. As duas mais velhas, por via das maçàs, estavam ferradas
a dormir; a mais nova esta va acordada, mas fingiu que estava a
dormir. 0 ladrâo poz entao uma cesta que trazia, e tirou d'ella
uma mao definhada (de finado) e accendeu-a e po-la no meio da
sala. (A mao de finado emquanto esta accesa, ninguem mais
acorda naquella casa, e para a apagar é preciso ser corn vinagre.)
Depois abriu a porta e tocou numa trombeta para chamar a manada dos ladroes que estava escbndida . Neste comenos a mais
nova que estava acordada, fechou-lhe a porta, e fi cou deotro corn
a luz (a mio) accesa, e o ladrào de fora. A porta tinha um buraco gateiro, e o ladrâo nào fazia senào gritar que ella lhe desse a
mao de finado, e o mais que elle la tin ha deixado. Mas ella o que
fazia era grirar pelas irmâs. Elias nào podiam acordar por
causa das maçâs que tinbam comido. 0 ladrâo pediu que apagasse a mào c que lha desse. Ella apagou-a corn vinagre, e depois
quando o ladrào rnetteu o braço para ella !ha dar, a mais nova
foi corn uma espada e cortou-lhe a mâo. 0 ladrao depois foi-se
embora sem a mâo e foi-se curar. As duas - irmàs assim que a
mais nova apagou a mâo de finado, acordaram logo, e ja nâo
chegaram a vêr ella cortar a mâo ao ladrào. Depois a mais nova
pegou na mào e enterrou tudo. 0 ladrào disse para os compa-

nheiros que as havia de matar todas tres. 0 ladrâo fez uma luva
para vestir, fingindo que trazia mâo. Alugou depois uma casa
defronte da casa onde as meninas tinham o seu negocio, e foi
p6r tambem negocio de contrabaodista. Depois namorou-se da
mais velha. Casou corn ella. Um dia disse a mulher que ella
havia de ir com elle
terra vêr uma grande fu1icçao que la
havia . 0 ladrào quando chegou a mna serra, viu um chafariz, e
foi beber agoa mais ella. Depois mais adiante cbegou a uma
pedreira e disse : « Abre-te, perola! » Abriu-se logo uma mina.
A mulher ficou coma a ternura da noute (sic) quando viu aquillo,
por se vêr debaixo do chào. Depois o ladrào disse : « Fecha-te,
perola », e ~ mina fechou-se, e elles fi.caram debaixo do chào.
Foram andando e foram ter a mnas salas muito grandes. Depois
d'abi a bocado ouviu-se a manada dos Jadroes. Disse o ladrâo
para elles : « Aqui esta a primeira! » Depois perguntou a mulher quem lhe tinha cortado aquella mâo, e tirou a luva. Ella disse
que nâo sabia. 0 ladrào entào deu-lhe uma maçà e tres chaves, e
disse-lhe que ab risse dois q uartos, mas nào abrisse o terceiro, e visse
o que estava nelles, e que quando elle viesse que lhe ha via de dar
a rnaçà. Ella guardou a maçâ no seio. Foi vêr o primeiro quarto.
Eram barricas de ouro em p6. 0 segundo estava todo cheio de
brilhantes e toda a especie de riqueza. Ella fi.cou muito admirada,
e disse : &lt;&lt; Quando isto é nestes dois quartos, o que far:i naq uelle
que elle me prohibiu de vêr ! » Depois foi ao terceiro quarto e
abriu a porta. Ao tempo que abriu a porta, caiu-lhe a maçâ do
seio e pisou-se. Ella apanhou outra vez a maçà e tornou -a a
metter no seio. 0 quarto estava cheio de gente morta. 0 ladrào
que estava corn os companheiros, mal a mulher abriu a porta do
terceiro quarto, sentiu logo e voltou para traz. Chegou a mina e
perguntou a menina se tinha ido vêr os quartas. Ella disse que
tin ha ido vêr os dois. 0 ladrao pediu-lhe a maça. Ella deu-lh'a,
e elle mal a viu pizada, disse : « Ai! que me és falsa ! » Matou-a
logo, e po-la no terceiro quarto com os outros mortos. Depois
tratou de se dirigir para onde estavam as outras duas meninas,

a

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CO TOS POPULARES PORTUGUEZES

na loja. As irmàs perguntaram-lhe pela irmà, e elle disse que
ella tinba gostado muito da terra e elle que a tin ha deixado lâ
ficar. Depois o ladrâo, para as enganar, escrevia por mâo d'elle
ca11as, como se fosse ella. D'onde veiu uma carta, em que a mais
velha con vida va a segunda para ir la. Ella acreditou e foi. E o ladrâo fez o mesmo que corn a mais velha e matou-a e botou-a ao
mesmo quarto. Depois tornou-se a dirigir para a loja onde esta va
a mais nova. Elle tornava a escrever cartas das duas para a 'mais
nova. Mas ella nào acreditava. 0 ladrao dizia-lhe que ella tioha
um !!l'ande
casarnento na terra. A mais nova nâo se queria fiar,
I:&gt;
mas tantas erarn as cartas que ella sempre foi. 0 ladrâo fez
quando la chegou o mesmo que corn as outras irmâs. Quando
chegou a pedreira, ella ouviu dizer : &lt;&lt; Abre-te, peroJa », e depois :
« Fecha-te, perola. » Ella logo aquillo ficou-lhe no ouvido para
lhe nâo esquecer. Quando chegou tal sala, o ladrào perguntoulhe se ella sabia quem é que lhe tinha cortado a mâo. Ella disse
que nào sabia, que talvez fosse alguma &lt;las suas irmâs. 0 ladrào
entâo deu-lhe as tres chaves e a rnaçà, e disse-lbe o IJ]esmo.
Ella viu o primeiro, depois viu o segundo, mas ao terceiro nâo
foi. O ladrâo como nâo sentiu que ella foi ao quarto, nâo voltou
a pedreira, e continuou a andar pelas serras. Andava um principe caça e trazia grandes joias consigo. Os ladrôes deixaram-no
muito ferido para o roubarem, e depois deitaram-no por um buraco, donde elle foi ali pelo subterraneo ao terceiro quarto
donde cstavam as mortas. A menina que estava no subterraneo,
nâo fazia senâo a limpeza, fazia as camas, e fazia o comer para os
ladrôes, e nas horas vagas, ia para a bocca da mina dizer :
« Abre-te, perola. Fecha-te, perola », para vêr se ella tambem se
abria. No dia seguinte o ladrao e os companheiros arrecolheramse a mina. Elle preguncou :i menina quantos quartos tinha visto.
Ella disse que dois. 0 ladrâo pediu-lile a maçâ, e ella estava
inteirinha. 0 ladrào entâo disse para os companheiros, que
aquella é que havia de ser a sua mulher verdadeira, e que se
alguem lhe tocasse, que o mandava matar. Elle de dia ia roubar

a

a

CO. TOS POPULARES PORTUGUEZES

1 57

e ella fi.cava no subterraneo a fazer o corner e a tratar de tu&lt;lo.
Um dia a menina foi ao terceiro quarto, e viu as irmàs mortas.
Foi seguindo depois pelo quarto dentro, e sentiu uns gemidos
que era o principe, que os ladrôes tinham roubado. Ell':_ pr~guntou-lhe o que elle tinha e elle contou-lhe tudo. 0 ladrao unbalhe rnostrado um unguento, que diz que era um balsamo para
curar toda a ferida. Ella disse para o principe· que se elle guardasse segredo, ella curava-o, e dava-lhe de corner. Ella disse-lhe
que se os ladrôes ali fossem, que elle se fingisse morto. Tratou de
cura-lo e todos os &lt;lias lhe ia ao quarto darde corner. Ella, um
dia, qu~n&lt;lo viu que o principe ja estava bo_m, arranjou dua~
cavalo-aduras, rou~ou tudo quanto os ladrôes trnham, e chegou a
pona°e disse : &lt;&lt; Abre-te, perola &gt;&gt;. Depois ~ugiu c?m o princ~pe.
O ladrâo mal ella fugiu, conheceu que hav1a nov1dade na mma,
e voltou corn os companheiros, mas ja ella tinha fugido. Eram
tres caminhos que iam pela serra, e o principe e a menina f~ram
por um d'elles. Os ladrôes depois foram pelo rnes~o cammho
atraz d'elles. Ella olhou para traz e viu os ladrôes, e dtsse: « Que
ha de ser de nos? &gt;&gt; Desceram a u ma baixa num alvoredo, amarraram os cavallos, e ia um lavrador corn tres carros de palha, e
ella pediu-lhe se os deixava esconder naquella palha. 0 l~vrador
disse que sim, e mandou parar os carros, e amarrou os bois a um
pinheiro. · O principe e a menina esconderam-_se nu~ carro. ~
ladrâo cht&gt;gou ao lavr-ador e perguntou-lhe se tmha vtsto por ah
pa sar um homem e uma mulher. 0 lavrador disse que _nâo. 0
ladrao começou a vêr o ::arro detraz da palha e o do me10, mas
como nâo encontrou ninguem, nâo foi vêr o da frente. Depois
foram para o outro caminho. Depois o principe e a
menina sairam da palha, montaram a cavallo, e foram para
a cidade. O rei como lhe faltasse aquelle fi.lho ha uns poucos de dias vivia muito triste. 0 principe chegou e foi-se apresentar ao r~i corn a menina, e contou ao pai o que lhe tinha
acontecido. O principe casou logo com a menina. 0 rei maudou
logo por decretos annunciando o casamento. 0 ladrào da mào

�59

CONTOS POPULAR.ES POR.TUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

cortada mal ouviu o decreto, vestiu-se e veiu para a capital para a
matar. 0 ladrio em segredo escreveu a menina. A menina chegou-se ao principe, e pediu-lhe uma graça naquelle dia : que lhe
desse o melhor leào e a rnelhor espada, e que nâo fosse dormir
corn ella naquella noite. 0 principe disse que sim. Ella poz o
leào ao pe da cabeceira. Depois a cabeceira para os pés, e pegou
na espada. 0 ladrâo quando viu que ella estava deitada, deu-lhe
com a espada para a matar, mas ella que estava do outra lado
chamou o leâo, e o leào agarrou-se a elle, e ella corn a espada
matou-o. 0 principe que sentiu aquelle barulho, veiu e viu-o
morto. Foram dar parte ao rei. 0 rei mandou uma divisâo ao
outra dia para a serra. Os ladrôes estavam dentro da mina. A
menina chegou e disse : &lt;&lt; Abre-te, perola. &gt;&gt; A tropa entrou, e
dei cou fogo as pedreiras, e elles rnorreram todos debaixo do châo,
e eu era soldado no tempo e quando vi isto vî-me embora.

rem. Vieram duas macacas, mna velha e outra nova e fizeram-no
ir para a mesa a comer tambem corn os rnacacos. Elle comeu, e
depois a macaca velha foi buscar uma avelâ e entregou-lh'a. A
macaca nova nunca o desamparou e nào fazia senào fazer-lhe
festa. 0 principe um dia veiu para a janella, e viu muita tropa,
mas tudo eram macacos, e muitos trens e carruagens, mas todos
puchados a macacos. A macaca velha e a nova saltaram para
dentro de uma carruagem e fizeram com que elle fosse tambem.
0 principe vinha muito admirado, mas ao rnesmo tempo muito
triste porque nâo via senâo macacos por toda a parte. Os irmâos
estavam na serra a espera d'elle, quando o avistaram, corn aquelle
grande exercito de macacagem. Elles queriam fugir corn medo,
mas ao final sempre foram vêr o que era. 0 irmâo entào saiu do
carro aonde vinha e foi abraçar os irmâos. A macaca velha ficou
na carruagem, mas a macaca nova sain com o principe accompanhada por muitos macacos corn armas. Os irmâos mostraram a
espada de ouro e o ramo, e elle muito envergonhado mostrou a
avelà. Os irmàos foram para o palacio a cavallo, e elle metteu-se
na carruagern e foi tambem com os macacos. Quando chegaram
perto do palacio, o exercito fi.cou parado, e a macaca velha e a
nova e o principe foram ter corn o rei. Os principes entregaram
cada um ao rei a sua prenda. 0 rei foi ter corn o mais nova e
perguntou-lhe o que elle trazia. Elle disse-lhe a chorar que lhe
trazia sé aquellâ avelâ e aquellas macacas. Depois pediu licença
ao rei para deixar entrar o exercito dos macacos. 0 rei disse que
sim. Entâo todos os macacos que eram officiaes, mal chegaram ao
pé do palacio logo se tornaram em gente, ea macaca velha fez-se
numa rainha, e a nova numa princeza mais· linda do que o sol.
0 rei fi.cou muito contente e ne:,se dia deu um grande banquete
a toda aquella cône. Depois naquelle dia haviam de se apresentar as prendas para se vêr qual era a melhor. 0 mais velho apresentou a espada de ouro; o do meio apresentou o ramo de
ouro corn a corôa; o mais nova como tin ha dada a avelâ ao pai,
nâo apresentou nada. 0 pai disse entâo que a prenda d'elle tam-

(ÜPORTO)
I 9, OS MA CA COS
(VARIANTE)

Era um rei corn tres filhos. Todos tres queriam o reiuo. O rei
mandou-os carrer terras, e disse que o que lhe trouxesse a melhor
prenda seria o senhor do reino. Chegaram a uma montanha e
viram tres caminhos. Cada um foi pela seu. 0 mais velho encontrou uma espada de ouro. Corno tinham combinado que logo
que achassem alguma prenda haviam de voltar atraz e esperar
pelas outros, o mais velho assim fez. 0 segundo achou um rama
de ouro corn uma. corôa tambem de ouro no mesmo ramo. Voltou para traz e veiu encontrar-se corn o innâo mais velho. 0 mais
novo uâo encontrou nada. Foi indo, foi indo, e ao fim de uns
poucos de &lt;lias entrou numa cidade onde tudo eram macacos.
Entrou por um palacio dentro, e chegou a um salào e viu uma
mesa posta com tudo quanta era bom, e muitos macacos a come-

1

�160

CO~TOS POPULARES PORTUGUEZES

hem havia de apparecer. Foram buscar a avelà e pozeram-na em
cima da mesa. A macaca disse entào para o rei: « Vossa Magestacle é que deve partir a avelà pela sua propria mâo. &gt;&gt; 0 rei partiu-a e logo sahiram de dentro sete corôas de ouro. Depois o rei
chamou o conselheiro mais antigo, para vêr quai das preodas era
a mais rica. 0 conselheiro disse que as sete corôas da avelâ erâo a
prenda mais valiosa, mas que se devia dar ao mais velho, o da
espada, o reino, porque o do meio tinha uma corôa no ramo,
que era um reinado; o mais nova tinha sete corôas q~e eram
sete reinados. Ficaram todos muito contentes, e o mais nova
casou corn a princeza, que era a macaca.
(ÜPORTO)

20. 0 PALACIO DOS ESPINHOS

(Versâo portugueza de La Belle ati bois dormant : é perfeitamente fiel a versâo de Perrault, e creio que dir ctamente d'elle
tirada, ainda que o homem que m'a contou nàosabia Ier.)
Encontra-se o episodio de uma fada lhe pronostic.1r que morr ria por causa de um fuso. Por mais que se eyita ella fere-se.
Encancada a dormir por cem annos. Fica tudo e~cantado com
ella. 0 castello fica ro&lt;lea&lt;lo de espinhos. Um principe a caça,
peraunra o que é aquillo. Elle vae a entrar, e a medida que entra
vâo~se os espinhos afastan&lt;lo. Chega ,lO palacio, vê a menina a
dormir, e arraoca-lhe o espinho do fuso da mâo. Ella ressuscita,
e elle casa corn ella.
(ÜPORTO)
2I. 0 GlGA TE

m pai tinha tres fiJhos. 0 mais velho quiz a sua parte e foi
correr mundo. Foi servir para casa d'um mercador. Um dia o
irmào segundo quiz ir ter corn elle. Como o pai nâo qu ria
deixa-lo, foram os dois irmàos e o pae. Chegararn, aaventura, a

CONTOS POPULARES POR'I'UGUEZES

161

casa do mercador. Li perguntou o pai pelo filho, até que elle
lhe appareceu. Depois foi o pai, quando o achou~ corn os tres
filhos para casa. Perderam-se no carninho e metteram-se a um
alvoredo. Corno ja era noite, ficaram ali a dormir aquella noite.
Mas o mais novo nâo dormiu. Sentiu cantar umas ràs, e logo
viu que ali havia lenteiros (terrenos humidos). Dirigiu-se para la,
mas as râs cantavam sempre cada vez mais longe. Até que foi
dar a um paJacio que tinha tres Juzes. Viu uma menina estar ao
pé da janella, e elle pediu-lhe um copo d'agua. Ella deu-lh'o e
&lt;lisse-lhe se elle era capaz de a desencantar e mais as tres irmàs e
ao pai, que o seu encanto era urn giganre. 0 rapaz volrou para o
monte e la no fundo de uma cova viu estar um gigante a assar
um boi. 0 rapaz foi-se a elle e pergunrou-lhe para que cra
aquelle frango que elle esrava a corner. 0 gigante ficou muito
admirado de elle chamar aquillo um frango. 0 rapaz disse-lhe
que costumava corner tr s d'aquelles ao jantar. 0 gigante entào
disse que elle havia de corner agnelle senào que o matava. O
rapaz disse que sim, e como nâo podia mecher o boi, disse ao
gigante que elle é que o havia de voltar. Quando o viu assado,
comeu um bocado até se fartar e depois disse ao gigante que o
nâo queria, que estava mal feito. 0 gigante comeu-o. Dl!pois
disse-lhe que fossem vêr quem era capaz de subir mais depressa
a escada do palacio. 0 rapaz disse que sim; mal la cheuou, subiu
muito depressa, agarrou numa grande bôla de ferro, e atirou-a
a cabeça do gigante que o matou. Logo a primeira princeza se
desencantou. Ella disse que o encanto da segunda era um mocho.
0 rapaz matou o macho e a segunda licou desencamada. Dcpois
a primeira disse-lhe que o tncanto da terceira era um galgo. O
rapaz armou-lhe um laço e desencancou-se a terceira, e o rci,
pai d'ellas. Depois o rapaz voltou para onde estava o pai e os
irmâos ainda a dormir. Quando acordaram foram a uma estal
lagem, onde ja estavam o rei e as tres filhas desencantadas. A
primeira casou com o rapaz e as outr:J.S casaram cada uma corn o
seu irmào, e ficaram depois todos juntos e muito felizes.
(ÜPOR,TO)
Il

�162

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

22. 0 FEITICEIRO.

Era um pai e quatre filhos. Os dois mais velhos eram carvoeiros. O terceiro foi correr mundo: chegou a uma terra para servir e foi ter a uma casa. 0 douo preguntou-lhe se elle sabia lêr;
elle disse-lhe que sim, e o amo mandou-o embora, e disse-lhe
que nâo lhe servia . 0 rapaz veiu para casa e contou ao irmâo
mais uovo. Elle sabia muito bem lêr, mas foi a tal terra procurar o mesmo amo. Elle preguntou-lhe se elle sabia lêr e o rapaz
disse-lhe que nao. Depois ficou. 0 amo era feiticeiro e tinha muitos livres debaixo da cama. 0 rapaz começou a lê-los, e quando
.o anno do ajuste estava quasi a acabar, fugiu e levou consigo o
livre melhor que encontreu. Em casa nâo fazia senâo estudar.
Os irmâos que ganhavam muito dinheiro nao queriam repartir
corn elle. O rapaz quando se viu prompto, fez-se num galgo e
pediu ao pai que o levasse a uma feira para o vender, mas que
nâo vendesse a coleira que elle levava. 0 pai assim fez. Vendeu-o par muito dinheiro, e o galgo depois fugiu dos homens que
o tinham comprado e fez-se outra fez em gente e veiu ter corn o
pai. Quando o dinheiro se acabou, o rapaz fez-se num cavallo,
e disse ao pai que uào vendesse o freio, que era nelle que estava
a virtude. 0 pai assim fez; como lhe deram muito dinheiro
pelo freio, vendeu-o tambem. Um dos homens qu~ o tin~1an~
comprado era o feiticeiro, que sabia que o rapaz hav1a de 1r al1
feito em cavallo, e foi elle quem quiz comprar o freio. 0 feiticeiro nâo lh'o queria tirar, mas um dos companheiros quando
chegou a estallagem, e em quanta apanhou o feiticeiro enterticlo
tirou o freio ao cavallo para lhe darde corner. 0 cavallo mal se
viu sem o freio fèz-se logo numa ra e atirou-se a um regato de
agoa; o feiticeiro fez-se num peixe para ir corner a râ; a râ
fez-se num passarinho e assubiu ao ar; o feiticeiro fez-se num
gafranhoto (milhano) para corner o passarinho; o passarinho foi
para o beiral de um telhado e fez-se num anel que se enfiou no
dedo de uma menina que e~ta va a janella. 0 gafranhoto fez-se uro

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

homem e pediu a menina para lhe vender o anel, que lhe dava
muito dinheiro. A menina ia a dar o anel ao feiticeiro, e elle
caiu-lhe no chao e fez-se ern milho; o feiticeiro formou-se numa
gallinha para corner o milho ; o milho depois formou-se numa
rnposa e comeu a gallinha que era o feiticeiro. E assirn o rapaz
venceu e ficou corn t0da a riqueza do feiticeire e veiu para casa
do pai.
(ÜPORTO)

23.

0 GATO MIS MIS.

Versâo fidelissirna do Chat botté de Perrault. Todos os pormenores os mesmos. 0 dono é chamado marquez de Caramba.
0 gato tem medo do verdadeiro marquez que era feiticeiro. Elle
vai visita-le. 0 marquez faz-se numa onça e o gato foge para
cima de uma trave todo assustado. Depois o gato pede-lhe que
se faça num rato, e elle come-o. No fim depois do moleiro ter
casado coma filha do rei, o gato andava sempre dizendo que se
nâo fosse elle o amo nào tinha sida feliz. A princeza um dia
ouviu, e preguntou-lhe o que era que o gato lhe dizia. 0
moleiro contou-lhe. Ella muito zangada escreveu ao rei contandolhe tudo. 0 rei veiu, mandou matar o moleiro e fi.cou outra vez
corn tudo e levou a filha para o palacio. (Esta ultima parte é da
versào portugµeza.)
(ÜPORTO)

24.

0 RAPAZ E O GIGANTE.

Era uma vez dois irrnaos. 0 mais velho foi carrer mundo e
foi servir. 0 amo fez corn elle o ajuste que o pritneiro que se
zangasse perdia as soldadas, e o que ganhasse havia de tirar ao
outra uma correia de pelle das costas. 0 rapaz acceitou. 0 arno
ao principio dava-lhe de camer, e mandava-o pastar ovelhas para
um monte. Depois cada dia lhe ia dando menos de corner, até
que a final nào lhe dava nada. 0 rapaz jà nâo podia, até que se

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

zangou com o amo. 0 amo entao tirou-lhe uma correia das costas e nâo lhe pagou a soldada. Depois mandou-o embora. 0
rapaz veio rntlÎto triste para casa, e contou ao irmào mais novo.
0 irmâo disse que elle é que la queria ir, para vingar o irmâo.
Foi, ajustou-se e passou-lhe o mesmo. Mas o rapaz, como o
amo nâo lhe dava pâo, cada dia matava no monte uma ovelha e
comia-a assada. A' noite o amo &lt;lava por falta do carneirn, mas
nâo se queria zangar. Até que a final o amo, como lhe iam faltando sempre as ovelhas, zangou-se corn o criado. 0 rapaz queria que elle lhe pagasse a soldada, e queria tirar-lhe a correia das
costas. Mas o amo disse-lhe que o mandava a casa de um compadre para elle lhe pagar. Corno o rapaz disse que nâo sabia
escrever, mandou-o corn uma carta ao compadre que era um
gigante, para elle o matar. 0 rapaz no caminho Jeu a carta, mas
nâo disse nada. 0 gigante quando o viu depois de lêr a carta,
começou a mandar-lhe fazer serviços muito pesados, como o
compadre lhe tin ha dito. Deu-lhe uma corda muito grande para
elle a trazer cheia de lenba. 0 rapaz foi para o pinhal e começou a atar o pinhal todo c disse ao gigante que era para o trazer, que escusava de andar sempre aos caminhos. 0 gigante,
quando viu isto, -ficou assustado, e nâo quiz, e o rapaz disselbe entâo que trouxesse elle o feixe, que elle por isso nào se
incommodava. Depois o gigante mandou-o buscar uma pipa de
agua a uma fonte. 0 rapaz começou a ca var a fonte, e o gigante
ficou muito assustado e nào quiz. 0 rapaz entâo disse-lhe que
levasse a pipa, que elle por isso nâo se incommodava. Depois
o rapaz furou um pinbeiro, e tapou o buraco. Foi dizer ao
gigante que elle nào era capaz de furar o pinheiro corn o dedo.
0 gigante foi e partiu o dedo. 0 rapaz foi ao buraco e fingiu
que o furou. 0 gigante ficou muito espantado e mandou o
rapaz embora e pagou-lhe a soldada. Depois o rapaz foi a casa
do amo antigo, apanhou-o e tirou-lhe a correia &lt;las costas. Foi
entâo para casa e mostrou ao innào e foi pôr-lha nas costas.

2 5. A MORTE QUE FEZ UM HOMEM RICO.

(ÜPORTO)

Um homem tinha m·uitos filhos, e ja todos os homens da
freguezia eram seus compadres. A mulher alcançou outra vez,
e ~ront_a estava para parir; o homem que nâo queria pedir a
mais mnguem abalou de casa. Encontrou no camiuho um
homem muito desfigurado, que lhe perguntou onde elle ia. Elle
contou-lhe, e o homem disse-lhe que voltasse para traz, que elle
era o seu_ padrinho. Assim foi. Quando acabou o baptizado, 0
homem disse: cc ~ompadre, repare bem para mim, para me conhecer onde quer que me encontrar. Eu sou a Morte. Tu,
muda de casa e faz-te meJico, que has-de ganhar muito dinheiro. Em tu me vendo aos pés da cama de qualquer doente, é
porque elle escapa. Ern tu me vendo a cabeceira, é porque elle
morre. » 0 homem assim fez; começou a ter muita fama, e
ganhava muito dinheiro, e jâ estava muito rico mais os filhos.
Num dia a Morte chegou-se ao pé d'elle e disse-lhe : « Bern
agora ja te fiz rico, mas hoje chegou a tua vez e venho matar-te. &gt;:
0 homem pediu muito que o deixasse viver mais um anno. A
Morte consentiu. 0 homem entào mandou fazer uma torre de
bronze, corn as paredes muito grossas, para a Morte la nâo
entrar. Quando o anno estava quasi a acabar, elle mandou fazer
um anel de ouro, metteu-o no dedo, e fechou-se na torre.
Estava lâ a jantar, e appareceu-lhe a Morte ao pé d'elle. Elle
muito assustado, perguntou-lhe: cc Ob ! comadre Morte tu por
onde éque entrastes ? &gt;, A Morte disse que pela buraco dafe~hadura.
Elle entào disse-lhe: &lt;c Ja que tu te mettestes pelo buraco da
fechadura, has-de metter-te pelo buraco d'esta cabaca. » A Morte
metteu-se e · elle tapou a cabaça com urna rolh~, e disse â
Morte: &lt;c Agora sae d'ahi para fora se és capaz. &gt;&gt; A Morte disselhe: « Oh! compadre, pois eu fiz-te tanto beneficio e tu acrora
' a rolba
o
q~eres-me aqm. deixar dentro d'esta cabaça? Tira-me
que eu nâo te faço mal. » 0 homem tornou a penmntar-Ihe s;
ella nâo lbe fazia mal. A Morte disse que nâo. Elle destapou a

�r66

CONTOS P.Ol&gt;ULARES PORTUGUEZES

cabaça e ao t~mpo que d~stapou, caiu ~as nào mprto, e a morte
roubou-lhe o anel. Elle disse: cc Oh! co01adre, entâo tu promettestes-me que me nâo matavas, e agora queres-111e matar. Deixame ao menos rezar um padre nosso e uma ave-maria pela rninha
alma. » A Morte consentiu. Elle que faz? Começou a rezar o
padre nosso até ao meio , e depois tornava começar. De modo
que a Morte nào o podia matar. 0 homem entâo saîu da torre,
e começou outra vez na sua vida. Um dia andava elle a caça e a
Morte fingiu-se de morta no meio do monte . 0 bomem chegou,
iulgando q_u e era um homem morto, disse : « Oh! pobre
homem, quem te matou? Deixa-me ao menos rezar um padre
nosso e uma ave-maria pela n11 alma. » Rezou, mas ao tempo
que acabou, a Morte levantou-se e matou-a.

a

(OPORTO)

26. JOAO PELLUDO

Lavrador casado e sem filhos. Tinha uma amiga que lhe disse
que matasse a mulher. 0 homen perguntou como a havia de
matar sem crime. A amiga disse-the que lhe desse fiaçâo ao guardar o gado . 0 marido deu-lhe dois arrateis de linho para ella fiar,
e que se o nào fizesse, que a mata va corn pancadas. A mulher
foi a chorar, e encontrou uma menina com uma roca. Ella perguntou-lhe o que tinha, e a mulher contou-lhe. A menina tirou
a sua fiaçào da roca, e ajudou a fiar a fiaçâo da mulher. A mulher
ficou com tudo fiado e foi-se embora corn o gado. 0 homem
quando a vin disse-lhe : c&lt; Vês o que vale o medo, pois amanhà
has-de fiar quatro arrateis. » No outro dia a mulher foi para o
monte, e corn a canceira da fiaçao perdeu o gado. Aquelle monte
onde a mulher ia chamava-se o « monte do urso ». A mulher
começou a procurar o gado e nâo o aèliou. Ella começou a chorar
e disse que nào ia para casa, porque o marido a matav,il,
e ficou aquella noite no monte. 0 gado chegou a casa, mas faltava
uma toura. 0 bicho urso tinha- a vindo buscar a.o monte e levou-

C0NTOS PdPULARES P0RTUGUEZES

167

a para a cova. Depois de noite veiu buscar tambem a mulher e
levou-a para a cava. Depois teve copia (sic) com ella coma se
fosse um homem. A comida d'elles no -1.mraco era sernpre came,
que o urso todas as noites ia buscar. A mulher ao fün de nove
mezes teve um filho, que tambem era filho do urso. O fil ho foi
crescendo e quando tinha tres mezes, perguntou-lhe : cc Minha
mâe, que estamos n6s aqui a fazer debaixo do châo nesta cava ? »
A mulher respondeu-lhe : cc }{6s nâo podemos sair d'aqui, porque
teu pai é o bicho que esta aqui nesta cova. &gt;l O rapaz ficou muito
zangado e disse para a mai : « Minha mài, nâo me diga que meu
pai é um bicho, meu pai é um homem. &gt;) A mulher disse-lhe
que nâo, que era um bicho. 0 filho disse : cc Pois deixa estar,
que eu vou rnatar o bicha, e escacho-o de meio a meio. E se
elle toma aqui a vi.r outra vez a lamber-me ou {t rninha mae eu
escacho-o de meio a meio. &gt;&gt; Ao fün d'este tempo o menino 'poz
os bombros â pedra que tapava a cava e virou-a, e depois sahiu e
mais a mài. ·A mâi ia quasi nua, e elle ia todo coberto de pello,
porque era muito pelludo. Foram esconder-se numas devezas de
castanheiros, até chegar a noute. 0 bicho assim que chegou ao
buraco e que os nâo encontrou, clava berros que se ouvia mais
de uma legoa. Assim que veiu a noute, o filho disse para a
mulher: cc Mînha mâe, vamos para casa de meu pai . &gt;&gt; Passaram
a porta de uma vizinha, que perguntou à mulher donde ella
vinha, que ha tanto tempo que a nâo tinha visto. Ella disse:
cc Eu venho do buraco do bicho urso, e este filho é o que eu la
fui buscar. » A vizinha disse : cc Entâo o teu homem ao-ora
nao
0
te quer, que tem la casa outra mulher. &gt;&gt; 0 filho disse : (( Nao
que elle ha de querer, senào é porque o escacho de me10 a
meio. &gt;&gt; A vizinha deu fato a mulher para ella se vestir. Foram
depois para a porta do lavrador, e bateram â porta tres vezes, sem
ninguem responder. A' quarta vez, o homem perguntou de fora
muito zangado quem estava ahi. Responde o filho : cc E' o seu
filho e a sua mulher, e abra a porta. &gt;) 0 homem nâo queria
abrir a porta, e disse que nâo tinha filho nenhum. O filho disse-

�168

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

lhe : cc Abra a porta, rneu pai, senào escacho-o de meio a meio . »
0 pai vinha para bater no rapaz, mas elle botou-lhe as unhas, e
.disse-lhe que os deixasse entrar, senào que o matava ali. A outra
mulber fugiu. 0 homem nao teve outro remedio senào deixa-los
entrar, e desde ali ao futuro fez vida com a mulher, e tratou-a
bem e mais ao filho. 0 filho nào fazia senào crescer. 0 que havia
de crescer num anno crescia num mez, e estava todo coberto de
cabello, de modo que nào precisava de faro . 0 pai tinha muito
medo d'elle. 0 pequeno andava a brincar corn os outros rapazes.
Os outros rapazes, como o viam tào cheio de cabello, nâo faziam
senâo dizer-lhe : cc Oh! pelludo, oh! bicho . ,, Elle um diazangouse e disse para os outros rapazes: « Oh! meus amigos, olhai que
se me tomais a chamar pelludo, eu escacho-vos de meio a meio. »
Foi para casa e disse para a mâi : cc Oh! min ha mâi, eu quero-me
baptizar. ,, A mâi disse : cc Pois sim. ,, Foram-no baptizar e pozeram-lhe o nome de Joao. Porém os rapazes, como elle era muito
pelludo, chamavam-lhe Joào Pelludo. Elle zangou-se e um dia
foi-se a elles, e moeu-os de pancadas. Joâo Pelludo quiz ir para a
escola. Disse a mài que os mais rapazes sabiam lêr e entâo que
elle tambem queria aprender. A mâi disse que sim. Joâo Pelludo
foi para a escola, mas os rapazes nào faziam senâo chamar-lhe
pelludo. Elle moia-os de pancadas. Um dia num campo havia
uma pereira muito ramalhuda, e jantararn todos a sombra
d'aquella pereira os rapazes e o Joâ:o Pelludo. Trataram de fazer
ali uma comida, e cada um havia de dar a sua cousa. Perguntaram ao Joâo Pelludo se elle queria dar alguma causa. Elle disse
que sim. Foi a màe pedir-lhe alguma cousa, e a mai deu-lhe
um focinho de porco. Foram para debaixo da pereira e ali comeram tudo. Depois os rapazes disseram uns para os outros: cc Oh!
rapazes, n6s havemos de matar aqui o Joâo Pelludo. F.ingimos que
queremos trepar a pereira e nâo podemos, depois elle vae, e quando
a gente o v.ir la matamos-lo a pedradas. &gt;&gt; Assim foi. Mal elles la o
pilharam, entraram a dar-lhe pedradas. Elle de cimacomeçou agritar: « Estai quietos, senao desço e mato-vos a rodos. ,&gt; Elles nao fize-

ram caso. J oào Pellu do desceu, arrancou a pereira, efoi-se aosrapazes
e matou-os todos. Foi para casa e contou a mai o acontecido. A mai
ficou muito triste a chorar o que havia de ser ·d'ella. As mais dos
mortos e os pais juntaram-se todos em casa da mâi a clamarem
justiça. 0 Joao Pelludo foi-se a elles e matou-os todos. E depois
foi para a escola sem se importar corn a justiça. Donde nessa
escola andavam os filhos do rei e muitos fidalgos. Nao faziam senâo
chamar-lhe pelludo e bicha. Joào Pelludo tornou a avisa-los.
Como elles cominuaram, foi-se aos dois fi.Ibos do rei e matou-os.
0 outra que ficou fugiu e foi dar parte ao rei. 0 Joâo Pelludo
chegou a casa e disse para a mâi : « Minha mai, eu matei os filhos
do rei, agora vou para o monte, para uma cava. Diga a meu pai
que me mande fazer umà bengala de quatro quintaes de ferro de
peso, e se alguem aqui me procura, que va ter comigo ao monte,
que eu la estou . » 0 rei tratou logo de mandar muita tropa para
prender o Pelludo. Foram ter com elle ao monte. Joao Pelludo
encostou-se a um pinheiro, e deixou chegar a tropa a beira d'elle,
e assim que elle viu que vinham ao pé, botou a mào ao pinheiro, arrancou-o e deixou-o cair par cima da tropa, onde matou
a maior parte d'ella. Arrancou outra pinheiro e deixou-o cair para
outra lado. Alguns que escaparam trataram de fugir para palacio
a dar parte ao rei. 0 rei disse que nào lhe queria fazer mal
nenhum, que s6 queria que lh'o levàssem a sua presença para vêr
que qualidade de homem elle era. 0 Joâo Pelludo, assim que deu
cabo da tropa foi para casa outra vez, e perguntou ao pai se tinha
a bengala prompta. 0 pai disse que nao. Joao Pelludo disse ao
pai que tratasse de lh'a arranjar, senao que vinba e que o escachava. Neste comenos, foi outra força de tropa procura-lo ao
monte. Mas como o nào encontraram, foram-se embora. 0
homem que o Joào Pelludo queria por força que fosse o pai, foi
ter corn doze ferreiros, para lhe fazerem a bengala. Juntaram-se
os doze ferreiros, cada um deu o ferro que tinha e juntaram-no
num monte a vêr se cbegava ao peso da bengala. Fizeram-na, e
depois perguntaram os ferreiros : cc Entâo quem é que ha-de agora

�170

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

vir buscar a bengala? » 0 Joâo Pelludo disse logo : « Ora essa !
quem a ha-de levar, sou eu mesmo. » Os ferreiros ficaram muito
admirados e disseram : « Pois entâo nés somos doze e nâo
podemos corn ella, e tu sé é que a bas-de levar? » Joâo Pelludo
perguntou : « Quanto costou a bengala? &gt;&gt; - cc Doze moedas »,
disseram os ferreiros. &gt;&gt; - « Pois se eu a nâo Jevar, perce vinte e
quatro. » Fizeram a aposta, e o Joào Pelludo pegou e metteu o
dedo mendinho debaixo da bengala e voltou-a logo. Depois o
Joâo Pelludo pegou na bengala e foi-se embora. Foi
correr terras. Chegou a beira de um rio, onde estava um
gigante deitado. Pregunta elle ao gigante : « O que estas
tu ahi a fazer ? &gt;&gt; Responde-lhe o gigante : « Escou aqui
para passar gente neste rio, porque eu chamo-me rio bom e rio
mau. &gt;&gt; Perguntou-lhe o Joâo Pelludo : « Entâo porque é que tu
te chamas assim? &gt;&gt; - « E' porque eu quando quero ponho este
rio bom, e quando quero ponho-o mau. » Diz o Joâo Pelludo:
« Ora, anda d'ahi e vem comigo, que eu pago-te a soldada. &gt;&gt;
Chegaram ao cimo de um monte e encontraram outro gigante a
arrancar pinheiros. Arrancava um de cada vez. Preguntou-lhe o
Joào Pelludo: « Que andas tu ahi a fazer, oh ! gigante ? &gt;&gt; Elle
respondeu : cc Eu ando aqui a arrancar estes pinheiros. &gt;&gt; 0 Joâo
Pelludo agarrou na bengala e arrasou logo o pinhal de uma vez.
Depois disse-lhe : « Agora jâ nâo tens que fazer, pega em ti e vem
comigo, que eu pago-te a soldada. &gt;&gt;Chegaram a outra montanha,
e andava outro gigante a arrasar as serras dos altos para os
baixos. Donde o Joâo Pellu&lt;lo pegou na bengala e arrasou logo
uns poucos de montes todos juntos, e disse ao gigante : « Anda
d'ahi, vem comigo, que ganbas o mesmo que os outras, e vamos
por ahi adiante. » E foram todos os quatro e chegaram a uma
vilJa e pediram quarte! para dormirem. Uma mulher onde elles
foram bater, disse que nâo tinba agasalho para lhe dar, mas que
lhe dav:a a chave de uma casa para elles la irem fi.car. Mas que lâ
naquella casa iam la dormir muitos passageiros, mas que nâo
tornavam a apparecer. 0 Joào Pelludo respondeu : « Ora, nessa

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

171

casa me quero ir. &gt;&gt; E disse para os companheiros para la irem
fi.car, e foram todos quatro. Entraram para dentro, e o Joâo Pelludo disse : c&lt; Olâ, meus arnigos, um ha-de fi.car aqui e os outros
vâo procurar comida. &gt;&gt;_0 rio bom foi o que fi.cou. Eiles foram a
comida e demoraram-se até muito tarde. 0 rio bom estava deitado
e ouviu uma voz dizer : « Eu caio, eu caio. » 0 gigante fi.cou
loao muito assustado, e nâo respondeu nada. A mesma voz toruiu a dizer : « Eu caio. &gt;&gt;A' terceira vez que repetiu cc Eu caio »,
o gigante disse : « Pois cae, mas nâo caias ca por cima de mim »,
e estava todo cheio de medo. Assim caiu aquella abentesma, com
a figura de um homem velho, e disse para o gigante : « Levantate d'ahi, que temos de ir jogar um jogo. &gt;&gt; E foi buscar uma duzia
de espadas, codas num molho, que reluziam como prata, e uma
s6 ferruaenta. Chegou ao pé do gigante e disse-lhe : &lt;&lt; Tu qual
0
.
l'a
com estas doze ou com esta s6 ? &gt;i 0 g1gante
queres , 1· oaar
b
'
entendeu que as doze tinham mais força que uma so, e
escolheu as doze. Foram jogar. A espada ferrugenta era de
ferro e as doze luzidas èram de vidro. 0 abentesma foi despedaçand~ todas, e depois matou o gigante, e partiu-o aos pedaço~ e
metteu-o numa bacia, e metteu a bacia dentro de um armano.
Chegaram os outros de féra, nào viram luz accesa. 0 }oâo Pelludo começou a chamar por ~lie tres vezes. Como elle nao resp?n;
deu, disse para os companhe1ros : « Querem ver que elle fugrn_Pois se o encontro, nâo lhe deixo senâo as orelhas. &gt;&gt; Depo1s
foram fazer a comida para os tres. Na outra noute seguinte, disse
0 Joâo Pelludo para os dois companheiros: cc H~je fica u~, mas
nao faca como fez o outro, e 116s vamos arranpr a com1da. »
ficou ; arranca-pinheiros. A' meia noite ouviu a vo_z a ?izer : « Eu
caio &gt;&gt; ( o mesmo). O arranca-pinheiros logo .â pnme1ra vez lhe
disse, ainda corn medo, mas com menos medo do que o outro :
« Pois cae para ahi ! ii (Depois o mesmo até a morte dentro da
bacia.) Chegou-se a terceira noite ( o mesmo); fi.cou o arras~-se~ras.
Aconteceu O mesmo e morreu. Chegou o Joâo Pelludo a n01te e
começou a chamar por elle. Como elle lhe nào respondeu, jul-

�r72

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

gou que elle tinha fugido como os outros, e fi.cou desesperado.
Depois foi accender o lume para fazer a comida para elle s6.
Ouviu a mesma voz a dizer : « Eu caio. » Diz elle : « E's tu Rio
bom? anda la que eu ci te espero. » Ouviu outra vez a voz a
dizer: cc Eucaio ». Dizelle: cc E'stuArrancapinheiros?anda la que
eu câ te espero. » Ouviu a voz terceira vez : « Eu caio. &gt;&gt; Diz elle
c&lt; E's tu Arrasa serras? anda la que eu câ te espero. &gt;&gt; Tornou a
voz : cc 'Eu caio. » Diz elle: cc Cae ou nào cae, seu f .... de p.... ,
olhe que o racho corn a bengala. » Caiu entào um braço. A'
segunda vez, caiu outro braço. 0 Joào Pelludo disse entào todo
desesperado : « Cae por uma vez, seu f .... de p .... » Caiu o resto,
e fez-se tudo na mesma abentesma corn a figura do homem velho.
Ao tempo que caiu a abentesma disse : cc Olâ, estas a cozinhar,
levanta-te, que quero ir pelejar contigo. &gt;&gt; 0 Joào Pelludo
poz-se a assobiar, e nem sequer olhou para o velbo. 0 velho vae e
poz-se-lhe a mijar no turne para lh'o apagar. 0 Joào Pelludo
zangado arrumou-lhe corn a bengala, que o espernegou logo. 0
velho disse: cc Ola, tu tens assim valentia, pois havemos de jogar
mn bocado de espada. Diz o Joào Pelludo : &lt;c Eu nào preciso de
espada, tenho aqui a minha bengala para jogar corn ella. Talvez
fosses tu, que me &lt;lestes cabo dos meus companheiros. » 0
velho disse : cc Fui, e faço-te a ti o mesmo se tu nao te habilitares
a jogar a espada comigo. &gt;&gt; 0 Joào Pelludo disse : « Pois sim,
vamos la jogar corn uma espada. » 0 velho foi buscar as espadas
para elle escolher. 0 Pelludo escolheu a ferrugenta. 0 velho
queria que elle escolhesse as outras, mas o Joào Pelludo nào
quiz. Joào Pelludo foi jogar e venceu o velho que era o demonio. Cortou-lhe uma orelha. Corno o demonio nâo podia ir
para o inferno sem a orelha, queria que o Joào Pelludo lh'a
désse. Elle disse-lhe : cc Dou-t'a, se me apresentares aqui os meus
companheiros. &gt;&gt; 0 demonio, como queria a orelha, foi ao armario, tirou as bacias, e deu-lhe os companheiros vivos. Depois o
Joâo Pelludo foi-se ao demonio e em logar de lhe dar a orelha,
cortou-lhe a outra, e metteu-as ambas de duas num bolso. Depois

o demonio deitou a fugir por um corredor subterraneo, e o Joâo
Pelludo e os companheiros foram sobre elle pelo rasto de sangue
que elle ia deixando. Foram ter a um jardim. No jardim estava
um poço e o rasto de sangue ia a entrar pelo poço dentro. 0 Joào
Pelludo disse para os companheiros : « Elle esta aqui dentro,
quai de n6s é que la ha-de ir primeiro? &gt;&gt; Disse o Rio boni que ia
elle. 0 Joào Pelludo metteu-o dentro de um cesto e deu-lhe uma
campainha, para elle tocar quando quizesse vir para cima. 0 gigante
foi descendo, mas eram tantas as balboretas (borboletas), assalamagantas e lumi-cus asaltarem-lhe a cara, que elle atemorizou-se e
veiu para cima de caminho. Logo foi o Arranca-pinheiros, aconteceu-lhe o mesmo. Foi s6 mais abaixo uma braça. 0 Arrasaserras foi, chegou ao fundo do poço, mas viu tamanba escuridâo
que voltou para cima com toda a pressa. Foi entâo o Joao Pelludo. Elle disse: « Agora vou eu; quanto mais eu for tocando a
campainha, quanto mais vào arriando, que eu quan&lt;lo chegar ao
fundo do poço, calo a campainha, e d'aqui a pouco, quando eu
tornar a tocar, puchai-me para cima. » Metteu-se dentro do cesto,
e mais a bengala. Elle ia tocando sempre. Chegou ao fundo e encontrou umas minas, e foi indo sempre por ali fora atraz do rasto de
Sangue. Chegou ao fon, e viu uma sala, e mna princeza muito
linda assentada num trono. Diz-lhe o Joâo Pelludo : cc Que
fazeis aqui? Visteis aqui passar um velho que eu procura?&gt;&gt; Diz
ella : c( Nào; mas passou agora um redemoinho de vento e talvez
fosse corn elle. Ide-vos embora, que eu estou aqui encantada. &gt;&gt;
cc Quem é o vosso encanto? &gt;&gt; pergumou o Joào Pelludo?
Ella respondeu : « E' o leào de ouro. Tem força de quatro cavallos; ide-vos embora, senào elle dobra-me o meu encanto e
encanta-vos tambem. » 0 Joâo Pelludo &lt;leu corn a bengala no
leào d'ouro, que elle partiu-se em dois, e a princeza ficou logo
desen_cantada. Joào Pelludo pegou nella e veiu mettê-la no cesto~
e tocou a campainha. A princeza deu-lhe um anel muito rico
com o nome d'ella e do rei da Asia. Joâo Pelludo disse-lhe que
esperasse lâ em cima do poço, e que botassem depois o cesto.

1 73

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CO.'TOS POPULARES POkTUGUEZES

Assim que ella chegou acima, o Rio bom queria logo fugir com
ella, mas ella nâo quiz e disse que uâo se ia embora, sem virem
tambem as outras duas princezas que ainda estavam encantadas . .
0 Joâo Pelludo foi por outra mina, e ao fundo vin outra jardim.
No jardim estava asseotada uma princeza. Elle perguntou se ella
tinha visto passar o velho. Ella disse que s6 tinha sentido um
redemoinho de vento. Elle perguntou-lhe o que fazia ella ali. Ella
respondeu que estava encantada numa aguia. Joao Pelludo perguntou se nào se podia matar a aguia. Ella disse que sim. cc Quem
colher uma setta de diamantes e apontar corn ella ao sol,
a aguia vem, pousa-se nella e alli morre. » A princeza tinha a setta,
&lt;leu-a ao Joâo Pelludo; elle amarrou-a na bengala, apontou corn
ella ao sol; veiu logo a aguia, pousou na setta, e ficou atordoada,
e o Joào Pelludo corn a bengala acabou de a matar. A princeza
fi.cou logo des.:ncantada. Elle pegou nella e foi leva-la ao cesto.
Ella deu-ll1e um lenço bordado a ouro, corn dois coraçôes de ouro
no meio, corn o nome do rei da Austria. Tocou a campainha e
elles ruindaram-na plra cima. Chegou a cima e o Arra11capi11heiros queria tambern fugir corn ella. Ella dis e que nâo ia sem
vir a terceira, que ainda Iâ estava. 0 Joâo Pelludo foi seguindo
par outra mina e foi a uma sala, toda de ouro aonde cstava uma
outra princeza, muito triste, por as duas companbeiras estarem
desencantada e ella nâo, por o seu encanto ser muito bravo. Joâo
Pelludo Jhe p rguntou quem era o cncanto d'ella. A princeza
respondeu que era uma bicha de sete cabeças, que clava berros
debaixo do chiio que se ouv.iam a umas poucas de legoas . Joâo
Pelludo d.iss que a havia de desencantar, e esperou pela bicha. A
bicha veiu, e elle coma bengala matou-a. Depois foi leva-la ao
cesto. Ella deu-lhe um lenço corn quatro coraçôcs de ouro, um em
cada ponta. Tocou a campainha, e ella foi_ para cima. Os tres que
estavam em cima queriam fugir, mas as tres nâo quizeram sem vir
a quarta que faltava. Joào Pelludo foi par outra mina fora. Foi dar a
um jardim, corn um gradeamento de bronze em volta., dentro do gradeamento estava um chafariz, dentro do chafar.iz estava um nicha, e

CO 'TOS POPULAk.ES PORTUGUEZES

1 75

dentro &lt;lon.icho èstava uma princezamettida.JoâoPelh,idoqueria vêr
se li estava dentro, mas nào poude por o gradeamemo ser muito
alto e todo de brom:e. A princeza disse-lhe que se fosse tmbora
que vinha ali o encanto della que o mata va. Elle preguntou quen~
era o encanto. Ella disse que era o diabo do inferno. Joâo Pel ludo
disse : « Oh! oh! oh ! atraz desse filho de puta ando eu ha bastante tempo. » o mesmo instante appareceu o demonio. O Joào
Pelludo tirou as orelhas da algibeira, e trincou-lli'as. O demonio
disse logo : « Que queres tu, homem? » Joâo Pelludo disse :
cc Quero esta prinœza la f6ra ja ao pé das outras. » 0 demonio
disse : « Isso nâo faço eu, sô se tu me deres as minhas orelhas. &gt;l
Joâo Pdludo disse : &lt;( Bem, mas ha-de ser depois de ella la estar
em cima. » Joâo Pelludo d.isse-Ihe que se elle nào pozesse la a
princeza, que o moi.a com a benga.la. 0 demonio nâo quiz, maso
Joâo Pelludo foi-se a elle e deu-lhe uma pancada corn a bengala.
Ao tempo que elle lhe deu, a princeza fi.cou desencantada, e foi a
correr pela mina adiante até ao fundo do poço. Joâo Pelludo mett u-a no cesto, e ella foi-se. Esta princeza nâo deu prenda nenhuma
ao Joào Pelludo. Cbegaram a cima, e deitaram o cesto. Elle
em baixo pegou na bengala dentro do cesto. Elles foram puchando
o cesto até meio, e depo.is deixaram-no cair julgando que era o
Joâo Pelludo. Depois pegaram nas princezas, e foram-se embora.
Joao Pelludo ficou so no fundo do poço. Andou a vêr tudo, e
depois quando jâ estava farta de andar, de enraivecido metteu a
mào na algibeira e trincou as duas orelhas do demonio. Appareceu-lhe logo o demonio, e perguuto □ -lhe : cc O que queres tu ? »
(&lt; Quero que me ponhas li f6ra d'esta mina. &gt;i ~ cc Sim, se me
das as minhas orelhas ll, disse o d monio. Joâo Pclludo disse :
« Dou. &gt;i O demonio disse : cc Mas nào te levo a bengala. &gt;l
Joâo Pelludo disse : « Pois a bengala é que tu li has-de
ir pôr primeiro.
0 demonio levou-lhe entiio a bengala
e depois veiu busca-lo a elle. Quando chegou a cima, nào encontrou ja os corupanheiros nern as princez..'ls. Joâo Pelludo disse
para o demonio : cc Se me pôes agora onde estao os meus campa-

i,

�CONTOS POPULAlŒS PORTUGUEZES

176

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

nheiros, clou-te as orelhas. &gt;&gt; 0 demonio foi po-lo ao pé dos
companheiros. » Mas o Rio bom ja tinha passado para o out~~
lado, e depois fez o rio bravo. 0 demouio passou-o, mas elles 1a
tinham fuo-ido para o reino da primeira princeza. 0 Joâo Pelludo
nâo lhe de:as orelhas ao demonio. Depois o Joao Pelludo foi para
a capital da Asia, e hospedou-se la numa estallagem. 0 Rio boni
esta va casado corn a primeira princeza. 0 Arranca-pinheiros foi
para a capital da Austria e casou corn a segunda. 0 da terceira foi
para a Africa, e casou corn a terceira, e a solteira foram-na pôr na
India. Depois o Joâo Pelludo vestiu-se de cavalleiro e foi passear
pela capital da Asia, levando o anel que a princeza lhe tinha dada
no dedo. Esta va ella a janella quando elle passou. Ella deu fé, e
disse para o rei : c&lt; Oh ! meu pai, que vae ali o gigante que me
desencantou. &gt;&gt; 0 rei mandou logo um camarista chama-lo. Mas
elle no entretanto fugiu para a estallagem . No segundo dia, trincou de novo a orelha ao demonio e elle apresentou-lhe outro
cavallo e outra fato de outra qualidade. Passau e aconteceu-lhe o
mesmo. Ao terceiro dia, tornou a passar. 0 rei poz sentinellas
pela rua, e disse-lhes que quando passasse aquelle cavalleiro, que
o fossem acompanhar para vêr aonde se recolhia. Elle passou;
foram as sentinellas atraz d'elle, e foram dar corn elle i estallagem. Elle apresentou-se e o camarista disse-lhe que estava ali da
parte de Sua Magestade, para o levar a palacio, que lhe queria dar
uma pensâo, por elle ter desencantado a princeza. Elle disse que
fossem adiante, porque elle la ia ter. Quando o camarista se foi,
Joâo Pelludo trincou a orelha do diabo, e elle appareceu-lhe logo,
e Joao Pelludo pediu-lhe um cavallo mais rico que o do rei.
Apresentou-se li, e foi fallar ao rei. 0 cavallo era o demonio
mesmo. 0 rei perguntou-lhe quem elle era. Elle disse que era um
guerreiro. 0 rei perguntou-lhe se tinha sido elle que tinha
desencantado a filha. A princeza que estava a ouvir, disse logo
para o rei que era e agarrou-se a elle. Joiio Pelludo disse i princeza que fosse para o pé. 0 marido da primeira princeza foi casar
com a quarta que estava solteira. Depois o Joao Pelludo encon-

177

trou a segunda, ella reconheceu-o, e elle mandou r~etter o
marido dentro de uma torre. Depois encontrou a terce1ra, ella
reconheceu-~ o marido foi posto noutra torre. Neste cornenos
0 primeiro q~e es~va casado corn a solteira, ~esafiou o J ~ào
Pelludo e elle ia para se bater corn elle. Mas o d1abo para se vmgar do 'Joao Pelludo, deu-lhe armas de fogo, que foi quando
foram inventadas, e elle matou o Joâo Pelludo.
(ÜPORTO)

27.

0 SENHOR DA CRUZ.

Era uma vez uma mulher casada e era muito pobre e tinha um
irmao muito rico. A mulher era casada, e um dia foi a um monte
onde esta va mna capella do senhor da Cruz, e disse-lhe que fosse
elle jantar corn ella no dia seguinte, que ella ~inha uma gallinh~
morta e preparada. 0 senhor disse-lhe que s1m. A inulher fo1
para casa e no outro dia arranjou tudo. Logo pela manhâ appareceu-lhe um pobr~ dizendo-lhe que tinha muita fome. A mulh:r
teve muita pena, e deu-lhe a moella. D'ahi a bocado tornou a vu
outra pobre com muita fome e pediu-lhe alguma cousa de corner.
A mulher com muita pena de encetar a gallinha que era para o
senhor da Cruz, deu-lhe o figado. D'ahi a bocado veiu outra pobre
corn muita fome e pediu que corner. A mulher nào tendo ja mais
que dar, deu-lhe o coraçào. Depois poz-se a espera ~o s:nhor_ da
Cruz, mas elle nào veiu. No outra dia a mulher f01 mu1to tnste
a capella e disse-lhe : « Meu senhor da Cruz, tu tinhas-me promettido que vinhas jantar comigo; eu tinha a gallinha prampta
e tu nâo viestes ! » 0 senhor respondeu-lhe : « Nào fui, mas
mandei. Vai para casa: vai a arca, que a has-de achar cbeia de
trigo; vai ao forno, que o bas-de achar cheio de broa; e vai a tua
balsa, que la has-de achar dinheiro, e nunca te ha-de faltar. » A
mulher foi muito contente para casa, contou tudo ao marido, e
achou o que o senhor da Cruz lhe tinha dito. D'ahi por &lt;liante a
mulher tinha tudo o que precisava, e ja estava muito rica. 0
irmâo rico perguntou-lhe um dia muito admirado coma é que
ella sendo tao pobre, estava agora tao rica. A mulher contou-lhe
Revue hispanique. xrv.

12

�1 79

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

tudo. 0 irmao disse : « Bem, coma o senhor da Cruz te fez isso
par tu o teres convidado para ir camer uma gaUinha, o que nâo
me fa.ra a mim, q11e o vau convidar para corner uma vitella ! »
E foi, matou a vitella e andou-se a convidar o senhor da Cruz
para no outra dia ir jantar corn elle. 0 senhor disse que sim. 0
homem veiu para casa, preparou a vitella e poz-se a espera.
Appareceu-lbe um pobre corn muita fome a pedir-lhe alguma
causa. 0 homem muito zangado mandou-o pôr f 6ra de casa,
que nâo partia a vitella, que estava guardada para o senhor da
Cruz. Veiu segundo, o mesmo. Terceira, o mesmo . Esperou
pela senhor depois, mas elle nâo veiu. No ouu·o dia o homem
foi a capella e disse-lbe : « M.eu senhor da Cruz, entâo tinheis-me
dito que irieis a minha casa com.er a vitella, e eu tinha-a preparada e v6s nâo fosteis ! » 0 senhor muito zangado respondeu :
« Nâo fui, mas mandei; e quando tu nâo attendestes os que iam
em meu nome, que me farias a mim ! )&gt; 0 homem foi-se muito
triste para casa, e d'ahi par &lt;liante começou a fortuna a andar-lhe
para traz, a ponta que veiu a ser pobre.

porque tinha os filhos quasi a marrer de f6me . 0 cava~leiro, que
era o diabo, disse-lhe que lhe dava tudo quanta elle qmzesse, mas
que em troca elle havia de lbe deixar tirar tres gotas de sangue do
dedo mendinho da mâo direita, e que dèpois em qualquer
occasiâo que elle o mandasse chamar que fosse, estivesse aonde
estivesse. O ferreiro da maldiçâo disse que sim, deixou tirar as
tres gotas de sangue do dedo rnendinho, e foi-se embora. Mal
chegou a casa, contou tudo a mulher. A mulher, que conheceu
que era o diabo, ficou muito affiicta e disse para o marido: « Ai !
homem, que te perdestes ! » 0 ferreiro respondeu-lhe : « Tenho
fé, que me hei-de salvar. &gt;) D'ahi par diante, nunca rn~1s _lhe tornou a faltar nada. Tinha sempre muito ferro e carvâo e Ja ganhava
muito dioheiro para os filhos . Um dia que elle estava na forja,
cheo-ou-se um homem ao pé d'elle, e disse-lhe que o cavalleiro
que°um dia o tinha encontrado no bosquè e que lhe ti~ha p_ed~do
tres gotas de sangue do dedo mendinho da mao dire1ta,
o mandava chamar. 0 ferreiro da maldiçâo começou a
malhar no ferro corn muita força e disse para o homem :
« Vocemecê bem vê o que eu tenho que fazer; nâo
tenho tempo de ir a seu amo. » E começou a salpica-lo com
o ferro em braza. 0 homem tornou outra vez, mas o ferreiro nâo
lhe respondia outra causa, e elle teve que se ir embora. Voltou a
ter com o demonio e contou-lhe. 0 demonio rnandou-lhe outra
mensage~o, mas aconteceu-lhe o mesmo. Par fim foi o demonio,
e aconteceu-lhe o mesmo, ficando todo queimado corn o ferro
em braza, e sem poder tentar o ferreiro. Por fün o ferreiro da
maldicâo morreu. Foi ter as portas do Ceu: Estava la Sâo Pedro,
e qua~do elle bateu, preguntou-lhe quem era. Elle res?onde_ : « 0
ferreiro da maldicâo. )&gt; Sâo Pedro disse-lhe : « Mais aba1xo. »
Foi ao purgatori~, bateu, e disseram-lhe: « Mais abaixo. &gt;&gt; Foi ao
inferno. Bateu, preguntaram-lhe quem era, e elle respondeu :
cc Ferreiro da maldiçâo. &gt;&gt; 0 demonio, mal ouviu este nome,
gritou-lhe : « F6ra d'agui », e fechou-lhe a porta. Tornou o
ferreiro para o Ceu . Bateu a porta. Sâo Pedro preguntou-lhe

(Maria Canastreira.
28.

ÜLIVEIRA DE AzEMEIS.)

0 FERREIRO DA MALDIÇAO

Era mna vez um ferreiro, casado e tinba muitos filhos. Vivia
muito pobre, e chamavam-lhe o jerreiro da maldiçiio, que quando
tinha ferro nào tinha carvào. E assim era. Quando tinha ferro,
faltava-lhe o carvâo, e quando tinha carvâo faltava-lhe o ferro,
de modo que nunca podia trabalhar, e os filhos quasi que ja nao
tinham que corner, morriam de f6me . Um dia estava elle muito
desesperado e saiu pela porta f6ra e foi por uro basque a vêr se
pedia uma esmola a alguem que encontrasse. Nâo viu ninguem,
mas quando jase vinha embora, encontrou um cavalleiro muito
ricamente vestido. 0 cavalleiro mal o viu, dirigiu-se para elle e
preguntou-lhe o que é que elle queria . 0 ferreiro da rnal'1içâo
contou-lhe a sua historia, e pediu se elle lhe &lt;lava alguma causa,

�r8o

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

quem era, e elle disse : « 0 ferreiro da maldiçào, que nem no
inferno o querem. » Sâo Pedro abriu-lhe entâo as portas e o
Senhor disse-lhe: c( Entra., que o teu logar ja aqui estava guardado,
porque nunca elle falta aos que sabem ter fé para salvar-se. »

Tambem passei eu, que nào tenho là. » 0 alicorno chamou
entào por um cào muito grande que teve, e o frade teve que
fugir para cima de uma arvore, senâo o câo matava-o.

r81

c&lt;

(ORENSE. José Boon y Gonçalvez.)

(Maria Canastreira. ÜLlVEIRA DE AzEMEIS.)

3I.

29.

PEDRO MALASARES

Variante da Foz do conta do Joào Pelludo. É uma luz que
desce pela chaminé abaixo e que vem desmanchar a ceia a cada
um dos companheiros, até que chega a vez de Pedro Malasares
que vê a luz, corta-a coma espada, e corta a orelha do diabo, etc.

30.

LENDA DO ALICORNO.

Era urna vez dois frades e iam por um caminho, e encontraram um alicorno (gigante s6 com um olho na testa) a pastar
umas ovelhas no monte. 0 alicorno mal os viu disse-lhes : « Ora
adonde vao vocês, que os labos comem-nos, venham comigo
para a minha casa. &gt;&gt; Elles foram, e logo alli se abriu no monte
uma porta por encanto por onde as ovelhas e o alicorno e os
dois frades entraram. 0 alicorno quando os viu lâ dentro, accendeu o !urne e matou um dos frades e comeu-o. Depois o alicorno
poz-se a dormir. 0 outro frade escondeu-se, e quando o viu a
dormir, ia para o matar, mas depois considerou que a cava nâo
se podia abrir sem o alicorno fazet o encanto, e elle nào podia
sair. Foi entâo, poz um espeto no lume, e quando esta va em
braza passou-lhe o olho e cegou-o. 0 alicorno depois ao outro
dia quando quiz deitar as ovelhas para o pasto, atravessou-se
na porta e para o frade nâo escapar ia apalpando as ovelhas
e dizendo a cada mna. que passava : &lt;&lt; Passa tu, que tens
lâ. &gt;&gt; 0 frade quando viu isto pegou numa faca, abriu uma
ovelha, e metteu-se dentro da pelle, e o alicorno apalpou-o e
disse : &lt;&lt; Passa tu, que tens là. » Elle mal se viu fora disse :

ALBERTO DO DIABO.

Um re1 tinha muita pena de nâq ter filhos. Disse um dia a
criada, uma noite que lhe :fizesse a cama, que par arte de Deus
ou do Diabo havia de ter um filho. Ao fim de nove mezes a rainha
teve um filbo. Para elle nascer estiveram a chover tres &lt;lias.
Quando nasceu parou a chuva. Quando tinha cinco annos ja fazia
diabruras. Matou depois dois mestres, e ao depois ninguem o queria ensinar. Elle foi corn outres sete rapazes fazer uma casa num
monte. 0 rei morreu de pesar. Elle corn os companheiros roubaram e mataram. Depois um dia matou os companbeiros todos.
0 pai quando ainda era vivo, mandou muitos soldados para os
prender. Elle cegava os soldados e mandava-os cegos para o pai.
Foi entâo que o pai morreu de pesar. Veiu depois para casa. Mas
a mai corn medo fechou a porta. Depois elle pediu a bençoa â mâi,
porque queria ir para Roma confessar-se. Foi ter corn o San~o
Padre para elle o confessar. 0 Padre Santo rnandou-o para um
abbade. EUe confessou-o e disse-lhe que em seis mezes nâo havia
de fallar é que nâo havia de comer senào aquillo que tirasse da .
bocca a um cào. Foi caminhando e foi dar a casa de um rei que
estava jantando. Preguntaram-lhe quem era, mas elle nào disse
nada. Deram-lbe de corner, mas elle nào quiz nada. Depois atiraram um osso a um câo, e elle entâo apanhou-o e começou a
corner da bocca do câo. 0 rei tinha uma filha muda, mas assim
mesmo como era, havia um rei turco que queria que elle lhe désse
a filha. 0 rei christào tinha muito medo, mas nâo teve remedio
senâo ir ao campo batalhar corn o turco. 0 Alberto quando viu isto,
pediu um cavallo e urna lança. Logo alli lhe appareceu tudo.
Foi coma uro raio, e foi degollando os turcos. Depois quando

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183

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

acabou, fugiu, e voltava para casa, e na cascade uma noz recolhia
o cavallo, a lança e tudo, e depois ia deitar-se com o câo. 0 rei
christâo quando chegou a casa, nâo fazia senâo dizer que queria
saber quem era. A filha sabia que~n. era, m_as coma era muda,
nâo podia dizer nada. Houve tres batalhas e nas tres aconteceu o
mesmo. A' terceira um official feriu o Alberto n'uma perna, que lhe
fez deitar sangue. Elle fugiu. Maso rei deitou um banda para que
quando os medicos fossem curar alguem que estivesse ferido, que
se fosse solteiro que havia de casar com sua filha. 0 rei turco
quando ouviu dizer isto, fingiu-seferido. E o rei coma acreditou
ia. para lhe dar a füha e o rei turco jâ ia para casar. Mas nesta occasiâo a filha do rei veiu-lhe a fallar e neste momento o Alberto do
Diabo tornou a pedir a Deus o cavallo e a lança e veiu e derrotou
o rei turco. Entâo a fil ha disse ao rei que aquelle era quem tinha
salvado o rei nas tres batalhas. Casou entào a filha do rei corn o
Alberto do Diabo, e no fim de tres mezes morreram ambos na
graça de Deus.

que esta a tinha matado i fome. A fada que estava a escutar
disse consigo : &lt;&lt; Esta jâ me nâo serve. )&gt; Ao outra dia mandou
convidar a irmà mais nova. Esta foi, aconteceu-lhe o tnesmo. A
vizinha ao almoço nâo lhe deu nada. Ao jantar deu-lhe um bocado
de pào do tamanho de uma castanha. E mandou para a mâi e
para as duas irmâs um hello jantar. Mas a menina quando chegou a noire a casa, e que lhe fizeram a pregunta do costume, apesar de estar corn muita f6me, disse que a vizinha a tinha tratado
muito bem, mas ia comendo sempre. A fada que estava a espreitar, disse consigo : « Esta é que me serve. &gt;&gt; No outra dia mandou-a outra vez convidar, e deu-lhe jâ muito de corner, e coma
ella mostrasse desejos de la ficar, ella disse que se pozesse a
meia noite i janella corn u.na bacia de agoa, que bavia de passar
um phantasma, e que lhe atirasse corn a agoa dizendo : « Par
debaixo de toda a folha vais&gt;&gt;, e que de madrugada o phantasma
havia de tornar a passar, e lhe fizesse o mesmo. A menina assim
fez, e o phantasma nunca mais tornou a passar. Corno a mai
quizesse que a menina voltasse para casa, a fada disse-lhe :
&lt;&lt; Toma la muita riqueza. Mas quando tu estiveres corn tua mai e
corn tuas irmàs, ellas gastam-te tudo e tu ficas sem nada. Por
isso tomalâ este cordâo de ouro. Quando te vires n' alguma necessidade, vae vende-la que nâo te ha-de fa ltar nada. &gt;&gt; Assim foi. A
menina foi para casa, mas a mâi e as irrnàs gastaram-lhe tudo, e
ellas ficaram muito pobres. E passavam muitas necessidades. A
menina lembrou-se entâo do que lhe tinha dito a fada, e deu â
mai a caixa onde estava o cordào, que era muito fino, como um
cabello. A mài muito desconsolada por o cordào ser tâo fino e
por isso valer tào pouco, foi a um ourives para o vender. Mas
quai nao foi o seu espanto, quando viu que por mais que o ourives pozesse pesos na balança, sempre o cordâo pesava mais. O
ourives nâo sabia o que havia de fazer, e disse i mulher que
fosse aos outras ourives. A mulher foi e aconteceu a mesma
cousa. Isto &lt;leu tanto que fallar, que chegou aos ouvidos do rei
que mandou chamar a mulher para lhe comprar o cordào. A

32. 0 CORDÀO DE OURO
Uma mulher pobre tinha tres filhas. Defronte morava uma
vizinha que era fada. A vizinha um dia mandou chamar a mais
velha das meninas para lhe ir ajudar a caser, pois tinha muito
trabalho. A menina foi. Chegou lâ e a fada (ella nao sabia que a
mulher era fada) nào lhe deu nada ao almoço. Ella fi.cou muito
zangada. Ao jantar deu-lhe um bocado de pâo do tamanho de
uma avelâ. A fada ao mesmo tempo preparou um grande jantar
que mandou para a mâi e as outras duas irmâs. A mais velba â
rioite foi para casa muito desesperada, e disse que nào voltava a
casa da vizinha para a ajudar, porque ella tinha-a mono de f6me.
A fada que tinha vindo escutar, disse consigo : « Esta jâ me nâo
serve. » No outro dia convidou a outra filba da mulher, a do
meio. Esta foi e aconteceu-lhe o mesmo, pois â noite disse
quando a mai lhe perguntou se a vizinha a tinha tratado bem,

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

mulher foi e o rei mandou vir uma balança e começou a deitar
as joias que trazia para dentro. Mas o co:i:dao sempre pesava mais.
0 rei muito admirado deitou na balança todos os seus diamantes,
a corô:i e o sceptro, mas sempre o cordao pesava mais . Até que
finalmente pôz-se elle na balança. Pesava exactamente o mesmo
que o cordào. Cada vez mais admirado, pediu â mulher que lhe
contasse a historia d'aquelle cordâo. Ella contou-lbe tudo. 0 rei
entao mandou vir a menina. Ella veiu, poz-se na balança e
pesava cambem tanto como o cordâo. 0 rei entâo disse-lhe que
visto ella pesar tanto coma o cordao e elle tambem, pesavam
ambos o mesmo, e entâo que casava com ella. E assim foi.

e ficou no palacio corn o irrnâo. Ao fim de outro anno o Îl;mâo
mais nova foi tambem. Aconteceu-lhe o mesmo e fi.cou no palacio . Mas depois de la estar uns poucos de dias, disse aos irmaos
que elle havia de descobrir o mysteriod'aquelle palacio. Começou
a procurar rndo, e encontrou numa casa mna chave de prata.
Entrou a vêr onde ella servia e abriu uma porta e viu dentro de
uma casa tres meninas muito lindas, que mal o viram lhe disseram : (( Ai de 11'6s, que nos dobrastes o encanto. » Depois disseram-lhe que chamasse elle os outras dois irmaos. Quando elles
vieram a mais velha deu ao mais velho d'elles uma balsa dizendolhe que quanta mais dinbeiro tirasse d'ella, mais ella havia de
ter. A outra deu ao do meio uma toalha, dizendo-lhe que cada
vez que a estendesse, ella se havia de cobrir de tud0 quanto era
bom. Finalmerite a mais nova deu ao mais novo dos irmâos utn
espelho, dizendo-lhe que quanta mais a elle se visse, mais bonito
havia de ficar. Os tres irmâos foram-se entâo em bora do palacio e
como tinham tudo quanta queriam, compraram um lindo palacio.
Defronte, morava uma princeza que começou a espreitar, e viu
o irmao mais velho tirar dinheiro sémpre da balsa sem ella ficar
vazia, o segundo pôr a toalha e ella logo encher-se de comida, e
o ultimo ficar cada vez mais bonito quanta mais olhava para o
espelho. Fingiu-se apaixonada pelo mais novo, para vêr se lhe
podia furtar aquellas causas. Assim foi : o mais novo acreditou,
e a princeza tanto lhe pediu que elle, uma occasiâo que os
irmâos estavam a dormir, tirou-lhes a boisa e a toalha e juntamente corn o espelho deu tudo a princeza. EJla mal que se
apanhou corn as tres causas nunca mais se importou sa ber corn
o rapaz. Os irmàos quando .acordaram e que nâo encontraram a
boisa nem a toalha, começaram a dizer mal â sua vida. 0 mais
novo entâo contou-lhes tudo e pediu-lhes que lhe perdoassem.
Corno jâ nâo tivessem corn que haver dinheiro nem corner, ficararn muito pobres e tiveram que ir carrer mundo cada um pelo
seu lado. la o mais novo muito triste quando lhe appareceu utna
velha a perguntar- lhe o que elle tinha. Elle contou-lhe tudo.

(D• Maria das Historias.)

33 ·

AS LUZES

Era uma vez um pai corn tres filhos. 0 mais velho foi carrer
mundo para achar fortuna. Foi andando, foi a.ndanclo, e la pela
noite adiante _levantou-se um grande temporal. Elle abrigou-se
debaixo de um alpendre por causa da chuva. Quando estava
recolhido viu vir uma luzinha lâ ao longe. Depois chegou ao pé
d'elle e tornou a ir-se embora. D'ahi a bocado fez o mesmo, e
ainda outra vez e outra. 0 rapaz disse consigo : « Aquella luz
parece qùe me estâ a. chamar. Vamos lâ . &gt;) E foi. Andou, andou,
e a luz sempre adiante até que chegou a uro palacio muito lindo.
A luz en trou e elle entrou tambem. Depois a luz foi pôr-se em
cima de uma mesa onde estava tudo quanta era bom. 0 rapaz
comeu porque estava corn muita fome . Depois a luz poz-se a
andar até que chegaram a um quarto: 0 rapaz deitou-se e ao
outra dia tinha a cabeceira um fato novo e muito rico em logar
do que elle tinha trazido, que esta va todo molhado . Assim viveu
o rapaz -um anno. Comia, bebia, nâo lhe faltava nada, mas nia
via ninguem, nem ouvia nada. No fim de esse anno o irmao
segundo disse para o pai que tambem gueria ir carrer mundo e
procurar o seu irmao. Foie aconteceu-lhe exactamente o mesmo,

�186

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS PUPULARES PORTUGUEZES

Ella éntao deu- lbe um cesto de figos, e disse-lhe que se fosse
disfarçar e mudar de fato, e depois que fosse para defronte do
palacio da_ princeza apregoar figos, que a princeza os havia de
comprar, porque naquella estaçao nâo os havia. 0 rapaz assim
fez. A princeza comprou os figos e quiz corner um. Mas apenas
ella tinha comido, que logo começaram a nascer-lhe cornas par
todo o corpo, que num momento fi.cou coberta d'elles . A princeza
ficou muito afflicta e mandou logo chamar os medicos da côrte,
mas por mais que fizessem nâo foram capazes de lhe arrancar ds
cornos. 0 rei muito triste e sem saber o que havia de fazer a sua
vida, mandou deitar um banda em que promettia a princeza em
casamento a quem fosse capaz de a curar. A velha appareceu
entâo ao rapaz e deu-lhe outra cabaz de figos e disse-lhe que
fosse a palacio e que se disfarçasse em medico, e que depois
expremesse o leite de cada fi.go em cima de cada corna, que logo
lhe caiam. 0 rapaz assim fez. Chegou ao palacio, pediu para
fallar ao rei e disse-lhe que vin ha para curar a princeza, mas que
o haviam de fechar no quarto com ella, e que por mais que ella
gritasse que nao lhe abrissem, que era o remedio que estava a
fazer effeito. Assim foi . 0 rapaz expremeu-lhe o leite de um figo
e caiu-lhe logo um corna. 0 rapaz entao disse-lhe quem era,
e que se ella quizesse que elle lhe tirasse os outros, lhe havia de
dar a bolsa, a toalha e o espelho. A princeza nao teve outro remedio e deu- lhe as tres causas. 0 rapaz entào pegou numa chibata
que levava e deu-lhe tanto que a deixou como morta . 0 rei
ouvia a princeza gritar muito, mas coma se lembrava da recomrnendaçào do medico, julgava que era o remedio a fazer effeito.
A final o rapaz foi-se embora mpito satisfeito, encontrou os
irmàos a quem deu a boisa e, a toalha, e depois fora,m ao palacio
encantado buscar astres meninas, comas quaes casaram.
(D• Maria das Histo~ias.)

34.

0 RAPAZ DAS BOTAS DE SE'fE LEGOAS

Era uma vez um rapaz e ùnha cinco irmàos. 0 pai coma nâo
tinha quelhe darde corner, intentou deixa-los no monte e levouos para o monte e deu-lhe tremoços para elles ire~ a camer:
que era para os intentar e para elles la ficarem. 0 mats novo fo1
comendo os tremoços e deitando as cascas pelo caminho. Pela
man ha o pai foi com elles, encheu as cordas de lenha e deixouos ficar · maso mais novo como tinha deixado ficar as cascas, foi
'
indo pelo caminho e foi dar a casa. 0 paî admirou- se muito de
elles encontrarem o caminho. Conversou corn a mulher para os
tornar a deixar no monte. E deu- lhe milho crù . Os outras irmàos
comeram- no, mas o mais novo foi-o deixando pela camirtho .
Vieram depois os passarinhos e comeram-no. Quando os meni-_
nos viram que o pai os tinha deixado s6s no monte, e queriam
vir para casa, nao atinaram corn o caminho. Foram andando,andando, até que foram dar a casa de um lobishomem, onde
estava a mulher corn cinco filhas do mesmo lobishomem. Os
meninos pediram agasalho a mulher sem saberem aonde estavam . A mulher li os agasalhou com as filhas . D'ahi a pouco
chegou o lobishomem, don.de disse para a mnlher : « Mulher !
cheira-me aqui a carne fresca . &gt;&gt; A mulher disse : cc Calfa-te,
homem, que temos ali dnco rapazinhos deitados . com nossas
filhas, coitadinhos, nào lhe faças mal! )&gt; 0 lobishomem disse-lhe:
cc Tira-me a cei:a. )&gt; Depois ceiou e foi-os vêr, &lt;lande os achou
muito lustridos de gordos, e elles estavam dormindo. Disse elle
para a mulher: cc Eu vou chamar os meus companheiros. l&gt; Em
quanta elle foi chamar os outras lobishomens, o mais nova que
esta va a fingir que dormia, tirou os tapiços que elle e os irmaos
tinham na cabeç~ e pô-los na cabeça das filhas do lobishomem.
O lobishomem chegou de fora d'ahi a pouco, de convidar os
companheiros para comerem os meninos, e foi ter corn èlles a
caina para os matarem. Corno elles tinham tirado os tapiços, elle
nâo os conheceu, e pensando_ que 111atava os meninos matou as

�188

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

filhas. Nisto estavam os menines debaixo da cama e fugiram.
Neste comenos o lobishomem foi preparar as caldeiras para os
cozer, mas quando os foi procurar nâo os encontrou e viu as
filhas mortas. 0 lobishomem calçou mnas botas de cada passada
que davam eram sete legoas. Os menines estavam mettidos
numas brechas (pedras ). 0 lobishomem poisou em cima das
pedreiras, e os menines estavam dormindo, mas o mais nova
estava acordado. Depois o lobishomem ia enfadado ( cansado) e
pegou a dormir; o menino foi e tirou-lhe as botas, e chamou
pelas irmâos emandou-os fugir d'ali muitodepressa, e em quanta
o lobishomem estava dormindo, trataram elles de fugir e o mais
nova vestiu as botas das sete legoas. 0 lobishomem acordou, e
o que procurava eram as botas, e como as nâo achava, nâo podia
andar. 0 menino foi corn as botas ter ao palacio de um rei, contando-lhe que havia ali um lobishomem n'aquella serra. Donde
o rei mandou fazer um cêrco a.quelle sitio. Depois o menino
disse ao rei que corn aquellas botas era capaz de ir fazer um recado
em que fosse ao inferno, e o rei ficou-lhe chainando o correio do
inferno. 0 rei disse-lhe que lhe havia de ir buscar ao inferno
um anel, que o diabo trazia entre o coiro e a pelle. 0 rapaz foi
nas botas e chegou ao inferno. Passau mna serra de carvâo, e
depois encontrou uns portôes, adonde viu uma sentinella, donde
lhe preguntou que portôes eram aquelles. Respondeu-lhe a
sentinella que eram os portôes do inferno. Elle disse: « Homem!
isto mesmo é que eu pretendia de encontrar, que tenho de ca
vir buscar um anel que o diabo traz entre o coiro e a pelle. &gt;&gt;
A sentinella guiou-o pela inferno dentro. 0 rapaz encontrou
depois uma velha, e disse-lhe : « Velha, eu venho aqui para buscar um anel que o diabo traz entre o coiro e a pelle. » A velha
era a mâi do diabo, e disse-lhe : cc Pois, calla-te, que eu te vou
arranjar isso, mas has-de la sair para fora para a serra do carvao. »
0 rapaz saiu, mas disse a velha que lhe désse resposta no espaça
de tres dias. Elle foi-se depois embora, e a mai do diabo foi
catar o filho; depois com a maniça de um fuso, metteu-lh'a

entre o coiro e a p~lle e tirou-lhe o anel sem o demonio sentir.
Depois entregou-o ao rapaz, que foi leva-lo ao rei. Depois o
menino pediu ao rei se lhe dava passes para saber aonde
paravam seus irmâos. 0 rei preguntou-lhe donde elle era.
0 rapaz coma saiu de casa do pai em pequeno nâo sabia
dizer de donde era. 0 rei entâo o mandou outra vez para
a serra aonde andava o lobishomem. 0 rapaz disse que nâo queria ir, porque andavam la os lobishomens e comiam-no. 0 rei
disse-lhe que nâo tinha duvida porque se visse algum, que se
pozesse nas botas das sete legoas. 0 rapaz foi-se pôr em cima das
brechas onde tinha roubado as botas ao lobishomem. Dormiu
ali aquella noite, e pela manhâ assim que deu corn os olhos no
sol, virou-se para o nascente e deu uma passada nas botas e
encontrou a casa do pai. 0 pai tinha morrido, e elle viu s6 os
irmâos. Preguntaram elles onde é que elle tinha ficado. Elle disse
que tinha ficado na brecha a tirar as botas ao lobishomem. O
rapaz entâo preguntou aos irmâos como tinham elles vindo a
casa direitos. Elles responderam que inda ha tres dias é que tinham feito chegada a casa, que . tinham corrida 1nontes e valles,
etc. e ja nâo tinham visto nem pai nem mài. 0 rapaz contou-lhe
por onde tin ha andado, e que lhe chamavam o correio do inferno.
Depois os quatro irmàos foram fazer-se carvoeiros para a serra,
e o mais novo foi outra vez para o palacio do rei, onde . ficou.
(Antonio José d'Oliveira, ex-coveiro de S. Christovao de
Mafamude, e hoje mendigo, natural de Villa da Feira, arredores
do Porto.)

35,

A MENIN A DO

CHAPELINHO VERMELHO.

Era uma vez uma mulher que estava numa serra, e teve duas
filbas. A primeira chamava-se Maria. Um dia a av6 das meninas
foi a serra e encontrou a menina mais velha. A menina foi dirigida a av6 e beijou-lhe a mâo, e a av6 disse: cc Deixa estar,
minha menina, que te hei-de dar um chapelinho vennelho; vae

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

a minha casa buscâ-lo. » A menina foi para casa da mâi, cborando
que lhe fizesse up1 bolinho para levar a sua av6zinha, e a outra
irmà fi.cou em casa comida de raiva. A mài preguntou-lhe :
cc Entào como conheces tu a tua av6zinha? » A menina respondeu : c&lt; Sei, porque estive agora corn ella, e ella disse que me ha
de dar um chapelinho vermelho. &gt;&gt; A mài fez-lhe o bolo e
mandou-a leva-lo a av6. A menina foi andando muito contente,
e cheo-ando
a um caminho, encontrou um lobo-homem (tem
t&gt;
parte de homem e parte de lobo, mas nào é o mesmo que lobishomem). Andava a menina comendo amoras d'um vallado e
preguntou-lhe o lobo-homem: c&lt; Que fazes ahi, menina? » Ella
respondeu: c&lt; Estou comendo amorinhas. )) 0 lobo-homem tornou
a preguntar-lhe : « Tu que levas ahi? » Ella disse: « Levo aqui
um bolinho paraa minha av6zinha. &gt;&gt; 0 lobo assim que ouviu
fallar nisto disse-lhe : cc Pois vae tu por aqui, que eu vou por
ali, a ver quem chega la primeiro. ,, Chegou elle primeiro e bateu
aporta. A velha veiu e abriu a porta e disse : cc Entra, minha
netinha, entra. &gt;&gt; A veli1a metteu- se depois na cama, e disse para
o lobo julgando que era a menina : &lt;c Deita-te ahi nessa cama,
minha netinha, que bas-de estar muito friinha. &gt;J Nisto a av6
adormeceu. D'ahi a pouco chegou a menina, e bateu a porta.
0 lobo-homem fallou em logar da av6 que estava a dormir :
cc Entra, menina, que a porta esta aberta. ,, A menina entrou e
foi-se deitar corn o loba, julgando que era com a av6. Depois
quando estava deitada, começou a correr-lhe a mào pelo corpo,
e a dizer-lhe : cc Oh l minha av6zinha, para que tem vocemecê
tanto cabello pelo corpo? » 0 loba respondeu : « E' para nâo
ter frio de dia, minha netinha. » A menina tornou a preguntar :
« E para que tem vocemecê as pernas tào compridas? )J O lobo
disse : cc E' para carrer muito, para andar muita terra em pouco
tempo. &gt;J Quan,do estavam corn. esta conversa, a av6 que era
uma fada acordou, e tratou de se preparar para encantar
o lobo. A menina tornou outra vez a preguntar : &lt;&lt; Oh l
minha av6zinha, para que tem vocemecê uns braços tâo

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

compridos? » 0 lobo respondeu : &lt;&lt; E' para te abraçar bem,
minha ménina . &gt;) A menina tornou a preguntar : cc E para que
tem vocemecê uma bocca tào escachada? &gt;&gt; - c&lt; E' para te camer
bem, respondeu o lobo, e mais â tua av6 »; e ia para corner a
menina. Nisto a av6 levantou-se muito depressa e deu-lhe uma
troçada (pancada) corn a varinha de condào, e ficou o 1obo
encantado. Depois a av6 encheu-o todo de foguetes e girasoes
amarrados ao lobo, e deitaram-lhe o fogo, e assim que elle senriu o pello a arder, deitou a fugir, que era o que a velha queria, e mais a rnenina, e depois o lobo foi-se deitar ao poço do
moinho, adonde ali morreu afogado. Depois a av6 começou a
reprehender a menina por ella dar acceitaçào ao lobo no caminho.
A menina disse-lhe que elle a queria corner « mas eu disse-lhe
que vinha trazer um bolinho â minha av6zinha, e elle depois
disse que vinha de volta. » A av6 disse-lhe que nào tomasse a
fazer aquillo. Depois disse-lhe : « Agora,toma lâ o chapelinho
vermelho que te prometti, e tu falla sempre muito bem a toda a
gente, faz a vontadinha a todos, e se te alguem pedir agua, dâlh'a corn boa vontade, que tu has-de ser feliz. 1, Nisto foi a menina
para a serra para casa da mài. Nào levava nada senâo o cbapelinho vermelho. A outra irmà estava toda raivosa por nâo ter um
chapellinho tambem. A mài depois mandou um dia buscar agua
a mais velha, rnas ella nào quiz. A mais nova offereceu-se logo e
disse :_ C&lt; Oh! minha màizinba, dê d. que eu vou. » E assim foi.
Esta va na fonte enchendo o cantaro, e passou uma velhinha, que
era a mesma que lhe tinha dado o chapelinho vennelho, mas que
ella nào conheceu porque ia de outra maneira. A velhinha pediu
agua â menina do chapelinho vermelho, e a menina lh'a &lt;leu
corn rnuito bom modo. Depois a velha disse-lhe: « Olha, tués a,
menina do chapelinho vermelho ? &gt;&gt; A menina respondeu :
&lt;&lt; Sou sirn, minha senhora. &gt;i A velha disse-lhe : cc Pois olha, faz
tudo sempre bem, e trata bem todos, que eu hei-de dar-te mna
prenda de botares flore~ pela bocca, quando fallares para alguem. »
Depois a velha foi-se ernbora. Foi a menina para casa corn a agua.

�19.3

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

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A mài ralhou com ella por ella tardar, e ella disse : &lt;&lt; Minha
mâi, eu venho agora, porque estive a dar agua e a conversar corn
uma velhinha, e ella me disse que me havia de dar uma prenda &gt;);
e começou a deitar flores pela bocca. Nisto lhe preguntou a mài o
que fizera ella i velhinha para ella lhe dar aquella prenda. A
menina disse : &lt;&lt; Ella pediu-me agua e eu disse-lhe que a fosse
beber i fonte. » E ella disse-me : cc Mal fallada sejas tu, que o premio que recebas seja deitares flores pela bocca. &gt;&gt; A irma mais velha,
que estava corn rnuita inveja, quiz ir i agua tambem. E foi.
Donde lhe appareceu a mesma velha e disse-lhe : « Oh! menina,
&lt;las-me uma pinguinha de agua? » Ella respondeu-lhe : « Ora !
eu dou-lhe agora agua ! vâ bebê-la i fonte! » A velha disse-lhe :
cc Fadada sejas tu, que laves as maos e nunca se ellas lavem, e
quando fallares dei tares cbanquinos ( sapos pequenos) pela
bocca. &gt;&gt; Foi ella para o pé da maie ella preguntou-lhe o que ella
tinha feito que se tinba demorado tanto. » Ella disse : « Ora ! passou la uma velha, pediu-me agua e eu ralhei corn ella e disse-lhe
que fosse bebê-la a fonte . » E nisto começou a deitar chanquinos
pela bocca. A mai ganhou raiva a mais nova, e começou a baterlhe por ella ter ensinado a irmâ errada. A menina do chapelinho
vermelho fugiu para o monte. Andou por ali muito tempo morta
com f6me, toda rôta e esfarrapada. Foi depois ser moça de servir.
Um dia appareceu ali um principe que ia a caça, e perguntoulhe, vendo-a tao linda, o que fazia ella por ali. A menina contoulhe tudo. E nisto começou a botar flores pela bocca. 0 principe
quando viu isto, disse-lhe que ficasse ella ali, que a mandava buscar para casar corn ella. Depois o principe preparou uma carruagem e veiu busca-la â serra. E assim fez. Depois arrecebeu-a
coma sua esposa, e a outra irmâ ficou sempre botando os chanquinos pela bocca.
(Idem.)

nhuma princeza lhe agradava. Vinham os retratos de todas
de uma banda e &lt;l'outra, mas elle a todas achava feias. Um
dia veiu-lhe o retrato &lt;las tres cidras do amor, e entâo elle
gostou muito d'ellas e pediu ao pai para ir ao castello aonde
ellas estavam encantadas. Depois foi, caminhou r:nuito e viu ao
longe urna cabaninha no monte. Bateu i porta da cabaninha, e
appareceu-lhe urna mulher velba, e perguntou-lhe se ella lhe
dizia ern que castello é que estavam as tres cidras do amor
encantadas. A velha disse-lhe que s6 o füho, que era o vento, é
que sabia, e mandou-o metter debaixo da cama para o filho o
nao ver. D'ahi a bocado entrou o vento, e sentou-se ao lume, e
nâo fazia senào dizer para a mài : « Oh! minha ·mai, aqui cheira
a folgo vivo! » A mai disse-lhe : &lt;, Estas tolo, aqui nâo esta
ninguem ! &gt;&gt; Depois entào perguntou a mâi ao filho se elle sabia
em que castello é que estavam as tres cidras do amor. Elle disse
que era muito longe e que ninguem la podia ir sem levar corner
mastigado da bocca d'elle, e uma mâocheia de cinza de debaixo
do pé esquerdo d'elle. Depois elle foi corner e a mâi fingiu que
lhe ia tirar um cabello e tirou-lhe da bocca um bocado de corner.
Depois fez que foi arrastando lenba para o pé do lume, para lhe
pôr cinza debaixo do pé esquerdo. Depois o vento foi-se deitar,
e disse i rnâi que quem fosse ao tal castello ha via de encontrar
dois leôes. Se elles estivessem corn os olbos abertos, estavarn a
dormir; e se elles estivessern corn os olhos fechados, estavam
acordados. E que tinham uma chave na bocca, e que quando lh'a
tirassem lhe haviam de metter um bocado de corner mastigado
na bocca, e que haviam de despejar um bocado de cinza para lhe
armar um nevoeiro. E corn aquella chave haviam_de ir abrir uma
gavera. Nessa gaveta esta uma fita vermelha, e puchando por
ella haviam de vir as tres cidras atadas todas tres. Depois que as
levasse, mas que as nâo abrisse senào aonde houvesse nrnita
agua. E que quando se viesse embora, que fizesse o mesmo aos
leôes. 0 principe &lt;leu rnuito dinheiro i velha e foi para o castello
&lt;las tres cidras, corn o corner mastigado pelo vento e a mâocheia

36.

AS TRES CID RAS DO AMOR,

Era mna vez um principe, que queria casar-se, mas ne-

Rtv11t

bisptmiq11e . .xiv.

13

�r94

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de cinza do pé esquerdo. Fez tudo o que o vento disse, e trouxe
as tres cidras consigo. Chegou a uina fonte que havia no carninho
e abriu uma cidra '. Appareceu-lhe uma princeza muito formosa,
e pediu-lhe agua. Ella bebeu e depois pediu-lhe mais, mas a fonte
secoue a menina rnorreu. 0 principe fi.cou muito triste, e disse
consigo que nâo abria outra senâo aonde hou vesse muita agua. Foi
andando e chegou a uma outra fonte onde havia muita
agua. Abriu outra e aconteceu-lhe o mesmo. Ficou muito
triste e chegou a terceira fonte onde havia ainda mais agua.
Abriu a cidra, sahiu uma princeza ainda mais linda. Pediulhe agua, e elle deu-lh'a. Depois pediu-lhe mais, e corno a fonte
nâo secou, a princeza escapou. Depois como era perto do palacio,
o principe disse-lhe que ia buscar mna carruagem para a levar e
que fi.casse ella ali. (0 :final como nas demais versôes.)

sina. O advinho disse que ella havia de tertres meninos, cada um
com a sua estrella na testa. Depois elle mandou-a metter numa
torre, mais o advinho, até ella ter os tres meninos, para vêr se
era verdade. Depois ella teve os meninos e as irmâs mândaramnos deitar ao mar dentco de tres condecinhas. (D'aqui para diante
semelhante a versâo de S. Miguel.)

37.

OS

TRES MENIN OS QUE

TIN HAM

UMA ESTRELLA DE OURO NA TESTA.

Era uma vez um rei, e andava a caça a espalhar as saudades,
que lhe tinha morrido o pai ha pouco. Depois entâo passou por
uma casa e viu a janella tres meninas muito lindas. Depois o rei
mal chegou a palacio mandou-as chamar para irem a sua presença. Depois entâo ellas disseram que eram muito pobres e que
nâo tinham roupa para irem. 0 rei mandou-lhe vestidos para se
ellas vestirem. Depois entào ellas chegaram a palacio e o rei
mandou-as metter num quarto e virem a sua presença nuas em
pello. Elias nâo queriam, mas elle disse que as manda va matar se
ellas nâo quizessem. Depois ellas foram. Elle mal as viu, mandou-as retirar logo. A mais nova quando veiu, trouxe o cabello
todo caido para diante para se tapar. Depois o rei disse que
casava com ella. Quando estavam casados, mandou-lhe 1er a sua
r. Tambem mna variante diz que sao tres maçàs vermelhas.

38.

r95

HISTORIA DE JOÀO GRILLO.

Havia um rapaz chamado Joâo Grillo, que era muito pobresinho. Os paes queriam a todo o custo casal-o rico, apezar da sua
pobreza e falta d'educaçâo.
Um dia espalhou-se por toda a terra, que tinham desapparecido
as joias d'uma princeza, e que o rei seu pae daria a mâo da princeza a quem descobrisse o auctor do roubo ; mas '.t ambem castigaria
com a morte todo aquelle que se fosse apresentar, e que no fim
de 3 &lt;lias nâo descobrisse o ladrâo.
Começaram os paes de Joâo Grillo a metter-lhe em cabeça
que fosse tentar fortuna, mas o rapaz nâo queria, vendo que
tinham sido mortos por nâo descobrirem• as joias.
).a alouns
0
Em fun, tanto o attentaram que se foi apresentar ao re1.
Os guardas do palacio nào o queriam deixa.r entrar por o
verem muito rôto, e começaram a escarnecêl-o dizendo-lhe que
era doido, etc. Por fim la o deixaram entrar. 0 rei e a princeza
tambem se riram muito d'elle, mas nào tiveram remedio senào
cumprir a sua palavra.
.
Metteram-no n'um quarto e deram-lhe 3 &lt;lias para pensar.
la s6 um creado dar-lhe de corner ; e a noute quando esse
creado lhe perguntou se queria mais alguma cousa, elle respondeu
que nâo, e ao mesmo tempo dando um suspiro, disse : « Ja la vae
um ! » O creado sahiu muito atrapalhado e foi ter corn os outros
dois, a quem contou as palavras que o Joâo Grillo tinha dito. Estes
3 creados eram justamente os que tinham roubado as joias da princeza, e julgaram que o Joâo Grilla tinha conhecido um dos

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ladrôes, e par isso tinha dito: &lt;r Ja la vae um ! &gt;&gt; Enganavam-se,
porque elle se tinha referido a que ja la ia um dia, e elle ia caminhando para a forca.
Os creados combinaram que no dia seguinte iria outra, para
vêr se o Grilla tambem o conhecia. Assim fez; e i noute quando
perguntou se queria mais alguma causa, respondeu Joao Grilla
que nào, e repetiu : r&lt; Ja la vao dois! &gt;&gt; 0 creado fi.cou assustadissimo e foi logo contar aos outras. Imagine-se coma elles ficaram.
No dia seguinte foi o outra, e quando a noute se despediu para
se ir embora, diz o Joâo Grilla : « Esta prompto: jâ lâ vao os
trez &gt;&gt;. 0 creado, conhecendo que estava tudo descoberto, deitase aos pés de Joâ:o Grilla e diz-lhe: « E' verdade, senhor, fômos
n6s 3, mas peço-lhe por tudo quanta ha que nào diga ao rei que
somas n6s os ladrôes, porque ficariamos desgraçados. N6s damas
as joias todas, mas nâo ha-de dizer nada. &gt;&gt;
Joâo Grilla caiu das nuvens, mas fingiu que effectivamente
tinha advinhado. Prometteu ao homem que nao diria nada, e
mandou-lhe buscar as joias, que elle trouxe logo.
Corno tinham findado os 3 dias, foi o rei ter corn Joâo Grilla e
perguntou-lhe : &lt;c Entâo descobriste? » - cc Saiba Vossa Magestade que sim senhor. &gt;&gt; 0 rei riu-se muito julgando que o rapaz
estava doido, mas elle apresentou-lhe as joias, sem dizer quem
tinha sido o ladrâo.
Imagine-se como fi.cou a princeza, vendo que tinha de casar
corn aquelle maltrapilho ! Chorou muito, e pediu ao pae que nao
a casasse corn ta! homem, mas elle dizia-lhe, que a palavra de rei
nâo torna atraz, e que era forçoso casarem. A princeza nâo teve
remedio senâo conformar-se; mas o Joâo Grilla, que tinha bom
coraçào, vendo a repugnancia d'ella, disse que desistia do casamento. 0 rei gostou muito e disse-lhe, que pedisse o que quizesse, que elle tudo lhe faria. Joao Grilla s6 pediu para ficar no
palacio.
0 rei consentiu, e deu-lhe muitos saccos de dinheiro. Ficou o
rapaz no palacio, e o rei julgava-o um advinhâo.

Um dia o rei apanhou um grilla no jardim; fechou-o na mâo,
e chamou o Joao Grilla. Veio o rapaz, e o rei pergunta-lhe : « O'
Joâo, advinha la o que eu tenho fechado n'esta mâo? » 0 rapaz,
coitado, começa a coçar na cabeza e a dizer : &lt;c Ai! Grilla, Grilla,
em que màos estas mettido 1 &gt;&gt; 0 rei, julgando que elle se referia ao grilla fechado na mâo d'elle, ficou muito contente, dizendo :
« Advinhaste, advinhaste, é um grilla! » E deu-lhe muito dinheiro.
Outro dia, encontrou o rabo d'uma porca, que _tinham morto,
e enterrou-a no quintal. Chamou o Joâo Grillo, e pergunta-lhe:
« O' Joâo, advinha la o que esta aqui enterrado? &gt;&gt; 0 pobre Grillo
nâo sabendo o que havia de fazer a sua vida, começa a dizer :
« Agora é que a porca torce o rabo ! » 0 rei abraça-o muito contente, e diz : &lt;&lt; Advinhaste, advinhaste, é o rabo d'uma porca ! » E
dava-lhe mais dinheiro. 0 rapaz vendo-se rico, e temendo que
nâo advinhasse mais alguma causa, ou para melhor dizer, que o
acaso nào o favorecesse, escreveu uma carta, fingindo de ser da
mâi, a pedir para que fosse immediatamente ter com ella, porque
estava a marrer. 0 rei custou-lhe muito a sahida d'elle, mas nào
teve re1nedio senao deixal-o ir.
Despediram-se, o rapaz montou a cavallo, e quando ja ia longe,
o rei apanhou caganitas de cabra que estavam na rua, mette-as
no lenço, e começa a dizer-lhe adeus corn elle. 0 rapaz que ia
longe e estava farta do rei, disse adeus, dizendo : « Adeus, adeus,
caganitas para Vossa Magestade ! »
0 rei fi.cou muito contente, e dizia: « Aquillo é que é um rapaz
esperto ! Como elle advinhou que eu tinha caganitas no lenço ! »
E o rapaz fez a sua fortuna, e assim se viu livre do rei.

~

1 97

(D. Ascensâo de Faria. AzAMBUJA).

39·

MENTIRA DO T.AMANHO DE UM PADRE NOSSO

Era um homem pobre, cazado, que tinha filhos e depois
tinha um compadre muito rico que nâo tinha filho nem filha

�1 99

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e que gostava muito d'aquelle compadre por ser muito verdadeiro.
E disse â mulher: « Deviamos ajudar aquelle nosso compadre,
por ser muito bom homem, muito verdadeiro e muito pobre. &gt;&gt;
Mandou-a chamar. - E queria que elle fosse para uma herdade sua, que lhe a clava de graça por 3 annos, semeando-lhe a
seara e mettendo-lh'a em casa. Mas nâo colheu nada, que veiu
uma secca muito grande. Foi ter corn o compadre. « Ora, meu
compadre, eu nào colhi nada este anno, e assim serâ os outros
an nos e entâo despeço-me da herdade. » 0 compadre disse-lhe :
« Nâo senho,; pode ser que para o anno tenha mais fortuna,
que colha muito bem. Va para a herdade e deixe, que eu torno
la mandar semear, fazer todos os trabalhos e metter-lha em
casa. - Ora, senhor compadre, nâo senhc,r. - Va p'ra a herdade. »
Foi p'ra a herdade, mas corn muito desgosto. Mandou-lhe
semear a seara, por ser muito bonita. Ficou rnuito contente e veiu
dizer ao · compadre que tinha uma boa seara. Veiu uma grande
inverna, nâo colheu nada. Veiu ter outra vez corn o compadre :
cc O' compadre, eu quero-me vir embora, qu(nào tenho fortuna
nenhuma ; e entâo o senhor esta perdendo e dando-nos de
corner e semeando a seara, e entâo despeço-me e :o senhor compadre toma posse da herdade. - Ora todos colhem alguma coisa,
e o compadre nâo colhe nada? parece impossivel. - Pois eu falo
verdade, senhor compadre, nunca colho nada e eu nâo sei mentir.
Disse-lhe o compadre : cc Va p' ra caza e estude uma mentira
do tamanho de um Padre Nosso. - Eu, senhor compadre ?
Deus me livre; eu nâo sei mentir, agorahavia de vir dizer uma
mentira do tamanho d'um Padre Nosso ?- Dou-lhe 3 dias p' ra
a estudar _; falle corn sua tnulher e vejam se a arranjam. Nao, senhor compadre, en nâo sei mentir e minha mulher tambem nâo. - Va para casa: dou-lhe 3 dias, ja lhe disse, de entào
trazer a mentira, no fim dos 3 &lt;lias, do tamanho de um Padre
Nosso.
Foi para casa muito apoquentado e disse a mulher : cc Ora

nâo sabes? o nosso compadre quer que lhe arranje uma mentira do tamanho d'um Padre Nosso, que tu mais eu havemos
de arranjar em 3 &lt;lias. - Eu nào; comigo nâo faças conta, que
eu nào sei mentir. &gt;&gt;
Responde-lhe um filho que elle tinha, que era afilhado do
compadre : « Olhe, eu logo lhe arranjo a mentira. Va dizer
a meu padrinho se quer que eu arranje a mentira, nào preciso de
3 &lt;lias : vou- ja. - Ora eu logo la vou dizer isso &gt;&gt;. Disse
a mulher : cc Vae; entâo porque nâo has de ir? talvez acceite o
pequeno. &gt;&gt;
Elle nâo queria; mas, a rogos da mulher, foi a do compadre.
0 compadre, assim que o viu, disse : cc Ahi vem _trazer a mentira? - Nào, senbor compadre, é o pegueno, o seu afilhado que
diz que, se ô meu compadre quizer, que vem elle dizer a mentira,
que nâo precisa de 3 dias, que vem ja de prompto. - Pois elle
diz isso? - Sim senhor. - Entâo va busca -lo. &gt;&gt;
Trouxe-o. cc Senhor padrinho, quer que lhe diga a mentira?
por aqm começo:
Corno eu tenho muitas herdades, monto-me no meu cavallo,
vou dar um giro, ora por umas, ora par outras; mas tenho
uma que sobre todas é a melhor. Tem tantas (la disse) leguas
de largura e tantas de comprimento; mas fui la, entrei na herdade, andei por aqui, por alli, por alli, por aqui, sem lhe ver as
extreinas. Em fim fui dar .onde tinham as colmeias. Puz-me a
contar nellas ; nâo as pude dar contadas, de muitas que eram.
Puz-me a contar as abelhas, faltou-me uma. Pego ·a andar, corrego abaixo, corrego acima-nada. Jâ vinha descuidado em achar,
oiço uma tarrincada muito forte, deotro d'um barranco; assomei-me e vi um porco espinho a tarrincar nelle. Era tanto o me!,
senhor padrinho, que corria por o barranco abaixo; eu nao faço
mais nada ; metti a mào ao seio, tirei um grande piolho, fi.cou-me
um coiro, enchi-o logo de me!, e o mel a correr por o barranco
ab'nixo. Metti a mâo ao seio, tirei uma pulga e :fiz uma borrachâo
(borracha grande para conter liquidas). Vim para caza corn o

�CO 'TOS POPULARES PORTUG EZES

200

CO. 'TO

POPUl,ARE:'

201

PORTUGUEZES

meu borrachâo e o meu coiro, cheio de mel; vim muito contente e fechei-os no meu quarto. Todos os dias, ia ver o meu
mel. Um dia, achei os coiros bulidos. Quem me havia a mim
aqui vir, se eu tcnho a chave na alaibeira? Espreitei, puz-meatraz
da porta, corn um machado na mào. Quem havia de enrrar?
uma foloza (pcqucno pas ara). Jogo-lhe corn o machado; deitau tanta penna que pcrgumei e tornei a pergumar o machado
c nâo o achei.
Fui buscar lume e larguei fogo as pennas. Ardeu o m:ichado
e ficou o cabo. Peguei no cabo e puz-me a amolar, a amolar, a
amolar, ficou num anzol. O' padrinho, assim que deitei o anzol a
?gua, sahiu-me uma burra branca muito perfeita. Ja tenho onde
1r vend r o meu m l. Arranjei a minha burra, puz-lhe os cairos
encima e fui vender. Quando tornei a noite para caza, trazia a
bu rra uma grande matadura no lombo. Era muito mimosa e eu
fiquei corn muita pcnna. Fui corn ella a do alveitar, en inou-me
que p~zesse p6 de fava torrada, alli em cima.
im para caza,
mande1 torrar um moio de fava, mandei peneirar e puz em cima
da matadura e deitei-a â margem, mandei-a ra para a berdade.
Choveu fez bom tempo, eu, quando me pareceu, fui ver a burra.
O' senhor padrinho, nâo queira saber o rico faval que esta tin ha
no lombo, fiquei muico contente. De quando em quando, ia ver
o faval.
_Ouand~ me parcceu que eram horas de ceifar, peguei na min ha
fo1ce e fm até a herdade. Que ha,·ia de eu la ver? um porco
javardo dentro do faval, comendo as favas. Logo-lhe corn a foice.
Enrrou-lhc cabo no rabo. Othe, senbor padrinho, coma foice cci:fuva, corn os pés debulhava, com as ventas assoprava; col hi ...
10 moios de fava.
- Basta, basta, disse o padrinho; vào para a berdade e deixcmse cstar, e acabou-se.

40. OS LADRÔES

Eram duas amigas muito intima - uma cazada e outra viuva.
A cazada tin ha uma estalagem c a viuva tin ha uma loja. A cazada
estava gravida disse-lhe a amiga: &lt;&lt; se fosse menina, que havia de
ser madrinha; , quando ella se desmamar, comobrigaçâodeella
vir p' ra minha caza. Eu nào tenha parentes nem adherentes, e
quero que ella eja minha herdeira. » Baptisou-se a menina, cresceu, e assim que se desmamou, levou-a a madrioha para casa.
Queria-a. muito, estimava-a muito; mas puchava-a sempre
para ella vir p' ra loja, a ensinar. A menina era ja uma mulher e
a madrinha fazia-lhe rodas as vontades.
Fizeram-se alli umas grandes fesrns; mas ellas nâo foram. A
madrinha, que conb ceu que ella estava triste de nào ir â f sta,
disse-lhe : « Deixa estar; para o mez que v mi fazem-se outras
festas, ainda mulheres; entâo logo vamos. »
Foi prcciso a madrinha sabir e nào rccolhcr essa noite a caza c
disse-lhe : c&lt; Em sendo noite, fccha a loja e vae p' ra cima com
a creada. &gt;&gt;
Ella assim fez; fecbou a loja e foi para cima, mandou fazer a
ceia, ceiaram, deitaram-se. âo estava costumada a dormir s6,
nâo poude dormir. Sentou-se na cama ; quando ella olhou para
o solo da casa que tinha gretas, viu luz na loja. &lt;c Ora esta I eu
fi chei a loja, esta luz ! » . Levantou-se, a. somou-se {is mesmas
frestas que tinha a caza e viu 5 homens que estavam tirando a
fazenda dos prateleiros. Ella tirou a porta do leme e jogou com ella,
com muita força, ao meio da casa. Os ladrôes fugiram. Ella correu
c..1. abaixo e fechou a loja. Estava uma mâo do finado accesa.
Pegaram-lbe a bater â porta, que apagasse aquella luz, que
lh'adesse. Ella deitava-lhe agua, mas nâo se apagava. Elles disseramlhe : « vinagre, vinagre. Agora de c.1. a mâo. - Eu oâo abro a
min ha porta. - Deite-a ahi por esse buraco que tem a porta. Mena a mào, disse !ta, que eu lb' a dou. » Ella tinha uma macha-

�202

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

dinha; corn tanta força lhe &lt;leu uma pancada na mao que lb'a
partiu.
Sentou-se numa cadeira, até amanhecer. Veiu a madrinba,
estava-lhe contando tudo, pedindo que nunca mais deixasse de vir
dormir a caza.
Foram as festas; depois vieram de U, ouvem um trern. Parou a
porta. Dcsceu-se um cavalheiro, gue vinha alli, que era o Conde
de XX. Tinha sabido as boas virtudes e a boa creaçào d'aquella
menin a, pretendia cazar corn ella. Ella disse que nào era sua filha,
que se os paes quizessem ...
Ficou elle de vir buscar a resposta. Assim gue elle sahiu, disselhe a rapariga : cc O' minha madrinha, aquelle é o ladrào a que
eu cortei a mâo. - Jesus ! nâo digas tal. Entào era la passive!
que seja ladrâo? um conde havia de ser 1adrâo ?- Nào é conde :.
aquelle homem é a quem eu cortei a mào. - Vamos a caza de
tua màe; isso é o demonio gue te tenta para tu nâo teres fortuna,
Queres desperdiçar um conde, porque di zes que é um ladrao? »
A moça chorou muito. Foram a casa dos paes. Esteve-lhe
contando e ella sempre a dizer que era ladrao e nào era conde. Obrigaram-na a dizer gue sim, que logo se lhe tirava essa poeira da
cabeça.
Ao cabo de 3 &lt;lias, parou o trern a porta; elle en trou e perguntou a resposta. Disse-lhe que sim, e ella sempre a chorar. DisseJhe elle que ao cabo de 6 dias havia de vir alli, havia de trazer
os papeis despachados, para gue nesse mesmo dia se recebessem.
Ao cabo d'esses &lt;lias, veiu elle. A madrinha tinha feito bom
enxoval; receberarn-se e assim que foram ao copo d'~aua, foi-se
logo ella despedindo da familia, que elle nào podia estar alli mais
tempo. Metteram-se na sege e partiram.
Elle nào fallava corn ella, nem ella corn elle. La num certo
caminho, mandou-a descer da sege a tirou a luva : « Conhece
esta mao? - Muito bem; nào me trouxe enganada. Meus paes
e min ha madrinba é gue se enganaram; eu nào. &gt;&gt;
Despiu ofato, rnetteu-o dentro da sege, pagou ao boleeiro, e elle
foi corn ella a pé.

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

203

. como V• me fez ter tanto dor, ha-de marrer hoje ainda
« Ass1m
. d a. ,i Ella , coitada ' ia muito chorosa; chegaram a um
que1ma
Es monte
l'
(
1) muito negro; entrou para dentro corn ella.
tava. a
u:aa velha cega. Elle gritou : « Mài, aqui trago a grandis.
que me partiu a minha mào. Agora vou buscar lenha,
snna. .. ..
· b
11 fi a
ue tenho ahi pouca, para aquecer o forno mmto em, e e a c
qaqm· amarrada, e y Me
bem na ponta da corda. &gt;&gt; Elle
• seaura
o
sahiu.
.
d .
Ella coitada, conforme poude vm se desatava a cor a '. em
fi
~onseguiu. Atou a outra ponta da corda a uma tnpeça
md'.
e e1tou a cor·rer· muito · Assim que avistou. um homem que
estava arranjando um saco de carvâo, pedm ao hom~m q?e
r amor de Deus a livrasse da morte, que ella lhe pagana mmto
b~m. Disse-lhe o homem que nâopodia. Respondeu-lhe gue despe.assse um dos sacos de carvâo, que a mettesse dentro do saco :
lpuzesse carvao
- na boca. O homem assim fez. - E que a levasse a
ue la lhe haviam de dar 6 moedas. Carregou
esta1agem de XX q
. .,
· · 1
as suas cavalgaduras e marchou. ~uando ia_ ia ~o camm 10,
.
.t
Olhou para traz vm o ladrao. D1sse-lhe que
ouvm gn ar.
'.
'.
.
lher or alli a
parasse, preguntou-lhe se unha v1sto alguma mu
' p
'
correr. Disse-lhe elle que sim ( e apontou-lhe para traz)_: &lt;&lt; Alem
naquella altura, vi uma mulher ir a correr. &gt;l O ladrao tornou
para traz tambem a fugir' a ver se a achava.
.
,
Elle pegou a dar nas cavalgaduras, a pressa a vem ter, a estaa descarregar o carrêgo, e a creada chegou a porta,
ia0a em . Peaou
o
•
E
dizendo que nâo descarregasse, que nâo quenam carvao. « u
quero aqui fi.car esta noite. »
Assim que ella sahiu do saco, pegou a chorar.
0 pai e a màe com muita pena e deram logo as 6 moed_~s ao
homem e aaradeceram muito. Mandaram chamar a madrmha.
A madrinha 0com muita pena de a ter obrigado ao cazamento, :11as
que lhe &lt;lava palavra de nunca mais se met~er com essas co1sas.
« Mas eu, minha madrinha, agradeço mutto tudo quanta me
tem feito; mas ir p' ra sua caza, ja nâo, a sua casa tem duas pessoas

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

so. Eu quero ficar na estalagem; tem mais gente, nào ha de succeder tanto perigo ». A madrinha vinha todas as noites visital-a e
vel-a. D'ahi a muito tempo chegou um almocreve corn duas caraas
&gt;
•
b' '
uma d aze1te, outra de •vinagre, digo de mel.
Descarregou, mandou fazer de comer, ceou e sahiu a dar
agua aos machos. E a creada que amassava, essa noite, a·ndou de
roda da menina, que queria· tirar uma gota de mel aos coiros
p_ara fazer bolos. Ralhou a menina muito corn ella e nào consentm :. ~ue o que entrava p'ra alli era sagrado, que nào se devia
f:izer 1sso. Ella calou-se, e em quanto os amos ceavam, pegou numa
t1gela (pequena vazilha de barro, menos alta que Iarga) e foi
onde estav~m os co~ros. Abanou um, para ver pelo peso se era
mel ou aze1te ; ouvm uma voz la de dentro do coiro : c&lt; Ja? »
Ella fi.cou estremecida e disse : &lt;&lt; Ain da nào », e correu onde os
amos estavam _ceando. Confessou o que tinha ido fazer; mas que
dentro dos cou-os estavam homens, nao era azeite nem mel.
Le~antou-se o patrào e a creada disse-lhe que bulisse noutro
cotro. Respondeu a voz: cr Ja? » - « Ainda nào », Ihe disse
ell_e._ Correu corn mais alguem que tînha na estalagem a casa do
mm1str?. e comou~lhe tudo. 0 ministro mandou logo chamar,
os memnhos; v1eram todos a estalagem. Ja chegando 0
homem corn os machos, foi logo preso.
Foram ao quarto, onde estavam os coiros. 0 ministro deu
ordem a cada um dos officiaes, para bulirem, ao mesmo tempo,
cada um em cada coiro. Responderam la de dentro : « Ja? »
- « Ja », disse o ministro.
Rasgaram os coiros corn facas que tinham consigo. Foram loao
presos e maniatados e o ministro disse-lhe que a causa que e~a
d'ella, que ella é que havia de sentenciar. « Quero que sejam
enforcados e as cabeças aqui defroute da minha porta da estalagem. » Os paes e a madrinha pediram ao ministro que nào fi.zesse
ta!. Foram enforcados e ella viveu muito ben1 co m seus paes e a
sua madrinha, d'ahi por &lt;liante. Acabou-se.

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4 I.

AS

3

205

MENINAS

Era um principe que todos os dias passava por uma rua, aonde
haviam 3 raparigas muito bonitas; sempre olbava para dentro e
fazia o seu cumprimento. Um dia passou e nào olhou para dentro de caza : cc Ahi vai o principe, disse uma, eu sou capaz de
fazer uma cazaca sem ser provada, e ella ficar justa ao corpo )) .
E outra disse : « Eu sou capaz de fazer uma camiza sem costuras ». Respondeu outra : cc E eu sou capaz de ter 3 filhos
d'elle, semelle saber que sào seus filhos. &gt;&gt;
Elle que ouviu estas raz6es, que estava parado : « Quai &lt;las
meninas é que diz que ha de fazer uma cazaca sem m'a provar, e
que ha de fi.car boa ? » Disse-lhe uma que tinha sido ella. « Quai
disse que m' havia de fazer uma camiza sem costuras? - Fui
eu, real senhor. -Entâo ja sei que aquella menina é que havia de
ter 3 filhos meus, sem eu sa ber; dou-lhe I 5 dias para fazerem
essas obras ». E a outra pegou nella e levou-a, e metteu-a numa
torre. cc Que, ao cabo de 3 annos, havia de apparecer com os
meninos; se fosse verdade o que &lt;!lla dizia, que a recebia por
esposa; mas, nâo apparecendo corn os menin os, tin ha pena de
morte. Eu vou 6 annos par.1 fora, vou viajar. &gt;&gt;
Ella, coitadinha, ficou-se muito triste; fallou com umas fadas,
prometteu-lhe muito dinheiroecontou-lhetudo. cc Nâo tenha pena
corn isso, disseram as fadas. Elle, ta! dia, chega à corte de tal
reino; eu te fado para que tu sejas a cara mais linda que houver; ponho-te um palacio defronte da côrte ; elle ha de chegar a
janella e falla-lhe. »
Assim succedeu. Foi para palacio; elle foi a janella e viu-a.
Ai! que cara tâo linda, desceu abaixo e entrou em caza d'ella.
Falou, cumprimentou-a e depois ... esteve la 3 &lt;lias e despèdiu-se
d'ella, que elle que se ia embora e deu-lhe um boldrié. Disselhe o reino para onde ia.
Ella ao cabo d'esse tempo teve um menino muito bonito e
vieram as fadas, pegaram no menino e levaram-lh' o. Ella cami-

�207

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CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

nhou para o outro reino, onde elle estava. Formaram-lhe outro
palacio, defronte da hospedaria onde elle estava.
Pôz-se a janella e elle i janella estava. Conversaram muito,
offereceu-lhe a sua caza; elle veiu visital-a, pagou na hospedaria e
foi para caza d'ella. La se demorou uns &lt;lias, e quando se retirou,
deu-lhe o sceptro. Assim que teve o menino, vieram as fadas e
levaram-lh' o.
Ella caminhou para o reino onde elle estava. Formaram-lhe
outra palacio, ao pé d'onde elle pouzava; travou logo relaçôes
corn elle, conversaram, e elle, quando lhe pareceu, desceu as
escadas, subiu as d'ella e la esteve uns &lt;lias. Ella pediu-lhe que
nào se fosse ernbora ainda; mas elle retirou-se, que lhe era
preciso e deu-lhe uma corôa.
Ella, ao cabo de nove mezes, teve urna menina. Foram as fadas
e trouxeram-na a ella e a menina.
Metteu-se na torre corn os seus 3 filhos; elle regressou, veiu
logo ter corn ella a torre.
Perguntou-lhe pelas menin os; ella levantou-se; trouxe os
todos 3 cada um c;om a sua prenda na mâo e disse : c&lt; Boldrié, sceptro, corôa : quere...:a V. M. mais boa? &gt;&gt;
Casou corn ella; e ficou sendo princeza.

mas elle nunca se retirava do pé do conde, nem o conde do pé
d'elle. Correram tanto sobre uns veados que se 1he anoiteceu.
Nâo sabiam de companheiro nenhum. Perderam o tino; nâo
sabiam se haviam de voltar para traz, se p'ra diante; nâo sabiam
onde era a cône, mas viram um 1ume d'uns pastores. cc Vamos
li, que aquelles homenspodem-nos ensinar. » Chegaram eperguntaram aos homens o caminho da côrte. cc Ah l senhores, a côrte é
d'aquimuirolonge. Os senhoresnàochegamlaestanoite. Aqui perto
estauma quinta; podem alti ficar esrn noite, que a senhora é muito
boa, ha de lhe dar pouzada. &gt;&gt; Disse-lhe o rei que fossem ensinar
onde era a quinta. Um d'elles seguiu corn elles, foi-lhe ensinar.
O rei disse ao conde : cc Eu digo que sou conde e tu meu
creado ; nâo quero que digam que andou por aqui o rei perdido. ,,
Bateram a porta e veiu o quintaneiro. Pediram-lhe gasalho. cc Eu
vou dizer a senhora &gt;&gt;, disse o quintaneiro.
Mandou entrar. Appareceu uma senhora, ja de edade, cumprimentou-os, sentou-se na sala com elles. Depois de uma hora,
seguiu-se a ceia; depois conversaram um bocadinho mais. Disselhe a senhora que deviam estar cansados, que se retirassem aquelle
quarto, que aUi estavam 2 camas. Despediu-se d'elles e sahiu.
Elles entraram no quarto e pegaram a conversar. D'ahi a coisa
d'uma hora, viram luz por baixo d'uma porta. 0 conde levantouse e assomou-se a fechadura.
Viu uma madama muito bonita, despindo-se ; pegou na mâo do
rei, fel-o assomar tambem. cc Quer V. M. ficar corn ella, esta
noite? disse-lhe o conde. Deixe-a deitar, abra a porta de mansinho
e va ter corn ella. &gt;&gt; Esperou que se mettesse na cama, abriu
porta e entrou. Ella fi.cou muito assustada; disse elle que nào
tivesse susto algum, que elle que vinha alli, queria cazar com ella,
e assim, que nao dissesse nada a sua mâe por ora, que se havia
de demorar o cazamento. Metteu-se corn ella na cama, e ella
muito crente nas palavras que lhe tinha dito.
Demoraram-se na quinta 3 dias; depois despediu-se d' ella,
deitou-lhe ao pescoço uma cadeia d'euro com um crucifixo
d'ouro.

206

42.

0 CAIXEIRINHO

Era um rei muito amigo dos seus vassalos; mas tinha um parente
conde. Eram intimos amigos. Poucas vezes estavam um sem o
outra. A rainha e a condessa, muito amigas; e cada um teve
uma memna.
Depoisdassenhoras estarem melhorzinhas, disseo rei ao conde:
cc Havemos d'ir a uma caçada, convida os fidalgos e depois
d'amanhâ havemos de partir. Dizem que na tapada ha muita caça
e eu gosto de me divertir ».
Arranjaram-se e sairam, todas de cavallo. Assim que la chegaram, appareceu muita caça, muita. Uns por agui, nns por alli;

�208

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

Corno o casamento estava demorado alguns annos, que, se
tivesse algurna creança, a mandasse ensinar a 1er e a escrever.
A mâe, assim que foi tempo de ella nào poder epcobrir ... ,
confessou, A mâe perguntou-lhe de quem era. Disse-lhe a filha
que era do conde; mas elle que havia de vir recebel-a. A mâe teve
tao grande paixao gue morreu.
Ao cabo dos 9 mezes, teve u~ menino; criou-o, e depois que o
menino foi capaz, pôl-o ao estudo. Os outras estudantes mangavam corn elle, dizendo gue nào tinha pae certo. Elle envergonhou-se de tal maneira que disse a màe: que lhe &lt;lissesse quem
era seu pae, que os estudantes a toda a hora o descompunham.
cc Quem 6 teu pae? é a pouca fortuna que eu tive. Tu és filho
dum conde que veiu agui pouzar, prometteu-me cazamento e
nunca mais sou be noticias d'elle. - Entào coma eu sou fi.lho
d'um conde, sào os outras estudantes menas do que eu . Assim,
nâo quero estar aqui, quero ir p' ra carte. &gt;&gt;
A mâe, muito chorosa, pediu-lhe que nào a desamparasse.
Que tinha ficado sem mâe, nào queria agora ficar sem o seu
filho . Mas elle venceu, despediu-se da mâe, tomou-lhe a bençam
e a mâe deitou-lhe a cadeia d'ouro ao pescoço .
Elle foi para a côrte, chegou ao pé d'uma loja e perguntou se
tinham precisâo de um caixeiro. Disse-lhe que nào, mas elle
que o mandavaa outra loja que o c:dxeiro se tinha ido embora no
outra dia. Fallou corn o dono da loja; disse-lhe que s_im.
D'ahi a tempos, fez-se uma feira alli. Elle foi corn os mais
caixeiros annar a loja. No dia seguinte que era dia de feira, foram
as magestades passear a feira. A princeza e a condessinha iam de
braço dada; chegaram â loja, sentararn-se no mostrador, começaram a conversar corn elle e alli levaram a tarde inteira. Quando
voltaram para palacio, disse a princeza a condessinha : « Que
tal te pareceu o caixeirinho? -Pareceu-rne muito bem », disse a
condessinha.
Depois do châ, foi o conde com a condessa e a condessinha
para sua casa. A princeza escreveu logo uma calta ao caixeiro e

a condessinha outra. Elle recebt:u as cartas e disse : « Eu, se
respondo a condessinha, pode-me succeder mal; mas, se i-espondo
a princeza, pode me succeder peor. &gt;&gt;
Respondeu a condessinha. E assim andaram as cartas uns poucos
d'anno:,. Numa occasiào, a condessa e?crevéu-lhe uma, dizendolhe gue era j:i tempo de pôr uma loja par sua conta; que,
defronte de seu palacio d'ella se vendia um predio, que o
comprasse e puzesse uma loja. Nâo havia de faltar nada.
Elle fallou corn o patrao : que tinha vontade de pôr uma lo}a
par sua conta, se fosse de sua vontade dar- lhe credito : gue se
vendiam umas cazas, e elle que as comprava para p6r loja. O
patrâo disse-lhe que sim, corn muito gosto, porque era muito
barn rapaz; que lhe daria o credito que elle quizesse. Comprou
as cazas e poz loja.
Assim que foi para la, algum pobre que elle via que nao era da
terra, dizia-lhe g ue elle tinha um quarto para os pobres, que ficassem alli essa noite. Isto logo se soube e pediam-lhe pouzada.
Em entrando os pobres, lavava-lhe.-os pés, dava-lhe de cear, e no
quarto tinha uma cama . Pela manhâ dava-lhe 6 vintens e iamse embora. E elles sempre a escreverem-se. Mandou a condessinha
dizer-lhe que trabalhasse elle de la para fazerem um passadiço na
rua; tanto trabalharam, até que venceram.
Foi aos ouvidos do rei o que elle fazia aos pobres. c&lt; Que
fundos tera aquelle ·coutractador, para dar pouzada aos pobres,
ceia e 6 vintens? Hei de ver se é par vangloria ou se é por caridade. » Entrou o conde e disse-lhe o rei : « Has de m'arranjar
um fato aceado, mas pobre, e, a noitinha, manda m' o aqui ao
meu quarto. » Vestiu-se do pobre e sahiu.
Bateu i porta do mercador, pedindo-lhe gazalho essa noite.
Mandou-o entrar; veiu o criado corn uma bacia d'agua, poz-selhe o rapaz a lavar os pés. Desconfiou e disse : &lt;&lt; Este homem
nâo é pobre, tem uns pés muito finos. Mas seja o que for. &gt;J Mandou vir a ceia e o rei disse-lhe que ficava muito obrigado, que ja
tinha ceado numa casa, que lhe tinham dada umas sopinhas.
&amp;w, bi,paniqu, x,v.

209

�210

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

. Foi para o quarto, fechou-lhe a porta achave. 0 re~ se?tou-se
numa cadeira; alli esteve mn pedaço de tempo. Depo1s vrn uma
luz, assomou-se a fechadura e viu-o estar de joelhos a um or~torio com 2 vélas acesas, elle fazendo a sua oraçâo. Depo1s
fechou o livro, apagou uma vela e pegou na outra, e ab~iu u°:alçapâo e desceu. O rei disse : « Tu entraste, has de sabir. Hei
de estar aqui â fechadura. ))
Viu-o vir com a condessinha pelo braço. Nâo se deitou nem
dormiu e muito cedo bateu a porta.
Que :fizesse favor de lh'a abrir, que queria sahir; que estava
esperando alli hoje o seu irmào; nào sabia se havia_de vir ho}e de
manhâ, se de tarde : mas, nào sendo horas de part1rem, pedia ao
senhor que lhe fizesse a sua caridade, a elle e a seu mano, a
noite; deu-lhe 6 vintens e. foi-se embora.
Entrou muito cedo em palacio, despiu-se e mandou chamar
0 conde. Disse-llJe : « Arranja outro fato e guarda o ru.eu.
0-conde sahiu e veiu corn outro fato d'um creado d'elle. &lt;&lt; A'
nohe bas de m'acompanhar, disse-lhe o rei, e com pena de
morte (mostrou-lhe uma cara muito austéra) se, do que vires,
falares. »
O conde, que ainda nào tinha visto o rei .fallar-lhe assi11:,
temeu. A' noitinha vestiram-se, foram a c-asa do merrndor ped1r
gasalho. Lavou-lhe os pés, mas o mercad~r desconfiado_ de que
nao eram pobres. Mandou-lhe de cear; d1sseram que nao, que
muito obrigado, mas que jà tinham ceado. Foram para o quarto
e elle fechou-lhe a porta.
D'ahi a bocado, vêem luz e o rei mandou assomar â fechadura. Viu o mesmo que o rei tinha visto : depois de fazer a sua
oraçào, pegou na luz e abriu o alçapao. 0 rei : cc Pena de morte,
tomou a repetir, se, do que vires, falares-. ii Assim que vieram, o rei
tocou-lbe no braço para se calar. Pela manhà, despediram-se e o
mercador deu 6 vintens a cada um.
Depois de chegarem a palacio, sentara1n-se e o rei dirige-se ao
c.onde : cc Que merece aquelle homem? - Jâ preso, disse o

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

211

conde, as portas atravessadas, 3 &lt;lias no oratorio e enforcado. &gt;&gt;
A princeza que soube d'isto disse ao pae : cc V. M. bem sabe
as leis; manda enforcar um homem; nâo sabe em que dia nasceu, de quem é filho e se ja teve ordens. - Nâo dizes mal. Venha
o preso a rninha presença. &gt;&gt;
Foram buscar o preso. Perguntou-lhe o rei em que dia tinha nascido. Disse-lhe que nâo sabia. (( Ja teve ordens? -Nào, senhor. De quem é fi.Ibo? - Sou filho da pouca-fortuna, assim me disse
minha mae, um conde, que foi pouzar a minha quinta, a enganou, que a havia de receber, e nunca mais appareceu por la. Por
signal lhe deu este crucifixo d'ouro que minba mae me deitou
ao pescoço, quando lhe pedi a ultima bençam. »
0 rei olhou para o conde. (&lt; Que dizes tu a isto ? - Eu digo
que elle é filho de V. M. ~ E eu entào digo que elle é teu
genro. &gt;&gt;
Depois cazou coma condessinha e a princeza sahiu-lhe irmào.
Ficaram todos muito bem. Ainda hoje em di~ hi estào.

43·

A ESTALAJADEIRA

Havia uma estalajadeira muito bonita. A todos que vioham
pouzar â estalagem perguntava se j:i tinha. visto uma cara tao
bo~it:a como a sua. Diziam-lhe que tào bonita ainda nao tinhàm
visto. Ficava muito satisfeita corn a resposta.
Teve uma menina, m.uito mais linda do que a màe.
Perguutava aos passageiros se havia uma cara mais bonita do
que a sua. Se a menina nào desmanchasse, ainda havia de ser
mais bonita.
Escondeu a menina num quarto, que ja nào apparecia a ninguem. Passaram-se alguns annos e a menina jâ tinha curiosidade
de se assomar ajaneila, em chegando alguns passageiros. Um dia,
chegou um trem, parou â porta da estalagem e a meuina
levantou-se, assomou-se a jane!Ja. Entrararn para dentro os passageiros que vinham no trem. Perguntou, pelo co;tume, se ja

�212

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

tinham visto uma cara tao bonii:a. « Sim, senhora, aqui em cima
nesta janella, appareceu uma menina ainda mais linda que a
senhora. »
Fechou-a num quarto que nao tinha janella, e quando ji era
senhora, peitou um creado para air matar. 0 homem, custou-lhe
muito; mas, como lhe &lt;leu um taleigo de dinheiro, arranjou urna
cavalgadura e a màe chamou a menina : que havia de ir para o
convento essa tarde, que nao a podia acompanhar, nias aquelle
creado que eia fiel. Montaram nas cavalgaduras, caminharam .
Chegando la a um certo sitio, muito longe, apeou-se elle e a
menina. cc Agora descubro a verdade, nào vai para o convento;
sua mae disse-me que a matasse. ii A n,enina pegou a chorar
muito; mas disse que elle que nâo a mata va, q~e nâo tinha anima
para isto. &lt;&lt; Tenho aqui este do, mato-o, tiro-lhe o sangue e
· a liogua, que foi o que a sua mâe me pediu. Eu vou-me embora e
a menina pergunte o seu destino. » Montau a cavallo e partiu.
Sentou-se a menina numa pedra; alli esteve chorando a sua
desgraça. Levantou-se e caminhou.
Foi dar a um cazarâo; entrou, nao viu ninguem. Viu urnas
poucas de camas por fazer, as cazas por varrer e na cozinha estavam uns coelhos pendurados.
Ella disse : « Isto é gente que anda trabalhando de dia; a
noite é que recolhem e fazem de corner. Eu vou fazer lume e
vou guisar estes coelhos. » Depois de os ter ao lume, varreu as
cazas e fez as camas. Neste tempo, ouviu um. tropel muito grande
de gente. Corno era ja noite, teve_muito medo, metteu-se numa
toca d'uma oliveira.
Os donos da casa eram uma quadrilha de ladrèies. Entraram
para dentro, acharam as casas varridas e as camas feitas. Foram
a cozinha, acharam a ceia ao lume. 0 capitâo dos ladrèies disse :
« Isto é gente que estava aqui, nâo pode estar muito longe,
porque o ]urne esta muito activo. Sahimos todos e vamos em
busca. » Buscaram tudo, nâo a encontraram. Vinham ja para casa,
deram tino de que estava alli mettida na oliveira. Disseram-lhe

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

213

que viesse corn elles, que ninguem lhe fazia mal, porque ella lhe
tinha feito tanto bem.
Veiu com elles, mas muito assustada. Perguntou-lhe quem ella
era. Disse-lhe que era filha d'uma mâe tâo tyranna que a mandou
matar; mas o creado teve tanto do d'ella que a deixou corn vida.
cc Fiquei nô campo s6; depois caminhei sosinha e aqui cheguei. Deus
é que me deparou este bem. )&gt;
0 capitâo olhou para os ladrèies : cc Esta é uma filin que eu
tenho e sua irmâ. Ninguem a offenderi, nem lhe pora um dedo
em cima para a maltratar. Se alguem tiver essa liberdade, fica
logo morto aos meus pés. )&gt;
Ao amanhecer sahiram e ella ficou em casa, governando. A'
noite vieram, muito satisfeitos com ella. Ella, coitadinha, nâo
tinhamais remedio que viver tambem satisfeita. Passaram 2 annos
e veiu uma pobre pedir a porta. Ella diz : cc Ha 2 annos que
aqui estou, ainda aqui nâo chegou pobre nenhum; mas agora
peço-lhe que, de quando em quando, venha por aqui, que a hei
de remediar se faz-me companhia. &gt;&gt; Pegou de conversa corn a
velha e demorou-se alli até a tarde.
Ella remediou-a e pediu-lhe que viesse mais vezes, a meudo.
A velha sahiu d'alli; como andava pedindo, veiu a estalajem. « Ja
vi uma caramais lindaque a sua, muitomais bonita. Nas brenbas de
tal parte, esta uma menina ainda muito nova, muito mais bonita. &gt;&gt;
A estalajadeira, lembrando-se que seria a filha : cc O' Pia
Velhota, disse ella a velha, quando volta outra vez par la? Nâo hei de tardar muitos dias, que ella pediu-me que fosse mais
vezes, a miudo. -Eu dou-Jhe um taleigo de dinheiro, se V. M. la
fôr agora. Em lhe mettendo este alfinete na cabeça e vindo-me dizer
o effeito que elle fez, entrego-lhe este dinheiro. ))
A velha sahiu muito contente. Cl1egou as brenhase bradou por
ella. A menina sahiu muito contente, a porta : cc Fez hem, Pia
Velhota, em vir por agui; nào vejo ninguem, estou sempre s6.
Ha de se deixar estar aqui até a tarde. - Sim, minha menina. &gt;)
Deu-lhe de jantar. « Vamos aqui até a empena do monte ( cazal). &gt;&gt;

�CO. TOS POPOLARES PORTUGUEZES

215

CO. TOS POPULARES PORTUGUEZES

Scntaram- e c disse-the a velha : « E' amiga que a catem? Or:1 ! tomara eu que me catassem todo o dia. - Entâo d ite :1qui a
cabeça oo meu colo. » Deitou a cabe\-a e a velha pegou a catal-a.
Deixou-se dornùr.
A velha puchou do alfinete, cravou-lh'o na cabeça a menina
ficou morta. A velba ja tinha pena. Corno viu que ella nâo bulia
nem corn pé nem corn mâo, pegou oo seu bordâo e foi-se embora.
A' noite vieram os ladro s; nâ.o viram a ceia feita e oâo a acharam a ella. Foram todos ern bu ca, foram-oa achar na empena do
monte; trouxeram-na morta.
O capicào di se a um: « Va ja d'ahi num instante i cidade;
mande fazer um caixâo e ha de vir aqui antes de amanhecer. l&gt;
Veiu o caixâo, metteram-na dentro; pegaram-lhe 4
foram-no
pôr a portaria dos fradcs Yoltaram para caza. 0 principe, que
nesse dia sahiu a caça, passou p lo convento do fraJes.
(&lt; Estâ além um caixào, vâo ver quem é. &gt;) Foram-lhc dizer
que era uma cara muito linda d'uma m nina que escava morta, que
nâo parecia morta, porter muita côr na cara. 0 principe ordenou
que levassem aquelle caixào para palacio para o seu quarto, e
depois de la e tar cbamou a mâe.
Esti,·eram-na vendo e disse : « Parece que nâo estl1 morta ; a
côr que tem na cara nâo é &lt;l'aima que foi para o outro mundo.
- O' minha mâe, dis e-lhe o principe, se ella estivesse viva, de posava-me corn ella, que ainda nâo vi uma cara tâo linda. em eu, meu filholl, disse-lhe a rainha.
A rainha e uma das aias d piram-na; nâo lhe acharam contusâo nenhuma no corpo. 0 principe correu-lhe a mào p la cabeça
e achou o alfinete. Tirou-o; ella abriu os olhos e deu um ai . A
rainha mandou buscarum caldo. Tiraram-nadocaixào, deitaram-na
na cama do principe.,
Peoaram a dar-lhe colherzinhas de caldo; restabeleceu, falou.
Ficaram muito contentes; assim que e teve boa,tractou-s do cazarnento. Todos adnùraram a bell za della.
Aos 8 mezes de cazados, sahiu o principe p'ra guerra. Quando

foi tempo,teve a princeza um menino, ainda mais bonico do que
a màe. A rainha escre eu logo para o fil ho. fandou-lhe dizer que
a mâe que era linda, mas que o menino que era muito mais.
Mandou um soldado para a posta ; veiu ter o maldito soldado a
estalajem.
A estalajadeira perguntou logo se ja tinha visto uma cara tâo
boni ta como a sua.« A princeza é muito mai bonita que a s nhora,
e agora ceve um menino que dizem que é ainda mais bonito. Vou
agora b·ar esta ooticia ao principe. 0 que ficara de contente,
tendo succcs or ao reino ! - Aonde para o principe? - Em ta!
parte. - Olbc, é melhor ficar aqui esta noite porque ainda é
muito longe e pela manhâ cedo pode partir. l&gt; Poz-lhe o jantar
na meza e 2 garrafas de vinho : &lt;( Beba e coma, que nào paga
nada ... l&gt;
Comeu, bebeu e embebedou-se; deixou-se dormir. Ella foi â
mala, tirou-lhe a carta; escreveu outra dizendo que a princeza
que deu muito i cabeça corn un page, agora tinha tido um
monstro, parecia mais bicho que creatura. F chou a carta e met
teu-a na mala.
0 soldado, pela manhà, depois d'almoço, desp diu-se da estalajadeira, quiz pagar; nào lh'o consentiu, pedindo que vi sse â
volta por alli. 0 soldado deu-lhc palawa que sim, que tornava.
Chegou onde estava o principe e entregou-lhc a carta. Assim
qui a leu, deu-lhe uma coisa, cahit1. Os soldados e os mais que
alli e tavam levantaram-no; ja elle rinha sentido.
Poz-se a escr \'Cr outra carta, dizendo que a princeza e rivesse
dado a cabeça, que hem sabia que o que ella teve era seu fil ho e
entao que elle, indo, saberia as coisas como eram. 0 soldado
recebeu a carta partiu.
Veiu 1.lar aestalajem. Fez-lhe muitas festas a talajadeira; tractou-o da mesma sorte. 0 soldado, bebado, deixou-se dormir.
Foi a mala e tirou-lhe a carta; escreveu outra, mandando
dizer que, lo 0 o que a mâe recebesse aquella carta, que a mandasse
matar mais ao filho, que elle que nào queria saber d'ella para
coisa neohuma. 0 soldado no outro dia partiu.

�216

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PO.RTUGUEZES

Chegou a palacio, entregou a carta â rainha. A rainha leu a
cana, calou-se; nâo disse nada â nora. A princeza via a rainha
muito triste; perguntava-lhe se tinha tido alguma ma noticia do
principe ou se estava doente. Disse-lhe que nâo, que nem estava
doente, .nem tinha tido mas noticias. cc Sâo saudades que tenho de
meu filho. &gt;&gt;
D'alù a r 5 dias veiu o principe, e assim que a rainha sou be a
hora a que elle havia de chegar, mandou a nora e o menine
para um quarto retirado. ·
Chegou o principe, sahiu-lhe a rainha, abraçou-o, beijou-o.
Elle tomou-lhe a bençam, perguntou pela princeza. « Oh! essa
é boa, mandaste-la matar e perguntas-me por ella? - Eu nâo,
minha mâe. Antes eu recebi uma carta sua, em que me mandava
dizer que a princeza na minha ausencia me tinha sido falsa; o
fi.Ibo parecia mais monstro que gente. &gt;&gt;
A mâe chorou muito, disse que tal coisa como essa nâo tinha
escripto; mas ella qu'e nâo tinha cumprido as suas ordens, que
nâo a tinha mandado matar nem ao filho. Chamou-se a princeza, contaram-lhe tudo : cc E' minha mâe; ninguem podia fazer
isto senâo ella. &gt;&gt;
Chamou-se o soldado. 0 soldado contou que tinha ido a estalajem. 0 principe mandou logo um esquadrâ.o de cavalaria; chegaram â e,5talajem, trouxeram-na presa. Foi logo alcabuzada e dos
ossos -fizeram uma cadeirinha para o menino se sentar.
Ficaram muito contentes; nào houve mais novidade nenhuma
e ainda hoje em dia la estâo.

filhas e a mulher pagarem o que elle devia. Elias olharam umas
para as outras e a mais rnoça disse â mae : cc O' minha mâe,
n6s havemos de pagar aquillo que nem comemos nem bebemos?
n6s sempre debaixo de trabalho, e ainda haviamos de trabalhar
para elles levarem? isso nâo; pornos tudo em venda, dizer:do
que é para pagamel1to : -depois de tudo vendido, despejamos os
nossos colchôes, enchemos corn a nos~a roupa e fazemos
4 trouxas. Uma noire, sem ninguem ver, vamos-nos embora por
esse mundo. » Assim puzeram as suas trouxas a cabeça e sahiram.
Andaram por aqui, por alli, rnuitos &lt;lias; iarn ja cansadas, cbegaram a uma terra, ouviram uma µrnlher a chorar. Chegaram a
porta e perguntaram: cc Senhora, o que tem que esta tao affiicta? - Morreu-me o meu homem ; fiquei corn 4 creanças sem
nenhuma poder ganhar o sustento. » Respondeu a mais nova :
« Se a senhora nos desse aqui gazalho, por amor de Deus, esta
noite, por alma do seu homem. - Pois nâo, sim senhora, podem
entrar. »
Estiveram consolando a viuva e depois pegaram a conversar.
cc Esta terra nao nos parece feia; se n6s tivessemos aqui fortuna, -6.cavamos aqui. N6s, pelo nosso officio nos governavamos.
- Entâo que officia tem as senhoras ?-Somas alfaiatas. -Se as
senhoras quizerem aqui ficar, hâo de ter muita fortuna, muita.
Aqui nâo ha alfaiata nenhuma; vâo fora da terra fazeras obras. Pois ficamos, mas era preciso a gente ter umas cazas assim peq uenas; nâo podemos pagar grande renda. -- Aqui ha uma morada
de cazas muito boa; o dono da-as de graça. Dizem que apparece la um medo; vâo para la um dia, sahem no outra. &gt;&gt; Respondeu a mais nova : cc E' gente que faz o medo; faz favor de nos
dizer onde mora esse homem ? &gt;&gt;
A viuva mandou por um pequenito ensinar-lhe . Bateram a
porta, perguntaram o dono da casa : cc O' senhora, dizem que tem
umas cazas para arrendar. - Eu dou-as de graça, nâo as arrendo,
porque o mais que la estâo é um dia e uma noite; depois sae
tudo para fora, que apparece la um medo e no outra dia vem

44.

0 GALVAO

Havia um alfaiate que tinha 3 filhos. Tinha muito grande freguesia, porque era muito bom official. Tinha muito bom credito nas
lojas, ia buscar fazenda quanta queria. Depois que os filhos souberam o officia, deixou de trabalhar e metteu-se no jogo.
Depois d'uns aonos, teve uma enfermidade e morreu. Logo
vieram os crédores - os Iogistas como os do jogo - para as

217

�CONTOS POPULAIŒS PORTUGUEZES

CO 'l'OS "POPULARES PORTUGUEZES

entregar-me a chave. &gt;) A moça respondeu : « 0 medo fa-la
a gente; faz favor da cbave? » Despediram-se d'elle e v1eram
com a chave na mao para caza da viuva.
&lt;c Ja remos caza, de graça, que o medo fa-lo a gente;
tomaramos n6s ter saude. E a senhora ha de fazer favor de nos
cmprestar alguma coisa que nos seja preciso, que nâo sao
haras de ir comprar nada. » Emprestou-lhe um candieiro,
un'! fogareiro e algun objectas assim mais precisos. E ellas, dos
colchèies que levavam com a roupa, encheram-nos de palha
e caminharam para caza. Eram haras de cear; estiveram ceando,
puzeram-se a fazer serâo. Eram J o ho ras, disse a mâe para a mais
velha : « Nos vamo'-nos deitar e fica tu esperando o medo )&gt;.
1-icou ao serào, sosinha.
Era meia-noite em ponto, ouviu um rugido de umas correntes
a arrojarem pela chào e ao mesmo tempo uma voz d1zendo :
« Galvào, galvào, serào boras?. )&gt; Respondeu outra voz: « Ainda
nào. &gt;) Ella largou a meia, deitou a carrer e metteu-se entre meio
das irmàs que estavam deitadas. Esteve contando o que ]be succedeu, e as outras fi.zeram-lhe muito forte troça. A do meio
respondeu : cc A' noite, fico eu; quero saber se isso é verdade . »
Na outra noite, ouviu o mesmo; correu, metteu-se na cama
comas irmâs e a mais moç,1 respondeu: « A' noite fico eu; nao
me hei de vir metter na cama, hei de ver o que é. &gt;&gt; A' noite,
ficou ella sosinha; poz-se a fazer o seu serâo.
A$sim que deu meia noite, ouviu o mesmo rugido e as mesmas
vozes. Ella larga a meia, pegou no lenço d'assoar e no caudieiro,
e correu para onde elles estavam. « Espere, que eu lhe vou
fazer as haras )&gt;. Ao mesmo tempo ouviu-o cabir dentro da cisterna; poz o candieiro no bocal e assomou-sc para baixo: &lt;&lt; Ven ha
ci, venha ci, nâo foja, que eu Lhe faço as boras. &gt;1
Sahiu-lhe um preto: « O' mâe siora, se quizesses vir p' ra
aqui, havias de ser muito feliz ; tenho um grande palacio,
muita prata, muito oiro, e tudo isto era teu e a màe siora nao
havia de fazer nada. Venha ver, mâe siora, venha ver. - Pois

vem-me buscar. » Pegou nella, e assim que chegou a agua :
c&lt; Fecha os olhos, màe siora. »
Andou-lhe mostrando tudo . « Agora, màe $Ïora, nao ha de
fazer nada; camer, beber, divertir-se. Agora vamos cear. - Eu jâ
ceei, disse-lhe ella, nao tenho vontade. - Pelo menas um pastelinho, que isto nâo é coisa que encha a barriga a ninguem. 11
Assim que o comeu, deixou-se dormir.
Pela manhà, achou-se num.a rica cama. 0 Galvâo trouxe-lhe
agua numa bacia e uma toalba para se lavar : « Mae siora, eu
chamo-me Galdo e eu nâo sei o nome da senhora. » Ella deulhe o nome. Levou-a a uma copa onde estava muito vestido:
« Dispa esse vestido; cada dia deve vestir urn vestido, que tem
muito para vestir; e esse trapo deite-o fora. &gt;&gt;
A mâe e as irmâ■ levantaram-se pela manha, olharam par a a
cisterna e viram o candieiro e o lenço d'assoar em cima do
bocal. Pegaram a chorar e a gritar que ella se tin ha affogado corn
medo. Accmüu logo gente corn fateixas; nao acharam nada .
Ella ca vivia com o seu Galvâo, sem ver mais ninguem; mas
todas as noites, em cima da ceia, com.ia um pastel. Passados ja
9 ou ra mezes, diz-lhe o Galvâo: « Se a mâe siora soubesse o
que vae na sua caza .... - Entâo? - E' a sua mana mais velha
que se caza amanhâ. Quer ir ao casamento, mae siora? - Se tu
me deixasses ir, de boa vontade iria. -Se me der palavrade voltar. - Dou-te a minha palavra d'honra; onde havia de eu
achar uma fortuna egual a esta? - Eu vau pôl-a ao bocal do
poço, a màe siora vae; mas em ouvindo 3 assobios, venha logo ao
bocal do poço, que eu lâ estou. Aqui tem este taleigo de dinheiro
para dar a sua mâe e estes 2 vestidos para suas manas. Veja o
que faz, màe siora, nao falte a sua palavra. - Nao faite, nâo,
nào falto. »
Vein-a pôr no bocal do poço; assim que ella entrou ficou
tudo muito contente, muito admirado. Deu o dinheiro â mâe, os
vestidos as manas e a mâe levou-a para um quarto, esteve-lhe
perguntaudo o que tinha feito.

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CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

Ella disse-lhe tudo que passava com o preto. cc Tu nâo vês mais
ninguem? - Nâo, senhora, s6 o preto unicamente é que esta
naquella casa e eu. - Tu estas gravida, clisse-lhe a mâe, isso
talvez seja o preto. - Nâo, minha mâe; o preto tracta-me corn
respeito. - Pois olha: como tu cornes um pastel e te achas pela
manhâ na cama, faze que te deixas dormir da mesma sorte e vê
o que te succede. Aqui tens esta lanterna de furta-fogo; mette-a
debaixo da cama antes de comer o pastel : faze que o cornes e
deita logo a cabeça na almofada. E vê o que te succede. Depois de
estares na cama e sentires deitar alguem comtigo, em estando
dormindo, pucha da lanterna, deita-lhe 3 pingos de cera na cabeça;
logo conheces quem é. &gt;&gt;
Estando â ceia, ouviu ella um assobio. Levantou-se, chegou-a â
cisterna, esta va o preto a esperar por ella.
Beijou-a, abraçou-a e que nâo tinha faltado, que dali por
&lt;liante ainda a havia de estimar mais.
« Agora, mâe siora, esta a ceia na mesa para ceiarmos. - Eu
jâ ceei. - Pois ao menos coma o pastel. - Da
&gt;&gt; Fez que
o comeu, deitou logo a cabeça na almofada. Elle pegou nella,
levou-a de pé da cama mesma sorte e deitou a na cama. 0 preto
foi buscar uma bacia e uma toalha e poz-lh'a ao pé da cama.
D'ahi a um espaço de tempo entrou com um lenço na mào.
Deitou-o na agua e sahiu um homem; limpou-o numa toalha,
meteu-o na cama corn ella e sahiu e fechou a porta. Elle voltouse para ella, beijou-a e deixou-se dormir.
Ella, que o sente dormindo, pucha da lanterna e deitou-lhe
3 pingos de cera na cabeça : cc Ah! tyranna ! dobrastes o meu
encantamento. Pela manhâ, vem o preto, descompôe-te, pôe-te
na rua, tu nâo sabes caminho nem carreira, nào te da nada,
has de morrer corn fome, ha de te vestir o vestido preto que tu
trouxestes, pôe-te na rua. Mas tu nâo lhe digas coisa nenhuma;
deixa-o desaffogar, deixa-o dizer tudo quanto elle quizer. Depois
d'elle estar cansado de fallar, diz-lhe tu : « Tens razào, Galvào, tens muita razào », e pede-lhe 3 novellos para teu segui-

mento. Tira a ponta d'um e pôe um â porta do palacio d'onde
sahires; vae-o desenrolando, e onde elle acabar, bate â porta,
que é a palacio de minha tia. Pede-lhe gazalho, em louver do
senhor infante menine. Ha-de fazer perguntas, mas nào digas
nada, que eu a noite lâ irei estar comtigo . &gt;&gt; Chorou muito, e
elle pela manhâ sahiu.
Veiu logo o preto a descompôr nella. Disse-lhe quanto quiz,
que nunca elle a deixasse ir a casa da mâe, que ella é que fez
corn que elle perdesse a sua fortuna, etc. : cc Aqui tem o trapo que
trouxe vestido, vista-o. Ponha-se jâ d'aquella porta para fora;
nào lhe clou nada, que ha de morrer de f01ne. &gt;&gt;
Disse-lhe ella : cc Tens razâo, Galvâo, mas dâ-me 3 novellos para meu seguimento. - Sim, senbora, lâ isso lhe dou eu;
quero ver o que faz com elles. » Pàl-a fora e fechou logo a porta
nas costas.
Ella tirou a ponta do novello; o novello foi a desenrolar-se, e ella a andar sempre por onde o novello ia.
Andou todo o dia sem corner nem be ber. Ao sol posto, acabou-se um novello â porta de um palacio. Pediu as guardas que
dissessern a senhora se lhe &lt;lava alli quarte! essa noite, que era
uma pobre viuva, que andava pedindo para se governar; mas
que lhe pedia em louvor do senhor infante menino. Mandou-a
entrar.
Perguntou-lhe ella se sabia ella do senhor infante menino, visto
que pedia esmola em seu louvor. Ella disse-lhe que nâo sabia, mas
alli na rua lhe disseram que pedisse gazalho em norne do senhor
infante menino : « Cuidei que soubesse alguma coisa, que me
disseram que uma mulher lhe tinha dobrado o encantamento. Nâo sei nada, minha senhora. &gt;&gt;
Mandou-a para urn quarto; mandou-lhe a ceia e alli ficou
naquelle quarto até pela manhâ. Pela manbâ, levantou-se e
despediu-se. Mandaram-lhe dar pâo. Elle foi ter corn ella, de
noite; perguntou-lhe oque tinha dictosua tia. Esteve-lhe contando
o que se tinha passado : cc Agora o outro novello ha de aca-

ca.

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CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

bar a porta de minha av6; pede-lhe gazalho em meu nome.
Nâo lhe digas coisa nenhuma, que minha mâe jâ mandou uma
escolta em tua pergunta : em te encontrando, és victima. Eu la
irei ter a noite comtigo.
Deitou o outro novello, foi a casa da av6. Succedeu o mesmo.
Deitou o 3° novello, foi dar ao palacio da rainha. Pediu esmola
en1 louver do senhor infante menine e gazalho. Assim que lhe
falou no filho, mandou-a entrar; perguntou-lhe quem era. Sou
mna pobre viuva, minha senhora, que enviuvei ha pouce tempo.
- Mas para que me pede gazalho em nome do senhor infante
menine? - Porque tenho ouvido dizer que a senhora nâo nega
coisa alguma que lhe peçam em louvor do senhor infante menino.
- Mas V. Mee coitada, esta ja muito pezada; é melhor, jaque
me fallou no meu filho, que esteja aqui até ter sua creança.
Mas V. Mce sempre sabe alguma coisa a respeito de meu filho.
Eu mandei uma escolta em busca d'essa mulher que lhe dobrou o
encantamento, e quando pareça ha de ser alcabuzada.
Ella mudou de côr. « E' muito bem feito, minha senhora, que

a

pague quem tem culpa. »
Mandou-a para utn quarto, onde estava uma cama, dentro
d'uma alcova, tapada corn um cortinado. Mandou-the de cear;
comeu e deitou-se. D'ahi, veiu o infante; deitou-se corn ella
e perguntou-lhe o que se tinha passade com a mae : « Ainda
digo mais, nao quer que eu saia d'aqui sem ter a creança. Eu
aqui hei de vir todas as noites; mas cautela coma lingua, nâo
digas nunca nada. Vae todas os dias pela manhâ fallar a
minha mâe e agradecer-lhe. » De madrugada sahiu.
Ella levantou-se, veiu fallar â rainha. Coitada, nâo havia de
dormir bem; esta va cansada da jornada. A' noite ha de dormir
melhor. Mandava-lhe o corner e todas as noites ella ia lâ.
Levantou-se uro dia e disse â rainha que estava muito doente.
cc Vâ parao seu quarto e jase manda chamar quem a entenda. »
Vieram logo duas parteiras; tève uma creança. Deram parte a
rainha; ficou muito contente de ella estar descansada. A' noire

vei~ elle; ficou muito contente do seu menino. Ao cabo de
3 d1as deu uma dôr na creança, que nâo a podia de maneira
nenhuma ter, nem ao collo, nem de marna, nem de maneira
nenhuma : a chorar sempre. Veiu o pae, pegou nelle; 0 menino
sempre a ~horar. Deu-o â mâe. cc Vê se o calas, que eu nao 0
posso ouv1r; canta-lhe uma cantiga, que as creanças âs vezes
as..:'ustam-se de ouvirem umas tantas vozes e calam-se. - Isso
n~o c~nto eu ; havia_ de pôr-me a cantar para incommodar a
ramha. - Porque nao? Canta, canta. - Nào canto, nào. Canta-lhe esta cantiga :
Se vossa avô soubéra
Que era seu neto,
Veja o que fizéra !

- Pois eu hei de cantar isso? - Canta, sim, que mando eu. &gt;&gt;
Ella canton e o menino calou-se.
Pel~ manhâ, sahiu el~e, e ella levantou-se. Assim que a rainha
a sentrn le~antada, vem ao quarto. Perguntou-lhe que tinha
aq?ella menma, que tanta tinha chorado. cc Julgo que era dôr,
mmha senhq~a, que _teve: - Mas elle calou-se depois que canton.-:-- Eu nao c~nte1, rrunha senhora. - Cantou; te posso dizer
a ~ant1ga que foi (repetiu) . &gt;&gt; Ella desfechou a chorar muito.
D1sse-l~e ella : cc Nâo chore; quero que me diga a verdade.
Para num ~âo ha segredos occultas; ha de me dizer tudo que
tem succe_d1do, e quando nâo, ha de ser akabuzada. Ainda ningue1:1 ped1u gazalho nem esmola, em louvor do senhor infante
memno, e V. Mce, que m'o pediu, sabe esse segredo. Eu sou
capaz de o guard~r, tao bem como V. Mce O guarda. Conteme a verdade, e mnguem lhe ha de pôr perigo nenhum . &gt;&gt;
Ella conto~-lhe tud~ e a rainha chorou muito; que seu
fi.Ibo era um rngrato : 1r todas as noites e nâo lhe ter fallado !
cc Faça a senhora o mesmo que eu fiz : u111-a lanterna de furtafogo. A senhora vae p'ra o meu quarto, e quando elle venha, esta
a lanterna &lt;le baixo da cama, e a senhora encoberta corn os cortinados. Elle vem; ha de me perguntar o que passei com a senhora

'

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

e depois digo-lhe eu : « Desvie para la o cabello, que me oica no
corpo, é muito comprido », e elle sacode a cabeça e cae o cabello
para baixo, e a senhora segure-lhe o cabello e deite-ella 3 pingos
de cera, que ja elle nâo pode fugir. » A rainba 6cou muito satisfeita, esperando a noite. Metteu-se no quarto da peregrina.
Veiu elle, fallou, perguntou pelo menino, se estava melhorzinho. Disse-lhc qu estava bom, que nunca mais tinha tido a
dôr; e por nào dizer mais nada : « Deite o cabello para f6ra da
cama, que me esta picando no corpo. » A rainha deitou os 3 pingos de cera.
Beijou-o, abraçou-o, chamando-lhe ingrato, que vinha alli
todas as noites e nâo lhe tinha aiuda fallado. « Minha màe,
acabou-se o m u cncantamento corn a nascença de meu fil ho;
m~s o Galvâo, nào. Agora, ha de baptizar-se no dia em que
mmha màe fizer annos; depoi da beija-mâo. As 3 ultimas
mulheres que vierem bcijar a mâo de V. M., trazem um
k:nço na mâo. Perguntam : «
que qu r V. M. de n6s? Esse lenço que trazes nas mâos. &gt;&gt; Elias de raivosas fazem o lenço
em mil tiras e quantas feridas fizerem quantas sâo as feridas do
meu corpo. Jogam corn o lenço a agua c eu nâo me posso
levantar. Deve estar alli medico, cirurgiao e confessor, que eu
nâo sei se poderei resistir. »
o dia que a rainha fez annos, baptisou-s o menino e deu
(a rainha) beija-mâo. A 3 ultimas mulheres que chc.,.aram,
perguntaram : « Que quer V. M. de n6s? - Esse lenço que
trazes nas màos. &gt;&gt;
Rasgaram muito hem o lenço, deitaram-no na agua c desesperadas sabiram da sala. Accudiram logo o cirurgiào e o mcdico,
curaram-no e metteram-no na cama.
cc Minha màe, hoje é dia grande; baptisa-se o meu filbo
minha mâe deu beija-mâo, agora todas as personagens que aqui
estâo sejam minhas testimunhas que eu cazo com minha mulher.

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45.

OS DOIS PEDRI 'HOS

Era um rei muiro tentado corn a caça ; mandou chamar o sapateiro. Que lbe havia de fazer umas botas em 3 &lt;lias. 0 sapateiro
principiou as boras; mas a mulher estava para ter uma cr ança,
foi cbamar a p:meira e ao cabo de 3 &lt;lias nasceu um menino.
Passaram-se 2 dias ; manda o rei pelas botas. Elle foi e
disse : « Senhor, nâo pude fazeras botas, porque min ha mulher, esta
noite, era meia para a I bora, deu â luz um menino. - Ora
essa ! disse o rei, a essa mesma bora, teve a rainha outro
menino. Has de me dar o teu filho; nasceram a mesma bora
e no mesmo dia, en quero crcal-os como meus filhos para sab r o
destina ou a sina d'estas 2 creanças. Vae fallar corn tua mulher e
traze-me aqui teu filho. »
Elle veiu para caza e disse a mulher. Ella nào queria; chorou
muito e elle disse : cc âo lhe tires a fonuna; elle vae ser creado
como filho do rei; é sô para saber o destino d'estas 2 creanças
que nasceram a mesma bora e no mesmo dia. &gt;&gt;
0 rei mandou buscar o menino. Poz a cada um sua ama ; baptisou-os, poz a ambos Pedros. Foram cr scendo os meninos
debaix.o de nome de serem irmâos urn de outro. Eram muito
amigos um de outro, muito amigos; nâo estavam nunca um
sem o outra. 0 rei mandou-lhe fazer umas bolas de ouro, um
aro e uma palheta. Jam para o mirante jogar; mas o sapateiro
sempre queria ganhar, o principe "tambem: guerreavam um corn
o outra, o sapateiro batia no principe. Vinha fazer qu ixa a
rainha : « Pedrinho deu-me. - Amanhâ lhe das tu. »
uma occasiâo estavam jogando; o filho de sapateiro pegou
numa bola de ouro e jogou-lhe corn ella a testa, fez-lhe uma
ferida. Elle veiu a chorar muito, todo cheio de sangue. Acudiu o
rei e a rainha; e a rainha olhou para o rei e disse assim :
cc Sera caso que o filho do sapateiro ande enxovalhando sempre
uma pessoa real ? &gt;&gt;
Assirn que se curou, veiu outra vez brincar corn o Pedrinho;
Rw•• hisp.•iqu,. xiv.

rS

�226

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

tinham jâ !"4 para r 5 annos. Guerrearam outra vez; o principe
disse-lhe : cc Olha, Pedrinho, tu nâo és rneu irmao; a
minha mama disse-me que tu que eras filho d'um sapateiro. »
Elle que tinha mais tino que o principe, assimqueteve occasiaô,
veiu ao aabinete do rei e perguntou-lhe :· cc Senhor, eu sou filho
de V.M~? - Porque me perguntas isso? - Porque Pedrinho
disse-me que eu que era filho de uro sapateiro. - Pois é verdade, mais criei-te como meu filho e ninguern sabe esse segredo
senâo eu e a rainha, porque teus paes ja morreram. »
Veiu brincar outra vez corn 9 Pedro, e assirn que teve occasiao, foi ao erario, trouxe uma grande bolsa de dinheiro, e assim
que Pedrinho estava dormindo, foi a cavalhariça, montou num
cavallo e deitou-se a carrer por uma calçada abaixo. Ia considerando : cc Corno eu nao sou filho do rei, nào hâo de fazer
dilio-encia por me encontrar. &gt;&gt; 0 Pedrinho acordou, nâo o achou
na ~ama, foi ao mirante e viu-o ira correr no cavallo. Elle veiu a
cavalhariça, pegou num cavallo e rnontou-o e foi sobre elle, a
gritar e a bradar. Assim que Pedrinho conheceu e olhou para ttaz,
que voltasse para palacio. Cada vez fugia mais, atraz de Pedrinho.
Nâo teve mais remedio que foi parar e esperar por elle.
cc Pedrinho, vae para casa, nâo queitas ser a minha desgraça :
por mirn nâo hâo de fazer diligencia nernhuma. Vern uma
escolta logo sobre nos; tu nâo has de ter perigo, mas eu
sim. - Eu nâo volta para traz ; onde tu fores, vou eu: onde
tu morreres, morrerei eu. &gt;&gt;
Caminharam sempre para &lt;liante. Ao cabo de IO dias ou l2
de jornada, chegaram a um sitio onde havia 2 estradas. Puchou
pelo mappa e disse ao principe : cc Estas 2 estradas vâo dar a cidade
de**. E' distante d'aqui 2 leguas; vae tu por uma que eu
vou por outra e aquelle que chegara primeiro, que espere pelo
outro. - Tu o que queres é separar-te 'de mim e deixar-me.
Nâo é por isso; pode ser que esteja ja li ordem para nos prenderem; e, assim, cada um vae por sua parte, nâo ha duvida. &gt;&gt; Custou muito a convencel-o. 0 Pedrinho foi por uma estrada e o
outra por outra.

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

0 principe deitou a carrer no cavallo q uanto podia e o outro ·
foi muito a passo. 0 principe chegou no meio da tarde; perguntou se estava alli um rapaz do seu tamanho pouco mais ou
menos e corn o mesrno fato, e ninguem lhe deu noticia. Elle
sahiu da cidade.
0 Pedrinho chegou a noitinha e perguntou ( o mesrno ). Disseram-lhe que sim, que tinha alli vindo, perguntando por elle, ao
meio da tarde. Elle apeou-se. cc Isto é noite ; onde hei de eu
ir em busca d'elle? amanhâ pela manhâ sera. ,) Comeu e
dorrniu. Pela rnanha cedo levantou-se, pagou a estalagern e
sahiu.
Sahindo fora da cidade, encontrou uma velha. cc Ai,
menino, nâo va p'r'hi, porque hontem a tarde encontraram
urn rnenino naquelle palacio, assim de seu tamanho. Nào va
p' r' ahi, que ha de ser encantado tarnbern. - O' tia velhota,
VMce que me diz isso é porque sabe como eu o hei de desencantar; eu lhe hei de pagar rnuito bern. - Ora VMce, inda que lh'o
eu ensine, nâo é capaz . - Sou, e de muito mais. - Pois eu
lh'o digo. VM&lt;e vê aquella montanha? se for capaz de a
subir ... ; ella nao tem onde o menino se pegue nem onde ponha os pés. Se puder fazer a diligencia de subir, ha de ouvir
muitos gritos e muitos tiros ; mas nào tema, que nada lhe faz
mal. Se a subir, la em cima, esta urn gigante. Hâ-de lhe perguntar o que quer, o menino diz-lhe : a chave d'aquelle palacio. Elle entrega-lhe a chave, e o menino deita-se no châo,
rebola para baixo. Ha de ficar arrimado a porta de um palacio.
Abra-a; esta urn grande lago no meio, corn um cypreste no
meio do lago e em cima do cypreste esta uma serpente. Tem
a chave do quarto onde esta o principe, na bocca. Se ella
estiver corn os olhos abertos, tira-lhe a chave. Logo vê uma
porta ; abra-a, que la estâ o menino. &gt;)
Elle pagou-lhe muito e agradeceu a velha; prendeu o cavallo
e foi fazer a diligencia de subir. Assim que corneçou, pega a ouvir
muitos gritos, rnuitos tiros; a poder de diligencia chegou la.

�CO. TOS POI&gt;tJLARE

228

PORTUGUEZES

229

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

Sahiu-lhe o gigante, perguntando-lhe o que queria. « A chave
d'aquelle castello. » Entregou-lh'a; elle rebolou-se da serra abai.xo,
ficou corn as costas empinadas a uma porta. Viu um lago, onde
tudo era agua e um cypreste no meio. Poz muita duvida em
subir pela cypreste acima. Chegado la, encontrou a serpente corn
os olhos abertos; tirou-lhe a chave. Quando desceu do cypreste,
nào viu lago, oâo viu nada. Abriu logo a porta, encontrou
Pedrinho e uma madaroa ao pé.
Levantou-se, abraçou-o. « Por'mor de ti é que tenbo passado tanto traba\ho e passarei; vim-te desencantar. Amanhâ
pela manhâ sahirei d'aqui. Esta madama tambern ha de Yir
comnosco. E' princeza, filha do rei de**. »
Pareceu uma meza, composta de toda a qualidade de corner;
comeram. Coma eram boras de deitarem-se, disse o principe :
« Pedro, deita-te aqui nesta cama, que estas cansado. - Nâo
deito tal, deita-te tu. - Eu ja me deitei mais esta menina; esta
noite dormimos aqui; agora dorme eu. » Elles deitaram-se.
Eram 8 boras da noite; veiu uma aguia, deu 3 carcaxadas: t&lt; Ah I ah! ah I talvez pensem que estào livres do encantamento. A' saida d'aqui, sâo 3, tem uro s6 cavallo; logo ao
pé da muralha esta uma manada de cavallos muito bons e
mansos. A princeza vae muito incommodada; ha de pedir um
cavallo; mas em e montando, fi.cam sujeitos ao mesmo encantamento. Quando esto ouvir e contar em pedra marmore se ha
de tornar. )&gt;
A's 9 haras tornou outra vez. « Quando d'esta escaparem,
la mais ao &lt;liante hâo de querer a1moçar. Esta uma figueira na
estrada, corn muito bellos figos; em comendo d'elles, ficam
sujeitos ao mesmo encantamento. Quando (&amp;. o rnesmo). »
A's 10 boras veiu outra vez e disse: « Quando d'essa escaparem, la mais adiante esta uma fonte; coma levam muita sede,
em bebendo da agua, ficam sujeito ao mesmo encantamento.
Quando (&amp;). »
A's I 1 tornou a vir: « E quando d'essa escaparem, a enrrada da cidade, cahem-lhe as muralhas em cima. Quando (&amp;).

A' mcia noite veiu outra vcz: « Quando d'essa escaparem,
o rei ha de ficar muito satisfeito de ver a filha, livre do encantamcnto ; offerece a Pedrinbo a mâo da filha, e na noite em
que se receberern,
meia-noite vem uma serpente e rraga-o.
Quando (&amp;). »
Esperou 1 bora, esperou :is 2; e as 3 foi acordar o Pedrinho
c a princeza : « Meninos, vamos acima, vamos embora. »
Sahiram do palacio. âo queriam a princeza nem o principe
ir no cavallo; diziam ao Pedro que se montasse nelle, que elles
iam a pé. Logo pareceu uma manada de cavallos. A princeza
disse logo ao Pedrinho que fosse buscar um ou dois cavallos, que
seu pae que pagaria tudo, e Pedrinho disse : « Primeiro se hào
de montar Vm'"" ambos no meu cavallo, que eu vau buscar um
ou dois para o6s irmos entao melhor. »
Assim que se elles montaram, &lt;leu uma chicotada muito 0!!fande
no cavallo; foi buscar outro, tirou um alfinete e 01etteu-U1'0
na anca. 0 cavallo pegou a fugir e aos coices. Os outras seguiram fazenda o mesmo. Elle olhou para elles e disse: cc Olbem
la! se eu montasse nalgum d'elles ou V.Mce.s? quando elles
fazem isto sem gente, o que fa ria .. ? l&gt; Respondeu a princeza :
&lt;l ada, nada, vamos melhor assim. »
Li mais adiante disse o principe que eram boras de ' a1moçarem. Apearam-se e vào olhar, vêem uma figueira, corn muitos
figos, muito bons : cc Que bellos figos ! disse a princeza, va
busca-los para almoçarmos. » Pedro tirou o lenço da algibeira, foi
debaixo da figueira, estendeu o lenço. Pegou a colher figos ;
abria-os e deitava-os f6ra.
Tantas vezcs fez isto que o principe lhe disse : cc Em vez
de trazeres os figos, deita-los fora? - Elles nâo sào figos,
respondeu Pedro, sâo bolsas de bichas. - Entâo nâo. »
Estiveram almoçando, montaram a cavallo e sahiram.
. . . . . . . " . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . - . . . . . . . . . ....

a

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........................... .........................

(Foi esquecida a maneira corno Pedro evitou a prophecia que a

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTOGUEZES

aguia fez as ro boras. Pouco me parece fi.car prejudicado o merito
do canto, se o tem.)
Chegando
muralhas da cidade, disse o Pcdrinho : « Nào
~ bonito agora entrarem 2 pessoas reaes montadas num so
cavallo, como pessoas particulares. 0 melhor de tudo se.ra
que eu vi a palacio fallar com o rei, para as mandar buscar
como devem. Fiquem aqui nesta quinta, que eu logo ca
venho. »
Foi a palacio, perguntou o rei. Que estava alli um estrnnjeiro,
que lhe era muito preciso faJlar-lhe.
Mandou-a entrar ; passados os primeiros cumprimentos disselhe se tinha gosto de ver a sua lîlha, ja desencantada. 0 rei
ficou corn muito grande gosto. 11 Tuda daria s6 para a ver ji
livre d'aquelle encantamento. - , âo prcciso nada senbo.r ; é
s6 mandar derribar as portas (portas da cidade) da cntrada
de tal parte. Em ellas estando em baixo, eu direi a V .M. onde
esta. )&gt;
0 rei mandou logo buscar todos os opera rios; nesse dia mesmo
se deitou a muralha abaixo. cc E' preciso, senhor, que a mande
buscar, porque nào é hem que ella venha a cavallo numa cavalgadura; que nâo é bonito entrar sem estado ».
0 rei mandou logo arranja.r todos os trens e &lt;leu parte a todos
os :fidalgos ; foram a quinta buscal-os. 0 Pedrinho, assim que
viu o estado, deitou os braços ao pescoço de Pedro a beijal-o.
&lt;&lt; Corn que t' hei de eu pagar tanto bem ? Com o mal. l&gt;
Chegaram a palacio. 0 rei disse para o Pedro : cc Ja que
tive o gosro de ver minha filha desencantada, nao lhe posso
pagar senâo cotn a mâo d'ella. - A mâo da princeza nâo me
pertence a mim, mas aqui a Pedrinho que é principe. »
0 rei deu-lhe a •mâo e depois tractou-se do cazamento . E o
principe a perguntar-lhe com que lhe havia de pagar tanto
bem? « Corn o mal, respondia elle. Agora o que quero é que
me dês licença para ficar no teu quarto, na noite que te receberes. - Que me pediras tu que eu nâo faça ? »

No dia que se receberam, a boras de se recolherem, deu o
principe a chave a Pedro. Pedro pegou num alfange; quando
sentiu que elles iam para o quarto, metteu-se d baixo da cama.
Metteram-se na cama e dei.-.:aram-se dormir e Pedro pegou no
alfange e poz-se de pé ao pé da cama.
De repente veiu abrir uma janella do quarto, que dizia para o
jardim. Entra a serpente e Pedro corn o alfange traçou-a ao
meio. Ella sabiu e cahiu dentro da cisterna. Ao mesmo tempo
acordou a princeza; senàu a espadana de sangue na cara. Palpou, achou sangue. Viu Pedro corn o alfange na mâo, tambem
cnsanguentado. Pecrou a gritar que Pedro a queria m;irar. Acudiu
tudo em palacio. Viram Pedro corn o alfanoe
na mâo , muito
l:l
branco. Disse-lhe que, se tinba sangue, que procurasse a
ferida. « Mas tenho sangue, V.Mc• queria-me mat.ar. » 0
marido a dizer-lhe que Pedro que nâo ern capaz; mas foi preso
no oratorio 3 dias e logo enforcado.
0 principe chorava de dia e de noite. Elle, no dia que esta va
para ser enforcado, mandou chamar o principe. Pediu licença
ao rei e foi. c, Entao nao te disse que me havias de pagar o
bem corn o mal ? )&gt; Elle desculpou-se com a verdade; nao tinha
culpa.
cc Mandei-te chamar : que.ro pedir-te um favor pela ultima vez.
Quero que peças ao rei qu~, quando eu for p' ra a forca, quero
fazer cami.nho pelo jardim que tem porta de entrada e de
sahida. Mas quero que elle e todos os fidalgos se ponham a
janella quando eu passar. » Despediram-se um do outro corn
muitas lagrimas, e veiu, deitou-se a joelhos ao rei, que deseja~a que lhe fizesse uma mercê.
Levantou-o e disse-lhe que pedisse o que quizesse. Disselhe o que o Pedrinho lhe tinha dicto. Deù-lhe licença p' ra elle
vir pelo jardim.
Chegando a justiça, elle olhou para as janellas e viu tudo
cheio de gente. Deitou o crucifixo, que tin ha na mâo no braco
'
.'
e disse: « Senhor, morrer d'uma maneira, marrer &lt;l'outra,

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as

231

�CO.'TOS POPULARES PORTUGUEZES

2 2

CO. TO

233

POPULARES PORTUGUEZES

tudo é morrer ; mas justificado, nâo criminoso. » Por aqui foi
dizendo tudo que se tinba passado corn a aguia; ia dizendo, ia
se fazenda em pedra. Quando acabou de dizer da serpente cahir na
cistema, fi.cou um homem de pedra. Tudo muito admirado e ao
mcsmo tempo com pena.
0 principe nào tinha consolaçào nenhuma; ia -de quando em
quando, de roda da pedra de Pedro. A princeza e o rei a aoimal-o.
Que ja nâo havia rem dio. As im se pa sou uro anno.
Ao cabo teve a princeza 2 meninos gemeos. Tioham ja os
menines mezes, pcgou o principe a sonbar que dcgolando os
seus 2 meninos, parando o sangue numa bacia, que corresse a
p dra de Pedro com o sangue quente, que lavasse a pedra, que
Pedro que resuscicava.
Tanto sonhou' té que disse a princeza. Ella disse-lhe que tin ha
muita pena, e mais por ser ella a causa, mas que matar os eus
fi.Ibos isso nào. Elle calou-se. E sempre a sonhar.
Um dia que as amas nâo estavam no quarto dos meoinos,
peoa numa bacia e num alfange e carre ao berça dos menines
e degola-o ; correu ao jardim, lavou a p dra de Pedro corn sangue
e Pedro tcve vida.
Pegou a dar vivas e a gritar. Acudiu moita aente as janellas,
viram-no vir corn Pedro p lo braço. Correram todos a porta do
jardim, abraçaram Pedro; e elle, Pedrinho, disse, por fineza:
&lt;&lt; Matei os meus 2 filhos para lhe dar a vida a elle ; assim é que
lh'cu pagava tanto bem qlle me tem feito. &gt;&gt;
Foram ao quarto onde os meninos estavam mortes; acharamnos sâos, de saude, brincando corn o alfange e as maos cheias de
sangue.
Ainda maior gosto tiveram e ficaram todo vivendo junctos.
46.

0 REI CEGO

Havia um rei e uma rainha que tiveran 3 filbos. Viviam
muito satisfi itos corn os menines. Ja eram homens, adoeceu o

pae com uma grande inflammaçào nos olhos e cegou. Vinham
medicos de f6ra dos reines; foi em balde, que nâo recobrou a
vista.
Passado muito tempo, veiu um pobre pedir a porta do palacio. Perguntou a guarda se .M. ainda era cego. Disseram-lhe
os guardas que ainda era cego. Diz o pobre : cc e pudessem
alcançar uma garrafa d'agua do palacio d'um gigante, no reino
de ta! parte, era s6 applicar-lhe aos olhos, fi.cava logo com a
sua vista natural. »
0 capitào da guarda ouviu isto, foi dizer aos principes. Respondeu o mais velho : cc Isso muito facil é de alcançar, manda-se um soldado por ella. »
0 mais novo respondeu : cc Isso nào ; pode dizer que é
agua de la e ser d' outra qualquer parte. E' melhor ir um de
n6s. &gt;&gt; 0 mais velho respondeu: &lt;&lt; Pois vou eu. l&gt; Determioou-se
a sahida e sahiu corn um creado.
Quando chegava as cidades, por onde ia correndo, escrevia
sempre. Assim ia s guindo a sua jornada.
Chegou a um reine e viu um defunto no meio d'uma praça,
e uma bandeja ao pé em cima d'uma cadeira. Disse : « Entâo
este homem, depois de mono, esta pedindo esmola? - E'
para se enterrar. No nosso reino, ninguem se enterra sem pagar
ao parocho ; e como elle é pobre, esta tirando esmola para
se enterrar ». Elle nâo respondeu, metteu esporas ao seu cavallo e foi seguiodo a sua jornada.
Chegaodo ao reino do gigante, estava na estrada uma estalagem.
Elle apeou-se e entrou para dentro. Pediu de jantar ; logo se
poz a meza e o comer sobre ella. Sentou-se, veiu uma madama
mnito linda sentar-se-lhe ao lado. Nunca mais se lembrou nem.
de ir buscar a agua, nem dos paes, nem de ninguem.
Passado o tempo marcado em que havia de ir e vir, como
nâo tinha escripto, os paes e os irmâ.os disseram que era porque
elles tinham morrido.
Mas, anciosos pela agua, disse o do meio: cc Vou eu e bei

�2

35

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

de trazer a agua e nao hei de marrer por la. &gt;1 0 rei queria,
antes ja, estar cego que perd~r os filhos; mas elle sempre teimou
e sahiu. Montau a cavallo e nâo levou criado .
Seguindo os mesm@s passas da jornada do rnano, chegou ao reino
onde se nâo enterravam sem dinheiro. Viu uma defuncta; perguntou que fazia aquelle corpo alli, que se nâo enterrava ? Que
nâo tinha fortuna, que estava tirando esmolas para se enterrar.
Elle nâo respondeu e foi andando.
Chegou estalajem. Sahiu o irmào a fallar-lhe; perguntoulhe porque nâo tinha ido buscar a agua ,a.a pae. Que, chegando
alli, respondeu elle, nunca mais se lembrou de nada corn aquella
rnadama que se lhe sentou ao lado. Entrou para dentro e pôz-se
a meza a jantar ; veiu outra ainda mais formosa e sentou-se-)he
ao lado. Nunca mais se lem brou da agua.
Muito tempo depois de passar a hora marcada, disse o mais novo
para o rei : cc Os manas sem duvida morreram, vou eu; quero
antes marrer, fazenda a diligencia para meu pae ter vista. »
Divulgou-se logo esta noticia no palacio e a côrte oppoz-se a
isso; mas elle na noite segLJinte foi ao erario, trouxe uma grande
somma de dinheiro, montou num cavallo, de madrugada, e sahiu;
mas sempre escrevendo.
Chegou ao reino onde se nao enterrava sem dinheiro ; chegou a mna cidade ohde viu um defuncto aporta ( da cidade ). Perguntou porque nào enterravam aquelle homem . Dissr::ram-lhe que
nào se podia enterrar sem pagar ao parocho ; mas, como elle devia
muito, havia 2 &lt;lias que alli estava e ninguem lhe dava esmola.
0 principe disse : « Este homem nào tem mulher nem caza?
- Tem rnulher e um filho . - Levem-no li para caza da rnu]her,
que eu pago o enten-o. »
Levaram-no para caza da mulher. Ella, coitadinha, desfechou a
chorar muito. 0 principe entrou; perguntou quem era a viuva.
Depois disse-lhe que fizesse o enterra ao seu homem, que elle
pagava a despeza.
Depois do enterro sabir, olhou para a viLJva e disse-lhe que

mandasse chamar todos os seus credores. Depois de estarem junctos, disse-lhe o principe como elles tinham a sua devida perdida, se quizessem estar pela sua proposta, que nao perdiam
tudo, se queriam elles metade da divida que aquelle homern 1he
devia, perdoando a outra metade? Todos disseram que sim . Pagou
a todos por metade da divida e depois que elles sahiram, deu
mna somma a viuva e disse-lhe que rogasse a Deus que elle
fosse feliz na sua jornada; que tambem ella havia de ser. Montau
a cavallo e seguiu o seu caminho_
Chegando a estalajem, viu os irmâos. Muito satisfeitos assim
que o encontraram ; mas elle nào estava contente de os ver alli.
Elle nào se queria apear. Que nâo seguisse a jomada sem 1antar, que estava a mesa posta.
A~sim que se sentaram â meza, veiu outra madama ainda mais
boni ta e sentou-se-lhe ao lado. Elle levantou-se, &lt;leu um pulo no
cavallo e seguiu seu caminho . Os irmios pediram-lhe que viesse

234

a

por alli de torna-volta.
.
.
Chegando ao palacio do gigante, puchou a campamha e vem
elle. Perguntou-lhe o que queria. Disse que vinha alli buscar
umagarrafad'agua dasua fonte, quetinha seu pae cego. 0 gigante
disse que sim, mas numa condiçâo. Levou-o a uma janella :
cc Vês aquelle palacio ? Se me fores la buscar uma espada que eu
la tenho, logo te dou a agua. &gt;&gt;
Elle, satisfeito com,a proposta, abalou. Subindo um outeiro,
viu um rio d'agua. Poz-se de roda d'elle sem saber como havi.a
de passar. Pareceu-lhe uma rapoza; fallou-lhe : c&lt; Tu tens medo
da agua ? fecha os olhos e passa, que nâo te has de molhar.
Em la chegando has de ver 2 exercitos num grande combate,
muitos monos, muitos eridos ; nâo tenhas susto. Passa pelo
meio d'elles. A porta de palacio esta aberra ; no primeiro
quarto estâ uma meza e a espada em cima. Pega na bainha
e vem-te embora. »
Elle fechou os olhos e chegou
porta· do palacio sem ser
molhado. Assim que chegou ao pé do exercito, passou pôr elle,

a

�237

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

entrou, pegou na bainha e sahiu. Quando sahiu, :nao veiu nem
exercitos, nem feridos nem mortos, nem coisa nenhuma, nem resto
de nada. Sentiu um estalo no braço; olha, vê a espada dentro da
bainha. Nào viu o rio. Chegou a palacio, entregou a espada.
Ficou muito satisfeito. « Assim como foste capaz de me ir
buscar a espada, has de ir buscar um cavallo que eu la tenho. »
Elle ja ia mais triste, mas foi.
Encontrou o rio e a rapoza la. « Ainda ci te mandou ? 0
que elle quer . é matar-te, mas nào has de ter perigo. Fecha os
olhos, e passa, que has de ver, â primeira caza, uma grande
cavalhariça corn mangedouras d'um e d' outro lado. Os ca vallos estào aos coices que encalham as pernas umas nas outraz;
mas nào te assustes, passa pelo meio d'elles. 0 ultimo
cavallo, que esta a tua direita, tem um freio de prata. Tira-o
da argola da estaca e vem-te embora. » Elle assim fez.
Chegando la, eram os cavallos aos coices que nào o deixaram
passar; mas mesmo assim rompeu. Tirou-o da prisào; veiu-se
embora. Ao sahir da porta, o cavallo ao pé d'elle.
Veiu, entregou-o ao gigante: « Inda tomas la, outra vez
a buscar uma filha que eu lâ tenho. &gt;&gt; Elle foi. Outra vez o
rio. A rapoza disse-lhe : cc Ja te ca nào manda senào esta vez.
Entra, que â tua direita esta uma porta. Levanta a aldraba e
entra. Has de vel-a sentada corn 12 serpentes, que é a sua
guarda, mas nào tenhas medo; que ellas hào de levantar a
gala direito a ti. Nào faças caso. La esta uma commoda, abre
a primeira gaveta, vês uma saia encarnada. Tira-a, eguala o
c6s corn a contrapiza e deita-lha ao pescoço. E vem-te embora
e vas para caza de teus irmàos. »
Elle entrou; as serpentes levantaram gala; mas elle foi a gaveta, tirou a saia, deitou-lh'a ao pescoço. Veiu-se embora, mas
ja nào viu as serpentes. Quando sahiu da porta do palacio, ja
ella estava ao pé d'elle, dando-lhe o braço.
Era muito linda. Veiu e entregou-a ao pae. Ja tinha a garrafa cheia d'agua; agradeceu-lhe muito o favor e disse-lhe que

pedisse o que quizesse. Elle pediu a espada; deu-lha de muito
boa mente. Despediu-se d'elle e sahiu.
Depois ouviu um trope! muito grande atraz de si; era ella
montada num cavallo, corn uma espada para o matar. Que assim
pagava a quem a tinha desencantado. Responde~-lhe que quando
seu pae disse que pedisse, porque nào a pedm a ella ? « Mas
como nào pediste senào a espada, aqui me tens a mim e ao
cavallo. »
Seouiu
a sua jornada; como o cavallo nâo sabia
senào aquelle
0
•
•
caminho, veiu dar a estalajem. Os irmàos, asstm que o v1ram,
com uma orande inveja. Com a agua, corn a espada, corn o
o
,
d
cavallo e corn uma madama melhor que ad elles ! mas mostran ose muito satisfeitos corn elle.
Tencionaram fazer todos junctos a jornada para palacio; seguiram a sua jornada todos 3 corn as suas madamas. 0 calor era
muito levavam todos muita sede, sem veram nem fonte, nem
'
- .
poço, nem monte ( casai). A final acharam um poço, mas nao unham corn que tirar agua.
Os 2 mais velhos disseram : cc Ora isto faz-se bem, atando
as nossas bandas todas 3 e vae um de nos la abaixo corn um chapeu, enche-o d'agua e traz para cima. Pois va o mano que é
mais leve. &gt;&gt;
Ataram as bandas a cintura do irmâo; levou o chapeu e encheu0 d'aoua. Beberam; ainda tinham mais sede tornou a ir p'ra
baixo0 : trouxe mais agua e depois foi outra vez. Fingiram que
lhe tin ha escapada a banda da mâo, fi cou enterrado na agua até a cintura. Muitos gritos, muitas finezas, mas nào podiam tiral-o de
maneira nenhuma. Assim, que iam p' ra &lt;liante ver se encontravam alguem para os ajudar a tirar. A mulher, quando o viu cahir,
deu um grito e ficou muda, e o cavallo deitou a correr, que
nunca mais lhe puzeram a vista em cima.
Seguiram a sua jornada, e chegando ao seu palacio, pegaram
logo na garrafa e foram direitos ao quarto do pae ; mas nâo puderam destapar a garrafa, de maneira nenhuma. Nâo podendo,

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

foram buscar uma bacia e um martello, mas niio se partiu. Puzeram-na p' ra o lado, a ver se alguem a ia abrir; todo o trabalho
foi baldado. A espada nuoca a puderam tirar da bainha e o
cavallo pareceu La num outeiro muito longe. Disseram aos picadeiros que, picando os cavallos, podia ser que apaohassem
aquelle.
0 principe, que esta va no poço, lem brou-se da rapoza : cc Ai,
que tantas vezes me livraste da morte ! hem me dizias tu que
niio viesse por casa de meus irmiios ! » Neste tempo pareceu
ella ao boca! do poço : « Agora nào sei ; nâo te posso
tirar d'ahi. - Anda la, rapozinha, tira-me d'aqui, desta desgraça, seniio eu morro aqui. - Eu niio; s6 se me deres meitade do que for teu, dentro de um anno. - Nâo te dou meitade, dou-te tudo quanta me pedires. »
Tirou-o do poço. Estava elle ja com o fato roto, com uma
parba muito grande : &lt;&lt; Vac a palacio, que teu pae' ioda esta
cego. A garrafa ainda nào se desrolhou, nem se partiu a martello. 0 cavallo, nunca mais lhe puzeram a mâo em cima; e
tua mulher esta muda, nunca mais fallou. Vae, bas de gastar
muito tempo; mas nâo te esqueças do que me promettestes. »
Desappareceu a rapozinba e elle pegou a seguir o seu caminho
muito de,·agarinho, estava muito debilitado. Chegou a algum
monte, pediu alguma esmolinba para corner. A poder &lt;le dias
chegou a cône, sentou-se numa pedra, perto dos picadeiros que
andavam picando os cavallos; e olhou, viu o cavallo.
Disse : « Oh ! que cavallo t:âo bonito ! - Par amor d'elle
é que n6s andamos aqui picando neste, para ver se o podemos
apanhar; mas elle nâo da mào a ninguem. - Ora eu sou capaz
de o ir buscar. - Ora ! outras com mais pana no colarinho nào
podem quanta mais vce. - Pois vamos ver. »
Levantou-se, e assim que foi direito ao cavallo, veiu elle
direito ao dono. Pegou-lhe na redea e trouxe-o.
Levou-o a palacio, dizendo que elle nâo o tinha apanhado ;
que um homem, que alli estava, é que o trouxera.

CONTOS POPULARE

PORTUGUEZES

239

cc Talvez elle tambem seja capaz de tirar a espada da
bainha. Va la chamal-o. » Elle foi.
Disseram-lhe se elle era capaz de tirar aquella espada da
bain ha. Deram-lh'a; mas elle nâo quiz : « ào precisa isso. »
Pegou na espada rnesmo na mâo do irmâo e puchou por ella,
mesmo sem força nenhuma.
Foram buscar a garrafa. Que talvet. fosse capaz de tirar a
rolha. « Mas para que, senhor? Porque é um remedio
que temos aqui p' ra meu pae . - Entào, aqui nào ; é preciso
tirar-se mesmo ao pé da cama d'elle. »
Levaram-110 ao quarto, pediu uma bacia, tirou a rolba, deitou agua nas màos, lavou os olhos do pae. Logo fi.cou com
a sua vista clara coma d'antes. Como houve algmn barulho
no quarto, acudiram; onde veiu a rainha e a rapariga. E ella,
assim que o viu, deitou-lhe os braços ao pescoço : « Eu ja te
fazia morto; graças ao Altissimo, que ainda te vejo. &gt;&gt;
A estas palavras os infantes olharam com mais attençâo para
elle. Pediu a bençoa ao pae, fallou a todos. 0 pae, vendo isto,
perguntou-lhe o que aquillo era, porque lhe tinham dicto que
elle tinha morrido. Elle cootou tudo. 0 pae mandou Logo matar
os filhos ; as madamas ficaram creadas da outra.
Depois tractou-se o casamento, cazou com ella. Ao cabo de r I
mezc':s, üveram uro menino. No dia do baptizo, estando â noite, ·
ao cha, de repente apagaram-se as luzes das salas. Pareceu urna
phaotasma ao pé do principe ; todos se assustaram muito.
Fallou o phaotasma.
Que nâo tivessem medo, que elle que vinha alli buscar o que
o principe lhe tinha promettido ; m.etade d'aquillo, que era seu.
Elle levantou- e, foi buscar um alfange e chegou-se ao berça
do men.ino e levantou o braço. Mas a phantasma segurou-lhe
nelle e disse-Lhe que nào matasse o seu filho, porque elle era a
alma d'aquelle homem aquem elle mandou euterrar e pagar-Lhe as
dividas, que tinha vindo por Deus, livradodetantos perigos. Assim,
que fizesse o que tinba promettido a sua mulher de a fazer feliz.

�CONTOS POPULARES PORTUGUEZES

Desappareceu ; ficaram todos muito satisfeitos e elle no outra
dia mandou 2 aias e uma escolta buscar a mulher. 0 fil ho ja
tinha morrido.
Metteu-a no convento corn grande tença. Acabou-se.
Recolhidos por

Z.

CoNSIGLIERI PEoRoso.

Le Gérant: M.-A.

IUCON, PR.OTAT PRÈ'I.ES, IMPRJXEURS .

DESBOJS.

�iBibliotheca hist,anica
I. - Comedia de Calisto t Melibea (Cnico texto auténtico de la Celestina).
Reimpresion publicaJa por R. Foulché-Delbosc................. 8 pesetas.
Il. - Vida del soldado espai'iol Miguel de Castro (1593-1611), escrita por
él mismo y publicada por A. Paz y Mélia.................... 12 pesetas.

III. - La vida de Lazarillo de Tormes, y de sus fortunas y aduersidades.
Restitucion de la edidon principe por R. Foulché-Delbosc. . . . . . . 4 pcs.:tas.
Tirage sur gronJ papier du Japon (n°•

1

à 25) .•.•... , .. , . •. • . . . . •. • . . • . . •. .•. •

,, pesetas.

IV. - Diego de Negueruela. Farsa llamada Ardamisa. Réimpression publiée
par Léo Rouanet. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 pesetas.
V, VI, VII, VIII. - Col.:ccion de Autos, Farsas, y Coloquios del siglo XVI,
publiée par Léo Rouanct. Les quatre ,·olumcs. . . . . . . . . . . . . . . . 60 pesetas.

IX. - Obres poetiques de Jordi de Sant Jordi (segles xrv•-xv•), recullides i
publicades per J. M&lt;1sso Torrents............................ 4 pesetas.
Tirage sur grand papier du Japon (11"", à rz)........... •. . . . •. • . . . . . . .• . . . . . • . . .

épuisé

X. - Pedro Manuel de Urrea. Penitcncia de amor (Burgos, 1514). Reimpresion publicada por R. Foulché-Delbosc. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

4 pesetas.

XI. - Jorge Manrrique. Copias por ia mucrte de su padre. Primera edicion
crltica. Publ!cala R. Foulché-Delbosc........................ .i pesetas.
T,rage sur grani p•picr Ju J•pou (n .. , à 2;)................ , . . . . . . . . . . . ..• . .

20

pesetas.

XII. - Comedia de Calisto t Melibea (Burgos, 1499). Reimpresion publicada
por R. Foukbé-Delbosc.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Tirage sur gnnd p,pier du J•pon (11•• 1 à &gt;,) ........................ , . . . . ..

10

pesetas.

so

pesetas.

XIII. - Peralvarez de Ayllon y Luis Hurtado de Toledo. Comedia Tibalda,
ahora por primer.1 vez publicaJa segun la forma original por Adolfo Bon.illa y
San Martin. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 pesetas.

XIV. - Libro de los engar'ios c: los asayamientos de las mugeres. Pnblicalo
Adolfo Bonilla y San Martin. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 pesetas.
XV. - Diego de S.in P..::dro. Carcd de amor (Sevilla, 1492)...
Tirage $Ur gran.i p&gt;?i&lt;r d·.1 J.,poJ (n"

J

â

4 pesetas.

12) .••.••.•..•••.•.••••••••• , • • • • • • • lS peseta,,

XVI, XVII. - Obr,1s poéticas de D. Luis de Gongora, publicadas por
R. Foulcbé-Delbosc. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Sous presse.

xvm. - Spill O Libre dc les DJllCS per Mestre Jacme Roig. Edicion critica
con las variJntei de toJas las publicadas y las del Ms. de la Vaticana, prologo,
estudios y comentarios por Roque Chabas........... . . . . . . . . 20 pesetas.
Les volumes de la Bi[,/iotheca bispanica sont en vente à BARCELONE (Libraiti~
de oc L'Avenç », Ronda de l'Universitat, 20), ..::t à MADRID (Librairie de
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La Revu.f Hispanique annonce ou analyse les livres, brochures
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Hispanique doit être adressé à M. R. Fookhé-Delbosc, boulevard
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ùf America, Audubon Park, West r 56 th Street, New York City;
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JBibliotheca his1&gt;anica
Voir à la page 3 de la couverture

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